{"id":13537,"date":"2013-10-28T10:39:01","date_gmt":"2013-10-28T13:39:01","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/10\/28\/entrevista-manual-do-jornalismo-musical\/"},"modified":"2016-03-24T11:20:39","modified_gmt":"2016-03-24T14:20:39","slug":"entrevista-manual-do-jornalismo-musical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2013\/10\/28\/entrevista-manual-do-jornalismo-musical\/","title":{"rendered":"Entrevista: Manual do Jornalismo Musical"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/manual.jpg\" height=\"180\" width=\"450\" \/><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>por Adriano Oshiro, outubro de 2013<\/strong><\/p>\n<p><em>Existem algumas maneiras de medir o sucesso na internet. N\u00famero de visitas, quantidade de men\u00e7\u00f5es, conte\u00fado relevante, etc. Agora, junte tudo isso e ainda seja convidado a falar de seu projeto digital ao lado do editor de um dos jornais mais importantes do mundo. Esse \u00e9 o caso do Marcelo Costa, criador do Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Nascido em S\u00e3o Paulo, mas crescido em Taubat\u00e9, Costa come\u00e7ou a escrever um fanzine de cultura pop nos anos 90, quando ainda fazia faculdade de Publicidade. Leitor ass\u00edduo da Bizz, NME, Ilustrada e tudo quanto fosse publica\u00e7\u00e3o cultural da \u00e9poca, o jovem estudante distribu\u00eda as revistas, que fazia com a ajuda de um colega, pelo campus da universidade e ainda enviava um exemplar para os jornalistas que costumava ler nas suas publica\u00e7\u00f5es favoritas.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Justamente por meio dessa divulga\u00e7\u00e3o, foi convidado a trabalhar em S\u00e3o Paulo, no IG, em 1998. Ao chegar na capital, levou o fanzine impresso para a web e, desde ent\u00e3o, toca o projeto falando de m\u00fasica, cinema e at\u00e9 sobre cerveja e viagens, j\u00e1 que n\u00e3o se limita a abordar nenhum assunto que considere interessante.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Desde que migrou para a internet, o publicit\u00e1rio com alma de jornalista foi rep\u00f3rter, editor e designer do Scream &amp; Yell. Mas, com o site crescendo e ganhando cada vez mais espa\u00e7o, come\u00e7ou a receber colabora\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias partes do pa\u00eds. Alguns colaboradores chegaram a ser t\u00e3o freq\u00fcentes que acabaram se tornando parte integrante do Scream e amigos pessoais de Costa, por\u00e9m, no dia a dia, \u00e9 ele quem toca o projeto.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>O Scream sempre foi desenvolvido paralelamente a outros trabalhos do autor, que tamb\u00e9m passou pela reda\u00e7\u00e3o do Not\u00edcias Populares, IG e Terra, al\u00e9m de colaborar para as revistas Rolling Stone Brasil, Billboard e GQ. Ainda assim, o hobby nunca deixou de ser levado a s\u00e9rio e, raramente, fica sem atualiza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Antes de ter um dom\u00ednio pr\u00f3prio na web, o Scream fazia parte da plataforma HPG, um dos maiores sites de hospedagem gratuito, da \u00e9poca. Entre 1998 e o in\u00edcio dos anos 2000, a maioria dos fanzines impressos come\u00e7aram a se digitalizar, aproveitando as facilidades que as plataformas de gerenciamento de conte\u00fado ofereciam, o que permitiu que todos pudessem criar o pr\u00f3prio site ou blog rapidamente.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Desde o in\u00edcio do projeto, Marcelo Costa teve uma preocupa\u00e7\u00e3o em manter uma linha jornal\u00edstica, contextualizando informa\u00e7\u00e3o e oferecendo entrevistas e reportagens. As opini\u00f5es mais pessoais, o autor passou a deixar no blog Calmantes com Champagne, o que n\u00e3o impede que muitos conte\u00fados publicados ali possam ficar em destaque na capa do Scream e vice-versa.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Do fanzine ao projeto digital j\u00e1 se v\u00e3o mais de 15 anos. A recompensa disso tudo? Ganhar um p\u00fablico fiel, amigos e reconhecimento profissional pelo trabalho. Em 2010, foi convidado a participar de um semin\u00e1rio no It\u00e1u Cultural, com Alex Needham, editor de cultura do The Guardian. Na ocasi\u00e3o, o blog e o jornal ficaram lado a lado para falar sobre como construir narrativas utilizando as novas tecnologias (veja o v\u00eddeo da palestra).<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Hoje, com 43 anos, o jornalista deixou o trabalho fixo, no portal Terra, para tirar f\u00e9rias da jornada dupla. Entre um trabalho freelance e outro, pela primeira vez, Costa pode se dedicar ao site em tempo integral e tem a chance de pensar no futuro do Scream e, quem sabe, rentabiliz\u00e1-lo, como contou na entrevista a seguir.<\/em><\/p>\n<p><strong>Como foi a ideia de deixar de fazer o fanzine impresso e ir para a internet?<\/strong><br \/>\nQuando eu publicava opini\u00f5es em um site chamado Ivox, ainda em Taubat\u00e9, fiz amizade com um cara que lia os meus textos. O portal era um site de avalia\u00e7\u00e3o, voc\u00ea via um filme e escrevia uma resenha. Ent\u00e3o, logo quando vim para S\u00e3o Paulo, fomos tomar uma cerveja e levei meus fanzines para ele e, uma semana depois, o cara disse que gostou e me perguntou se eu nunca tinha pensado em coloc\u00e1-los na web. Tinha acabado de chegar na cidade e, por mais que j\u00e1 usasse a internet na faculdade, n\u00e3o era uma coisa que eu tinha muita facilidade. Mas, ele acabou fazendo um site para mim, no HPG, e me ensinou a publicar textos l\u00e1. Praticamente todo mundo que tinha fanzine em papel come\u00e7ou a migrar para a internet, nessa \u00e9poca. O meu foi mais um acaso. Talvez, se o cara n\u00e3o fizesse o site, eu tivesse chegado sozinho em algum momento, mas ele adiantou o processo em pelo menos um ano. E como era uma coisa nova, j\u00e1 que haviam poucos sites na \u00e9poca, o neg\u00f3cio tornou-se muito grande. Comecei a ter entre 20 e 30 colaboradores, mesmo o Scream tendo um layout completamente assustador (risos). Tinha duas capas, que trocavam minuto a minuto, ent\u00e3o, um conte\u00fado ficava em um minuto par e dava lugar para outro no minuto \u00edmpar. Era umas dessas coisas absurdas que a gente testava para brincar com a ferramenta (risos).<\/p>\n<p><strong>Depois do HPG, como voc\u00ea passou para WordPress?<\/strong><br \/>\nEu uso wordpress desde 2007, mas ele j\u00e1 \u00e9 \u201c.com.br\u201d desde de 2003. Nessa \u00e9poca, eu trabalhava na reda\u00e7\u00e3o do IG de manh\u00e3 e no Not\u00edcias Populares tarde e noite. Chegava meia noite em casa e ficava at\u00e9 as seis da manh\u00e3 tocando o site. O Scream j\u00e1 estava &#8220;grande&#8221;, concorrendo a pr\u00eamios, mas era muito exaustivo. At\u00e9 anunciei que ia acabar, mas recebi centenas de e-mails reclamando. Naquele tempo, voc\u00ea saia para um show do universo indie e todo mundo conhecia o site. Fiz muitas amizades e muita gente pediu para eu n\u00e3o desistir. Acabei parando apenas por um ou dois meses e pensei, bacana, se as pessoas querem, vou voltar e fazer uma coisa legal com isso. Desde aquele tempo ele est\u00e1 no ar, mas, \u00e0s vezes, fica sem atualiza\u00e7\u00f5es devido ao tempo escasso para fazer as coisas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea \u00e9 o \u00fanico editor do Scream &amp; Yell. Nunca pensou em formar uma equipe fixa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. At\u00e9 tive uma experi\u00eancia com colaboradores em 2005 e 2006, com dois subeditores frequentes., o Diego Fernandes, do Rio Grande do Sul, e o Leonardo Vinhas, de S\u00e3o Paulo. Era uma \u00e9poca em que o site estava tendo muitas atualiza\u00e7\u00f5es, tinha muito material chegando e muitas bandas novas procurando a gente, apesar que, hoje, o n\u00edvel \u00e9 maior ainda. Da\u00ed sugeri para os dois serem os subeditores do site. Eles aceitaram e fizemos essa experi\u00eancia entre seis e oito meses. O problema todo \u00e9 que sociedades s\u00e3o fadadas ao fracasso. \u00c9 um casamento que uma hora as pessoas v\u00e3o se separar. Todos os principais sites daquela \u00e9poca acabaram, com exce\u00e7\u00e3o do Scream &amp; Yell e do Trabalho Sujo&#8230; exatamente porque o Trabalho Sujo \u00e9 o Alexandre Matias que, de vez em quando, aceita alguma colabora\u00e7\u00e3o, e o Scream &amp; Yell, que sou s\u00f3 eu.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea recebe colabora\u00e7\u00e3o, mesmo sem pedir. N\u00e3o tem um espa\u00e7o no seu blog que voc\u00ea pede, certo? As pessoas mandam voluntariamente?<\/strong><br \/>\nUma coisa que me orgulho \u00e9 de nunca ter pedido, e n\u00e3o \u00e9 um orgulho do tipo &#8220;sou fod\u00e3o&#8221;, muito pelo contr\u00e1rio: \u00e9 um orgulho das pessoas chegarem ao site e tomarem a iniciativa de compartilhar um tempo delas com outras pessoas. Tem muita gente que colabora para o site que nem conhe\u00e7o pessoalmente. Mas h\u00e1 pessoas que j\u00e1 tenho liberdade de pedir. Por exemplo, me oferecem uma entrevista com o Interpol, a\u00ed acabo sugerindo para algum colaborador que queira fazer. H\u00e1 uma ideia do Scream &amp; Yell ser uma divers\u00e3o, n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o. Acho que seria divertido conversar com um \u00eddolo em uma posi\u00e7\u00e3o de jornalista. Ent\u00e3o, se algu\u00e9m me procurar dizendo que gostaria de entrevistar tal cara, vou tentar conseguir essa entrevista e fa\u00e7o o poss\u00edvel para rolar para o site.<\/p>\n<p><strong>Esses colaboradores te mandam uma pauta ou eles j\u00e1 enviam o texto pronto?<\/strong><br \/>\nMuitos me mandam o texto pronto. Em m\u00e9dia, 50 ou 60% me enviam o texto perguntando se cabe publicar. Outros chegam, assim, \u201cescrevi para o meu blog, mas ficou t\u00e3o bacana que eu acho que d\u00e1 para publicar a\u00ed\u201d. Tem muita gente que pergunta, \u201calgu\u00e9m vai escrever sobre o Nick Cave?\u201d, num processo pr\u00f3ximo ao de oferecer pauta, e a gente vai encaixando. Alguns temas eu debato, mas sem limitar. O Scream &amp; Yell sempre foi uma provoca\u00e7\u00e3o do tipo, \u201cpor que voc\u00eas est\u00e3o publicando isso?\u201d. N\u00e3o tem restri\u00e7\u00f5es. Uma vez algu\u00e9m falou assim, \u201cpor que voc\u00eas n\u00e3o falam de rap?\u201d. Cara, o Andr\u00e9 Caramante foi colunista do Scream &amp; Yell no come\u00e7o. Todo mundo sabe quem ele \u00e9 agora, mas ele escreveu de 2001 a 2003 para o site. A gente n\u00e3o tem essa coisa de \u201cn\u00e3o posso falar de dan\u00e7a\u201d. H\u00e1 textos de dan\u00e7a no Scream, de teatro. Desde que esteja bem escrito e seja uma coisa um pouco mais aberta, porque \u00e9 um p\u00fablico grande que vai ler e precisa ter umas chaves para entender tudo. Se for um texto bom e perfeitamente adapt\u00e1vel, cabe.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 adaptar um texto para o Scream &amp; Yell?<\/strong><br \/>\nO site tem um padr\u00e3o jornal\u00edstico, um jeito de falar que \u00e9 quase primeira pessoa, mas a primeira pessoa n\u00e3o aparece. Discordo completamente quando algu\u00e9m fala que o jornalismo \u00e9 impessoal, n\u00e3o tem como. Se voc\u00ea fizer uma entrevista com o Supla, por exemplo, vai sair uma coisa, se eu fizer, vai sair outra. E isso deriva do conhecimento que n\u00f3s temos, que s\u00e3o coisas pessoais. Ent\u00e3o, tem coisas que cabem, tem coisas que n\u00e3o. Tem textos que me mandam e eu transformo tudo em terceira pessoa, e falo, \u201colha, d\u00e1 para publicar assim. Do jeito que estava, voc\u00ea pode publicar em um blog pessoal\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os textos do Scream &amp; Yell t\u00eam limites de caracteres?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, quanto maiores, melhores (risos). Tem um m\u00ednimo de toques, menos de 3.000 n\u00e3o entra. Eu sempre tive a inten\u00e7\u00e3o\u00a0 de provocar o leitor. No come\u00e7o eram textos de 10, 15, 20 mil toques. O texto do di\u00e1rio de viagem do Leonardo Vinhas tem 27 mil toques, a entrevista com o Romulo Fr\u00f3es tem quase 30 mil, com o Helio Flanders tamb\u00e9m. Eu sempre tento que seja no m\u00ednimo tr\u00eas mil e no m\u00e1ximo, a vontade (risos).<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea costuma acompanhar o n\u00famero de visitantes do Scream?<\/strong><br \/>\nSim, diariamente. Tenho por volta de quatro e cinco mil visitantes di\u00e1rios, d\u00e1 uma m\u00e9dia de 45 mil visitantes \u00fanicos no m\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Como foi o crescimento das visitas ao longo dos anos?<\/strong><br \/>\nDepende do per\u00edodo. O recorde foi em dezembro do ano passado, que deu 68 mil visitantes \u00fanicos. No come\u00e7o eram 300, 500 leitores. S\u00f3 a classe indie lia mesmo. Hoje tem muita gente nova chegando e conhecendo. O Scream n\u00e3o tem amarras, voc\u00ea pode usar palavr\u00e3o se ele valer a pena ser usado, ao contr\u00e1rio de uma grande reda\u00e7\u00e3o, que voc\u00ea nunca vai poder fazer isso.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea escolhe pautas se baseando nos seus leitores e no que poder\u00e1 dar mais visualiza\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Tenho uma birrinha das coisas f\u00e1ceis.  Quando falo mal de algo \u00e9 porque eu preciso falar. N\u00e3o para provocar ningu\u00e9m. Gosto de provocar o leitor para tir\u00e1-lo de uma zona de conforto, me agrada muito fazer o cara pensar nos motivos de eu falar bem de tal disco e n\u00e3o do outro. Mas o acesso f\u00e1cil n\u00e3o me agrada. Acho que \u00e9 um leitor que vai e n\u00e3o volta. Mas h\u00e1 muitos textos pol\u00eamicos no Scream. Muitos. Desde os dez piores discos do rock nacional at\u00e9 textos de festivais. S\u00f3 que\u00a0 tento sempre puxar para uma an\u00e1lise cr\u00edtica. No Lollapalooza, por exemplo, n\u00e3o interessa s\u00f3 ir e falar como foram os shows. Interessa o resto, o entorno. Entretenimento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o momento em que voc\u00ea est\u00e1 ali. Se voc\u00ea ver um show no Lollapalooza, no Coachella ou no Primavera Sound, o que cerca voc\u00ea \u00e9 o que vai dizer se voc\u00ea vai gostar daquilo. Muita gente adora o Coachella, porque o entorno \u00e9 uma vibe t\u00e3o boa, te joga t\u00e3o para cima que, quando voc\u00ea est\u00e1 no show, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 extasiado. Muita gente v\u00ea um show no Brasil e fica puto porque o entorno \u00e9 uma porcaria. Ent\u00e3o isso influencia. E isso me interessa muito mais do que saber se o show foi bom ou ruim.<\/p>\n<p><strong>Falando nessa quest\u00e3o de festivais, o Luiz Cesar Pimentel criticou a cobertura desses eventos. O que voc\u00ea achou disso?<\/strong><br \/>\nAcho que nesse caso do Pimentel houve, tamb\u00e9m, uma raiva impl\u00edcita porque ele foi barrado (o que j\u00e1 aconteceu comigo, e agi praticamente como ele, reclamando). Jornalismo \u00e9 uma coisa sensacional, s\u00f3 que \u00e9 uma pena que o p\u00fablico n\u00e3o saiba o que acontece por tr\u00e1s dele. \u00c9 interessante voc\u00ea pensar por que a Folha de S\u00e3o Paulo colocou uma noticia na frente e o Estad\u00e3o colocou outra. Cada um puxa por um gancho. Ent\u00e3o, \u00e9 legal saber por que ele [Pimentel] pegou no p\u00e9, mesmo tendo coisas interessantes naquela cr\u00edtica. Mas, tem um coment\u00e1rio sensacional do Pedro S\u00f3, na comunidade da Bizz sobre esse texto, que da\u00ed voc\u00ea percebe que tudo depende. A equipe da Rolling Stone, por exemplo, leva cinco pessoas para cobrir um festival. Uma grande revista n\u00e3o \u00e9 como o Scream &amp; Yell, que s\u00f3 fui eu e uma fot\u00f3grafa. Neste caso, voc\u00ea vai ficar na pista o dia inteiro, porque voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 um. A Rolling Stone tem cinco rep\u00f3rteres, da\u00ed um vai cobrir dois shows, outro mais dois e assim por diante. A pessoa, de repente, nem queria estar ali, s\u00f3 que ela tem que estar por que ela tem que trabalhar. Ent\u00e3o, onde ela vai ficar quando n\u00e3o estiver cobrindo? Na sala de imprensa. O resto do tempo ela vai ficar l\u00e1 porque ela n\u00e3o quer ver os outros shows, n\u00e3o interessa para ela. Por outro lado, a gente sofre de um mal s\u00e9rio na assessoria brasileira, h\u00e1 muita repres\u00e1lia. Se voc\u00ea falar mal, o cara n\u00e3o vai te credenciar. Muito embora, credenciar n\u00e3o \u00e9 um favor que ele esteja fazendo para voc\u00ea. \u00c9 um dever. S\u00f3 que aqui as pessoas n\u00e3o veem assim, mas como se voc\u00ea estivesse pedindo um favor. Ent\u00e3o, vai ter o cara que vai ganhar o ingresso e s\u00f3 vai falar bem, assim como vai ter o outro que n\u00e3o vai ganhar e s\u00f3 vai falar mal. Tem sempre pesar o lado cr\u00edtico. Voc\u00ea tem que saber a dificuldade que \u00e9 fazer um show no Brasil, n\u00e3o d\u00e1, por exemplo, para voc\u00ea criticar a organiza\u00e7\u00e3o e falar do metr\u00f4. O metr\u00f4 n\u00e3o \u00e9 um problema da produtora, \u00e9 um problema da prefeitura. Tem erros\u00a0 que s\u00e3o cometidos pela assessoria, outros pela produtora e outros pelo pr\u00f3prio jornalista. Mas, de fato, precisamos discutir assessoria no Brasil \u00e0 s\u00e9rio.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea recebe muitos convites de assessorias de imprensa, discos e convites para shows?<\/strong><br \/>\nDiscos, relativamente. Muito mais de banda nova. Convite para assistir show eu recebo bastante. Tem muita gente que me manda coisas que eu vou ouvir s\u00f3 dois ou tr\u00eas meses depois. O compromisso que tenho \u00e9 comigo e por mais que eu saiba que o artista est\u00e1 fazendo uma coisa nova e interessante, eu preciso lidar com o tempo que eu tenho. Sou muito mais movido por uma necessidade de exposi\u00e7\u00e3o de ideias do que por trabalho. Se escrevo sobre o disco do The Decemberists, por exemplo, \u00e9 por que eu precisava falar para as pessoas que aquele disco era sensacional.<\/p>\n<p><strong>A maioria das resenhas s\u00e3o motivadas pelo seu gosto pessoal?<\/strong><br \/>\nSim, bem provavelmente, para o bem e para o mal. Talvez com filmes eu tenha mais uma rela\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica do que com m\u00fasica. M\u00fasica n\u00e3o tenho essa pretens\u00e3o, nem essa pira\u00e7\u00e3o de ouvir a \u00faltima m\u00fasica que vazou. O Scream sempre foi um dos \u00faltimos a escrever os textos, e sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o. Eu sei que as coisas que importam v\u00e3o estar ali e n\u00e3o ligo para a concorr\u00eancia. Acho que ningu\u00e9m procura novidades no Scream &amp; Yell, a pessoa procura uma boa ideia.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea recebe muitos coment\u00e1rios de leitores?<\/strong><br \/>\nMuita gente me escreve coisas assim, \u201co que voc\u00ea achou do disco do Nick Cave?\u201d, \u201co que achou do disco dos Strokes?\u201d&#8230;<\/p>\n<p><strong>Mas as pessoas procuram saber a sua opini\u00e3o sobre o disco? Porque muita gente contesta a relev\u00e2ncia de uma resenha cr\u00edtica diante das novas m\u00eddias.<\/strong><br \/>\nSim, e eu acredito que isso v\u00e1 acontecer cada vez mais. Chegamos em um momento em que o jornalista \u00e9, principalmente, o cara que vai selecionar o que as pessoas v\u00e3o ouvir. Antigamente, ele tinha que fazer isso porque os discos n\u00e3o chegavam para as pessoas. Agora n\u00e3o. No meio de tantos discos, ele tem que dizer, \u201couve isso aqui\u201d. \u00c9 a fun\u00e7\u00e3o de curadoria. Se 100 discos vazaram no \u00faltimo m\u00eas, ningu\u00e9m vai conseguir ouvir os 100, al\u00e9m de n\u00f3s, os malucos que escutam discos para caramba. Acho que a fun\u00e7\u00e3o do jornalista vai ser essa de filtrar, n\u00f3s caminhamos para isso. \u00c9 muita coisa para as pessoas, que n\u00e3o ouvem tanta m\u00fasica com a febre que a gente ouve, conseguirem acompanhar. Ent\u00e3o, elas v\u00e3o esperar algu\u00e9m que avise qual \u00e9 a nova banda legal.<\/p>\n<p><strong>Por que voc\u00ea acha que o Scream faz tanto sucesso?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 tanto sucesso assim, mas tem um certo respeito. Eu lembro que uma vez ouvi de um jornalista, \u201cna internet o par\u00e1grafo \u00e9 dividido em tr\u00eas, os textos t\u00eam que ser curtos, as pessoas n\u00e3o querem ler muito, etc, etc\u201d. Mas no Scream &amp; Yell as pessoas entram para ler textos grandes. Quando a gente come\u00e7ou a fazer 500 toques, a galera come\u00e7ou a reclamar. O p\u00fablico entra no Scream porque gosta do site e quer ideias para pensar. Acredito muito na vontade que as pessoas t\u00eam de ler. Talvez, n\u00e3o a grande maioria, mas \u00e9 um p\u00fablico interessado e interessante.<\/p>\n<p><strong>O layout que voc\u00ea usa \u00e9 gratuito?<\/strong><br \/>\nSim, o free do WordPress, que peguei e remodelei para deixar com a cara do Scream. No original, n\u00e3o tem aquelas quatro fotos em cima, que eu coloco na m\u00e3o, no HTML.<\/p>\n<p><strong>Quais outros blogs e sites de m\u00fasica voc\u00ea costuma acompanhar?<\/strong><br \/>\nLeio a Popload, porque adoro o L\u00facio. Temos gostos diferentes, mas respeito muito o que ele faz, ele tem umas sacadas muito bacanas. Gosto muito do Floga-se, que \u00e9 um cara novo na web, est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 um ano e pouco, e tem uma opini\u00e3o fort\u00edssima, d\u00e1 muito a cara a tapa e n\u00e3o pede credencial: ele prefere pagar o ingresso para ter isen\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. \u00c9 interessante! O Na Mira do Groove, do Tiago Ferreira, um cara que faz umas coisas que fogem dos indies, de ficar babando por Toro y Moi. Ele \u00e9 um pouco mais profundo do que isso. O Matias, do Trabalho Sujo, que \u00e9 um grande parceiro, O La Ruta Norteamericana, um blog de musica do El Pa\u00eds, que \u00e9 o melhor caderno de cultura do mundo, hoje. Bate o Guardian, que est\u00e1 patinando h\u00e1 uns quatro anos. Tamb\u00e9m leio a Rolling Stone americana, argentina, mexicana e italiana.<\/p>\n<p><strong>E a brasileira?<\/strong><br \/>\nEu escrevo de vez em quando para a Rolling Stone brasileira, s\u00e3o amigos meus amigos que fazem e, muito do que a gente discute, vai parar ali.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea pensa na divulga\u00e7\u00e3o dos links do Scream na p\u00e1gina do Facebook e no Twitter?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, menos do que deveria. No Facebook, o Scream est\u00e1 chegando a 5 mil curtidas, porque n\u00e3o uso muito. O Twitter acho espetacular exatamente para postar links diversos, mas sem muito compromisso. Sou meio pregui\u00e7oso em atrair leitor. Gosto de cativar o leitor quando tenho um texto bom.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea pensa em come\u00e7ar a monetizar o Scream &amp; Yell?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 monetizar, mas sair de uma coisa independente para algo profissional. Pagar o meu sal\u00e1rio, o dos freelas, o provedor, webmaster para melhorar as coisas. O problema \u00e9 como conseguir fazer isso. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p><strong>Nesses 15 anos, o que voc\u00ea acha que o Scream &amp; Yell trouxe de bom para a sua vida?<\/strong><br \/>\nS\u00f3 existo por causa do Scream Yell (risos). Estou aqui conversando com voc\u00ea porque, um dia, eu mandei fanzines para um monte de jornalistas: Ana Maria Bahiana, L\u00facio Ribeiro, Marcelo Orozco, Andr\u00e9 Forastieri, Soninha, na \u00e9poca da MTV. O Orozco e o L\u00facio que me trouxeram [para S\u00e3o Paulo] por curtir os meus textos e, quando pintou uma vaga, me chamaram para vir para c\u00e1. E tamb\u00e9m tem todo o entorno. Se fui jurado do pr\u00eamio da MTV, se integro a APCA, o j\u00fari do Multishow e do pr\u00eamio Bravo foi por causa do Scream &amp; Yell. Palestro tr\u00eas ou quatro vezes por ano, faculdades me chamam para discutir cultura independente por causa do Scream. Recebo alguns e-mails que me fazem chorar, de pessoas que decidiram se tornar jornalistas por causa do site. Porra, \u00e9 muito mais lucro do que preju\u00edzo. Valeu muito as noites n\u00e3o dormidas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que o Scream &amp; Yell contribuiu para o jornalismo musical brasileiro?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei (risos), mas espero que sim. \u00c9 muito complicado achar que contribuiu de alguma forma. Acho que n\u00f3s falamos de muitas bandas legais, registramos algumas coisas ali, discutimos ideias. Mostramos que \u00e9 poss\u00edvel fazer jornalismo s\u00e9rio sem ser tendencioso e sem trabalhar a favor do capitalismo do mercado, da venda por pura venda.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea a cena do jornalismo musical agora?<\/strong><br \/>\nEstamos em uma fase muito complicada. Existem pessoas escrevendo muito bem e muita gente na festa de confundir o que gosta com uma cr\u00edtica. Mas tem nomes muito bons por a\u00ed, na gringa tamb\u00e9m. Estamos vivendo um furac\u00e3o hist\u00f3rico, onde a sociedade ainda est\u00e1 se adaptando com a chegada da internet. Por mais que ela tenha se popularizado h\u00e1 uns 20 anos nos EUA e uns 12 no Brasil, a gente ainda n\u00e3o se acostumou a lidar com ela e isso est\u00e1 fazendo com que o jornalismo musical mude. A fun\u00e7\u00e3o dele, hoje, acaba voltando ao inicio, que \u00e9 a de destacar o que o p\u00fablico precisa ouvir. Estamos com uma cena independente vast\u00edssima em um momento em que as r\u00e1dios e o mercado brasileiro de m\u00fasica, como a gente conhecia, est\u00e3o falidos. Nenhum dos grandes jornais se relacionaram bem com a web, n\u00e3o conseguiram fazer um projeto do material impresso para a internet que seja relevante. Mesmo assim, acho que a profiss\u00e3o do jornalista cultural est\u00e1 cada vez mais rica. Tem muita \u00e1rea para trabalhar porque tem muita gente trabalhando no raso. Se voc\u00ea fizer um pouquinho diferente, voc\u00ea vai se destacar. S\u00f3 que \u00e9 uma batalha, n\u00e3o \u00e9 uma coisa para voc\u00ea come\u00e7ar agora e daqui a seis meses reclamar que n\u00e3o est\u00e3o te reconhecendo. Dei sorte de chegar em um momento em que tinham apenas tr\u00eas ou quatro sites bons de m\u00fasica na internet. Hoje voc\u00ea tem um monte e um melhor do que o outro. A profiss\u00e3o est\u00e1 boa e o caminho est\u00e1 aberto, s\u00f3 que as pessoas precisam ter vontade. Mais do que nunca, \u00e9 preciso ter vontade.<\/p>\n<p><strong>Quais dicas voc\u00ea pode dar para quem est\u00e1 come\u00e7ando um blog de m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nFugir do \u00f3bvio, do que todo mundo faz. Mas, sobretudo, um blog \u00e9 um ve\u00edculo de ideias. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que ter uma luta di\u00e1ria para entender o que aquela obra de arte faz no seu mundo. Voc\u00ea tem que entender por que o Criolo estourou, por exemplo, e n\u00e3o falar s\u00f3 que a musica \u00e9 boa. Musica boa tem milhares por a\u00ed. Voc\u00ea tem que falar sobre o contexto social, o porqu\u00ea do publico pedir aquilo. Isso interessa muito mais do que saber se o disco \u00e9 bom ou ruim, que \u00e9 o que quase todo mundo faz. Mas isso s\u00e3o coisas que voc\u00ea s\u00f3 consegue chegar escrevendo.<\/p>\n<p><strong>Se voc\u00ea pudesse definir o Scream &amp; Yell em algumas m\u00fasicas, quais seriam?<\/strong><br \/>\nNossa, nunca pensei nisso, mas \u00e9 uma coisa bem bacana (risos). As pessoas t\u00eam uma vis\u00e3o indie do Scream, que \u00e9 legal, mas a gente j\u00e1 entrevistou o Renato Teixeira, j\u00e1 falamos de rap. Talvez, \u201cRotomusic de Liquificapum\u201d, do Pato Fu, por ser uma can\u00e7\u00e3o que tem v\u00e1rias caras. Poderia ser tamb\u00e9m uma do Miles Davis, uma do \u201cBitches Brew\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/category\/entrevistas\/\">Veja outras entrevistas aqui <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 por Adriano Oshiro, outubro de 2013 Existem algumas maneiras de medir o sucesso na internet. N\u00famero de visitas, quantidade de men\u00e7\u00f5es, conte\u00fado relevante, etc. Agora, junte tudo isso e ainda seja convidado a falar de seu projeto digital ao lado do editor de um dos jornais mais importantes do mundo. 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