{"id":16656,"date":"2008-08-15T14:20:46","date_gmt":"2008-08-15T17:20:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/?p=16656"},"modified":"2018-01-31T14:22:06","modified_gmt":"2018-01-31T17:22:06","slug":"quer-ser-jornalista-na-area-de-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2008\/08\/15\/quer-ser-jornalista-na-area-de-musica\/","title":{"rendered":"Quer ser jornalista na \u00e1rea de m\u00fasica?"},"content":{"rendered":"<p>Em 1995, quando o Andr\u00e9 Forastieri escreveu esse primeiro texto para sua coluna Ondas Curtas, no Folhateen, o mundo era outro. N\u00e3o havia internet e essa liberdade de se escrever sobre m\u00fasica que povoa zilh\u00f5es de blogs (alguns, dispens\u00e1veis, mas muitos sensacionais) ainda era um sonho para todo garoto que sonhava escrever sobre discos, artistas e aquela m\u00fasica que n\u00e3o saia de sua cabe\u00e7a. O cen\u00e1rio \u00e9 outro, mas muita gente ainda t\u00eam o sonho de trabalhar escrevendo sobre m\u00fasica. Assim, se algu\u00e9m perguntasse pra mim, hoje, eu diria: desiste.<\/p>\n<p>Desiste do jornalismo musical como profiss\u00e3o. Fa\u00e7a como eu, que o usa como hobby. Escreva por prazer, e n\u00e3o para pagar as contas. Quando a gente trabalha (ou melhor, consegue trabalhar, pois a \u00e1rea \u00e9 concorrida &#8211; e costuma n\u00e3o pagar bem) com jornalismo musical \u00e9 preciso ver shows que a gente n\u00e3o quer e escrever sobre discos que a gente n\u00e3o quer ouvir. Melhor escrever em um blog ou montar o seu pr\u00f3prio site do que ficar indo ver show do Fresno. Por\u00e9m, nada mais gratificante do que ter um texto em um grande ve\u00edculo, com milhares de pessoas lendo sobre aquilo que voc\u00ea est\u00e1 pensando sobre m\u00fasica.<\/p>\n<p>Na verdade, e sempre, voc\u00ea tem que procurar fazer aquilo que gosta, seja em um blog desconhecido, seja na Rolling Stone, na Folha de S\u00e3o Paulo ou na TV Globo. A sua felicidade &#8211; profissional ou n\u00e3o &#8211; s\u00f3 depende de voc\u00ea. Estes dois textos abaixo (o do \u00c0lvaro, publicado tamb\u00e9m no Folhatten, mas na \u201cEscuta Aqui\u201d, coluna que substiutiu a do Forastieri) exp\u00f5e uma s\u00e9rie de conselhos bacanas que n\u00e3o devem ser levados ao p\u00e9 da letra (discordar \u00e9, sempre, saud\u00e1vel), mas servem para nortear as id\u00e9ias de muito jovem que est\u00e1 come\u00e7ando agora. Os do Forastieri serviram para ajudar a definir a minha persona profissional. E eu queria dividir isso com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Ps. Voc\u00ea n\u00e3o vai\u00a0desistir, n\u00e9?<\/p>\n<p>Ps 2. O texto do Forasta, retirado dos arquivos da Folha, est\u00e1 na integra, sem os costumeiros cortes feitos para encaixa-lo no espa\u00e7o do jornal (que muda muito entre a pauta do editor e o fechamento). Eu tinha a \u201coriginal\u201d em um recorte da \u00e9poca, junto com dezenas de outros recortes que se perderam em alguma das minhas mudan\u00e7as\u2026<\/p>\n<p><strong>Jornalismo musical pode viver s\u00f3 com duas regrinhas b\u00e1sicas<\/strong><br \/>\nANDR\u00c9 FORASTIERI<br \/>\nEspecial para Folha<br \/>\n29\/05\/1995<\/p>\n<p>Sei que um monte de gente que l\u00ea esta coluna trabalha na \u00e1rea musical. N\u00e3o s\u00f3 m\u00fasicos, mas tamb\u00e9m gente de gravadora, de r\u00e1dio, de casa noturna, de TV e tal. E sei que tem um monte de gente que l\u00ea esta coluna e gostaria de trabalhar na \u00e1rea musical. Sei mais ou menos o que fazer para conseguir se descolar em r\u00e1dio, gravadora etc. Agora, o que sei direitinho \u00e9 como trabalhar na minha \u00e1rea, jornalismo, e, especificamente, jornalismo musical (que na verdade s\u00f3 ocupa uns 15% do meu tempo atualmente). Se voc\u00ea quer entrar no mundo glamuroso do jornalismo musical, preste aten\u00e7\u00e3o. Tenho s\u00f3 duas regrinhas simples.<\/p>\n<p>Regra n\u00famero um: tem que saber escrever. N\u00e3o adianta gostar de um monte de m\u00fasica ou tocar direitinho o solo de Steve Howe em \u201cGates of Delirium\u201d, se voc\u00ea n\u00e3o sabe escrever.<\/p>\n<p>Saber escrever depende de voc\u00ea conhecer portugu\u00eas e a t\u00e9cnica b\u00e1sica de jornalismo (que \u00e9 baba). Ter um m\u00ednimo de cultura geral, que v\u00e1 um pouco al\u00e9m da discografia dos Smiths, tamb\u00e9m n\u00e3o atrapalha em nada. Repare, saber escrever n\u00e3o \u00e9 ter um grande estilo, pessoal e intransfer\u00edvel. O estilo \u00e9 uma coisa que nasce das imita\u00e7\u00f5es baratas que a gente faz dos textos que a gente admira. Eventualmente, isso vai se misturando com o que a gente \u00e9, e sendo filtrado pelos lugares onde voc\u00ea trabalha.<\/p>\n<p>Eu, por exemplo, escrevo direto e r\u00e1pido, porque aprendi o of\u00edcio em jornal. Depois trabalhei em revista e soltei a franga no coloquial e na conversa mole. Ningu\u00e9m me tira da cabe\u00e7a que um bom texto sobre rock tem que ser parecido com o papo que voc\u00ea tem com os amigos no bar, depois de um show. Tem gente que teve forma\u00e7\u00f5es diferentes. Da\u00ed, escreve diferente. Saber escrever tamb\u00e9m n\u00e3o tem a ver com ter uma opini\u00e3o. Opini\u00e3o todo mundo tem e n\u00e3o vale picas. Voc\u00ea precisa ter uma opini\u00e3o e saber exp\u00f4-la de maneira que outras pessoas queiram pagar para conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>Regra n\u00famero dois: voc\u00ea n\u00e3o pode ter medo. Nem de meter a cara, nem medo de trabalhar. A maioria das pessoas que eu conhe\u00e7o, que vivem de escrever sobre essas coisas pop come\u00e7ou metendo a cara. N\u00e3o tem editor que dispense um bom texto. Mas antes \u00e9 preciso voc\u00ea fazer o editor ler o seu texto, e editores s\u00e3o pessoas ocupadas. Mete o p\u00e9 na porta. O m\u00e1ximo que pode acontecer \u00e9 voc\u00ea levar um n\u00e3o.<\/p>\n<p>Medo de trabalho tamb\u00e9m \u00e9 desemprego na certa. Jornalista trabalha pra caramba. N\u00e3o tem fim-de-semana, hora para sair ou para entrar. Tem um mundo de coisa de fazer o tempo inteiro. E como ep\u00edlogo, lembro que ter um pouco de car\u00e1ter tamb\u00e9m nunca atrapalhou ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea v\u00ea, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complicado assim trabalhar na imprensa musical. O que voc\u00ea ganha com isso? N\u00e3o muito. Voc\u00ea entra em show sem pagar e ganha montes de CDs. Viaja a trabalho para entrevistar uns e outros. \u00c9 convidado para festas e lan\u00e7amentos de discos. E, claro, conhece um monte de artistas. \u00c0s vezes, at\u00e9 fica amigo de um monte de artistas. Se isso acontecer, est\u00e1 na hora de pedir demiss\u00e3o e mudar de carreira. Ningu\u00e9m tem coragem de falar mal dos amigos. Ou, invertendo, n\u00e3o tem carreira que valha a perda de um amigo de verdade.<\/p>\n<p>A grana tamb\u00e9m pega. Tirando meia d\u00fazia de grandes ve\u00edculos, o sal\u00e1rio na imprensa \u00e9 uma bobagem. Se o teu neg\u00f3cio \u00e9 ganhar dinheiro a s\u00e9rio, vale mais a pena fazer dez outras coisas, do que ser jornalista. E lembre-se que escrever sobre rock n\u00e3o \u00e9 exatamente uma carreira. Tem poucas coisas mais r\u00eddiculas do que um velhote pai de fam\u00edlia que vive de escrever sobre a nova bandinha que despontou nos confins do Missouri. Por isso, os jornais e revistas costuma ter o bom senso de substituir cr\u00edticos coroas por garotos cheios de g\u00e1s. Como, talvez, voc\u00ea.<\/p>\n<p>ANDR\u00c9 FORASTIERI, 29, \u00e9 editor da revista \u201cGeneral\u201d<\/p>\n<p><strong>Sete dicas para quem quer ser cr\u00edtico de m\u00fasica<\/strong><br \/>\n\u00c1LVARO PEREIRA J\u00daNIOR<br \/>\nColunista da Folha<br \/>\n28 de julho de 2003<\/p>\n<p>Na falta de coisa melhor para fazer na vida, existe gente que almeja ser cr\u00edtico de m\u00fasica! E muitos leitores com essa aspira\u00e7\u00e3o escrevem para \u201cEscuta Aqui\u201d pedindo dicas. Sempre relutei em fazer esse tipo de \u201cmanual do cr\u00edtico\u201d porque, primeiro, nunca fui nem sou cr\u00edtico de m\u00fasica em tempo integral e, segundo, desconfio de f\u00f3rmulas prontas. Mas os pedidos s\u00e3o muitos, ent\u00e3o hoje v\u00e3o alguns toques.<\/p>\n<p>1) Ou\u00e7a m\u00fasica desesperadamente. Voc\u00ea n\u00e3o precisa ser m\u00fasico, saber diferenciar um r\u00e9 de um mi. Mas precisa ter conhecimentos hist\u00f3ricos, entender de onde vem o tipo de m\u00fasica sobre o qual voc\u00ea escreve e como as coisas evolu\u00edram at\u00e9 hoje. S\u00f3 conhecer a discografia completa do Weezer n\u00e3o basta.<\/p>\n<p>2) Leia livros e revistas desesperadamente. Voc\u00ea quer criar um estilo, certo? Ent\u00e3o precisa ler montanhas de revistas e livros, de todos os g\u00eaneros, para chegar a um jeito pr\u00f3prio de escrever. N\u00e3o adianta s\u00f3 ler \u201cEscuta Aqui\u201d e a coluna do L\u00facio Ribeiro na Folha Online. Assim, acaba virando clone. Mais um.<\/p>\n<p>3) Aprenda ingl\u00eas. Cerca de 99,99% do que conta no chamado \u201cmundo das artes\u201d acontece em ingl\u00eas. Se voc\u00ea n\u00e3o sabe a l\u00edngua direito, arrume outra coisa para fazer. Ser cr\u00edtico de m\u00fasica n\u00e3o d\u00e1.<\/p>\n<p>4) Aceite sua insignific\u00e2ncia. Ningu\u00e9m saud\u00e1vel compra ou deixa de comprar um CD por causa de uma cr\u00edtica. Em geral, cr\u00edticas de m\u00fasica s\u00e3o lidas por nerds, m\u00fasicos e outros cr\u00edticos de m\u00fasica. O leitor normal -aquele que tem uma vida, fam\u00edlia, amigos etc.- est\u00e1 pouco se lixando para o que o cr\u00edtico pensa.<\/p>\n<p>5) N\u00e3o fique amigo de m\u00fasicos. Bandas -principalmente as mais novas- sofrem muito. D\u00e3o shows sem ganhar nada, n\u00e3o conseguem divulga\u00e7\u00e3o etc. etc. Gravar um disco \u00e9 mais dif\u00edcil ainda. S\u00f3 que \u00e9 melhor n\u00e3o se envolver com isso, sen\u00e3o voc\u00ea vai ficar com pena dos m\u00fasicos e fazer sua cr\u00edtica com base nesse contexto e n\u00e3o na simples audi\u00e7\u00e3o do CD. Os caras da banda podem ser gente boa, batalhadores e honestos, a baixista pode ser uma gostosa, mas, se fizeram um disco ruim, \u00e9 isso o que voc\u00ea tem de dizer.<\/p>\n<p>6) Pratique a cr\u00edtica destrutiva. Enfie uma coisa na cabe\u00e7a: voc\u00ea e os m\u00fasicos ou voc\u00ea e as gravadoras n\u00e3o est\u00e3o no mesmo barco. E voc\u00ea n\u00e3o tem papel algum na constru\u00e7\u00e3o de nenhum tipo de cena. No Brasil, a pr\u00e1tica do compadrio e da \u201cbrodagem\u201d \u00e9 corrente entre jornalistas, m\u00fasicos e gravadoras. Todo mundo \u00e9 amiguinho e se ajuda mutuamente. Gente talentosa perde tempo escrevendo s\u00f3 sobre o que gosta ou finge que gosta. Fuja dessa.<\/p>\n<p>7) Prepare-se para a realidade de uma reda\u00e7\u00e3o. Pense naquele cara -ou mo\u00e7a- inteligente, moderno, que passa o dia escutando m\u00fasica e, de vez em quando, escreve sobre um CD que lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o. Agora esque\u00e7a isso. As cr\u00edticas assinadas s\u00e3o uma parte muito pequena do que o jornalista faz na reda\u00e7\u00e3o, o que inclui diagramar p\u00e1ginas, escrever t\u00edtulos, bolar legendas de fotos, escrever mat\u00e9rias n\u00e3o-assinadas, preparar notinhas, reescrever textos dos outros, ser esculachado pelo chefe etc. Tem mais coisa, mas o espa\u00e7o acabou.<\/p>\n<p>\u00c1LVARO PEREIRA J\u00daNIOR, 40, \u00e9 editor-chefe do \u201cFant\u00e1stico\u201d em S\u00e3o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1995, quando o Andr\u00e9 Forastieri escreveu esse primeiro texto para sua coluna Ondas Curtas, no Folhateen, o mundo era outro. 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