{"id":13547,"date":"2013-09-30T23:29:52","date_gmt":"2013-10-01T02:29:52","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/09\/30\/as-bibliotecas-da-minha-vida\/"},"modified":"2023-05-29T19:49:12","modified_gmt":"2023-05-29T22:49:12","slug":"as-bibliotecas-da-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/09\/30\/as-bibliotecas-da-minha-vida\/","title":{"rendered":"As bibliotecas da minha vida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/mac3.jpg\" alt=\"mac3.jpg\" \/><\/p>\n<p>No domingo, 29 de setembro, o Estad\u00e3o publicou uma reportagem sobre o pouco uso das bibliotecas p\u00fablicas em S\u00e3o Paulo, com a seguinte chamada: \u201c<a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/impresso,bibliotecas-publicas-a-espera-de-leitores,1079988,0.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Algumas t\u00eam mais funcion\u00e1rios que usu\u00e1rios: H\u00e1 m\u00eas que n\u00e3o vem ningu\u00e9m, diz bibliotec\u00e1ria<\/a>\u201d. Para um cara como eu, que teve em bibliotecas p\u00fablicas boa parte de sua forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 um dado arrasador. Ent\u00e3o decidi relembrar algumas hist\u00f3rias\u2026<\/p>\n<p>Houve um tempo, ainda quando eu morava em Taubat\u00e9 (ou seja, no s\u00e9culo passado), e o dinheiro era bastante raro, que eu era s\u00f3cio de v\u00e1rias bibliotecas na cidade, e costumava variar principalmente entre duas: a Biblioteca do Sesi e, minha amada, a Biblioteca Municipal de Taubat\u00e9, que fica ainda hoje no Parque Doutor Barbosa de Oliveira, no centro da cidade, ao lado da antiga rodovi\u00e1ria e da esta\u00e7\u00e3o de trens (desativada) da cidade.<\/p>\n<p>A Biblioteca Municipal de Taubat\u00e9 foi praticamente a respons\u00e1vel por grande parte da minha forma\u00e7\u00e3o de leitor. Houve um tempo, em que j\u00e1 ass\u00edduo frequentador, a bibliotec\u00e1ria me deixava entrar e fu\u00e7ar o acervo, o que era muito mais instigante do que pedir um livro sem saber tudo que tinha l\u00e1 dentro \u2013 hoje em dia, para felicidade dos poucos usu\u00e1rios, quase todas as bibliotecas municipais tem livro acesso, mas antigamente n\u00e3o era assim.<\/p>\n<p>Boa parte dos livros que amo foram emprestados da Biblioteca Municipal de Taubat\u00e9. Certo dia, como meu cadastro j\u00e1 estava repleto de folhas grampeadas, a bibliotec\u00e1ria decidiu abrir um novo cadastro, e me ofereceu as folhas que traziam os livros que eu tinha retirado meses antes, e tudo que me importa est\u00e1 ali, naquelas folhas, que giram em torno de velhos companheiros, alguns que se repetem em pequenos intervalos de semana.<\/p>\n<p>H\u00e1, olhando com calma (\u00e9 s\u00f3 olhar clicando na imagem no fim do post) coisas de Lygia Fagundes Telles (\u201cCiranda de Pedra\u201d, \u201cOs Melhores Contos\u201d, \u201cSeleta\u201d, \u201cVer\u00e3o no Aqu\u00e1rio\u201d), Clarice Lispector (\u201cIlus\u00f5es do Mundo\u201d, \u201cPoesias Completas\u201d), \u00c9rico Verissimo (a cole\u00e7\u00e3o \u201cO Tempo e o Vento\u201d), Vinicius (\u201cAntologia Po\u00e9tica\u201d), Euclides da Cunha (\u201cOs Sert\u00f5es\u201d), Oscar Wilde (\u201cObras Completas\u201d), Proust (\u201cNo Caminho de Swan\u201d) e muitos outros.<\/p>\n<p>Muitos destes comprei (a cole\u00e7\u00e3o \u201cO Tempo e o Vento\u201d, os livros da Lygia Telles, as obras completas do Oscar Wilde, a cole\u00e7\u00e3o \u201cEm Busca do Tempo Perdido\u201d), e sempre sonhei em reencontrar a cole\u00e7\u00e3o de Shakespeare que havia naquela Biblioteca, mais de 30 volumes numa encaderna\u00e7\u00e3o azul com um impec\u00e1vel rodap\u00e9 que situava todas as hist\u00f3rias tanto quanto inspira\u00e7\u00f5es que Shakespeare teria tido para escrever tal passagem. <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2017\/10\/25\/shakespeare-e-eu\/\">Amo aqueles volumes<\/a> (Ps 2023: Consegui comprar a cole\u00e7\u00e3o!!!)<\/p>\n<p>Certo dia (meio dos anos 90, acho) apareci para retirar um livro na Biblioteca do Sesi, que n\u00e3o era t\u00e3o abastada quanto a Biblioteca Municipal, mas costumava trazer alguns t\u00edtulos novos, como coisas de Salman Rushdie, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me trair. A bibliotec\u00e1ria perguntou se eu tinha cadastro, e respondi que sim, afinal havia estudado no Sesi (6\u00aa e 7\u00aa s\u00e9ries) e vez por outra aparecia para emprestar um livro.<\/p>\n<p>Olhando os arquivos ela encontrou a minha ficha, que trazia a 3\/4 que abre esse post. \u201cPrecisamos atualizar, porque voc\u00ea tem 11 anos nessa foto\u201d, ela brincou. E eu troquei aquela foto de 11 por uma de 20 e poucos, meio que emocionado por relembrar das coisas que eu j\u00e1 tinha lido daquele espa\u00e7o, e guardei aquele pequeno retrato de um garoto que nada sabia da vida (n\u00e3o que eu sabia muito mais hoje em dia).<\/p>\n<p>Quis o destino, feliz, que um dia, na escurid\u00e3o nebulosa do meu futuro absolutamente incerto, eu passasse em um concurso p\u00fablico para trabalhar em uma das bibliotecas da Universidade de Taubat\u00e9, e isso n\u00e3o s\u00f3 mudou a minha vida radicalmente (abrindo portas para que eu entrasse no curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social e estivesse aqui agora) como se instala at\u00e9 hoje como um dos melhores e mais felizes per\u00edodos da minha vida.<\/p>\n<p>Pessoalmente, n\u00e3o vou h\u00e1 uma biblioteca h\u00e1 tempos, porque acabei adquirindo quase todos os livros que amava, e mais umas duas centenas que se acumulam \u00e0 minha frente esperando o seu momento de leitura. Gosto de pensar que estou montando a minha biblioteca, e guardando para a velhice (e para <del>minhas filhas<\/del> meu filho) livros que nunca li, e outros que vou reler, e comparar os sentimentos da primeira leitura (ser\u00e1 que \u201cO Lobo da Estepe\u201d bater\u00e1 com a mesma for\u00e7a que bateu aos 16 anos? E \u201cO Macaco e a Ess\u00eancia\u201d?).<\/p>\n<p>Todas as vezes que me ponho a discutir sobre pol\u00edtica e problemas do pa\u00eds, se afunilo a discuss\u00e3o, o resultado inevitavelmente desemboca em educa\u00e7\u00e3o, no obrigat\u00f3rio dom que todo cidad\u00e3o precisa exercitar para dominar suas ideias e exp\u00f4-las de uma forma que fuja da manipula\u00e7\u00e3o. Argumentar. Ler, nessa sociedade de capitalismo oportunista, \u00e9 t\u00e3o vital quando respirar, e, nesse desenho de sociedade, as bibliotecas s\u00e3o cada vez mais obrigat\u00f3rias.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou ficar aqui enaltecendo a import\u00e2ncia da leitura. Minha ideia \u00e9 apenas pagar uma parcela de um enorme d\u00e9bito que tenho com as bibliotecas p\u00fablicas, lugares que ampliaram meu modo de olhar o mundo, e que ajudaram a construir a pessoa que sou hoje. N\u00e3o consigo me imaginar sem as bibliotecas da minha vida. N\u00e3o consigo aceitar bibliotecas vazias. Que esse cen\u00e1rio mude. Logo. \u00c9 importante para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/livros2.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/livros.jpg\" alt=\"livros.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Top 10 Livros da Minha Vida, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/09\/13\/dos-descaminhos-da-melancolia\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No domingo, 29 de setembro, o Estad\u00e3o publicou uma reportagem sobre o pouco uso das bibliotecas p\u00fablicas em S\u00e3o Paulo, com a seguinte chamada: \u201cAlgumas t\u00eam mais funcion\u00e1rios que usu\u00e1rios: H\u00e1 m\u00eas que n\u00e3o vem ningu\u00e9m, diz bibliotec\u00e1ria\u201d. 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