{"id":18049,"date":"2018-10-02T11:13:35","date_gmt":"2018-10-02T14:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/?p=18049"},"modified":"2018-10-02T11:13:35","modified_gmt":"2018-10-02T14:13:35","slug":"fique-ao-lado-dos-oprimidos-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2018\/10\/02\/fique-ao-lado-dos-oprimidos-sempre\/","title":{"rendered":"Fique ao lado dos oprimidos, sempre!"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>\u201cLavar as m\u00e3os no conflito entre poderosos e despossu\u00eddos n\u00e3o significa ser neutro, mas colocar-se ao lado dos poderosos.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Essas palavras de Paulo Freire ficavam penduradas atr\u00e1s da porta de entrada da Positive Force House. Durante mais de uma d\u00e9cada, cada visitante da nossa \u201ccomuna punk\u201d era confrontado por esse p\u00f4ster ao entrar \u2013 e aqueles que moravam na casa viram essa frase tantas vezes que o seu significado deve ter sido absorvido por nossa corrente sangu\u00ednea. Na minha opini\u00e3o, ela \u00e9 talvez a melhor express\u00e3o daquilo que a \u201cpol\u00edtica punk\u201d deveria ser: ficar ao lado dos oprimidos, para que juntos possamos encontrar o poder. Afinal, a palavra \u201cpunk\u201d sempre referiu-se ao oprimido, ao exclu\u00eddo, \u00e0s pessoas descart\u00e1veis, \u00e0queles que foram esquecidos. Aqueles que assumem esse r\u00f3tulo devem definitivamente tomar partido dessas pessoas, na sua pr\u00f3pria comunidade, em qualquer lugar do mundo. Isso tamb\u00e9m demonstra que ideias como o punk s\u00e3o globais em sua relev\u00e2ncia. Assim, estou muito feliz de saber que a hist\u00f3ria da cena punk de DC significa bastante para tantas pessoas n\u00e3o apenas no Brasil, mas na Am\u00e9rica Latina como um todo. Claro, eu sei que o Brasil tem a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria no punk, iniciada nos anos 1970, e que diversas vezes incluiu as ideias do straight edge, do riot grrrl, do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que tamb\u00e9m foram absolutamente centrais na comunidade de DC. Ao descrever as palavras de Paulo Freire como palavras \u201cpunk\u201d, estou fazendo uma dupla reivindica\u00e7\u00e3o. Primeiro, que o punk aprende com todas as outras formas de resist\u00eancia, absorvendo essas ideias e criando as suas pr\u00f3prias, expressando-as de modo \u00fanico\u2026 e devemos muito a esses precursores. Em segundo lugar, que o esp\u00edrito e a atitude que poder\u00edamos chamar de \u201cpunk\u201d n\u00e3o \u00e9 uma propriedade exclusiva dos amantes do rock, com piercings, tatuagens ou quaisquer outras caracter\u00edsticas estereotipadas do movimento. N\u00e3o, \u201cpunk\u201d \u00e9 apenas mais um r\u00f3tulo para a criatividade, a indigna\u00e7\u00e3o e a compaix\u00e3o que t\u00eam alimentado cada componente do progresso humano desde tempos imemoriais. Dessa forma, temos que buscar aliados em lugares inesperados, estabelecendo conex\u00f5es com comunidades diferentes para construirmos um movimento que tenha a for\u00e7a para mudar de fato o nosso mundo, ou seja, para fazer a revolu\u00e7\u00e3o. Isso significa que, ao mesmo tempo em que pago tributo para tudo aquilo que as bandas brasileiras e a comunidade punk latino-americana j\u00e1 conquistaram (e conquistaram muito), outras vozes punks tamb\u00e9m me inspiraram \u2013 e continuam me inspirando. \u201cQuando dou comida aos pobres, chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles s\u00e3o pobres, chamam-me de comunista.\u201d Essas palavras sa\u00edram da boca de um bispo brasileiro \u2013 Dom H\u00e9lder C\u00e2mara \u2013, mas como elas poderiam ser mais punk? Ou ent\u00e3o a a\u00e7\u00e3o direta de movimentos como o MST, lutando no mais puro esquema \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d por necessidades vitais, por direitos humanos? Ou mesmo Leonardo Boff, desafiando toda a estrutura da hierarquia cat\u00f3lica para viver de acordo com a sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria encontrada no livro Igreja: carisma e poder? Aqueles que est\u00e3o protestando contra a corrup\u00e7\u00e3o ou contra a brutalidade policial n\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m \u201cpunks\u201d no melhor sentido da palavra? N\u00e3o dever\u00edamos desafiar um \u201cpartido dos trabalhadores\u201d a ficar do lado dos trabalhadores, e n\u00e3o ser governado pelo deus-dinheiro? Ou lutar para ver os assassinos uniformizados de Eduardo de Jesus (e tantos outros como ele) enfrentarem a justi\u00e7a? Se pararmos para analisar, vamos descobrir que o punk est\u00e1 em todos os lugares, muitas vezes nos mais inesperados, fazendo aliados incomuns \u2013 mas essenciais. Isso ainda sugere que a energia e o idealismo que alimentam nossos movimentos do underground tamb\u00e9m precisam ser deslocados das margens para o centro, para construir um mundo que tenha lugar para todos, no qual todas as pessoas sejam importantes e ningu\u00e9m seja esquecido. N\u00f3s come\u00e7amos no underground, fazendo tudo o que podemos com aquilo que temos, onde quer que estejamos\u2026 mas n\u00e3o paramos por aqui. Esta \u00e9 uma miss\u00e3o de vida, e o poder do punk \u00e9 eternamente relevante em todos os momentos, em todos os lugares. Eu j\u00e1 disse antes que o \u201cagora\u201d \u00e9 sempre mais importante do que o \u201cpassado\u201d. Se for assim, eu espero que essa hist\u00f3ria de garotos-tornando-se-adultos enquanto tentam se manter fi\u00e9is aos seus princ\u00edpios seja o combust\u00edvel para todos voc\u00eas em suas pr\u00f3prias jornadas, em suas pr\u00f3prias aventuras. Que este livro (e todas as diversas esperan\u00e7as e sonhos que ele cont\u00e9m) seja uma inspira\u00e7\u00e3o para voc\u00ea ir al\u00e9m, da sua pr\u00f3pria maneira, para fazer aquilo que ainda n\u00e3o foi feito, transformando \u201co que \u00e9\u201d em \u201co que pode ser\u201d. De todo modo, obrigado por reservar um tempo para ler essas palavras sobre a saga punk de DC \u2013 n\u00e3o existem palavras mais importantes nesse mundo para mim. Essa hist\u00f3ria cont\u00e9m o melhor de muitas vidas, e agora \u00e9 parte da sua tamb\u00e9m, se voc\u00ea quiser.<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cSo I say to the youth right now\/don\u2019t sway to the unjust\/no matter what they say\/ never give in\/never give in!\u201d (\u201cEnt\u00e3o eu digo para os jovens agora\/N\u00e3o vacile perante os injustos\/N\u00e3o importa o que eles dizem\/Nunca desista\/Nunca desista!\u201d) &#8211; Bad Brains, 1980<\/em><\/p>\n<p><em>Com amor, Mark Andersen. 23 de maio de 2015.<\/em><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira de &#8220;Dance of Days: duas d\u00e9cadas de punk na capital dos EUA&#8221;, de Mark Andersen e Mark Jennis. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/03\/14\/tres-livros-imperdiveis-para-agora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia resenha aqui<\/a>.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/danceofdays.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"645\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLavar as m\u00e3os no conflito entre poderosos e despossu\u00eddos n\u00e3o significa ser neutro, mas colocar-se ao lado dos poderosos.\u201d Essas palavras de Paulo Freire ficavam penduradas atr\u00e1s da porta de entrada da Positive Force House. 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