{"id":13556,"date":"2013-08-31T00:24:59","date_gmt":"2013-08-31T03:24:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/08\/31\/hemingway-a-fome-como-boa-disciplina\/"},"modified":"2016-03-27T00:39:11","modified_gmt":"2016-03-27T03:39:11","slug":"hemingway-a-fome-como-boa-disciplina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/08\/31\/hemingway-a-fome-como-boa-disciplina\/","title":{"rendered":"Hemingway: A Fome como Boa Disciplina"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cSe voc\u00ea n\u00e3o se alimentava bem em Paris, tinha sempre uma fome danada, pois todas as padarias exibiam coisas maravilhosas em suas vitrinas e muitas pessoas comiam ao ar livre, em mesas na cal\u00e7ada, de modo que por toda a parte via comida ou sentia o seu cheiro. Se voc\u00ea abandonou o jornalismo e ningu\u00e9m nos Estados Unidos se interessa em publicar o que est\u00e1 escrevendo, se \u00e9 obrigado a mentir em casa, explicando que j\u00e1 almo\u00e7ara com algu\u00e9m, o melhor que tem a fazer \u00e9 passear nos jardins do Luxembourg, onde n\u00e3o via nem cheirava comida, desde a Place de l\u2019Observatoire at\u00e9 a rue de Vaugirard. Poder\u00e1 sempre entrar no Mus\u00e9e du Luxembourg, onde todos os quadros ficam mais vivos, mais claros e mais belos quando se est\u00e1 com a barriga vazia, ro\u00eddo de fome.<\/em><\/p>\n<p><em>Aprendi a compreender C\u00e9zanne muito melhor, a entender realmente como \u00e9 que pintava suas paisagens quando estava faminto. Costumava perguntar a mim mesmo se ele tamb\u00e9m tinha passado fome quando pintava, mas imaginava que talvez apenas se tivesse esquecido de comer. Era um daqueles pensamentos doentios mas brilhantes que nos ocorrem quando estamos com falta de sono ou de comida. Mais tarde, bem mais tarde, conclu\u00ed que C\u00e9zanne provavelmente passara fome, mas de maneira diferente.<\/em><\/p>\n<p><em>Depois de ter sa\u00eddo do Luxembourg, voc\u00ea poderia andar pela estreita rue F\u00e9rou at\u00e9 a Place St. Sulpice sem ver restaurante algum, somente a pra\u00e7a silenciosa, com seus bancos e suas \u00e1rvores. Havia uma fonte com le\u00f5es, e pombos andavam nas cal\u00e7adas ou pousavam nas est\u00e1tuas dos bispos.<\/em><\/p>\n<p><em><\/p>\n<p>No lado norte da pra\u00e7a ficavam a igreja e lojas que vendiam objetos religiosos e paramentos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da pra\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o podia prosseguir em dire\u00e7\u00e3o ao rio sem passar por lojas que vendiam frutas, legumes, vinhos, ou por padarias e pastelarias. Mas, escolhendo cuidadosamente o caminho, conseguiria avan\u00e7ar pela direita, ao redor da igreja de pedra, cinzenta e branca, chegar \u00e0 rue de l\u2019Od\u00e9on e virar de novo \u00e0 direita em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 livraria de Sylvia Beach, sem encontrar muitos lugares onde se vendessem coisas de comer. A rue de l\u2019Od\u00e9on era desprovida de restaurantes at\u00e9 chegar \u00e0 pra\u00e7a, onde havia tr\u00eas.<\/p>\n<p><\/em><\/p>\n<p><em><\/em><em>Quando chegasse \u00e0 rue de l\u2019Od\u00e9on, n\u00ba 12, a fome estaria contida mas por outro lado, todos os seus sentidos estariam agu\u00e7ados. As fotografias lhe pareceriam diferentes e descobriria livros que nunca tinha visto antes.\u201d<\/em><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Do livro \u201cParis \u00e9 Uma Festa\u201d,&nbsp; Ernest Hemingway aos 22 anos <\/strong><\/p>\n<p>(dica do <a href=\"https:\/\/twitter.com\/rufatto\" target=\"_blank\">@rufatto<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe voc\u00ea n\u00e3o se alimentava bem em Paris, tinha sempre uma fome danada, pois todas as padarias exibiam coisas maravilhosas em suas vitrinas e muitas pessoas comiam ao ar livre, em mesas na cal\u00e7ada, de modo que por toda a parte via comida ou sentia o seu cheiro. 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