{"id":13574,"date":"2013-06-20T02:39:40","date_gmt":"2013-06-20T05:39:40","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/06\/20\/o-conto-de-duas-cidades-holandesas\/"},"modified":"2016-03-27T02:41:46","modified_gmt":"2016-03-27T05:41:46","slug":"o-conto-de-duas-cidades-holandesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/06\/20\/o-conto-de-duas-cidades-holandesas\/","title":{"rendered":"O conto de duas cidades (holandesas)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del11.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del11.jpg\"\/><\/p>\n<p>Dormi na d\u00favida se iria para um lugar conhecido (Amsterdam) ou um desconhecido (Haia) no dia seguinte, e acordei decidido a encarar o novo. Amsterdam \u00e9 uma das minhas cidades prediletas, e voltarei a ela oportunamente, com mais tempo e menos correria. Haia, por sua vez, tinha a sedu\u00e7\u00e3o do novo e a possibilidade de reencontrar Johannes Vermeer, um dos pintores pelo qual meu apre\u00e7o mais aumentou nos \u00faltimos anos. No fim do dia, um misto de decep\u00e7\u00e3o e euforia. Ainda assim, foi um daqueles dias pra l\u00e1 de especiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del2.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del2.jpg\"\/><\/p>\n<p>O dia amanheceu ensolarado, mas logo o c\u00e9u ficou nublado, sem chuva, mas cinza. No trem, lendo o guia que me acompanha desde sempre (<a href=\"http:\/\/oviajante.uol.com.br\/index.php?id=2&amp;pag=6&amp;subid=1\" target=\"_blank\">Guia Criativo Para o Viajante Independente \u2013 Europa<\/a>), o pessoal destacava Delft, uma cidadezinha ao lado de Haia, que muitos chamam de mini Amsterdam por sua quantidade de canais, e tem como m\u00e9rito ser a terra natal de Vermeer. Melhor: toda quinta-feira, a pra\u00e7a central, de caracter\u00edstica medieval, recebe uma animada feirinha, que se estende pelas ruas paralelas. Na hora e local certos. Partiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del3.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del3.jpg\"\/><\/p>\n<p>Delft \u00e9 daquelas cidadezinhas pitorescas pelas quais a gente se apaixona nos primeiros passos pelas ruas de paralelep\u00edpedos. Os canais, sim, lembram Amsterdam, mas o clima de cidade do interior \u00e9 o que mais encanta. A pra\u00e7a hist\u00f3rica \u2013 local de feiras e julgamentos p\u00fablicos no s\u00e9culo 13 \u2013 mant\u00e9m o formato de antigamente com a igreja g\u00f3tica de um lado (o poder religioso) e a prefeitura logo em frente, do outro (o poder administrativo). Entre uma e outra, dezenas de casinhas, restaurantes, caf\u00e9s e tudo o mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del4.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del4.jpg\"\/><\/p>\n<p>A feirinha estava fervendo quando cheguei. Barraquinhas com queijo holand\u00eas, roupas, doces, tortas, aparelhos eletr\u00f4nicos, vinis e tudo mais chamavam a aten\u00e7\u00e3o dos transeuntes, mas quem estava fazendo o maior sucesso era o tiozinho da barraca de peixes. No modelo feirante que usa a voz pra chamar a aten\u00e7\u00e3o do fregu\u00eas, ele limpava o Arenque (pequeno peixe gordoruso e famoso por estes lados), jogava no sal e na cebola, e quem quisesse era s\u00f3 pegar o bicho cru e mandar ver. Fiquei quatro horas na cidade, e a barraca sempre esteve lotada.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del5.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del5.jpg\"\/><\/p>\n<p>No quesito vinis, encontrei uma barraca bacana. Ap\u00f3s o dono perguntar se eu era norte-americano (pela minha camiseta da Third Man Records, Nashville, Tennessee), e eu responder que n\u00e3o, ele j\u00e1 foi me oferecendo um \u00e1lbum do Johnny Cash com June Carter. Gostei. Ainda levei uma colet\u00e2nea de Django Reinhardt e o terceiro grande \u00e1lbum solo de Rod Stewart. Chorei um desconto e a brincadeira saiu por 13 euros. Na barraca seguinte achei o \u201cDeja Vu\u201d, de Crosby, Stills, Nash &amp; Young, edi\u00e7\u00e3o original. Saiu mais caro: 7 euros.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del6.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del6.jpg\"\/><\/p>\n<p>E l\u00e1 fui eu para um dos caf\u00e9s beber uma cerveja e admirar as aquisi\u00e7\u00f5es. Escolhi uma Vermeer Gruyt Bier (j\u00e1 tinha pego duas cervejas Vermeer na lojinha sobre o pintor), segunda cerveja feita com gruit (e n\u00e3o com l\u00fapulo) que bebo. Para contrabalan\u00e7ar o malte e conservar a cerveja durante mais tempo, no desconhecimento das propriedades do l\u00fapulo (descoberto no s\u00e9culo 12), era usado um gruit, mistura de ervas arom\u00e1ticas que funcionavam como tempero e concediam a cada cerveja um sabor particular. Gostei da&nbsp;<span style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\">Vermeer Gruyt.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del7.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del7.jpg\"\/><\/p>\n<p>E t\u00f4 eu ali, namorando os vinis, e uma senhora holandesa da mesa ao lado come\u00e7a a puxar papo. Assim que digo que sou de S\u00e3o Paulo, ela emenda: \u201cAs coisas est\u00e3o s\u00e9rias l\u00e1, hein\u201d. O bate papo animado (vinis x CDs, Johnny Cash, espuma da cerveja) durou uma meia-hora, e ela se despediu pedindo para eu aproveitar a Holanda. \u201cTome cuidado quando voltar para S\u00e3o Paulo. Estou acompanhando pela TV\u201d, ela disse. \u201c\u00c9 um momento muito importante para n\u00f3s\u201d, comentei. \u201cEu sei, \u00e9 muito bom ver o povo reagindo\u201d, ela finalizou. Segurei as l\u00e1grimas, mas elas me venceram uns tr\u00eas minutos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del8.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del8.jpg\"\/><\/p>\n<p>Encantado com Delft esqueci que havia um museu a ser visto na pr\u00f3xima cidade. Parti em dire\u00e7\u00e3o a Den Haag (que \u00e9 como os holandeses conhecem Haia) e ao museu&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.mauritshuis.nl\/\" target=\"_blank\">Mauritshuis<\/a>, mas como o Jonas Lopes j\u00e1 havia comentado em um post anterior, ele est\u00e1 fechado para reforma, e \u201cemprestou\u201d 100 obras suas para o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.gemeentemuseum.nl\/\" target=\"_blank\">Gemeente Museum<\/a>, e para alguns outros museus ao redor do mundo. Duas horas apenas para encontra-lo, ent\u00e3o bora atr\u00e1s do Museu Municipal. Encontrei, vi toda exposi\u00e7\u00e3o, e sai um pouco frustrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del9.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del9.jpg\"\/><\/p>\n<p>Primeiro porque uma das principais obras do Mauritshuis, a Scarlett Johansson com Brinco de P\u00e9rola (hehe), n\u00e3o estava no Gemeente, e sim passeando pelo mundo (\u00faltimo paradeiro: S\u00e3o Francisco). Segundo porque s\u00f3 h\u00e1 dois quadros de Vermeer na mostra. \u201cVermeer \u00e9 conhecido pelos quadros pequenos de cenas cotidianas\u201d, explicava o texto de um deles. \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/a\/a2\/Vermeer-view-of-delft.jpg\" target=\"_blank\">Este, de sua primeira fase, \u00e9 diferente<\/a>\u201d. Ou seja, al\u00e9m de ter apenas dois Vermeer em exposi\u00e7\u00e3o, nenhum dos dois traz os tra\u00e7os cl\u00e1ssicos pelos quais o pintor veio a ser conhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del13.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del13.jpg\"\/><\/p>\n<p>A obra de Vermeer \u00e9 pequena. Consta aproximadamente 45 quadros em seu nome, e destes j\u00e1 tive o prazer de ver \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/a\/a8\/Vermeer_-_The_Milkmaid.jpg\" target=\"_blank\">A Leiteira<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/d\/db\/Vermeer%2C_Johannes_-_Woman_reading_a_letter_-_ca._1662-1663.jpg\" target=\"_blank\">Mulher de Azul, Lendo uma Carta<\/a>\u201d (que esteve no MASP no come\u00e7o do ano), \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/7\/70\/Jan_Vermeer_van_Delft_013.jpg\" target=\"_blank\">Mulher Tocando Guitarra<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/8\/8f\/Jan_Vermeer_van_Delft_024.jpg\" target=\"_blank\">Senhora diante do Virginal<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/3\/32\/JohannesVermeer-TheAstronomer%281668%29.jpg\" target=\"_blank\">O Astr\u00f4nomo<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/9\/9b\/Jan_Vermeer_van_Delft_016.jpg\" target=\"_blank\">A Rendeira<\/a>\u201d. Estava com expectativa de ver \u201c<a href=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/6\/66\/Johannes_Vermeer_%281632-1675%29_-_The_Girl_With_The_Pearl_Earring_%281665%29.jpg\" target=\"_blank\">A Mo\u00e7a com Brinco de P\u00e9rola<\/a>\u201d (conhecido por estes lados como \u201cA MonaLisa Holandesa\u201d), mas vai ficar para uma pr\u00f3xima vez, afinal pretendo voltar a Delft, e estando aqui esticar para Haia \u2013 e tamb\u00e9m para Rotterdam, a fim de ver as&nbsp;<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Cube_house\" target=\"_blank\">casas cubistas<\/a>&nbsp;de Piet Blom.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del12.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del12.jpg\"\/><\/p>\n<p>N\u00e3o que o passeio pelo Gemeente Museum tenha sido em v\u00e3o. V\u00e1rios Rembrandt (incluindo \u201c<a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_dxuaCDxnsfM\/TA5enR7XSvI\/AAAAAAAAAKQ\/2DnUz8ypuKw\/s1600\/rembrnt.bmp\" target=\"_blank\">Aula de Anatomia do Dr. Tulp<\/a>\u201d), alguns Francis Bacon, mais Picasso, Van Gogh, Cezanne, Kandinski e Monet credenciam o museu. Entre os meus preferidos, alguns de Peter Paul Rubens e outros de Frans van Mieris (este \u00faltimo lembrando cenas de Vermeer, mas com um toque de ironia que inexiste na obra do mais famoso). Na verdade, gostei mais da exposi\u00e7\u00e3o de arte moderna do que dos cl\u00e1ssicos. A vers\u00e3o 2013 de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/eva.jpg\" target=\"_blank\">Eva<\/a>\u201d, com cueca, seminua, gata, e segurando uma folha de maconha na m\u00e3o ao inv\u00e9s de uma ma\u00e7\u00e3, \u00e9 uma baita tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del111.jpg\" style=\"font-size: 1em; line-height: 1.3em\" alt=\"del111.jpg\"\/><\/p>\n<p>O saldo final do dia foi mais uma cidade apaixonante, quatro vinis, tr\u00eas CDs (\u201cOn Stage\u201d, um show do Elvis Costello de 1996; \u201cAt The Beacon Theatre 2003\u201d, do Radiohead; \u201cLive Germany 1985\u201d, do R.E.M.), duas cervejas (al\u00e9m da Vermeer Gruyt, peguei tamb\u00e9m a Vermeer Mueselare) e algumas l\u00e1grimas. Nesta sexta-feira come\u00e7a o Best Kept Secret Festival, e a programa\u00e7\u00e3o destaca shows de Maccabees, Fuck Buttons, Surf Blood e Arctic Monkeys. Antes, por\u00e9m, tenho um tour reservado na Abadia de La Trappe. O dia promete\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/del10.jpg\" alt=\"del10.jpg\"\/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Leia mais: Di\u00e1rio de Viagem Europa 2013 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/category\/europa-2013\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dormi na d\u00favida se iria para um lugar conhecido (Amsterdam) ou um desconhecido (Haia) no dia seguinte, e acordei decidido a encarar o novo. Amsterdam \u00e9 uma das minhas cidades prediletas, e voltarei a ela oportunamente, com mais tempo e menos correria. 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