{"id":13579,"date":"2013-06-17T02:49:07","date_gmt":"2013-06-17T05:49:07","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/06\/17\/no-trem-de-oslo-para-estocolmo\/"},"modified":"2013-06-17T02:49:07","modified_gmt":"2013-06-17T05:49:07","slug":"no-trem-de-oslo-para-estocolmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/06\/17\/no-trem-de-oslo-para-estocolmo\/","title":{"rendered":"No trem de Oslo para Estocolmo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/europa1.jpg\" alt=\"europa1.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>Noite complicada de sono em Oslo. O sol da meia-noite, bastante comum por estes lados n\u00f3rdicos nessa \u00e9poca do ano, chegou um pouco atrasado e, ali pelas duas e pouco da manh\u00e3, come\u00e7ou a invadir o quarto pelas frestas da cortina. Acordei assustado v\u00e1rias vezes durante a \u201cmadrugada\u201d ensolarada acreditando que j\u00e1 era 9h da manh\u00e3 e eu tinha perdido o trem que me levaria para Estocolmo. Desisti do sono \u00e0s 6h (o trem s\u00f3 saia \u00e0s 7h30).<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu9.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"eu9.jpg\"\/><\/p>\n<p>Na esta\u00e7\u00e3o, a ideia era trocar as coroas norueguesas (uma nota de 200 que equivale a, tipo, uns R$ 75) que ainda tenho por coroas suecas. H\u00e1 uma m\u00e1quina ali exatamente para isso e voc\u00ea pode trocar o dinheiro que tiver (sendo euro, coroa norueguesa ou sueca) por um dos tr\u00eas dispon\u00edveis. \u00c9 sensacional. Cada vez mais, as m\u00e1quinas parecem tomar o lugar das pessoas, mas, neste caso em particular, a m\u00e1quina n\u00e3o estava funcionando.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu10.jpg\" alt=\"eu10.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>Raramente escolho lugares quando compro passagens de trens e avi\u00e3o (nunca quando tenho que pagar um valor a mais para isso), mas desta vez decidi garantir um lugar na janela para admirar a paisagem. A planta do trem no site mostrava que todos os lugares pares eram na janela, paguei uns 40 krones a mais por uma vaga e n\u00e3o \u00e9 que chegando no local, os lugares pares s\u00e3o no corredor? Nunca mais reservo algo assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu12.jpg\" alt=\"eu12.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>Tudo bem que o vag\u00e3o est\u00e1 vazio e arranjei uma janelinha com tomada para carregar o computador enquanto escrevo e observo a paisagem. A Noruega, lembrando uma defini\u00e7\u00e3o semelhante de Lili sobre o Chile, \u00e9 um pa\u00eds alto e magro, desta forma, como a viagem \u00e9 vertical, devemos sair rapidamente de seu territ\u00f3rio e adentrar a Su\u00e9cia. A paisagem de casinhas \u00e9 bonita e me lembra o quanto gosto de viajar de trem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu11.jpg\" alt=\"eu11.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>Houve um tempo em que meu pai foi tentar a sorte numa cidadezinha do interior paulista chamada Bernardino de Campo, e v\u00e1rias vezes fiz o trecho \u201cS\u00e3o Paulo \/ Bernardino\u201d de trem (algumas \u00e0 noite). \u00c9 lament\u00e1vel que a malha ferrovi\u00e1ria brasileira esteja \u00e0s moscas, e que o Governo n\u00e3o invista no setor. Adoraria viajar de S\u00e3o Paulo para o Rio de Janeiro, ou, quem sabe, para o Nordeste, em um trem observando a paisagem pela janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu13.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"eu13.jpg\"\/><\/p>\n<p>No vag\u00e3o restaurante n\u00e3o encontrei nenhuma Julie Delpy, mas sim um grupo de mineiros (imagino pelo sotaque inconfund\u00edvel) de terceira idade se embananando para comprar o caf\u00e9 da manh\u00e3. Uma das senhoras estava radiante por ter pego uma barra de chocolate su\u00ed\u00e7o por 25 kr enquanto a outra se perdia numa confus\u00e3o de notas norueguesas, suecas e de euros na hora de pagar. A senhora do caixa, atenciosa, explicava as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu15.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"eu15.jpg\"\/><\/p>\n<p>Voltei a ler algumas p\u00e1ginas de \u201cComo \u00e9 Bela a Puta da Vida\u201d, livro novo do portugu\u00eas Miguel Esteves Cardoso, presente do amigo Bruno Capelas. O livro, compila\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas do autor publicadas em jornal, \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de amor do jornalista \u00e0 sua esposa, e narra, na primeira parte, a descoberta de seu c\u00e2ncer, e o tratamento. \u201cLogo Maria Jo\u00e3o poder\u00e1 tocar as flores sem que estas fiquem azuis\u201d, descreve Miguel ao fim da quimioterapia da mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu16.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"eu16.jpg\"\/><\/p>\n<p>Al\u00e9m da escrita emocional do autor, o que me comove \u00e9 a maneira leve com que ele (e principalmente ela, que o ensinou a levar a vida com calma) narra o tratamento e a expectativa de que o casal sa\u00edsse vencedor deste combate cruel. No \u00faltimo texto que li, Miguel conta que come\u00e7ou a valorizar o \u201ctempo perdido\u201d, mesmo em frente a sem\u00e1foros. \u201cSe somarmos o tempo parado em far\u00f3is esperando o verde, quantos ver\u00f5es daria?\u201d, questiona.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu17.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"eu17.jpg\"\/><\/p>\n<p>Aproveitar o tempo, ele faz quest\u00e3o de frisar, n\u00e3o \u00e9 ligar para amigos no meio de um congestionamento, mas sim aprender a n\u00e3o fazer nada e admirar um jardim. Olhar a pessoa amada, saborear um caf\u00e9, escutar uma can\u00e7\u00e3o sem se preocupar que existam mais n\u00e3o sei l\u00e1 quantos discos novos dispon\u00edveis. A velocidade do tempo, turbinada pela necessidade de estar atualizado a respeito de tudo e todos, est\u00e1 atropelando a calma. Precisamos combater isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu18.jpg\" alt=\"eu18.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>Oslo foi uma surpresa. Esperava (acho que todo mundo espera) um pa\u00eds de loiros e loiras, ruivos e ruivas n\u00f3rdicas, e, claro, eles existem, mas a popula\u00e7\u00e3o (ao menos na capital) \u00e9 bem dividida entre negros, indianos, turcos, japoneses e tudo mais. A cidade parece conviver bem com isso, embora em Malmo, na ponta do pa\u00eds, a di\u00e1spora racial ainda seja forte e latente. Algumas loiras s\u00e3o encantadoramente lindas, mas as norueguesas morenas n\u00e3o ficam atr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu8.jpg\" alt=\"eu8.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>A paisagem da janela do trem \u00e9 verde e exuberante, e as casas s\u00e3o simples. Meu vizinho de poltrona sai do trem em toda parada para dar duas ou tr\u00eas baforadas em seu cachimbo, o que transforma esse fundo do vag\u00e3o em um enorme cinzeiro. Logo fugirei e retornarei ao vag\u00e3o restaurante para provar a cerveja de 2.1% de \u00e1lcool servida no local. Segundo o gar\u00e7om no Mathallen, a lei sueca \u00e9 ainda mais r\u00edgida em rela\u00e7\u00e3o \u00e1 bebida. Sem muita expectativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu7.jpg\" alt=\"eu7.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>As cidades passam pela janela. Arvika, Kil, Kristinehamn. Todas muito charmosas e sedutoras. A vida parece calma aqui, e penso se conseguiria domar minha ansiedade morando em lugares assim. Sinto vontade, mas n\u00e3o de viver aqui, claro. O ver\u00e3o \u00e9 algo \u00fanico, mas o inverno me destruiria facilmente. N\u00e3o sei o que seria mais dif\u00edcil: conviver com o frio e a neve ou comigo mesmo e meus pensamentos trancado numa casinha de uma vilinha qualquer sueca.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu6.jpg\" alt=\"eu6.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>A trilha sonora da viagem \u00e9 \u201cVazio Tropical\u201d, novo disco do amigo Wado, aqui produzido por Marcelo Camelo. Eu j\u00e1 gostava de \u201cCidade Grande\u201d na vers\u00e3o de Cris Braun, e a vers\u00e3o de Wado valoriza a boa letra. \u201cRosa\u201d \u00e9 Wado em seu melhor: \u201cOs olhos dela ensinam estrelas a brilhar, vai doer \/ Os bra\u00e7os dela ensinam ondas a quebrar, vai doer \/ Vai doer, mas depois vai passar\u201d. A dor est\u00e1 intrinsicamente ligada ao amor. Vai doer, mas depois vai passar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu5.jpg\" alt=\"eu5.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>H\u00e1 algo de Chico Buarque em \u201cFlores do Bem\u201d, talvez seja o vocal de MoMo, que engrandece a \u00f3tima letra. \u201cMinha m\u00e3e me queria grande, eu preferi comprar minhocas, eu decidi pescar uns peixes \/ Meu pai me queria homem, eu preferi regar as plantas, eu decidi colher as flores \/ Minha m\u00e3e me queria santo, eu descobri que amava os v\u00edcios, eu precisei andar com as bruxas \/ Meu pai me queria imp\u00e1vido, eu preferi correr das brigas, eu aceitei levar uns socos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eu4.jpg\" alt=\"eu4.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o tenho uma opini\u00e3o formada sobre o \u00e1lbum, o mais s\u00fatil de toda carreira de Wado, com uma sonoridade despida que remete aos discos solo da carreira solo de Marcelo Camelo \u2013 aqui com a vantagem das can\u00e7\u00f5es terem foco e proposito, e n\u00e3o serem apenas rascunhos como nos trabalhos do ex-Los Hermanos. Al\u00e9m de Wado ando ouvindo muito \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d, disco forte do Apanhador S\u00f3 que cresce absurdos a cada nova audi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/europa3.jpg\" alt=\"europa3.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>Terei apenas um dia e meio em Estocolmo, e terei que aproveitar ao m\u00e1ximo o sol se pondo quase \u00e0s 23h. Na quarta, durante a madrugada (provavelmente ensolarada) estarei a caminho de Eindhoven, na Holanda, onde montarei meu quarto general particular para acompanhar o Best Kept Secret Festival. Dali para Bruxelas, na segunda, e dois dias depois estarei de volta a S\u00e3o Paulo. O segundo semestre promete mudan\u00e7as, e que elas venham para o bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/europa2.jpg\" alt=\"europa2.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\"\/><\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 nisso que consigo pensar\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noite complicada de sono em Oslo. O sol da meia-noite, bastante comum por estes lados n\u00f3rdicos nessa \u00e9poca do ano, chegou um pouco atrasado e, ali pelas duas e pouco da manh\u00e3, come\u00e7ou a invadir o quarto pelas frestas da cortina. Acordei assustado v\u00e1rias vezes durante a \u201cmadrugada\u201d ensolarada acreditando que j\u00e1 era 9h da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[49],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13579"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13579"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13579\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}