{"id":13502,"date":"2014-01-30T10:21:01","date_gmt":"2014-01-30T13:21:01","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2014\/01\/30\/pete-townshend-fala-de-jimi-hendrix\/"},"modified":"2018-01-31T19:08:10","modified_gmt":"2018-01-31T22:08:10","slug":"pete-townshend-fala-de-jimi-hendrix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2014\/01\/30\/pete-townshend-fala-de-jimi-hendrix\/","title":{"rendered":"Pete Townshend fala de Jimi Hendrix"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/hendrix.jpg\" alt=\"hendrix.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>\u201cDurante uma das sess\u00f5es de \u2018A Quick One\u2019, em outubro de 1966, conheci Jimi Hendrix pela primeira vez. Ele vestia uma jaqueta militar imunda, com bot\u00f5es de lat\u00e3o e dragonas vermelhas. Chas Chandler, seu empres\u00e1rio, me pediu para ajudar o jovem t\u00edmido a encontrar amplificadores adequados. Sugeri o Marshall ou o Hiwatt (ent\u00e3o chamado \u2018Sound City\u2019) e expliquei as diferen\u00e7as entre eles. Jimi comprou os dois, e, mais tarde, me recriminei por ter recomendado armas t\u00e3o poderosas. Quando o vi pela primeira vez, n\u00e3o tinha a menor ideia de seu talento nem no\u00e7\u00e3o de seu carisma no palco. Agora, claro, sinto orgulho por ter desempenhado um pequeno papel na hist\u00f3ria de Jimi. (\u2026)<\/em><\/p>\n<p><em>Durante o inverno de 1966\/7 ouvi \u2018Forest Flower\u2019, do saxofonista de jazz Charles Lloyd, em uma grava\u00e7\u00e3o de sua extraordin\u00e1ria apresenta\u00e7\u00e3o no Festival de Jazz de Monterey, em setembro de 1966. \u2018Forest Flower\u2019, como a obra-prima dos Beach Boys, \u2018Pet Sounds\u2019, parecia perfeitamente ajustada aos novos tempos. Keith Jarrett era o pianista de Lloyd, e em dado momento do disco, come\u00e7a a esmurrar o piano e a percutir as cordas. Senti que ali estava um m\u00fasico totalmente de meu gosto, que tocava todo instrumento de maneiras despropositadas.<\/em><\/p>\n<p><em>Keith Jarett e eu nascemos no mesmo m\u00eas, e suas interpreta\u00e7\u00f5es geralmente me levam \u00e0s l\u00e1grimas do tipo reservado para a solid\u00e3o embriagada. Venderia minha alma para tocar como ele \u2013 e n\u00e3o fa\u00e7o essa declara\u00e7\u00e3o de modo superficial. Como muitos compositores, eu tamb\u00e9m ouvia jazz em busca de inspira\u00e7\u00e3o e ideias. Uma curta faixa de Cannonball Adderley chamada \u2018Tengo Tango\u2019 me deixou entusiasmado com seu poder dan\u00e7ante. (\u2026)<\/em><\/p>\n<p><em>Minha amizade com Eric Clapton havia se aprofundado gra\u00e7as \u00e0s nossas sa\u00eddas juntos para prestar homenagem a Jimi Hendrix, que naquela primavera vinha fazendo seus primeiros shows sensacionais em Londres. Jimi testava algumas de suas primeiras ideias de letra nos shows. Um amigo de Eric, o pintor e designer Martin Sharp, o ajudava a compor as can\u00e7\u00f5es, e suas letras eram muito ambiciosas e po\u00e9ticas. Surpreendido entre dois grandes talentos emergentes da composi\u00e7\u00e3o, senti-me desafiado a evoluir.<\/em><\/p>\n<p><em>Ver Jimi tocar tamb\u00e9m foi desafiador para mim como guitarrista. Jimi tinha os dedos \u00e1geis e experientes de violinista de concerto; era um verdadeiro virtuose. Eu me lembrava de papai e sua pr\u00e1tica incans\u00e1vel, o tempo que ele levou para chegar a um n\u00edvel em que podia tocar t\u00e3o r\u00e1pido que as notas formavam um som \u00fanico. Mas com Jimi havia algo mais: ele casava o blues com a alegria transcendente da psicodelia. Era como se tivesse descoberto um novo instrumento em um novo mundo de impressionismo musical. Ele se superava no palco e parecia poderoso e m\u00e1sculo sem agressividade.<\/em><\/p>\n<p><em>Era um artista hipnotizante, e hesito em descrever o quanto era fant\u00e1stico v\u00ea-lo tocar, porque realmente n\u00e3o quero levar sua legi\u00e3o de f\u00e3s mais jovens a sentir que perdeu a grande chance de testemunhar aquele talento. Eu perdi a chance de ver Charlie Parker, Duke Ellington e Louis Armstrong. E se voc\u00ea perdeu a chance de ver Jimi ao vivo, saiba que perdeu algo muito especial. V\u00ea-lo em carne e osso deixava claro que se tratava mais do que um grande m\u00fasico. Ele era um xam\u00e3, e parecia que uma luz colorida cintilante emanava das pontas de seus longos e elegantes dedos enquanto tocava. Quando fui ver Jimi tocar, n\u00e3o tomei \u00e1cido, n\u00e3o fumei maconha e n\u00e3o bebi, por isso posso relatar com precis\u00e3o que ele operava milagres com a Fender Stratocaster para destros, que ele tocava virada de cabe\u00e7a pra baixo (Jimi era canhoto). <\/em><\/p>\n<p><em>A chegada de Jimi Hendrix em meu mundo agu\u00e7ou minha necessidade musical de estabelecer algum territ\u00f3rio legitimo. Em alguns sentidos, a interpreta\u00e7\u00e3o de Jimi tomou empr\u00e9stimos da minha \u2013 o feedback, a distor\u00e7\u00e3o, a guitarra teatral \u2013, mas seu g\u00eanio art\u00edstico reside em como ele criou um som todo pr\u00f3prio: soul psicod\u00e9lico ou o que chamarei de \u201cblues impressionismo\u201d. Eric Clapton estava fazendo algo parecido com o Cream e, em 1967, a banda Traffic, de Stevie Winwood, lan\u00e7aria \u2018Mr. Fantasy\u2019, levantando outro desafio incr\u00edvel. Os m\u00fasicos \u00e0 minha volta estavam realmente decolando em uma nave espacial colorida, ascendente, abastecida pelas novas cria\u00e7\u00f5es de Jimi, Eric e Stevie \u2013 e, no entanto, as can\u00e7\u00f5es psicod\u00e9licas de Jimi, Eric e Stevie ainda se mostravam profundamente enraizadas no blues e no R&amp;B. (\u2026)<\/em><\/p>\n<p><em>Lembro-me de ter ido a um almo\u00e7o encontrar Barry e Sue Miles. Barry era fundador da Indica Bookshop, um estabelecimento radical que vendia livros e revistas relacionados a tudo que era psicod\u00e9lico e revolucion\u00e1rio. Ali conheci devidamente Paul McCartney, com sua ent\u00e3o namorada, Jane Asher. Paul tinha ajudado a financiar a Indica e parecia muito mais politizado que qualquer outro m\u00fasico de minhas rela\u00e7\u00f5es. Era l\u00facido e perspicaz, bem como charmoso e essencialmente gentil. Jane era bem-nascida, muito educada e de uma beleza estonteante; por tr\u00e1s de seu recato exterior ardia uma personalidade forte, o que a equiparava a seu famoso namorado.<\/em><\/p>\n<p><em>George Harrison chegou um pouco mais tarde com sua namorada, Pattie Boyd, que era franca e simp\u00e1tica. Tinha o tipo de rosto que a gente s\u00f3 via em sonhos, animado por uma vontade evidente de que todos gostassem dela. Karen (minha namorada) estava comigo e, pela primeira vez, me senti parte da nova elite da m\u00fasica pop londrina. Ela, curiosamente, parecia mais \u00e0 vontade que eu.<\/em><\/p>\n<p><em>Vi Paul novamente no Bag O\u2019Nails, no Soho, onde Jimi Hendrix fazia um show comemorativo de retorno \u00e0 cidade. Mick Jagger chegou, ficou um pouco e depois se foi, imprudentemente deixando Marianne Faithfull, sua namorada na \u00e9poca. Jimi se aproximou dela de mansinho ap\u00f3s sua apresenta\u00e7\u00e3o impactante e ficou claro, pelo modo como os dois dan\u00e7avam juntos, que Marianne tinha as estrelas do xam\u00e3 em seus olhos. Quando Mick voltou para buscar Marianne, deve ter se perguntado a raz\u00e3o de tantos risinhos abafados. No final, o pr\u00f3prio Jimi dissolveu a tens\u00e3o, tomando a m\u00e3o de Marianne, beijando-a e pedindo licen\u00e7a para vir falar comigo e com Paul. Mal Evans, o ador\u00e1vel roadie e ajudante dos Beatles, virou-se para mim e deu um grande e ir\u00f4nico sorriso \u2018liverpooliano\u2019: \u201cIsso \u00e9 o que chama trocar cart\u00f5es de visita, Pete\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Trecho de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/12\/livros-the-who-ian-curtis-e-smiths\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cA Autobiografia\u201d, de Pete Townshend<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"450\" height=\"300\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tSJbuqkptpQ\" \/><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tSJbuqkptpQ\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" height=\"300\" width=\"450\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"450\" height=\"300\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Isd6qygyxTc\" \/><embed src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Isd6qygyxTc\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" height=\"300\" width=\"450\" \/><\/object><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Pete Townshend: uma batalha entre o velho e o novo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2014\/01\/23\/uma-batalha-entre-o-velho-e-o-novo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Keith Richards: Gostar \u00e1s vezes \u00e9 melhor do que amar (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/08\/02\/gostar-as-vezes-e-melhor-do-que-ama\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Marianne Faithfull: Drogas, Sexo e Mick Jagger (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/12\/11\/marianne-drogas-sexo-e-mick\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Alex Ross: \u201cO minimalismo e o rock and roll\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/02\/05\/o-minimalismo-e-o-rock-and-roll\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Keith Richards, Rolling Stone Alone (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/08\/22\/keith-richards-rolling-stone-alone\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Gram Parsons por Keith Richards no livro \u201cVida\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/08\/08\/gram-parsons-por-keith-richards\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDurante uma das sess\u00f5es de \u2018A Quick One\u2019, em outubro de 1966, conheci Jimi Hendrix pela primeira vez. 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