{"id":15763,"date":"2017-12-06T23:47:45","date_gmt":"2017-12-07T02:47:45","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/?p=15763"},"modified":"2017-12-13T23:48:29","modified_gmt":"2017-12-14T02:48:29","slug":"1-7-cancoes-workingman-blues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2017\/12\/06\/1-7-cancoes-workingman-blues\/","title":{"rendered":"1\/7 can\u00e7\u00f5es: Workingman Blues"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Publicado no Facebook em 2015<\/em><\/p>\n<p>O desafio proposto (uma m\u00fasica por dia durante sete dias) pelo grande amigo Carlos Freitas, um mestre na can\u00e7\u00e3o impopular, me levou a pensar com cuidado e seriedade sobre algo que mudou radicalmente a minha vida: a m\u00fasica. Algumas semanas atr\u00e1s comentei por aqui sobre um filme emocional que havia visto (\u201cAlive Inside\u201d, dispon\u00edvel no Netflix Brasil) dizendo: \u201cPara quem ama a m\u00fasica&#8230;\u201d. Porque para mim \u00e9 simples assim: eu amo a m\u00fasica e ela acompanhou boa parte dos passos que dei nesses mais de 16 mil dias nessa bolota azul.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de Salman Rushdie em \u201cO Ch\u00e3o Que Ela Pisa\u201d \u00e9 perfeita:<\/p>\n<p><em>&#8220;Por que a gente gosta de cantores? Onde se esconde o poder das can\u00e7\u00f5es? Talvez se origine da mera estranheza de se existir canto no mundo. A nota, a escala, o acorde; melodias, harmonias, arranjos, sinfonias, ragas, \u00f3peras chinesas, jazz, blues: o fato de essas coisas existirem, de termos descoberto os intervalos m\u00e1gicos e as dist\u00e2ncias que produzem o pobre punhado de notas, todas ao alcance da m\u00e3o humana, com as quais constru\u00edmos nossas catedrais sonoras, \u00e9 um mist\u00e9rio t\u00e3o alqu\u00edmico quanto a matem\u00e1tica, ou o vinho, ou o amor. Talvez os p\u00e1ssaros tenham nos ensinado. Talvez n\u00e3o. Talvez sejamos, simplesmente, criaturas em busca de exalta\u00e7\u00e3o. Coisa que n\u00e3o temos muito. Nossas vidas n\u00e3o s\u00e3o o que merecemos. De muitas dolorosas maneiras elas s\u00e3o, temos de admitir, deficientes. A m\u00fasica as transforma em outra coisa. A m\u00fasica nos mostra um mundo que merece os nossos anseios, ela nos mostra como deveriam ser os nossos eus, se f\u00f4ssemos dignos do mundo&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Dentro dessa busca por dignidade, de companhia ou seja l\u00e1 o que for, eu at\u00e9 queria buscar uma can\u00e7\u00e3o alegre, festeira, mas a primeira m\u00fasica que penso (e provavelmente as outras 99 s\u00e3o t\u00e3o tristes quanto) quando preciso pensar em alguma m\u00fasica \u00e9 \u201cWorkingman&#8217;s Blues #2\u201d, de Bob Dylan, que, segundo minha Last Fm, \u00e9 a m\u00fasica que mais ouvi nos \u00faltimos nove anos. H\u00e1 algumas dezenas de coisas que me fascinam em Bob Dylan, e uma delas \u00e9 toda beleza que se esconde por tr\u00e1s de uma aparente fragilidade vocal, que, para alguns, se intensificou neste mil\u00eanio. Como escrevi no texto sobre o show em S\u00e3o Paulo de sete anos atr\u00e1s, \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada mais atual que recusar o amargo, o ardido, o esgani\u00e7ado, aquilo que n\u00e3o soa limpo (at\u00e9 o punk e o metal soam melodiosos hoje em dia\u201d.<\/p>\n<p>Sempre que esse assunto vem \u00e0 tona me lembro de Beck, que certa vez escreveu: \u201cGosto de gente como Bob Dylan, que faz m\u00fasica para sacudir a cabe\u00e7a das pessoas. Odeio quem gosta de dizer que Bob Dylan canta mal, que o show dele \u00e9 uma porcaria e tal&#8230; Ora, esse cara nem precisava cantar. Todo mundo devia pagar ingresso s\u00f3 para ver o cara que escreve aquelas can\u00e7\u00f5es maravilhosas\u201d.<\/p>\n<p>Oque me interessa na voz de Dylan, por\u00e9m, \u00e9 o efeito do tempo sobre ela, as marcas de dores, desilus\u00f5es, decep\u00e7\u00f5es. Sempre tenho uma frase na ponta da l\u00edngua: \u201cviver \u00e9 acumular tristezas\u201d. Estranho Rod Stewart e Roberto Carlos cantando hoje em dia como se a vida fosse um para\u00edso, e talvez at\u00e9 seja&#8230; para eles, como se a naturalidade da voz simbolizasse uma pele sem rugas (e sem dramas nem hist\u00f3rias), mas para reles mortais viver \u00e9, cada vez mais, \u201cpagar uma conta por dia\u201d (uma atualiza\u00e7\u00e3o politicamente correta daquele velho ditado que versava sobre \u201cmatar le\u00f5es\u201d, e que j\u00e1 est\u00e1 devidamente antiquado).<\/p>\n<p>\u201cWorkingman&#8217;s Blues #2\u201d atualiza para os tempos modernos um velho country de Merle Haggard. Enquanto o original versava sobre como o trabalho comprara o espa\u00e7o da divers\u00e3o (na letra, ap\u00f3s uma semana de batente e muito cansa\u00e7o, o cara planeja sair para beber uma cerveja quando o pagamento chegar), \u201cWorking Man\u2019s Blues #2? avan\u00e7a criticando n\u00e3o s\u00f3 esse capitalismo que vendeu um sonho e acabou, no fim, comprando a alma de todos, mas tamb\u00e9m suas conseq\u00fc\u00eancias, entre elas a mais vis\u00edvel: a divis\u00e3o do povo em ricos e pobres.<\/p>\n<p>Presente no grande \u00e1lbum \u201cModern Times\u201d, que Dylan lan\u00e7ou em 2006 (e que foi disco do ano em v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es, Scream &amp; Yell incluso), \u201cWorkingman&#8217;s Blues #2\u201d versa sobre a desilus\u00e3o com a vida cotidiana, em que o lugar mais amado \u00e9 \u201cuma doce mem\u00f3ria\u201d, n\u00e3o o agora, n\u00e3o o presente, pois atualmente \u201cdormir \u00e9 uma morte tempor\u00e1ria\u201d. Nessa letra melanc\u00f3lica, Bob Dylan narra as desventuras dos trabalhadores, cada vez mais sufocados por um capitalismo voraz (\u201cThe buyin&#8217; power of the proletariat&#8217;s gone down \/ Money&#8217;s gettin&#8217; shallow and weak (&#8230;) They say low wages are a reality \/ If we want to compete abroad\u201d), que muitas vezes for\u00e7a o individuo a situa\u00e7\u00f5es que ele n\u00e3o deseja (&#8220;Well, they burned my barn, and they stole my horse \/ I can&#8217;t save a dime \/ I got to be careful, I don&#8217;t want to be forced \/ Into a life of continual crime&#8221;). A condu\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o destaca notas tristonhas de piano e um riff mastigado e choroso de guitarra fazendo a cama para a voz de Bob Dylan, absolutamente perfeita ao exibir as cicatrizes do tempo para contar\/cantar esse blues lamento dos trabalhadores. \u00c9 triste, mas \u00e9 real, dolorosamente real, e sentir dor muitas vezes nos faz agir, tentar mudar a situa\u00e7\u00e3o, ou, ao menos, refletir sobre ela.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"450\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YPPbQexwTR4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado no Facebook em 2015 O desafio proposto (uma m\u00fasica por dia durante sete dias) pelo grande amigo Carlos Freitas, um mestre na can\u00e7\u00e3o impopular, me levou a pensar com cuidado e seriedade sobre algo que mudou radicalmente a minha vida: a m\u00fasica. 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