{"id":17804,"date":"2018-07-21T19:41:59","date_gmt":"2018-07-21T22:41:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/?p=17804"},"modified":"2018-07-21T19:41:59","modified_gmt":"2018-07-21T22:41:59","slug":"entrevista-musica-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2018\/07\/21\/entrevista-musica-e-politica\/","title":{"rendered":"Entrevista: M\u00fasica e Pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Respostas para Igor Cruz (setembro de 2015)<\/em><\/p>\n<p><strong>Em junho de 2013 tivemos as grandes manifesta\u00e7\u00f5es e muitos personagens da m\u00fasica se manifestaram de diversas formas. Alguns fizeram m\u00fasicas (Tom Z\u00e9, MV Bill, Latino, entre outros) outros subiram nos palanques e deram uma dire\u00e7\u00e3o em suas opini\u00f5es (Lob\u00e3o, Roger). Como voc\u00ea v\u00ea essa participa\u00e7\u00e3o dessas personalidades em um momento delicado politicamente falando, no Brasil?<\/strong><br \/>\nAcho extremamente importante que um artista se manifeste, mas \u00e9 preciso ter cuidado para n\u00e3o ser leviano com um tema t\u00e3o s\u00e9rio. Uma coisa \u00e9 ter uma opini\u00e3o sobre algo, outra \u00e9 defender de maneira argumentativa uma ideia. A grande m\u00eddia trabalha praticamente com manchetes (\u201cFulano disse isso\u201d, \u201cSicrano fez aquilo\u201d), e em tempos de redes sociais, com muita gente lendo apenas a manchete, o artista precisa ser o mais cuidadoso poss\u00edvel na hora de manifestar sua opini\u00e3o evitando correr o risco de induzir o p\u00fablico ao erro. Por isso acho complicado sair por ai como uma metralhadora verbal. O assunto \u00e9 s\u00e9rio e merece ser tratado com a m\u00e1xima seriedade poss\u00edvel, e artistas, na posi\u00e7\u00e3o privilegiada que t\u00eam, podem ser uma ponte interessante para a dissemina\u00e7\u00e3o do pensamento pol\u00edtico em uma pa\u00eds que hibernou durante d\u00e9cadas devido a ditadura. Antes de 1964 t\u00ednhamos grandes manifesta\u00e7\u00f5es, e fico feliz que as pessoas estejam voltando a se manifestar depois de tanto tempo. S\u00f3 \u00e9 preciso saber contra o que e quem est\u00e1 se manifestando, e, neste ponto, artistas podem tanto ajudar quanto confundir o p\u00fablico. \u00c9 preciso estar atento (e forte).<\/p>\n<p><strong>Em compara\u00e7\u00e3o com a \u00e9poca da ditadura militar, voc\u00ea acha que a m\u00fasica cumpriu um papel politizado nesta que \u00e9 a linguagem art\u00edstica de maior alcance?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Se atentarmos ao conte\u00fado das m\u00fasicas atuais, vivemos um imenso escapismo, que tamb\u00e9m acometeu a m\u00fasica brasileira ap\u00f3s os ex\u00edlios de Gil, Caetano e Chico. Quando os tr\u00eas voltam, sofridos com a experi\u00eancia, deixam de fazer o combate que faziam, e a m\u00fasica brasileira entra num marasmo do qual s\u00f3 vai sair quando o rock nacional surge nos anos 80 e \u00e9 tomado como v\u00e1lvula de escape para a abertura pol\u00edtica. Ent\u00e3o na segunda metade da d\u00e9cada de 80, a m\u00fasica brasileira (rock) falou tudo o que podia e o que n\u00e3o podia ap\u00f3s tantos anos calada, proibida de se manifestar. N\u00e3o sei, ap\u00f3s esse momento inicial de liberdade, houve uma super exposi\u00e7\u00e3o de temas pol\u00edticos, e o p\u00fablico se cansou, mas o fato \u00e9 que hoje a m\u00fasica brasileira vive em um pa\u00eds sem crises pol\u00edticas, sem diferen\u00e7as sociais e sem crimes, o que \u00e9 uma tremenda falta de contato com a realidade. Neste ponto, o rap continua sendo a principal v\u00e1lvula de escape para ideias politicas, e figuras como Emicida (atrav\u00e9s de disco e show) s\u00e3o extremamente importantes (ainda que a maior parte do p\u00fablico esteja cantando \u201cSapequinha\u201d).<\/p>\n<p><strong>Se sim, acertamos? Se n\u00e3o, porque erramos? Ou, o que faltou (ou ainda falta) na politiza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira atual?<\/strong><br \/>\nO que falta s\u00e3o pessoas conscientes e gente que participe dos sofrimentos do mundo. Renato Russo, quando escreveu \u201cQue Pa\u00eds \u00e9 Esse\u201d, estava sentindo na pele aqueles sentimentos, aquela cidade de Bras\u00edlia que ele vivia. \u201cTeatro dos Vampiros\u201d \u00e9 uma m\u00fasica extremamente pol\u00edtica (sem ser diretamente pol\u00edtica) em um momento de depress\u00e3o p\u00f3s-Collor. Olhando por esse vi\u00e9s \u00e9 natural que o texto pol\u00edtico hoje venha de gente como Criolo e Emicida, que sentem na pele a desigualdade do pa\u00eds. Como uma bandinha punk de playboy pode falar das mazelas da sociedade se n\u00e3o as sente? Dai melhor ser emo e falar das dores do cora\u00e7\u00e3o, porque se ele for tentar falar dos problemas do pa\u00eds vai acabar mostrando toda sua desconex\u00e3o com a realidade. Ent\u00e3o a m\u00fasica, como manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, \u00e9 completamente ref\u00e9m do ambiente em que ela \u00e9 criada. George Harrison vai escrever \u201cTaxman\u201d porque os Beatles estavam ganhando uma fortuna, e grande parte dela estava sendo \u201cdevorada\u201d pelas taxas do pa\u00eds. \u00c9 algo que ele nunca poderia ter escrito nos primeiros discos dos Beatles, porque n\u00e3o era uma realidade. Dai se temos agora um cen\u00e1rio pouco politizado na m\u00fasica brasileira podemos suscitar algumas discuss\u00f5es: por exemplo, aparentemente o pa\u00eds melhorou a ponto das pessoas n\u00e3o se sentirem oprimidas querendo se manifestar sobre isso, mas a opress\u00e3o persiste de diversos modos (capitalista, religiosa, racista, sexista e pol\u00edtica), e s\u00f3 que quem pode transformar isso em can\u00e7\u00f5es s\u00e3o artistas que conseguem perceber que esses fatores de opress\u00e3o existem, e os incomodam.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea v\u00ea (ouve) algum destaque na cena musical atual? Quem?<\/strong><br \/>\nEmicida, sem d\u00favida! No show de lan\u00e7amento do novo disco, no Sesc Pinheiros, ele falou no meio de uma m\u00fasica: \u201cQuando 18 pessoas morrem em uma cidade e ningu\u00e9m fala nada, essa cidade tamb\u00e9m est\u00e1 morta\u201d. Isso \u00e9 extremamente pol\u00edtico! \u00c9 voc\u00ea incitar o seu p\u00fablico a n\u00e3o ficar calado diante de uma barbaridade feita por uma institui\u00e7\u00e3o. Ele est\u00e1 agindo, est\u00e1 embotando a cabe\u00e7a da galera, e isso \u00e9 sensacional. Emicida \u00e9 o personagem mais contundente da m\u00fasica brasileira hoje.<\/p>\n<p><strong>M\u00fasica politizada, vende?<\/strong><br \/>\nTudo est\u00e1 \u00e0 venda. Como diz o Emicida, pegando o gancho, \u201ca sociedade vende Jesus, por que n\u00e3o ia vender rap\u201d. Se parte do jab\u00e1 gasto com sertanejo universit\u00e1rio fosse usado com m\u00fasica politizada, ela poderia vender tanto quanto. Claro, \u00e9 mais complicado fazer uma m\u00fasica politizada, porque o limite para se cair no populismo \u00e9 m\u00ednimo, ou seja, a chance de errar \u00e9 maior, mas ela pode sim vender muito. Depende do investimento.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea acha que a m\u00fasica tem esse &#8220;poder&#8221; de &#8220;politizar&#8221; (ou de esclarecer politicamente) as pessoas?<\/strong><br \/>\nTem um pequeno poder, mas \u00e9 preciso dizer que, via de regra, o p\u00fablico brasileiro canta m\u00fasicas sem saber o que elas significam. Vai mais pela sonoridade do que pela ideia. E n\u00e3o \u00e9 algo novo, de hoje, mas sempre. Por isso eu n\u00e3o diria politizar, mas ao menos colocar temas em debate. \u201cIn\u00fatil\u201d, \u201cQue Pa\u00eds \u00e9 Esse\u201d, \u201cDesordem\u201d, \u201cAluga-Se\u201d, \u201cLu\u00eds In\u00e1cio (300 picaretas)\u201d e muitas outras n\u00e3o devem ter politizado ningu\u00e9m, mas s\u00e3o pequenas reflex\u00f5es que podem ir bastante longe. Raul Seixas dizia que se numa plateia de 20 mil pessoas, 2 entendessem o que ele estava falando, j\u00e1 tinha valido a pena, e acho que \u00e9 por ai.<\/p>\n<div class=\"format_text\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/category\/entrevistas\/\">Veja outras entrevistas aqui<\/a><\/em><\/p>\n<div data-wpusb-component=\"buttons-section\">\n<div id=\"wpusb-container-default\" class=\"wpusb wpusb-default  \" data-element-url=\"http%3A%2F%2Fscreamyell.com.br%2Fblog%2F2018%2F05%2F04%2Fjornalismo-cultural%2F\" data-element-title=\"Jornalismo%20cultural%20e%20a%20contempla%C3%A7%C3%A3o%20da%20arte\" data-attr-reference=\"50\" data-attr-nonce=\"2f2f14895d\" data-is-term=\"1\" data-wpusb-component=\"counter-social-share\">\n<div class=\"wpusb-item wpusb-share \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Respostas para Igor Cruz (setembro de 2015) Em junho de 2013 tivemos as grandes manifesta\u00e7\u00f5es e muitos personagens da m\u00fasica se manifestaram de diversas formas. 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