{"id":13602,"date":"2013-05-03T12:30:26","date_gmt":"2013-05-03T15:30:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/05\/03\/eua-2013-new-orleans-e-o-katrina\/"},"modified":"2017-10-26T08:06:09","modified_gmt":"2017-10-26T11:06:09","slug":"eua-2013-new-orleans-e-o-katrina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/05\/03\/eua-2013-new-orleans-e-o-katrina\/","title":{"rendered":"EUA 2013: New Orleans e o Katrina"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/new1.jpg\" alt=\"new1.jpg\" \/><\/p>\n<p>Deve ser problema comigo, mas me apaixono por cidades condenadas (o que talvez explique eu morar em S\u00e3o Paulo). Um dos meus maiores sonhos \u00e9 me mudar para Veneza, uma cidade que a qualquer momento pode desaparecer inteira (Santorini \u00e9 outro sonho). New Orleans, minha nova paix\u00e3o, corre s\u00e9rios riscos, e n\u00e3o sei se me mudaria para c\u00e1, mas nem sai daqui e j\u00e1 estou planejando uma volta. Por\u00e9m, a cidade que foi devastada pelo fura\u00e7\u00e3o Katrina em 2005 (<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/1\/17\/Navy-FloodedNewOrleans.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">veja uma imagem para ter uma ideia da \u00e1rea alagada<\/a>) \u00e9 s\u00e9ria concorrente a desaparecer com o aquecimento global ou mesmo com futuros furac\u00f5es.<\/p>\n<p>Claro, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples e radical assim, mas New Orleans j\u00e1 sofreu com mais tempestades e furac\u00f5es do que n\u00f3s, brasileiros, podemos supor. Ao menos foi isso que tirei do Tour Katrina, passeio educativo que fiz hoje pelas \u00e1reas que foram tomadas pela \u00e1gua naquele ver\u00e3o de 2005 (\u201dO dia do furac\u00e3o estava lindo\u201d, conta em certo momento a nossa guia\u201d). N\u00e3o sou a favor de esmiu\u00e7ar trag\u00e9dias, ainda mais turisticamente (nunca farei as por campos de concentra\u00e7\u00e3o, nunca), mas, principalmente nesta cidade apaixonante, achei interessante conhecer esse outro lado de New Orleans at\u00e9 para entender este momento atual da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/new2.jpg\" alt=\"new2.jpg\" \/><\/p>\n<p>Carol, a guia da ag\u00eancia\u00a0<a href=\"http:\/\/www.graylineneworleans.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gray Line<\/a>, uma senhora de cabelos grisalhos que n\u00e3o poupa cr\u00edticas ao governo, aos pol\u00edticos e aos turistas que acreditam que New Orleans \u00e9 s\u00f3 jazz, d\u00e1 uma aula no passeio que dura cerca de tr\u00eas horas, e passa por diversas regi\u00f5es que foram afetadas pelo furac\u00e3o, a maioria reconstru\u00edda, mas com hist\u00f3rias interessantes sobre a trag\u00e9dia. \u201cA regi\u00e3o do Cassino ficou ilesa\u201d, ela conta em certo momento. \u201cA pol\u00edcia se transferiu pra l\u00e1. Consta que n\u00e3o houve trapa\u00e7as durante esse tempo\u201d, sarreia.<\/p>\n<p>80% da cidade de New Orleans ficou submersa. \u201cEu e minha fam\u00edlia fomos para Jackson, no Mississippi, e mesmo l\u00e1 sentimos os efeitos do furac\u00e3o\u201d, conta Carol. \u201cQuando voltei, 21 dias depois, a \u00fanica coisa que se ouvia era sil\u00eancio. N\u00e3o havia p\u00e1ssaros nem bichos. S\u00f3 sil\u00eancio\u201d. Carol foi uma das centenas de milhares de pessoas que atendeu o chamado de evacua\u00e7\u00e3o proposto pelo governo federal, que avisou: \u201cQuem ficar ser\u00e1 por sua pr\u00f3pria conta e risco\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em;\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/new3.jpg\" alt=\"new3.jpg\" \/><\/p>\n<p>S\u00e3o quase oito anos desde o furac\u00e3o, e o tour, que j\u00e1 foi citado pelo New York Times, \u00e9 interessante para observar a maneira com a cidade se reconstruiu. \u201cA Prefeitura ofereceu 150 mil d\u00f3lares para cada morador que quisesse reconstruir sua casa\u201d, ela explica. \u201cQuem quisesse se mudar poderia doar o terreno para uma institui\u00e7\u00e3o\u201d. Nas \u00e1reas mais afetadas \u00e9 poss\u00edvel ver dezenas de novas casas assim como dezenas de lotes vazios aguardando novos compradores. Muitos moradores, como o da foto acima, decidiram elevar suas antigas casas a uma altura\u00a0inalcan\u00e7\u00e1vel\u00a0por uma futura tempestade.<\/p>\n<p>Ao passar por uma regi\u00e3o de classe m\u00e9dia alta, Carol explica: \u201cGosto de passar por aqui porque muita gente acredita que s\u00f3 as \u00e1reas pobres foram afetadas, mas n\u00e3o, para o furac\u00e3o todos s\u00e3o iguais\u201d, completa com ar de sarcasmo. As hist\u00f3rias se multiplicam conforme o \u00f4nibus segue: \u201cO que voc\u00eas fariam com essa casa?\u201d, ela pergunta ao mostrar um im\u00f3vel condenado. \u201cAqui moravam um casal de velhinhos. Eles conseguiram o dinheiro para reconstruir a casa e contrataram uma pessoa para fazer isso, mas essa pessoa fugiu com a grana\u201d, conta, completando que o marido morreu logo depois, mas a senhora ainda vive ali. \u201cEles n\u00e3o foram os \u00fanicos a serem enganados\u201d, ela conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/fats.jpg\" alt=\"fats.jpg\" \/><\/p>\n<p>Em certo momento, o tour passa pela casa de Fats Domino. \u201cEle se recusou a deixar a casa\u201d, ela conta. \u201cE a \u00e1gua levou tudo: discos de ouro, memorabilia, seu piano. Ele se mudou depois, mas fez quest\u00e3o de reformar a casa e mant\u00ea-la aqui\u201d. Entre os destaques da regi\u00e3o est\u00e3o as novas casas feitas com a ajuda de gente com o pianista Ellis Marsallis Jr. (pai dos tamb\u00e9m jazzistas Brandford e Wynton), o dono das Barnes &amp; Nobles e Brad Pitt, cujo projeto\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/MIRNOLA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Make it Right<\/a>\u00a0permitiu a constru\u00e7\u00e3o e doa\u00e7\u00e3o de 90 casas futuristas (desenhadas por Frank Gehry) na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda assim, com ajuda da prefeitura e de pessoas famosas, uma quest\u00e3o vem \u00e0 cabe\u00e7a: como as pessoas continuam morando aqui? O que faz algu\u00e9m continuar vivendo em uma \u00e1rea de risco? Freud deve explicar, mas acredito que temos liga\u00e7\u00e3o com algumas cidades que coisa nenhuma consegue desafiar. Me lembro menino, numa cidade do interior, sonhando em voltar a morar em S\u00e3o Paulo (tamb\u00e9m uma cidade de risco por v\u00e1rios outros motivos), e hoje, cidade paulistano, me pego emocionado toda vez que o avi\u00e3o sobrevoa a cidade e aqueles milh\u00f5es de luzes infinitas mostram que estou em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/new4.jpg\" alt=\"new4.jpg\" \/><\/p>\n<p>Talvez seja essa for\u00e7a que mantenha as pessoas aqui, e \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar no quanto o mundo iria perder sem New Orleans. Ou, como diz a camiseta do atendente de um bar: \u201cOs EUA tem apenas tr\u00eas cidades: Nova York, S\u00e3o Francisco e Nova Orl\u00e9ans. Todas as demais s\u00e3o Cleveland\u201d. Fato \u00e9 que, pela primeira vez na vida, me arrependi dos meus 40 e tantos anos. Eu queria ter 20 anos, virar madrugadas aqui todos os dias e passar um tempo ouvindo m\u00fasica boa e vivendo enquanto fosse poss\u00edvel viver.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea ama m\u00fasica (tocando ou ouvindo) recomendo de peito aberto uma visita a New Orleans. Desde um passeio b\u00e1sico na tur\u00edstica Bourbon Street (estique at\u00e9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/skullyzrecordznola\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Skully\u2019z Recordz<\/a>, lojinha bacana de vinis e CDs no n\u00famero 907) at\u00e9 uma ou v\u00e1rias noitadas na Frenchmen Street, onde os melhores bares de jazz da regi\u00e3o est\u00e3o instalados:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mapleleafbar.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Maple Leaf<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.snugjazz.com\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Snug Harbor<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/dbabars.com\/dbano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">DBA<\/a>\u00a0e outros. Ainda h\u00e1 chance de beber uma cerveja no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.royalstreetinn.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Royal Street Inn<\/a>, bar de Greg Dulli, do Afghan Whigs (do ladinho da Frenchmen Street) \u2013 se quiser dormir por l\u00e1, tem umas su\u00edtes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em;\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/new7.jpg\" alt=\"new7.jpg\" \/><\/p>\n<p>Quem acompanhou\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/category\/eua-2011\/\">o meu tour anterior pelos Estados Unidos, em 2011<\/a>, deve se lembrar de que fui (e sou) bastante critico ao \u201camerican way of life\u201d (principalmente em compara\u00e7\u00e3o com a Europa), mas New Orleans tem pouca coisa a ver com aqueles Estados Unidos. Isso talvez se deva um pouco a coloniza\u00e7\u00e3o francesa (1718 a 1762) e espanhola (1762 a 1803), e outro tanto pela proximidade do Golfo do M\u00e9xico e dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Central, o que influenciou n\u00e3o s\u00f3 a culin\u00e1ria (creole e cajun) e a bebida, mas como tamb\u00e9m a m\u00fasica. Como n\u00e3o se cansa de repetir Lili, essa cidade \u00e9 um \u201ccaldeir\u00e3o de influ\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>Antes do furac\u00e3o, que matou mais de 1500 pessoas em toda a Louisiana, New Orleans tinha mais de 500 mil habitantes. O censo seguinte ao Katrina contabilizou 223 mil pessoas na cidade. Atualmente, a popula\u00e7\u00e3o da cidade voltou a crescer e j\u00e1 passa das 350 mil pessoas. Se eu tivesse grana, quem sabe, afinal, uma casa pr\u00e9-fabricada custa cerca de 75 mil d\u00f3lares, mas ainda preciso me preocupar com a fatura do cart\u00e3o de cr\u00e9dito e com a conta bancaria no vermelho. Ainda assim, uma coisa \u00e9 certa: tenho mais dois dias em New Orleans, mas espero voltar pra c\u00e1 o mais r\u00e1pido poss\u00edvel assim que sair daqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/new5.jpg\" alt=\"new5.jpg\" \/><\/p>\n<p align=\"center\">Leia mais: Di\u00e1rio de Viagem Estados Unidos 2013 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/category\/eua-2013\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deve ser problema comigo, mas me apaixono por cidades condenadas (o que talvez explique eu morar em S\u00e3o Paulo). Um dos meus maiores sonhos \u00e9 me mudar para Veneza, uma cidade que a qualquer momento pode desaparecer inteira (Santorini \u00e9 outro sonho). New Orleans, minha nova paix\u00e3o, corre s\u00e9rios riscos, e n\u00e3o sei se me [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13602"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13602"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13602\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15664,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13602\/revisions\/15664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13602"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13602"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13602"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}