{"id":13616,"date":"2013-04-24T13:00:09","date_gmt":"2013-04-24T16:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/04\/24\/trilogia-das-cores-de-kieslowski\/"},"modified":"2013-04-24T13:00:09","modified_gmt":"2013-04-24T16:00:09","slug":"trilogia-das-cores-de-kieslowski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/04\/24\/trilogia-das-cores-de-kieslowski\/","title":{"rendered":"Trilogia das Cores, de Kieslowski"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/trilogia.jpg\" alt=\"trilogia.jpg\"\/><\/p>\n<p>Escrevi este texto em 1998, e deve ter sido um dos primeiros textos sobre cinema que publiquei, ainda na terceira edi\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o on paper do fanzine Scream &amp; Yell. Eu havia rabiscado algumas coisas antes, e publicado aqui e ali (havia um site em Taubat\u00e9 na segunda metade dos anos 90 que aceitava colabora\u00e7\u00f5es, mas guardei pouca coisa do que publiquei l\u00e1). Logo que o Scream &amp; Yell veio para a internet, em 2000, puxei ele do jeito que estava na vers\u00e3o em papel, e republiquei. Ontem \u00e0 noite, vasculhando v\u00eddeos do Youtube, encontrei os tr\u00eas filmes na integra e legendados (assista abaixo), e resolvi recuperar o texto (do jeito que escrevi 15 anos atr\u00e1s \u2013 com direito a erros, v\u00edcios, inoc\u00eancia, desconhecimento e utopias).<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"\/web\/20130430172014\/https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/krystof1.jpg\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/scream1.jpg\" title=\"scream1.jpg\" alt=\"scream1.jpg\" border=\"1\"\/><\/a><\/p>\n<p>Importante dizer: a \u201cTrilogia das Cores\u201d, de Krzystof Kieslowski, \u00e9 bastante acess\u00edvel em DVD. Primeiramente saiu uma edi\u00e7\u00e3o caprichad\u00edssima da Vers\u00e1til em 2006, com um box contendo os tr\u00eas filmes e extras interessant\u00edssimos (como o quarto v\u00eddeo deste post). Quest\u00e3o de dois ou tr\u00eas anos depois, os tr\u00eas filmes apareceram em edi\u00e7\u00f5es mais simples (e mais em conta) via Spectra Nova, e voc\u00ea pode encontrar as duas edi\u00e7\u00f5es em sites como Submarino e Mercado Livre (com pre\u00e7os entre R$ 10 e R$ 15 cada DVD no relan\u00e7amento da Spectra, e R$ 30 e R$ 40 no da Vers\u00e1til). Ainda que voc\u00ea opte por v\u00ea-los nos links abaixo, recomendo fortemente ter os DVDs em casa, pois estes tr\u00eas filmes s\u00e3o obras primas que merecem serem vistas e revistas. Sempre.<\/p>\n<p align=\"center\">&nbsp;<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/trilogia2.jpg\" alt=\"trilogia2.jpg\"\/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Trilogia das Cores, de Krzystof Kieslowski<br \/>\npor Marcelo Costa<br \/>\n1998\/1999<\/strong><\/p>\n<p><em>Talvez voc\u00ea, assim como muita gente, n\u00e3o goste do cinema europeu por ach\u00e1-lo chato demais. E, na maioria das vezes, \u00e9 chato mesmo. Mas, se toda regra tem uma exce\u00e7\u00e3o, Krzystof Kieslowski, cineasta polon\u00eas, \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o desse caso. Kieslowski filmou um total de 23 filmes, dentre os quais se destacam \u201cAmator\u201d (1979) \u2013 que conta a hist\u00f3ria de um cineasta abandonado pela mulher \u2013 e o \u201cDec\u00e1logo\u201d (1988 \u2013 feito para tv), dividido em dez partes contando cada uma, um mandamento b\u00edblico. O destaque \u00e9 o sexto mandamento, \u201cN\u00e3o Amar\u00e1s\u201d, que conta a hist\u00f3ria de um jovem (\u201dEntre o amor plat\u00f4nico e a viol\u00eancia do desejo\u201d, conforme anuncia o cartaz) que corta os pulsos ao ser rejeitado por uma mulher mais velha.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Mas sua obra-prima ainda estava por vir. Morando em Paris e desiludido com a pol\u00edtica, Krzystof resolveu filmar as dores do mundo. A Trilogia das Cores, inspirada nas cores da bandeira francesa, e em seus significados, \u00e9 um dos momentos mais po\u00e9ticos do cinema nessa d\u00e9cada.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/blue1.jpg\" alt=\"blue1.jpg\"\/><\/p>\n<p><em> <\/em><em><strong>\u201cBleu, A Liberdade \u00e9 Azul\u201d<\/strong> (1993) \u00e9 o primeiro e \u00e9 um drama. Julie (a bela Juliette Binoche de \u201cO Paciente Ingl\u00eas\u201d) perde o marido (famoso compositor) e a filha pequena em um acidente de carro. Tenta se matar, mas n\u00e3o consegue, pois se acha fraca at\u00e9 para fazer isso. Fica s\u00f3. Livre. E ser livre \u00e9, muitas vezes, dif\u00edcil. Um flautista de rua lhe diz que \u00e9 preciso se agarrar a algo, mas ela j\u00e1 n\u00e3o quer mais nada, pois bens, recorda\u00e7\u00f5es, amigos, v\u00ednculos s\u00e3o tudo armadilha. Gostaria mesmo \u00e9 de pular no espa\u00e7o, no c\u00e9u azul, mas no fundo sabe que n\u00e3o se pode renunciar a tudo. Kieslowski transforma dor em sublima\u00e7\u00e3o. \u201cBleu\u201d \u00e9 um filme silencioso, mas todos os sentimentos s\u00e3o para qualquer um tocar. Cada um \u00e9 livre para fazer o que quiser embora a liberdade maior seja estar vivo. A fotografia \u00e9 linda e a trilha sonora, do insepar\u00e1vel Zbigniew Preisner, sinf\u00f4nica e imponente.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/blanc.jpg\" alt=\"blanc.jpg\"\/><\/p>\n<p><em> <\/em><em><strong>\u201cBlanc, A Igualdade \u00e9 Branca\u201d<\/strong> (1993) \u00e9 o segundo e o mais perto que Kieslowski chega de uma com\u00e9dia. Para Karol Karol (Zbigniew Zamachowski), estar vivo n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil. Polon\u00eas de Vars\u00f3via, ela vai \u00e0 Paris e \u00e9 humilhado. Sua mulher, Dominique (a linda Julie Delpy de \u201cAntes do Amanhecer\u201d), pede o divorcio, pois diz que Karol Karol n\u00e3o \u201cconsumou\u201d o casamento \u2013 o que j\u00e1 \u00e9 com\u00e9dia demais, afinal, imagina ser impotente com uma mulher linda como Julie, que, diz em franc\u00eas algo tipo \u201cSe digo que te amo, voc\u00ea n\u00e3o entende\u201d. Em Paris, tudo d\u00e1 errado, desde seu cart\u00e3o de cr\u00e9dito ser cancelado at\u00e9 ser alvo de um tiro certeiro de um pombo. Acaba sem dinheiro, sem passaporte e sem esposa. Consegue voltar para a Pol\u00f4nia dentro de uma mala, mas, ao chegar l\u00e1, a mala \u00e9 roubada (sujeito de sorte). Quando, enfim, consegue chegar a sua casa, est\u00e1 todo arrebentado. Volta a trabalhar normalmente e com o tempo arquiteta um plano para montar uma fortuna que o possibilite aplicar as mesmas pe\u00e7as na ex-esposa, afinal, a igualdade \u00e9 branca, como um v\u00e9u de noiva, como a neve, como pombos voando e como um orgasmo. \u201cBlanc\u201d \u00e9 c\u00f4mico, mas n\u00e3o chega a ser uma com\u00e9dia. Kieslowski fez um belo filme que, se n\u00e3o fica a altura de \u201cBleu\u201d e \u201cRouge\u201d, com certeza alegra cora\u00e7\u00e3o e alma. A trilha de Preisner \u00e9 pontuada por tons melanc\u00f3licos extra\u00eddos de clarinete com suavidade e, \u00e1s vezes, sil\u00eancios. Ah, j\u00e1 ia me esquecendo. A profiss\u00e3o de Karol Karol no inicio do filme era cabelereiro\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/red.jpg\" alt=\"red.jpg\"\/>\n<\/p>\n<p><em><strong>\u201cRouge, A Fraternidade \u00e9 Vermelha\u201d<\/strong> (1994) \u00e9 o terceiro e \u00faltimo e \u00e9 simplesmente sublime. Parece mais uma poesia sem palavras amparada em uma fotografia magistral e no rosto de Irene Jacob (musa de Kieslowski que havia feito com ele, dois anos antes, o misterioso \u201cA Dupla Vida de Ver\u00f3nique\u201d) flutuando em tons vermelhos de carros, sinais fechados, bolas de boliche, outdoors, cerejas e sangue. Irene \u00e9 Valentine, modelo su\u00ed\u00e7a vivendo em Paris, longe do namorado ciumento. Sua hist\u00f3ria \u00e9 interligada a de um jovem que estuda para ser juiz. Certa noite, Valentine atropela uma cadela e ao leva-la ao endere\u00e7o da coleira, conhece um estranho senhor que passa seus dias ouvindo liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas dos vizinhos. Desse encontro surge uma amizade iniciada em repulsa, mas que, aos poucos, modifica a vida dos dois personagens. Kieslowski brinca e se diverte com os acasos, com destinos marcados para se cruzar, pois a inevitabilidade existe, embora cada um tenha que viver a sua pr\u00f3pria vida. Para ele n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil adivinhar os caminhos da vida. Basta se comunicar. Olhar nos olhos. \u201cRouge\u201d \u00e9 arrepiante e sua cena final, uma pequena surpresa, mas s\u00f3 para quem assistiu aos outros dois. Ravel passeia com seu Bolero em v\u00e1rias cenas e \u00e9 a base da excelente trilha sonora de Preisner. \u201cRouge\u201d transborda poesia e possibilidades, em sil\u00eancios comoventes, mesmo quando ca\u00ed um cinzeiro, mesmo quando vidra\u00e7as se quebram, mesmo quando um alarme de carro dispara. \u00c9 tudo como se incendi\u00e1ssemos gelo. \u00c1gua que escorre entre os dedos e deixa, por fim, as m\u00e3os molhadas\u2026<\/em><\/p>\n<param value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BjW07M5bYuE\" name=\"movie\">\n<\/param><param value=\"true\" name=\"allowFullScreen\">\n<\/param><param value=\"always\" name=\"allowscriptaccess\">\n<p align=\"center\"><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BjW07M5bYuE\" allowfullscreen=\"true\" allowscriptaccess=\"always\" height=\"300\" width=\"450\"><\/embed><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Consagrado internacionalmente ap\u00f3s a trilogia, em 1995, Kieslowski abandonou as c\u00e2meras dizendo que estava achando tudo muito chato e preferia viver ao inv\u00e9s de fazer cinema. E n\u00e3o fez mesmo. N\u00e3o teve mais tempo. Morreu de enfarto, aos 55 anos, em mar\u00e7o de 1996. \u201cA Liberdade \u00e9 Azul\u201d ganhou o Le\u00e3o de Ouro em Veneza como melhor filme e melhor fotografia, tendo ainda Juliette Binoche como melhor atriz. Binoche tamb\u00e9m ganhou o Cesar que tamb\u00e9m foi concedido ao filme nas categorias melhor montagem e melhor som. Para fechar, tr\u00eas indica\u00e7\u00f5es ao Globo de Ouro: Melhor filme estrangeiro, melhor m\u00fasica e melhor atriz. \u201cA Igualdade \u00e9 Branca\u201d deu o Urso de Prata em Berlim para Kieslowski como melhor diretor. \u201cA Fraternidade \u00e9 Vermelha\u201d ganhou Cannes como melhor filme, o Cesar por melhor trilha sonora e foi indicado ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e ao Oscar como melhor dire\u00e7\u00e3o, melhor roteiro e melhor fotografia.<\/em><\/p>\n<\/param>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevi este texto em 1998, e deve ter sido um dos primeiros textos sobre cinema que publiquei, ainda na terceira edi\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o on paper do fanzine Scream &amp; Yell. 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