{"id":3246,"date":"2010-08-11T01:32:53","date_gmt":"2010-08-11T04:32:53","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2010\/08\/11\/comprando-vinis-com-robert-crumb\/"},"modified":"2016-03-12T00:30:06","modified_gmt":"2016-03-12T03:30:06","slug":"comprando-vinis-com-robert-crumb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2010\/08\/11\/comprando-vinis-com-robert-crumb\/","title":{"rendered":"Comprando vinis com Robert Crumb"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4880922185\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/crumb1.jpg\" alt=\"crumb1.jpg\" \/><\/a><br \/>\n<em>Fotos: Marcelo Costa<\/em><\/p>\n<p>O celular avisa que chegou uma mensagem: \u201cDeixa falar. O Crumb odeia tirar foto e jornalistas. Ent\u00e3o aja que nem gente normal que gosta de m\u00fasica e s\u00f3. risos\u201d. Passam de 9h30 da manh\u00e3 de uma ter\u00e7a-feira de sol e vento frio em S\u00e3o Paulo. Minha m\u00e1quina digital est\u00e1 na mochila junto com meu exemplar de \u201cBlues\u201d (o qual escrevi sobre no Scream &amp; Yell em 2005 \u2013 leia <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/08\/11\/blues-robert-crumb\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>), mas tietagem \u00e9 a \u00faltima coisa que me vem \u00e0 cabe\u00e7a quando penso em Robert Crumb. Em qualquer pessoa.<\/p>\n<p>Seu amigo e tamb\u00e9m quadrinhista Gilbert Shelton \u00e9 o primeiro a descer para o sagu\u00e3o do hotel. Folheia um exemplar da Folha de S\u00e3o Paulo enquanto conversa com um pessoal da HQ Mix que veio entregar um pr\u00eamio para Crumb, por \u201cG\u00eanesis\u201d. Depois nos diz que o que ele gosta mesmo \u00e9 de jazz (\u201cO Crumb odeia\u201d), cita Gilberto Gil quando perguntado sobre m\u00fasica brasileira e lembra que seu amigo, certa vez, ficou 11 horas em uma loja olhando vinis calmamente. O dia prometia.<\/p>\n<p>Crumb desce logo depois acompanhado de Aline, sua esposa, de cabelos e meia arrast\u00e3o vermelhos e muita, mas muita simpatia. Eu e um amigo (Guss, que conhece mais de Crumb que eu, e por isso foi escalado para essa miss\u00e3o) somos apresentados como \u201cos caras que v\u00e3o te levar para olhar as lojas de vinis de 78 rota\u00e7\u00f5es\u201d. Crumb sorri para n\u00f3s, mas logo \u00e9 fisgado pelo pessoal da HQ Mix, que quer entregar-lhe o pr\u00eamio e conversar um pouco. \u201cVou guardar este trof\u00e9u junto com os outros\u201d, comenta o cartunista. Aline n\u00e3o se cont\u00e9m: \u201cVoc\u00ea jogou todos os outros fora!\u201d. Crumb olha de lado: \u201cSh-sh-sh-s-s-s\u201d.<\/p>\n<p>Num canto da sala, Aline conta que o marido\u00a0ralou muito em \u201cG\u00eanesis\u201d, adapta\u00e7\u00e3o para os quadrinhos do primeiro livro da B\u00edblia. Consta que foram quatro anos de trabalho. \u201cFoi muito cansativo. Ele ficava dias e dias desenhando. Alugamos um chal\u00e9 no alto de uma montanha, ele trabalhando como um condenado, e a coisa n\u00e3o terminava\u201d. Em seguida, fotos com o trof\u00e9u. Mesmo n\u00e3o curtindo o momento, Crumb trata a todos da melhor maneira poss\u00edvel, sem demonstrar impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00f4nia, que traduziu diversos textos do autor para o portugu\u00eas, conta que o Pr\u00eamio Astronauta \u00e9 como se fosse o Oscar dos Quadrinhos no Brasil. Trof\u00e9u em punho, Crumb sarreia: \u201cEu quero dedicar esse pr\u00eamio para a minha m\u00e3e, para a minha mulher, para o meu editor, para os rapazes que v\u00e3o me levar para comprar discos de 78 rota\u00e7\u00f5es\u201d. A conversa se estica. S\u00f4nia ganha um aut\u00f3grafo desenho (veja <a href=\"http:\/\/universohq.com\/quadrinhos\/2010\/n11082010_10.cfm\">aqui<\/a>) e quase chora de emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o quase 10h40 e ainda estamos todos no sagu\u00e3o, por\u00e9m a \u00faltima foto se aproxima. Na porta do hotel, Aline nos olha e gesticula com a m\u00e3o: \u201cTirem ele daqui, tirem ele daqui\u201d. Assim come\u00e7a o nosso dia Crumb: eu, Guss e Robert atravessando a Rua Pedroso de Morais em dire\u00e7\u00e3o a loja Eric Discos. Andamos duas quadras e ele explica o que quer: \u201cM\u00fasica brasileira dos anos 20 e 30\u201d. O m\u00fasico e dono do selo YB Mauricio Tagliari fez uma lista para ele, que destaca Pixinguinha como o tesouro maior.<\/p>\n<p>A Eric Discos \u00e9 um para\u00edso para quem gosta de vinis. Perto do caixa, no alto, um exemplar do \u00e1lbum \u201cSecos e Molhados Ao Vivo\u201d custa apenas R$ 240. Por\u00e9m, os vinis de 78 rota\u00e7\u00f5es est\u00e3o nos caixotes mais pr\u00f3ximos ao ch\u00e3o, todos sem capa. Os 78 rota\u00e7\u00f5es (que Crumb coleciona) surgiram em 1915 e foram retirados de circula\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 60, substitu\u00eddos pelo vinil de 33 rota\u00e7\u00f5es, que reinou at\u00e9 o aparecimento dos CDs e do MP3 (mas que ensaia um retorno saudosista).<\/p>\n<p>Ou seja, estamos falando de discos de, no m\u00ednimo, 50 anos, mas Robert quer coisas ainda mais antigas, ou em suas palavras, m\u00fasica brasileira tradicional. As pilhas de 78 rota\u00e7\u00f5es s\u00e3o enormes, os discos est\u00e3o velhos e sujos, mas Crumb parece se divertir. Ele pega um vinil, l\u00ea o selo e explica para n\u00f3s que pela borda do disco ele consegue identificar a \u00e9poca em que foi feito. \u201cEsse \u00e9 dos anos 20, italiano\u201d, diz em certo momento. \u201cMuito raro\u201d, completa depois de jogar a bolacha preta de selo azul na pilha dos dispensados.<\/p>\n<p>Cada Carlos Gardel que aparece (e s\u00e3o muitos) \u00e9 saudado com um \u201cbleargh\u201d, e a maioria da pilha n\u00e3o interessa. A palavra mais usada \u00e9 \u201cTry\u201d, que ele usa para explicar que n\u00e3o tem a m\u00ednima id\u00e9ia do que seja aquele disco que ele acabou de separar para levar, mas vai tentar ouvir. Na pilha de discos que v\u00e3o para a Fran\u00e7a com ele est\u00e3o t\u00edtulos de Heleninha Costa, Garoto, Quinteto Todamerica e Trio de Ouro com Dalva de Oliveira, al\u00e9m de alguns discos de samba com o selo em japon\u00eas.\n<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4881518378\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/crumb_guss.jpg\" alt=\"crumb_guss.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>Uma parte de mim (o jornalista) pede para que eu encoste-se em algum canto da loja e fa\u00e7a uma foto de Crumb olhando atentamente os discos. A imagem \u00e9 po\u00e9tica, bonita, mas a outra parte reluta, menos por medo de ser descoberta na hora do clic, mais por respeito de um momento t\u00e3o particular de uma pessoa comum. Tento apenas uma vez, e desisto. Me sinto culpado, como se estivesse roubando a alma do fotografado (meu deus, como paparazzis conseguem dormir?).<\/p>\n<p>Penso em mim (a pessoa normal), rato de lojas de CDs, que passa boa parte do tempo das viagens enfurnado em lojinhas\u00a0 (em Berlim, Roma, Atenas, Londres, Barcelona, Bruxelas ou Glasgow). J\u00e1 tenho uma lista mental de CDs que gostaria de encontrar, e na maioria das vezes n\u00e3o os encontro, mas saio sempre de uma dessas lojas com algo bacana que eu n\u00e3o sabia que existia. E fico feliz. Assim como Crumb, eu n\u00e3o ia querer gente me fotografando e\/ou querendo conversar sobre a minha profiss\u00e3o na hora em que eu estivesse procurando por um disco. Entendo perfeitamente esse lado dele, e respeito.<\/p>\n<p>Na Eric Discos ele n\u00e3o encontra nada entusiasmante, mesmo assim compra 17 discos que v\u00e3o custar a fortuna de&#8230; R$ 7 (\u201cTwo euros\u201d, explicamos pra ele, que sorri feliz, embora j\u00e1 deva estar acostumado com a pechincha). Da Eric Discos partimos em dire\u00e7\u00e3o a lojas no centro de S\u00e3o Paulo acompanhados de Rog\u00e9rio de Campos, manda chuva da Conrad Editora. N\u00e3o fui a Flip, mas pelos coment\u00e1rios de amigos posso garantir que os 40 minutos de conversa no taxi foram muito melhores que a palestra de Paraty. F\u00e1cil.<\/p>\n<p>Crumb relembrou momentos da inf\u00e2ncia, detonou Frank Miller, Neil Gaiman e Alan Moore (\u201cEles j\u00e1 disseram que gostam de mim, mas n\u00e3o gosto do trabalho que eles fazem. N\u00e3o s\u00e3o interessantes para mim\u201d), explicou porque n\u00e3o vai a Comic-Con (\u201cN\u00e3o h\u00e1 nada l\u00e1 que me interessa\u201d), falou de \u201cG\u00eanesis\u201d, comparou S\u00e3o Paulo com Nova York v\u00e1rias vezes e ficou completamente apaixonado pelas picha\u00e7\u00f5es que viu pelo caminho: \u201cIsso \u00e9 \u00fanico no mundo\u201d, comentou. No papo muita coisa sobre m\u00fasica, drogas e quadrinhos.<\/p>\n<p>Na segunda loja, menos farta que a primeira, ele pegou mais dois discos. Ainda passamos em uma terceira, fraca, e partimos para o almo\u00e7o em um restaurante da Vila Madalena. Na mesa, enquanto esper\u00e1vamos o restante da comitiva, Guss pediu indica\u00e7\u00f5es de bluesmens pr\u00e9-guerra para ir atr\u00e1s. Famoso conhecedor do tema, Crumb foi did\u00e1tico. Listou uns dez nomes destacando Charlie Patton.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o almo\u00e7o, uma esticada at\u00e9 o Beco do Batman, na Vila Madalena, que deixou o casal impressionado (Aline de c\u00e2mera em punho). Foi l\u00e1 que consegui essa \u00faltima foto que ilustra o post, ele olhando atentamente um grafite enquanto outro parece devor\u00e1-lo. Crumb parecia estar curtindo tanto o passeio, que n\u00e3o tive coragem de tirar meu \u201cBlues\u201d da mochila e pedir um aut\u00f3grafo.<\/p>\n<p>E aut\u00f3grafo pra que? Para exibir aos amigos como se fosse um trof\u00e9u? Grande bobagem. Nessas quase seis horas que sa\u00edmos juntos ca\u00e7ando velhos vinis por S\u00e3o Paulo ele n\u00e3o foi Crumb, uma lenda dos quadrinhos, mas Robert, um apaixonado por m\u00fasica antiga. Alguns minutos ap\u00f3s deix\u00e1-los em um taxi, felizes, meu celular mostrava uma nova mensagem recebida: \u201cEles adoraram voc\u00eas\u201d. Para mim, basta.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/4879627943\/\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/08\/crumb2.jpg\" alt=\"crumb2.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<br \/>\n&#8211; G\u00eanesis, de Crumb, vence HQ Mix de Edi\u00e7\u00e3o especial estrangeira (<a href=\"http:\/\/universohq.com\/quadrinhos\/2010\/n11082010_10.cfm\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fotos: Marcelo Costa O celular avisa que chegou uma mensagem: \u201cDeixa falar. O Crumb odeia tirar foto e jornalistas. Ent\u00e3o aja que nem gente normal que gosta de m\u00fasica e s\u00f3. risos\u201d. Passam de 9h30 da manh\u00e3 de uma ter\u00e7a-feira de sol e vento frio em S\u00e3o Paulo. Minha m\u00e1quina digital est\u00e1 na mochila junto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[27],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3246"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3246"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3246\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}