{"id":17591,"date":"2018-05-04T14:13:49","date_gmt":"2018-05-04T17:13:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/?p=17591"},"modified":"2018-05-22T14:14:22","modified_gmt":"2018-05-22T17:14:22","slug":"jornalismo-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2018\/05\/04\/jornalismo-cultural\/","title":{"rendered":"Jornalismo cultural e a contempla\u00e7\u00e3o da arte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Respostas para Bruno Borges<\/em><\/p>\n<p><strong>&#8211; Conte um pouco da sua hist\u00f3ria com a m\u00fasica.<\/strong><br \/>\nA m\u00fasica entra na minha vida atrav\u00e9s da cole\u00e7\u00e3o de discos que meu pai tinha nos anos 70, muito da MPB combativa, Vinicius, Chico, Caetano, Gil, Gal, um pouco de Beatles, essas coisas. Com meu primeiro sal\u00e1rio, aos 14 anos, comprei seis vinis, coisas do rock nacional que estava nascendo na metade dos anos 80. Dai em diante encontrei na m\u00fasica n\u00e3o s\u00f3 uma v\u00e1lvula de escape e uma companheira, mas tamb\u00e9m uma maneira de me comunicar com o mundo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voc\u00ea acredita que o jornalismo cultural pode impulsionar novas carreiras na m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nAcho isso cada vez mais dif\u00edcil, mas ainda poss\u00edvel. Em outras \u00e1reas, como na culin\u00e1ria, um bom review, uma boa reportagem, ainda podem transformar a vida de uma pessoa (o Chef&#8217;s Table exibe v\u00e1rias dessas hist\u00f3rias). Na m\u00fasica isso acontece apenas de forma mais pontual hoje em dia, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Seria um papel do Jornalismo Musical revelar novos talentos?<\/strong><br \/>\nDe maneira alguma. O Jornalismo Musical t\u00eam de dar material para que as pessoas entendam o momento cultural em que elas est\u00e3o inseridas, para que elas vislumbrem o todo atrav\u00e9s de um disco, de uma m\u00fasica, de um movimento cultural. Quem tem que revelar novos talentos \u00e9 a gravadora, o selo, os pr\u00f3prios artistas.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Na quest\u00e3o \u00e9tica, qual seria o papel do jornalismo cultural?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o deixar se levar pela proximidade com seu objeto de estudo talvez seja o maior desafio \u00e9tico no mundo hoje. Como diria Lester Bangs, \u201celes v\u00e3o te usar\u201d. E v\u00e3o mesmo. Diferente de antigamente, onde o contato era mais distante, hoje em dia o contato com o artista \u00e9 cada vez mais pr\u00f3ximo, devido \u00e0s redes sociais e a facilidade de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso utilizar todas as ferramentas de aproxima\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m manter certo distanciamento.<\/p>\n<p><strong>&#8211; A produ\u00e7\u00e3o em escala industrial de novas m\u00fasicas e artistas pode ser um ponto negativo para a contempla\u00e7\u00e3o da arte? Como voc\u00ea enxerga isso?<\/strong><br \/>\nL\u00e1 se v\u00e3o quase 60 anos de ind\u00fastria cultural e a discuss\u00e3o j\u00e1 deveria estar adiantada. Muita gente (mais gabaritada do que eu) j\u00e1 discorreu sobre isso, e at\u00e9 essas discuss\u00f5es j\u00e1 est\u00e3o datadas porque vivemos numa sociedade de capitalismo de consumo que muda segundo a segundo, e para discutirmos ind\u00fastria cultural precisamos discutir esse modelo de capitalismo de consumo, precisamos discutir superexposi\u00e7\u00e3o nas redes sociais, precisamos discutir o silencio na sociedade moderna, precisamos discutir essas mudan\u00e7as constantes. Por exemplo: como contemplar uma obra de arte no caos que vivemos? como criar uma obra de arte no caos que vivemos? Como milhares de coisas na vida, a escala industrial tem pontos positivos e pontos negativos. Conhecer\u00edamos Beatles, U2, Nirvana e Arctic Monkeys se eles n\u00e3o fossem escala mundial? Talvez sim, talvez n\u00e3o. Mas, sinceramente, isso pouco importa. A quest\u00e3o aqui n\u00e3o \u00e9 a ind\u00fastria, mas sim a evolu\u00e7\u00e3o do ser-humano na luta contra algo que ele sempre temeu: ele mesmo. Vivemos alguns milh\u00f5es de anos lutando para preencher todos os espa\u00e7os do dia a modo que n\u00e3o nos torn\u00e1ssemos solit\u00e1rios e fug\u00edssemos de nosso \u00e2mago. O que Beethoven tem a ver com a ind\u00fastria cultural? Nada. Por\u00e9m, ele n\u00e3o seria Beethoven no mundo de hoje, a n\u00e3o ser que fosse um eremita distante do caos social. Como compor, como escrever, como refletir filosoficamente em meio a todo esse turbilh\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e contato? Essa \u00e9 uma das principais quest\u00f5es culturais do mundo moderno. No tempo de Beethoven, Shakespeare e outros g\u00eanios, o dia claro era curto, a noite era longa, o sil\u00eancio era dominante, a escurid\u00e3o, todo um conjunto de fatores que levava a reflex\u00e3o. Agora vivemos a era da hiper-conex\u00e3o e nunca estamos sozinhos, ainda que estejamos sozinhos. Como se concentrar em \u201cEm Busca do Tempo Perdido\u201d com Messenger, Whatsapp, Twitter, Facebook, Telegram e todas as demais redes mandando alertas de atualiza\u00e7\u00e3o a todo o momento? Desligando os aparelhos? Funciona? E o quanto a nossa mente j\u00e1 est\u00e1 focada nessa sensa\u00e7\u00e3o eterna de compartilhamento: \u201cNossa, esse trecho do livro tal \u00e9 sensacional! Vou compartilhar no Instagram\u201d. Ou seja, a pessoa se desliga do foco (o aprofundamento no objeto de cultura que pode faz\u00ea-lo refletir sobre algo que ele n\u00e3o estava pensando) para viver um momento zumbi: o objeto final \u00e9 o compartilhamento, n\u00e3o a reflex\u00e3o. Ent\u00e3o, a contempla\u00e7\u00e3o da arte nada tem a ver com ind\u00fastria cultural, mas sim com a necessidade que o ser-humano teve de preencher todas as lacunas de seu tempo a modo de n\u00e3o se sentir solit\u00e1rio. E isso ir\u00e1, cada vez mais, mudar a percep\u00e7\u00e3o das pessoas sobre o mundo e sobre a cultura.<\/p>\n<p><strong>&#8211; A contempla\u00e7\u00e3o do f\u00e3 Marcelo ajuda ao Marcelo jornalista a escrever suas resenhas?<\/strong><br \/>\nFunciona como um start, mas pode sofrer radicalmente com o aprofundamento do olhar, porque muitas vezes a beleza art\u00edstica \u00e9 rarefeita e tang\u00edvel ao primeiro contato. Ent\u00e3o, de repente, voc\u00ea ouve um disco e se apaixona por ele. Mas na hora que voc\u00ea senta para ouvir todos os detalhes, procurar entende-lo melhor, muitas vezes ele n\u00e3o \u00e9 aquilo que voc\u00ea achava que era no \u201camor \u00e0 primeira ouvida\u201d. Contempla\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica divergem muito<\/p>\n<p><strong>&#8211; O jornalismo opinativo \u00e9 sem d\u00favida dominante no meio cultural, mas existe espa\u00e7o para o jornalismo informativo? Como esse se desenvolveria? Voc\u00ea n\u00e3o acredita que a imparcialidade deixa o jornalismo cultural sem tempero?<\/strong><br \/>\nMuita gente confunde jornalismo com colunismo, e s\u00e3o coisas extremamente diversas: uma coluna opinativa \u00e9 algo em que fulano emite sua opini\u00e3o enquanto uma reportagem informativa \u00e9 o olhar (pessoal, inevit\u00e1vel) de algu\u00e9m sobre determinado objeto de estudo. Se aprofundarmos jornalisticamente um acidente na esquina, conversando com diversas pessoas que possam ter visto o que aconteceu, cada uma delas poder\u00e1 contar uma vers\u00e3o que incluir\u00e1 sua personalidade (tipo um homem ser machista e no acidente ter uma mulher envolvida, e mesmo ela n\u00e3o estando hipoteticamente errada, o cara jogar a culpa nela porque, no mundo errado dele, \u201cmulher n\u00e3o dirige bem\u201d). A fun\u00e7\u00e3o do jornalista informativo \u00e9 tentar se aproximar o m\u00e1ximo da verdade, ou do que ele acredita ser a verdade. Transpondo isso para o meio cultural, cr\u00edtica \u00e9 uma coisa: \u00e9 fulano com todo seu hist\u00f3rico analisando uma obra (um show, um disco, um filme), e um cara que gosta de Iron Maiden ir\u00e1 fazer uma critica do show de Ivete Sangalo diferente de um cara que gosta de Gal Costa. Ponto. Reportagem j\u00e1 \u00e9 outra coisa, mas muita gente ainda confunde e coloca opini\u00e3o onde deveria existir investiga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe imparcialidade porque cada pessoa \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, e essa constru\u00e7\u00e3o ir\u00e1 ditar o modo como se constr\u00f3i a pauta, como se acessa a fonte, como se observa as nuances do dialogo jornal\u00edstico. E tudo isso \u00e9 tempero. Talvez a gente cobre muito do jornalismo quando deveria cobrar maior percep\u00e7\u00e3o das pessoas na forma de entender que o meio influencia decididamente o que ela est\u00e1 lendo, e entender esse meio a ajudaria a entender a noticia, a cr\u00edtica, a reportagem como um todo. Por\u00e9m, o que estamos vendo, com a prolifera\u00e7\u00e3o de fake news, \u00e9 o contr\u00e1rio. Uma pena. <\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/category\/entrevistas\/\"><em>Veja outras entrevistas aqui<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Respostas para Bruno Borges &#8211; Conte um pouco da sua hist\u00f3ria com a m\u00fasica. A m\u00fasica entra na minha vida atrav\u00e9s da cole\u00e7\u00e3o de discos que meu pai tinha nos anos 70, muito da MPB combativa, Vinicius, Chico, Caetano, Gil, Gal, um pouco de Beatles, essas coisas. 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