{"id":16306,"date":"2008-02-28T14:47:23","date_gmt":"2008-02-28T17:47:23","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/?p=16306"},"modified":"2018-01-23T14:49:39","modified_gmt":"2018-01-23T17:49:39","slug":"os-tempos-modernos-de-bob-dylan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2008\/02\/28\/os-tempos-modernos-de-bob-dylan\/","title":{"rendered":"Os tempos modernos de Bob Dylan"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-16307 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/bobdylan_modertimes1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/bobdylan_modertimes1.jpg 450w, https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/bobdylan_modertimes1-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/bobdylan_modertimes1-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>Quando se fala em rock sempre vem \u00e0 mente a imagem de algum moleque desajustado tocando sua guitarra num volume ensurdecedor. Mas ser\u00e1 que \u00e9 isso mesmo? Ok, vamos aprofundar. Sempre venderam o rock como algo juvenil, desajustado, fora da sociedade. Isso tudo, claro, at\u00e9 a ind\u00fastria cultural ver potenciais de ganhar grana com o neg\u00f3cio, transformando m\u00fasicos em celebridades e todo o cen\u00e1rio em um grande circo. N\u00e3o \u00e9 um fato recente: Raul Seixas refletia em seu disco mais cl\u00e1ssico, de 1975: \u201cMam\u00e3e j\u00e1 ouve Beatles, Papai j\u00e1 deslumbrou, com meu cabelo grande eu fiquei contra o que eu j\u00e1 sou\u201d (\u201dA Verdade Sobre a Nostalgia\u201d). O interessante \u00e9 lembrar que os Beatles cantavam desde \u201cDr. Robert\u201d at\u00e9 \u201cShe\u2019s Leaving Home\u201d.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o toda, na verdade, \u00e9 que mais do que ser uma m\u00fasica juvenil, de suor e transpira\u00e7\u00e3o, o rock envelheceu desde que Elvis chacoalhou seus quadris pela primeira vez, e por mais que Mick Jagger continue cantando \u201cSatisfaction\u201d ap\u00f3s 40 anos, quem vai ousar dizer que o velhinho n\u00e3o \u00e9 rock\u2019n\u2019roll? E os velhotes pilhados do Gang of Four, que fizeram um show absurdamente barulhento e sensacional semanas atr\u00e1s em S\u00e3o Paulo (e tamb\u00e9m em Floripa e Belo Horizonte), n\u00e3o s\u00e3o roqueiros?<\/p>\n<p>A tem\u00e1tica \u00e9 muito mais abrangente do que esta coluna permite vislumbrar, mas ao ouvir \u201cWorking Man\u2019s Blues #2?, a sensa\u00e7\u00e3o de que o homem que a canta viveu tudo que o rock lhe permitiu ser vivido (e mais) joga pelo ralo qualquer id\u00e9ia do contr\u00e1rio. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sobre este homem ter mudado a hist\u00f3ria da m\u00fasica pop mundial (e ele mudou), e sim ele estar ainda radiografando o mundo com tanta lucidez e intelig\u00eancia. Como escreveu Ana Maria Bahiana certa vez: \u201cNirvana foi uma fa\u00edsca, enquanto o R.E.M. \u00e9 uma fogueira, e eu, particularmente, estou mais interessada no desafio da sobreviv\u00eancia e da longevidade do que na sa\u00edda f\u00e1cil da vida breve e fulminante\u201d. Eu tamb\u00e9m, Ana, eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Do alto de seus 65 anos, Bob Dylan lan\u00e7a um disco que n\u00e3o \u00e9 para a molecada dan\u00e7ar na balada urrando as letras (para isso existe o \u2013 \u00f3timo \u2013 single do Killers) muito menos para ser ouvido enquanto se passa manteiga no p\u00e3o no caf\u00e9 da manh\u00e3. Dylan precisa de mais aten\u00e7\u00e3o. \u201cModern Times\u201d \u00e9 um disco de tem\u00e1tica quase antag\u00f4nica, falando sobre sexo e morte. E tamb\u00e9m sobre amor. E tamb\u00e9m sobre um mundo que est\u00e1 se desintegrando na frente dos nossos olhos. Ou ser\u00e1 tudo a mesma coisa? \u00c9 um disco para se ouvir em um bar acompanhado de luzes que se misturam com a fuma\u00e7a de cigarro num bal\u00e9 melanc\u00f3lico. Seu autor ousa relembrar que mesmo tendo vivido mais de seis d\u00e9cadas de vida, o mundo continua um lugar imperfeito, solit\u00e1rio e vazio. Mas o pr\u00f3prio, em\u00a0entrevista ao jornal USA Today, atesta que n\u00e3o h\u00e1 nada de nost\u00e1lgico no \u00e1lbum. Nostalgia, quem diria, \u00e9 objeto de culto muito mais juvenil.<\/p>\n<p>E n\u00e3o que \u00e9 n\u00e3o existam rocks em \u201cModern Times\u201d. A faixa que abre o disco, \u201cThunder On The Mountain\u201d, \u00e9 um rock cl\u00e1ssico, com direito a guitarra solando e um interlocutor que gostaria de saber onde encontrar Alicia Keys (e n\u00e3o \u00e9 para ouvi-la cantar). A mesma levada pode ser ouvida na suave \u201cSomeday Baby\u201d e na soturna \u201cThe Levee\u2019s Gonna Break\u201d, com Dylan cantando de forma direta nesta \u00faltima: \u201cSe continuar chovendo, o dique vai quebrar: algumas pessoas est\u00e3o dormindo, mas outras est\u00e3o bem acordadas\u201d. Ainda nas aceleradas, o blueza\u00e7o \u201cRollin\u2019 and Thumblin\u201d (com jeit\u00e3o Robert Johnson de ser) acelera em dire\u00e7\u00e3o ao rockabilly. Das dez can\u00e7\u00f5es do disco, \u00e9 apenas nestas quatro que se ouvir\u00e1 algum frescor (ah\u00f1) juvenil que, talvez, lhe fa\u00e7a ter vontade de balan\u00e7ar o corpo ou, no m\u00e1ximo, marcar a melodia com os p\u00e9s. Nas outras seis can\u00e7\u00f5es, jazz, folk e blues fazem a cama para que Dylan exercite sua vis\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>De sotaque jazz, \u201cSpirit on the Water\u201d fala de pesadelos. \u201cEu estou suando sangue\u201d, diz a letra. \u201cWhen the Deal Goes Down\u201d, cujo clipe traz a musa do momento Scarlett Johansson, \u00e9 uma balada folk que n\u00e3o revela em sua levada a tem\u00e1tica pesada da letra que procura um sentido em estar vivo, e diz a certa altura: \u201cN\u00f3s vivemos e n\u00f3s morremos, e n\u00e3o sabemos porqu\u00ea\u201d. O clima se acalma na suavidade de \u201cBeyond the Horizon\u201d, que imagina: \u201cAl\u00e9m do horizonte \u00e9 f\u00e1cil amar\u201d. Lembra o Rei Roberto em sua fase p\u00f3s-Jovem Guarda dizendo que \u201cAl\u00e9m do horizonte existe um lugar bonito e tranq\u00fcilo pra gente se amar\u201d. O clima volta a pesar na arrastada \u201cNettie Moore\u201d e fica ainda mais sombrio em \u201cAin\u2019t Talkin\u2019\u201d, faixa que encerra o disco com Dylan contando \u201cque n\u00e3o h\u00e1 nenhum altar nessa estrada longa e solit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Dentre todas estas, a que merece maior aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a j\u00e1 citada \u201cWorking Man\u2019s Blues #2?, can\u00e7\u00e3o que atualiza para os tempos modernos um velho country de Merle Haggard. Enquanto o original versava sobre como o trabalho comprara o espa\u00e7o da divers\u00e3o (na letra, ap\u00f3s uma semana de batente e muito cansa\u00e7o, o cara planeja sair para beber uma cerveja quando o pagamento chegar), \u201cWorking Man\u2019s Blues #2? avan\u00e7a criticando n\u00e3o s\u00f3 esse capitalismo que vendeu um sonho e acabou, no fim, comprando a alma de todos, mas tamb\u00e9m suas conseq\u00fc\u00eancias, entre elas a mais vis\u00edvel: a divis\u00e3o do povo em ricos e pobres. \u201cWorking Man\u2019s Blues #2? consegue ser ainda, do alto de seus seis minutos, uma bel\u00edssima can\u00e7\u00e3o de amor.<\/p>\n<p>Dylan j\u00e1 n\u00e3o tem a necessidade de escrever que tinha quando era jovem. Segundo ele, na entrevista ao USA Today, chega uma hora em que \u00e9 muito mais dif\u00edcil encontrar uma finalidade para se fazer algo diferente. No entanto, ele sabe que talvez seja complicado para o ouvinte compreender n\u00e3o s\u00f3 a tem\u00e1tica do disco, mas as can\u00e7\u00f5es como can\u00e7\u00f5es mesmo: \u201cCada can\u00e7\u00e3o significa o que voc\u00ea disser que significa. Ela te golpeia onde voc\u00ea pode sentir, e sentindo ela ter\u00e1 um significado para voc\u00ea. \u00c9 um tipo de m\u00fasica que tem a finalidade de mexer com a pessoa, e para fazer isso ela tem que ter mexido comigo mesmo primeiramente\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u00c9 muito complexo dizer o que as pessoas precisam de verdade, seja m\u00fasica, filmes ou mesmo aparelhos dom\u00e9sticos. Se eu fosse moleque hoje em dia, provavelmente eu precisasse de Clash e Sex Pistols \u2013 ou quem sabe, Nirvana \u2013 mais do que Strokes, Killers ou Be Your Own Pet. Mais do que todos eles, na verdade, eu precisaria de Aldous Huxley, Lygia Telles e Shakespeare, mas essa \u00e9 uma outra quest\u00e3o. O que realmente preocupa \u00e9 limitar o que uma pessoa precisa, tenha ela 14, 36 ou 65 anos. Novamente recorro a Ana Maria Bahiana,\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/secoes\/bahiana.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que escreveu<\/a>:<\/p>\n<p>\u201cEu, por mim, recomendo a qualquer um &#8211; de 16, 21, 30, 45, 55 anos &#8211; que, ao menos uma vez por semana, escute algo que jamais pensaria escutar. E, certamente, algo que fuja dos padr\u00f5es daquilo que as gravadoras determinaram ser \u201capropriado\u201d para sua faixa et\u00e1ria &#8211; um ouvinte de 16 anos tem tanto a se beneficiar com uma audi\u00e7\u00e3o de A Nod Is as Good as a Wink, dos Faces, quanto um de 55 do disco do Kula Shaker. \u00c9 um santo rem\u00e9dio, o equivalente a uma corrida no cal\u00e7ad\u00e3o, uma hora de malha\u00e7\u00e3o, uma partida de basquete: o suficiente para manter os ouvidos flex\u00edveis, o c\u00e9rebro desentupido, o cora\u00e7\u00e3o palpitante e prevenir a instala\u00e7\u00e3o &#8211; muitas vezes precoce &#8211; do reumatismo estupidificante do classic rock\u201d.<\/p>\n<p>Pense nisso. E ou\u00e7a \u201cModern Times\u201d com bastante aten\u00e7\u00e3o. Ele est\u00e1 falando deste tempo sombrio que estamos, todos, vivendo. Ele n\u00e3o precisa de voc\u00ea, afinal, ele \u00e9 Bob Dylan. Mas talvez voc\u00ea precise dele mais do que qualquer outra coisa, e ainda n\u00e3o descobriu.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211;\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2007\/11\/04\/mostra-de-sp-im-not-there\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cI\u2019m Not There\u201d<\/a>, de Todd Haynes, por Marcelo Costa<br \/>\n&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/bobdylan_nodirection.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cNo Direction Home\u201d<\/a>, de Martin Scorsese, por Marcelo Costa<br \/>\n&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/macoito.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bob Dylan, Martin Scorsese e a Hist\u00f3ria Universal<\/a>, por Marcelo Costa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se fala em rock sempre vem \u00e0 mente a imagem de algum moleque desajustado tocando sua guitarra num volume ensurdecedor. Mas ser\u00e1 que \u00e9 isso mesmo? 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