{"id":13400,"date":"2014-08-26T10:37:17","date_gmt":"2014-08-26T13:37:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2014\/08\/26\/stanley-kubrick-por-martin-scorsese\/"},"modified":"2016-03-03T10:40:15","modified_gmt":"2016-03-03T13:40:15","slug":"stanley-kubrick-por-martin-scorsese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2014\/08\/26\/stanley-kubrick-por-martin-scorsese\/","title":{"rendered":"Stanley Kubrick por Martin Scorsese"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/kubrick1.jpg\" height=\"629\" width=\"450\" \/><\/p>\n<p><em>Em 1999, alguns meses ap\u00f3s a morte de Stanley Kubrick, n\u00e3o foi surpresa, no momento da estreia de \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d, o fato de o filme ser t\u00e3o mal compreendido. Quando olhamos para o passado e nos interessamos pelas rea\u00e7\u00f5es, na \u00e9poca, aos filmes de Kubrick (com exce\u00e7\u00e3o dos mais recentes), percebemos que, a princ\u00edpio, todos foram mal compreendidos. Somente depois de cinco ou dez anos acab\u00e1vamos nos dando conta de que \u201c2001: Uma Odisseia no Espa\u00e7o\u201d ou \u201cBarry Lyndon\u201d ou \u201cO Iluminado\u201d n\u00e3o eram parecidos com nada do que os havia precedido ou seguido.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Se Kubrick tivesse vivido o bastante para assistir ao lan\u00e7amento de seu \u00faltimo filme, sem d\u00favida alguma teria ficado decepcionado com as rea\u00e7\u00f5es hostis que ele provocou. Mas, certamente, no final das contas, teria relativizado esse fato e passado a outra coisa. \u00c9 a sina de todos os verdadeiros vision\u00e1rios que n\u00e3o tomam caminhos repisados. Artistas do calibre de Kubrick t\u00eam mentes brilhantes e din\u00e2micas para imaginar o mundo em movimento, para compreender n\u00e3o apenas de onde vem, mas para onde vai.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Consideremos \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d. Muitas pessoas foram desestimuladas pelo lado irreal do filme: as ruas largas demais de Nova York, a cena pouco cr\u00edvel da orgia, o desenrolar propositalmente lento da a\u00e7\u00e3o. Tudo isso \u00e9 verdade, e, se o filme tivesse a pretens\u00e3o de ser realista, essas cr\u00edticas seriam perfeitamente aceit\u00e1veis. Mas \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d inspira-se numa novela de Arthur Schnitzler intitulada \u201cBreve Romance de Sonho\u201d, a hist\u00f3ria da ruptura de um casamento contada com a l\u00f3gica de um sonho. E como em todo sonho, voc\u00ea n\u00e3o sabe realmente quando entrou nele. Tudo parece verdadeiro, como na vida, mas diferente, um pouco exagerado, um pouco defasado; as coisas parecem acontecer como se tivessem sido programadas, \u00e0s vezes em um ritmo estranho, do qual \u00e9 imposs\u00edvel escapar.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>O p\u00fablico n\u00e3o estava nem um pouco preparado para um filme on\u00edrico que n\u00e3o se apresentava como tal, n\u00e3o dava os sinais habituais \u2013 n\u00e9voa, pessoas aparecendo ou desaparecendo \u00e0 vontade, ou levitando. Como \u201cViagem \u00e0 It\u00e1lia\u201d, de Rosselini, um filme tamb\u00e9m completamente incompreendido em sua \u00e9poca, \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d conta a dolorosa jornada de um homem e de uma mulher que, no fim, agarram-se um ao outro. Os dois filmes s\u00e3o de uma aterradora autoexposi\u00e7\u00e3o. Ambos perguntam: at\u00e9 que ponto pode se confiar em outro ser humano? E acabam de modo hesitante, mas tamb\u00e9m esperan\u00e7oso, honesto.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Assistir a um filme de Kubrick \u00e9 como ver o cume de uma montanha a partir do vale. N\u00f3s nos perguntamos como algu\u00e9m p\u00f4de subir t\u00e3o alto. H\u00e1 em seus filmes trechos, imagens e espa\u00e7os carregados de emo\u00e7\u00e3o que t\u00eam uma pot\u00eancia inexplic\u00e1vel, uma for\u00e7a magn\u00e9tica que nos aspira lenta e misteriosamente: o itiner\u00e1rio do menino percorrendo os intermin\u00e1veis corredores do hotel em seu veloc\u00edpede em \u201cO Iluminado\u201d; o silencio monumental do espa\u00e7o sideral em \u201c2001, Uma Odisseia no Espa\u00e7o\u201d; o ritmo inumano da primeira metade de \u201cNascido Para Matar\u201d, que vai num crescendo at\u00e9 sua resolu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e sangrenta; a espetacular sala de guerra de \u201cDr. Fant\u00e1stico\u201d, a um s\u00f3 tempo aterrorizante e c\u00f4mica; o futuro brutalmente pop de \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d; a intimidade crua dos di\u00e1logos entre Tom Cruise e Nicole Kidman em \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Eu n\u00e3o poderia dizer se h\u00e1 um filme de Kubrick que eu prefira, mas o fato \u00e9 que \u201cBarry Lyndon\u201d exerce sobre mim um fasc\u00ednio particular. Acho que isso se deve \u00e0 emo\u00e7\u00e3o que caracteriza esse filme. A emo\u00e7\u00e3o \u00e9 veiculada pelo movimento da c\u00e2mera, a lentid\u00e3o do ritmo, a maneira como os personagens evoluem em rela\u00e7\u00e3o ao seu entorno. Ningu\u00e9m entendeu isso quando o filme foi lan\u00e7ado. Ainda hoje, alguns n\u00e3o o compreendem. Assistimos, um plano cativante atr\u00e1s do outro, \u00e0 metamorfose de um homem que passa da mais pura inoc\u00eancia ao refinamento mais glacial, e, para terminar, \u00e0 amargura mais f\u00fanebre \u2013 pois sua sobreviv\u00eancia depende disso, simplesmente. \u00c9 um filme terr\u00edvel, pois toda aquela beleza iluminada por velas \u00e9 apenas um v\u00e9u dissimulando a crueldade mais abjeta. Mas uma crueldade verdadeira, daquelas cujos estragos podemos constatar todos os dias na boa sociedade.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><em>Stanley Kubrick era um dos \u00fanicos mestres modernos que t\u00ednhamos, e esta \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do livro definitivo de Michel Ciment, \u201cConversas com Kubrick\u201d, \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel. Acompanhei e estudei regularmente a obra de Kubrick durante anos. Ele era \u00fanico, na medida em que, a cada novo filme, redefinia esse meio de express\u00e3o e suas possibilidades. Mas era mais que um simples inovador t\u00e9cnico. Como todos os vision\u00e1rios, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos \u00e0 vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encara-la.<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em>Martin Scorsese, junho de 2002. Pref\u00e1cio de \u201cConversas com Kubrick\u201c.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/kubrick2.jpg\" height=\"278\" width=\"450\" \/><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d, o filme, \u00e9 filosofia pura (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/cinemadois\/laranjamecanica.htm\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d: provocativo e genial (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/19\/37-mostra-de-saopaulo-2013\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cIntelig\u00eancia Artificial\u201d: saber a hora de parar \u00e9 virtude (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/artificial.html\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Frederic Raphael fala sobre \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/02\/09\/de-stanley-kubrick-para-luis-bunuel\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Sobre Scorsese e filmes que salvam almas (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/04\/11\/sobre-scorsese-e-filmes-que-salvam-vidas\/\" target=\"_blank\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1999, alguns meses ap\u00f3s a morte de Stanley Kubrick, n\u00e3o foi surpresa, no momento da estreia de \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d, o fato de o filme ser t\u00e3o mal compreendido. 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