{"id":13662,"date":"2011-03-06T12:46:37","date_gmt":"2011-03-06T15:46:37","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/03\/06\/uma-estranha-reuniao-de-fantasmas\/"},"modified":"2011-03-06T12:46:37","modified_gmt":"2011-03-06T15:46:37","slug":"uma-estranha-reuniao-de-fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2011\/03\/06\/uma-estranha-reuniao-de-fantasmas\/","title":{"rendered":"Uma estranha reuni\u00e3o de fantasmas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20110310164408im_\/https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/bunuel.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" onmouseout=\"undefined\" onmouseover=\"undefined\" title=\"undefined\" height=\"343\" width=\"450\" \/><\/p>\n<p><em>\u201cS\u00f3 voltei a Los Angeles em 1972, para a apresenta\u00e7\u00e3o de \u2018O Discreto Charme da Burguesia\u2019 no festival. Reencontrei com prazer as calmas alamedas de Beverly Hills, a impress\u00e3o de ordem e seguran\u00e7a, a amabilidade americana. Um dia, recebi o convite de George Cuckor para almo\u00e7ar, convite inesperado, pois eu n\u00e3o o conhecia. (\u2026) Tamb\u00e9m haveria, ele disse, \u2018alguns amigos\u2019.<\/em><\/p>\n<p><em>Foi na realidade um almo\u00e7o extraordin\u00e1rio. Primeiros a chegar \u00e0 magn\u00edfica mans\u00e3o de Cuckor, que nos recebeu calorosamente, vimos entrar, semicarregado por uma esp\u00e9cie de escravo negro com m\u00fasculos consider\u00e1veis, um velho espectro cambaleante, venda no olho, que reconheci como John Ford. Eu nunca estivera com ele. Para minha grande surpresa, pois julgava que ele ignorava a minha exist\u00eancia, veio sentar ao meu lado num sof\u00e1 e se disse feliz por me saber de volta a Hollywood. Contou inclusive que estava preparando um filme \u2013 \u2018a big western\u2019. Mas ele morreu alguns meses depois.<\/em><\/p>\n<p><em>Nesse momento da conversa, ouvimos uns passinhos se arrastando no assoalho. Virei e vi Hitchcock, que entrava na sala, todo r\u00f3seo e roli\u00e7o, e se dirigia para mim com os bra\u00e7os estendidos. Eu tampouco o conhecia, mas sabia que por diversas vezes havia me tecido elogios publicamente. Veio sentar ao meu lado, depois exigiu ficar \u00e0 minha esquerda durante o almo\u00e7o. Com uma das m\u00e3os em volta do meu pesco\u00e7o, meio deitado no meu ombro, n\u00e3o cessava de falar de sua adega, de seu regime (comia muito pouco) e sobretudo da perna cortada de \u2018Tristana\u2019: \u201cAh, aquela perna\u2026\u2019.<\/em><\/p>\n<p><em>Em seguida chegaram William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Ruben Mamoulian, Robert Wise e um diretor muito mais novo, Robert Mulligan. Passamos \u00e0 mesa ap\u00f3s alguns aperitivos, na penumbra de uma grande sala de jantar iluminada por candelabros. Em minha homenagem realizava-se uma estranha reuni\u00e3o de fantasmas que nunca haviam se reunido antes, todos falando dos \u2018good old days\u2019, os bons e velhos tempos. De \u2018Ben Hur\u2019 a \u2018Amor, Sublime Amor\u2019, de \u2018Quanto Mais Quente Melhor\u2019 a \u2018Interl\u00fadio\u2019, de \u2018No Tempo das Dilig\u00eancias\u2019 a \u2018Assim Caminha a Humanidade\u2019, quantos filmes ao redor daquela mesa\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>Depois da refei\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m teve a id\u00e9ia de mandar chamar um fot\u00f3grafo da imprensa para tirar o retrato da fam\u00edlia. A fotografia devia ser o \u2018collector\u2019s items\u2019 do ano. Infelizmente, John Ford n\u00e3o figura nela. Seu escravo negro voltara para peg\u00e1-lo no meio do almo\u00e7o. Ele nos disse at\u00e9 logo debilmente e, esbarrando nas mesas, partiu para n\u00e3o mais nos ver. (\u2026)<\/em><\/p>\n<p><em>No dia seguinte, Fritz Lang me convidou para visit\u00e1-lo em sua casa. Muito cansado, ele n\u00e3o pudera comparecer ao almo\u00e7o na casa de Cukor. Eu tinha 72 anos na \u00e9poca. Fritz Lang j\u00e1 passava dos oitenta. Nos encontr\u00e1vamos pela primeira vez. Conversamos durante uma hora e tive tempo de lhe dizer o papel decisivo que todos os seus filmes haviam representado na escolha da minha vida. Depois, antes de me despedir \u2013 isso n\u00e3o est\u00e1 nos meus h\u00e1bitos \u2013, pedi que me dedicasse uma fotografia. Bastante surpreso, procurou uma e autografou para mim. (\u2026) Uma dedicat\u00f3ria maravilhosa. Em seguida, me despedi e voltei para o hotel. N\u00e3o sei direito o que fiz com essa fotografia\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Luis Bu\u00f1uel em \u201cMeu \u00daltimo Suspiro\u201d (Cosac Naify)<\/em><\/p>\n<p><em>A foto: Los Angeles, 1972 (from left to right standing) Robert Mulligan, William Wyler, George Cukor, Robert Wise, Jean-Claude Carri\u00e8re, Serge Silberman; sentados) Billy Wilder, George Stevens, Bu\u00f1uel, Alfred Hitchcock, Rouben Mamoulian. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cS\u00f3 voltei a Los Angeles em 1972, para a apresenta\u00e7\u00e3o de \u2018O Discreto Charme da Burguesia\u2019 no festival. Reencontrei com prazer as calmas alamedas de Beverly Hills, a impress\u00e3o de ordem e seguran\u00e7a, a amabilidade americana. Um dia, recebi o convite de George Cuckor para almo\u00e7ar, convite inesperado, pois eu n\u00e3o o conhecia. 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