{"id":15654,"date":"2017-10-25T14:24:51","date_gmt":"2017-10-25T17:24:51","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/?p=15654"},"modified":"2023-05-29T19:55:34","modified_gmt":"2023-05-29T22:55:34","slug":"shakespeare-e-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2017\/10\/25\/shakespeare-e-eu\/","title":{"rendered":"Shakespeare e eu"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15656 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/shakespeare1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/shakespeare1.jpg 450w, https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/shakespeare1-300x177.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p>Comecei a rever &#8220;Hamlet&#8221; (1996), a maravilhosa epopeia do Kenneth Branagh com 4h20 de dura\u00e7\u00e3o que \u00e9 das minhas adapta\u00e7\u00f5es favoritas da obra de Shakespeare, e quando percebi me vi relembrando da primeira vez que li o Bardo e j\u00e1 estava mandando uma mensagem pruma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/09\/30\/as-bibliotecas-da-minha-vida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">das bibliotecas da minha vida<\/a> via Facebook:<\/p>\n<p><em>&#8220;Ol\u00e1! Meu nome \u00e9 Marcelo, moro em S\u00e3o Paulo desde 2000, mas cresci em Taubat\u00e9 e durante muito tempo peguei livros emprestados ai da biblioteca (posso dizer orgulhosamente que ela ajudou a me definir &#8211; risos). Nessa \u00e9poca havia ai uma cole\u00e7\u00e3o do Shakespeare, v\u00e1rios volumes (entre 15 e 20), com capa azul. Eu gostaria de saber se voc\u00eas ainda tem essa cole\u00e7\u00e3o a disposi\u00e7\u00e3o do leitor e se poderiam identificar editora e edi\u00e7\u00e3o, pois eu sonho vez em quando com essa cole\u00e7\u00e3o, e gostaria de t\u00ea-la em casa \ud83d\ude42 \u00c9 uma edi\u00e7\u00e3o comentada de v\u00e1rias pe\u00e7as do Shakespeare.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Hoje cedo o pessoal da biblioteca me respondeu gentilmente acrescentando essas duas fotos da cole\u00e7\u00e3o que me encantou quase quatro d\u00e9cadas atr\u00e1s e ent\u00e3o descubro que tudo do que li de Shakespeare na primeira (e segunda) vez (no come\u00e7o dos anos 80) foi de uma cole\u00e7\u00e3o de 36 volumes de&#8230; Portugal (uma cole\u00e7\u00e3o mui provavelmente doada por alguma boa alma) &#8211; tenho ainda comigo desde sempre dois volumes da Editora Abril com 4 trag\u00e9dias e 4 com\u00e9dias datado de 1981, mas a minha base foi essa cole\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>A primeira vez que li essa cole\u00e7\u00e3o foi entre os 11 e 12 anos. Como \u00e9 de se imaginar, muita coisa passou batido por mim, mas a paix\u00e3o foi tanta que reli essa cole\u00e7\u00e3o completa durante a crise dos 17 (pr\u00e9 e durante o Servi\u00e7o Militar Obrigat\u00f3rio).<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o \u00e9 datada de 1955 e \u00e9 da Lello &amp; Irm\u00e3os, uma editora do Porto (tamb\u00e9m livraria). Soube atrav\u00e9s de um amigo portugu\u00eas no Facebook que &#8220;<span class=\" UFICommentActorAndBody\">a<span data-ft=\"{&quot;tn&quot;:&quot;K&quot;}\"><span class=\"UFICommentBody\"> Livraria Lello ainda existe no mesmo local <a href=\"https:\/\/www.livrarialello.pt\/a-livraria-lello\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e \u00e9 a mais incr\u00edvel livraria de Portugal e uma das mais lindas do mundo<\/a>. Paragem obrigat\u00f3ria se um dia fores ao Porto&#8221;<\/span><\/span><\/span>. Dica anotada! Adoro essa edi\u00e7\u00e3o da Lello das obras de Shakespeare porque muitos dos textos vem com um ap\u00eandice informativo primoroso, que amplia demais o olhar sobre a obra.<\/p>\n<p>Numa busca na web cai nesse texto do Fernando Sim\u00f5es Garcia e compartilho a salva\u00e7\u00e3o do autor neste trecho delicioso que analisa as tradu\u00e7\u00f5es de Shakespeare para o portugu\u00eas:<\/p>\n<p><em>&#8220;Fernando Pessoa escreveu o seguinte sobre a edi\u00e7\u00e3o da Lello &amp; Irm\u00e3os:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8216;Apenas folheei, e nem uma linha li, das tradu\u00e7\u00f5es que o sr. dr. Domingos Ramos ter\u00e1 imortalmente que expiar. Porque n\u00e3o \u00e9 com a compet\u00eancia de tradutor-de-ingl\u00eas do sr. dr. Ramos que eu implico e esbarro. \u00c9 com a sua compet\u00eancia para traduzir Shakespeare, visto que lhe cai em cima e o reduz a prosa&#8217;.<\/em><\/p>\n<p><em>Muito mais sens\u00edvel do que eu, Fernando Pessoa rejeitou pela capa os volumes que me salvariam \u2014 pela qualidade e pelo tamanho. Trinta e seis volumes. Apostei metade do meu sal\u00e1rio neles. Foi uma aposta. Eu n\u00e3o sabia da qualidade do que eu comprava. A edi\u00e7\u00e3o foi composta por cinco ou seis tradutores. Todos eles com seu estilo. Sem regras fixas, cada um foi moldando a pe\u00e7a traduzida \u00e0 medida de si pr\u00f3prio.<\/em><\/p>\n<p><em>Ant\u00f3nio de Castilho, por exemplo, que traduziu o Fausto \u2014 e h\u00e1 quem o acuse de o ter feito sem saber alem\u00e3o \u2014 comp\u00f4s em verso pr\u00f3prio o seu A Midsummer Night\u2019s Dream. Sem notas, sem ensaio introdut\u00f3rio. Castilho negligenciou tudo, menos a poesia. O resultado, que n\u00e3o \u00e9 do meu gosto, pode agradar a quem tenha o esp\u00edrito mais movimentado. N\u00e3o deixa de ser curioso, no entanto, esse esfor\u00e7o \u2014 e essa disparidade de tradutores, de inclina\u00e7\u00f5es intelectuais. Em contraposi\u00e7\u00e3o, o Dr. Ramos, o Dr. condenado pelo Pessoa, \u00e9 certamente o tradutor mais judicioso que possa existir. Traduziu diversas pe\u00e7as, todas elas bem alimentadas de ensaios introdut\u00f3rios e notas explicativas.<\/em><\/p>\n<p><em>O exemplo mais elevado \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o de J\u00falio C\u00e9sar: o Dr. Ramos seguiu, passo a passo \u00e0 letra do Bardo, a narrativa de base que deu origem \u00e0 pe\u00e7a: a vida de J\u00falio C\u00e9sar de Plutarco. O leitor que tenha paci\u00eancia de folhear o volume achar\u00e1 ali uma sobrevida, uma camada a mais da personalidade vibrante e do destino tr\u00e1gico de C\u00e9sar. As notas s\u00e3o exaustivas, completas, pra latinista nenhum botar defeito. Outro tradutor: Henrique Braga. <\/em><em>Traduziu, entre outras, Troilus e Cr\u00e9ssida. Sua obsess\u00e3o com os tradutores franceses \u2014 os mesmos de que Machado de Assis fez largo uso \u2014 \u00e9 esclarecedora. Ele compara, estuda e at\u00e9 repara as tradu\u00e7\u00f5es feitas para o franc\u00eas. \u00c0s vezes chega a dizer que s\u00e3o p\u00e9ssimas tradu\u00e7\u00f5es, as dos franceses. O homem \u00e9 ousado.<\/em><\/p>\n<p><em>Com exce\u00e7\u00e3o de 4 ou 5 das Com\u00e9dias, li todo o Shakespeare pela edi\u00e7\u00e3o da Lello &amp; Irm\u00e3os. N\u00e3o me arrependo. Mesmo hoje, lendo em ingl\u00eas, volto a elas. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre precisa. Sempre clara. Feita numa \u00e9poca em que as pessoas sabiam escrever em l\u00edngua portuguesa.<\/em><\/p>\n<p><em>O tra\u00e7o mais elevado dessa edi\u00e7\u00e3o \u00e9 a pluralidade. Cada tradutor expandiu a sua pr\u00f3pria personalidade e o seu pr\u00f3prio gosto \u2014 e o modo pelo qual o g\u00f4sto se desenvolve \u2014 carregando \u00e0 ponta do l\u00e1pis as suas express\u00f5es e prefer\u00eancias mais \u00edntimas. Sem a uniformidade t\u00e3o caracter\u00edstica das edi\u00e7\u00f5es de hoje, a sensa\u00e7\u00e3o que tive foi a de estar lidando com gente real \u2014 gente que leu, estudou e amou a obra de William Shakespeare.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Pessoas como eu. Talvez voc\u00ea. &lt;3<\/p>\n<p>Leia a integra da esplendorosa an\u00e1lise <a href=\"https:\/\/medium.com\/@fsimoesgarcia\/a-pregui%C3%A7osos-e-diletantes-shakespeare-51d18ca52377\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">do Fernando Garcia aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Ps 2023: Consegui finalmente comprar a cole\u00e7\u00e3io completa &lt;3<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-15657 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/shakespeare2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"637\" srcset=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/shakespeare2.jpg 450w, https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/shakespeare2-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecei a rever &#8220;Hamlet&#8221; (1996), a maravilhosa epopeia do Kenneth Branagh com 4h20 de dura\u00e7\u00e3o que \u00e9 das minhas adapta\u00e7\u00f5es favoritas da obra de Shakespeare, e quando percebi me vi relembrando da primeira vez que li o Bardo e j\u00e1 estava mandando uma mensagem pruma das bibliotecas da minha vida via Facebook: &#8220;Ol\u00e1! 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