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Shakespeare e eu

Comecei a rever “Hamlet” (1996), a maravilhosa epopeia do Kenneth Branagh com 4h20 de duração que é das minhas adaptações favoritas da obra de Shakespeare, e quando percebi me vi relembrando da primeira vez que li o Bardo e já estava mandando uma mensagem pruma das bibliotecas da minha vida via Facebook:
“Olá! Meu nome é Marcelo, moro em São Paulo desde 2000, mas cresci em Taubaté e durante muito tempo peguei livros emprestados ai da biblioteca (posso dizer orgulhosamente que ela ajudou a me definir – risos). Nessa época havia ai uma coleção do Shakespeare, vários volumes (entre 15 e 20), com capa azul. Eu gostaria de saber se vocês ainda tem essa coleção a disposição do leitor e se poderiam identificar editora e edição, pois eu sonho vez em quando com essa coleção, e gostaria de tê-la em casa 🙂 É uma edição comentada de várias peças do Shakespeare.”
Hoje cedo o pessoal da biblioteca me respondeu gentilmente acrescentando essas duas fotos da coleção que me encantou quase quatro décadas atrás e então descubro que tudo do que li de Shakespeare na primeira (e segunda) vez (no começo dos anos 80) foi de uma coleção de 36 volumes de… Portugal (uma coleção mui provavelmente doada por alguma boa alma) – tenho ainda comigo desde sempre dois volumes da Editora Abril com 4 tragédias e 4 comédias datado de 1981, mas a minha base foi essa coleção portuguesa.
A primeira vez que li essa coleção foi entre os 11 e 12 anos. Como é de se imaginar, muita coisa passou batido por mim, mas a paixão foi tanta que reli essa coleção completa durante a crise dos 17 (pré e durante o Serviço Militar Obrigatório).
A edição é datada de 1955 e é da Lello & Irmãos, uma editora do Porto (também livraria). Soube através de um amigo português no Facebook que “a Livraria Lello ainda existe no mesmo local e é a mais incrível livraria de Portugal e uma das mais lindas do mundo. Paragem obrigatória se um dia fores ao Porto”. Dica anotada! Adoro essa edição da Lello das obras de Shakespeare porque muitos dos textos vem com um apêndice informativo primoroso, que amplia demais o olhar sobre a obra.
Numa busca na web cai nesse texto do Fernando Simões Garcia e compartilho a salvação do autor neste trecho delicioso que analisa as traduções de Shakespeare para o português:
“Fernando Pessoa escreveu o seguinte sobre a edição da Lello & Irmãos:
‘Apenas folheei, e nem uma linha li, das traduções que o sr. dr. Domingos Ramos terá imortalmente que expiar. Porque não é com a competência de tradutor-de-inglês do sr. dr. Ramos que eu implico e esbarro. É com a sua competência para traduzir Shakespeare, visto que lhe cai em cima e o reduz a prosa’.
Muito mais sensível do que eu, Fernando Pessoa rejeitou pela capa os volumes que me salvariam — pela qualidade e pelo tamanho. Trinta e seis volumes. Apostei metade do meu salário neles. Foi uma aposta. Eu não sabia da qualidade do que eu comprava. A edição foi composta por cinco ou seis tradutores. Todos eles com seu estilo. Sem regras fixas, cada um foi moldando a peça traduzida à medida de si próprio.
António de Castilho, por exemplo, que traduziu o Fausto — e há quem o acuse de o ter feito sem saber alemão — compôs em verso próprio o seu A Midsummer Night’s Dream. Sem notas, sem ensaio introdutório. Castilho negligenciou tudo, menos a poesia. O resultado, que não é do meu gosto, pode agradar a quem tenha o espírito mais movimentado. Não deixa de ser curioso, no entanto, esse esforço — e essa disparidade de tradutores, de inclinações intelectuais. Em contraposição, o Dr. Ramos, o Dr. condenado pelo Pessoa, é certamente o tradutor mais judicioso que possa existir. Traduziu diversas peças, todas elas bem alimentadas de ensaios introdutórios e notas explicativas.
O exemplo mais elevado é a tradução de Júlio César: o Dr. Ramos seguiu, passo a passo à letra do Bardo, a narrativa de base que deu origem à peça: a vida de Júlio César de Plutarco. O leitor que tenha paciência de folhear o volume achará ali uma sobrevida, uma camada a mais da personalidade vibrante e do destino trágico de César. As notas são exaustivas, completas, pra latinista nenhum botar defeito. Outro tradutor: Henrique Braga. Traduziu, entre outras, Troilus e Créssida. Sua obsessão com os tradutores franceses — os mesmos de que Machado de Assis fez largo uso — é esclarecedora. Ele compara, estuda e até repara as traduções feitas para o francês. Às vezes chega a dizer que são péssimas traduções, as dos franceses. O homem é ousado.
Com exceção de 4 ou 5 das Comédias, li todo o Shakespeare pela edição da Lello & Irmãos. Não me arrependo. Mesmo hoje, lendo em inglês, volto a elas. A tradução é sempre precisa. Sempre clara. Feita numa época em que as pessoas sabiam escrever em língua portuguesa.
O traço mais elevado dessa edição é a pluralidade. Cada tradutor expandiu a sua própria personalidade e o seu próprio gosto — e o modo pelo qual o gôsto se desenvolve — carregando à ponta do lápis as suas expressões e preferências mais íntimas. Sem a uniformidade tão característica das edições de hoje, a sensação que tive foi a de estar lidando com gente real — gente que leu, estudou e amou a obra de William Shakespeare.”
Pessoas como eu. Talvez você. <3
Leia a integra da esplendorosa análise do Fernando Garcia aqui.
Ps 2023: Consegui finalmente comprar a coleçãio completa <3

outubro 25, 2017 No Comments
06) “Um livro que você já leu várias vezes” (3/3)

Bora acelerar pois senão esse #meus20livros não acabará nunca :~
6) “Um livro que você já leu várias vezes” (3/3)
Os dois livros da foto trazem a mesma característica: são livros “comentados”, o que foi plenamente satisfatório para um adolescente desbravando o mundo das palavras e, em muitos casos, ainda sem a chama para perceber o sarcasmo, a entrelinha, a sutileza.
A coletânea de contos “Seleta” (1971) foi a primeira coisa que li de Lygia Fagundes Telles, e foi amor à primeira lida (duas décadas depois, uma amiga a encontraria em SP e a pediria em casamento para mim… ganhei um autógrafo – risos).
“Seleta” é um baú de tesouro. Está tudo aqui: “Eu era mudo é só”, “A caçada”, “O noivo”, (a obra prima) “Venha Ver o Por-do-Sol”, “As Pérolas”, um capítulo de “Ciranda de Pedra”, tudo comentado por Nelly Novais Coelho. É sublime.
Leio um conto vez em quando (ainda que um dos meus favoritos, “Lua Crescente em Amsterdã”, que adaptei com amigos para a aula de teatro na faculdade, não esteja aqui – mas está na obrigatória seleção “Os contos”, lançada pela Cia das Letras em 2018).
O outro volume é.. Shakespeare. A primeira vez que mergulhei em sua obra eu tinha 11 pra 12 anos, e o fato de ser uma edição comentada ajudou muito a (acreditar que eu poderia) entender aquele universo (eu voltaria a essa coleção – disponível na Biblioteca Municipal de Taubaté – no meu pós-crise dos 16 anos, aquele que Hesse e “O Lobo da Estepe” me tiraram – e era outra coisa, outro universo, outra amplitude, outra grandiosidade).
É uma edição portuguesa, da Lello e Irmão (sim, li Shakespeare em português – comentado! – de Portugal) que, cerca de 30 anos depois, consegui adquirir (com volumes extras) pra mim (conto a história aqui) e eu amo suas comédias de erros. Amo.
“Conto de Inverno” é absolutamente incrível! <3

fevereiro 17, 2025 No Comments
Top 25 discos mais ouvidos: Outubro 21

Segundo a minha LastFM em contagem da Tap Music:
TOP 25 do mês de Outubro
01) “The Jimi Hendrix Experience (Deluxe Reissue)”, Box Set
02) “Way Down In The Rust Bucket (Live)”, Neil Young & Crazy Horse
03) “King & Eye”, The Residents
04) “Delta Estácio Blues”, Juçara Marçal
05) “Arde”, Carolina Donati
06) “Meu Coco”, Caetano Veloso
07) “Holy Roller: 24 Hits”, Reverend Horton Heat
08) “Playground Psychotics”, Frank Zappa
09) “Never Been Caught”, The Mummies
10) “Conexão Latina – Volume II”, Vários
11) “Joe’s Garage Acts I, II & III”, Frank Zappa
12) “Hell”, The Residents
13) “Have I Offended Someone?”, Frank Zappa
14) “Young Shakespeare (Live)”, Neil Young
15) “Música Solar Para Tempos Sombrios”, Blubell
16) “De Primeira”, Marina Sena
17) “Anos 70 (Ao Vivo)”, Ivan Lins
18) “Tago Mago (40th Anniversary Edition)”, Can
19) “Quase Erótica”, Cris Braun
20) “Objeto Direto”, Belchior
21) “Pomar”, Vivian Benford
22) “Unplugged & Slightly Phased”, David Bowie
23) “Mouth Full of Glass”, Macie Stewart
24) “Caravanas Ao Vivo”, Chico Buarque
25) “Absent Friends (Expanded)”, The Divine Comedy
outubro 31, 2021 No Comments
Jornalismo cultural e a contemplação da arte
Respostas para Bruno Borges
– Conte um pouco da sua história com a música.
A música entra na minha vida através da coleção de discos que meu pai tinha nos anos 70, muito da MPB combativa, Vinicius, Chico, Caetano, Gil, Gal, um pouco de Beatles, essas coisas. Com meu primeiro salário, aos 14 anos, comprei seis vinis, coisas do rock nacional que estava nascendo na metade dos anos 80. Dai em diante encontrei na música não só uma válvula de escape e uma companheira, mas também uma maneira de me comunicar com o mundo.
– Você acredita que o jornalismo cultural pode impulsionar novas carreiras na música?
Acho isso cada vez mais difícil, mas ainda possível. Em outras áreas, como na culinária, um bom review, uma boa reportagem, ainda podem transformar a vida de uma pessoa (o Chef’s Table exibe várias dessas histórias). Na música isso acontece apenas de forma mais pontual hoje em dia, mas não é impossível.
– Seria um papel do Jornalismo Musical revelar novos talentos?
De maneira alguma. O Jornalismo Musical têm de dar material para que as pessoas entendam o momento cultural em que elas estão inseridas, para que elas vislumbrem o todo através de um disco, de uma música, de um movimento cultural. Quem tem que revelar novos talentos é a gravadora, o selo, os próprios artistas.
– Na questão ética, qual seria o papel do jornalismo cultural?
Não deixar se levar pela proximidade com seu objeto de estudo talvez seja o maior desafio ético no mundo hoje. Como diria Lester Bangs, “eles vão te usar”. E vão mesmo. Diferente de antigamente, onde o contato era mais distante, hoje em dia o contato com o artista é cada vez mais próximo, devido às redes sociais e a facilidade de comunicação. É preciso utilizar todas as ferramentas de aproximação, mas também manter certo distanciamento.
– A produção em escala industrial de novas músicas e artistas pode ser um ponto negativo para a contemplação da arte? Como você enxerga isso?
Lá se vão quase 60 anos de indústria cultural e a discussão já deveria estar adiantada. Muita gente (mais gabaritada do que eu) já discorreu sobre isso, e até essas discussões já estão datadas porque vivemos numa sociedade de capitalismo de consumo que muda segundo a segundo, e para discutirmos indústria cultural precisamos discutir esse modelo de capitalismo de consumo, precisamos discutir superexposição nas redes sociais, precisamos discutir o silencio na sociedade moderna, precisamos discutir essas mudanças constantes. Por exemplo: como contemplar uma obra de arte no caos que vivemos? como criar uma obra de arte no caos que vivemos? Como milhares de coisas na vida, a escala industrial tem pontos positivos e pontos negativos. Conheceríamos Beatles, U2, Nirvana e Arctic Monkeys se eles não fossem escala mundial? Talvez sim, talvez não. Mas, sinceramente, isso pouco importa. A questão aqui não é a indústria, mas sim a evolução do ser-humano na luta contra algo que ele sempre temeu: ele mesmo. Vivemos alguns milhões de anos lutando para preencher todos os espaços do dia a modo que não nos tornássemos solitários e fugíssemos de nosso âmago. O que Beethoven tem a ver com a indústria cultural? Nada. Porém, ele não seria Beethoven no mundo de hoje, a não ser que fosse um eremita distante do caos social. Como compor, como escrever, como refletir filosoficamente em meio a todo esse turbilhão de informação e contato? Essa é uma das principais questões culturais do mundo moderno. No tempo de Beethoven, Shakespeare e outros gênios, o dia claro era curto, a noite era longa, o silêncio era dominante, a escuridão, todo um conjunto de fatores que levava a reflexão. Agora vivemos a era da hiper-conexão e nunca estamos sozinhos, ainda que estejamos sozinhos. Como se concentrar em “Em Busca do Tempo Perdido” com Messenger, Whatsapp, Twitter, Facebook, Telegram e todas as demais redes mandando alertas de atualização a todo o momento? Desligando os aparelhos? Funciona? E o quanto a nossa mente já está focada nessa sensação eterna de compartilhamento: “Nossa, esse trecho do livro tal é sensacional! Vou compartilhar no Instagram”. Ou seja, a pessoa se desliga do foco (o aprofundamento no objeto de cultura que pode fazê-lo refletir sobre algo que ele não estava pensando) para viver um momento zumbi: o objeto final é o compartilhamento, não a reflexão. Então, a contemplação da arte nada tem a ver com indústria cultural, mas sim com a necessidade que o ser-humano teve de preencher todas as lacunas de seu tempo a modo de não se sentir solitário. E isso irá, cada vez mais, mudar a percepção das pessoas sobre o mundo e sobre a cultura.
– A contemplação do fã Marcelo ajuda ao Marcelo jornalista a escrever suas resenhas?
Funciona como um start, mas pode sofrer radicalmente com o aprofundamento do olhar, porque muitas vezes a beleza artística é rarefeita e tangível ao primeiro contato. Então, de repente, você ouve um disco e se apaixona por ele. Mas na hora que você senta para ouvir todos os detalhes, procurar entende-lo melhor, muitas vezes ele não é aquilo que você achava que era no “amor à primeira ouvida”. Contemplação e crítica divergem muito
– O jornalismo opinativo é sem dúvida dominante no meio cultural, mas existe espaço para o jornalismo informativo? Como esse se desenvolveria? Você não acredita que a imparcialidade deixa o jornalismo cultural sem tempero?
Muita gente confunde jornalismo com colunismo, e são coisas extremamente diversas: uma coluna opinativa é algo em que fulano emite sua opinião enquanto uma reportagem informativa é o olhar (pessoal, inevitável) de alguém sobre determinado objeto de estudo. Se aprofundarmos jornalisticamente um acidente na esquina, conversando com diversas pessoas que possam ter visto o que aconteceu, cada uma delas poderá contar uma versão que incluirá sua personalidade (tipo um homem ser machista e no acidente ter uma mulher envolvida, e mesmo ela não estando hipoteticamente errada, o cara jogar a culpa nela porque, no mundo errado dele, “mulher não dirige bem”). A função do jornalista informativo é tentar se aproximar o máximo da verdade, ou do que ele acredita ser a verdade. Transpondo isso para o meio cultural, crítica é uma coisa: é fulano com todo seu histórico analisando uma obra (um show, um disco, um filme), e um cara que gosta de Iron Maiden irá fazer uma critica do show de Ivete Sangalo diferente de um cara que gosta de Gal Costa. Ponto. Reportagem já é outra coisa, mas muita gente ainda confunde e coloca opinião onde deveria existir investigação. Não existe imparcialidade porque cada pessoa é uma construção histórica, e essa construção irá ditar o modo como se constrói a pauta, como se acessa a fonte, como se observa as nuances do dialogo jornalístico. E tudo isso é tempero. Talvez a gente cobre muito do jornalismo quando deveria cobrar maior percepção das pessoas na forma de entender que o meio influencia decididamente o que ela está lendo, e entender esse meio a ajudaria a entender a noticia, a crítica, a reportagem como um todo. Porém, o que estamos vendo, com a proliferação de fake news, é o contrário. Uma pena.
maio 4, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 46: Reggae Tribute

Bob Dylan com café, dia 46: Num episódio famoso da cultura pop, em 1979, Serge Gainsbourg baixou em Kingston para gravar um disco de inéditas reggae com os ainda desconhecidos Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo). O resultado foi “Aux Armes Et Cætera” (1979), um dos maiores sucessos da carreira de Gainsbourg, disco de platina triplo na França ancorado numa versão rastafári de “A Marselhesa” que fez com que a extrema direita francesa o ameaçasse de morte. O sucesso foi tanto que Serge levou Sly & Robbie para a turnê na França, e os colocou no mercado. Serge gravaria outro álbum com a dupla (“Mauvaises Nouvelles des Étoiles”, 1981), mas quem cruzaria Sly & Robbie em 1983 seria Dylan, que contrataria a cozinha jamaicana para o belo álbum “Infidels”, que ainda teria Mark Knopfler e Mick Taylor. Os Wailers já haviam gravado “Like a Rolling Stone” em 1966, mas a ilha jamaicana ainda não tinha mergulhado profundamente na música de Dylan até que o produtor Doctor Dread, fundador da RAS Records, montou uma super banda base (com Sly na bateria, mas sem Robbie no baixo, substituído por Glen Brownie, que acompanhou de Jimmy Cliff a Ziggy Marley, mais Dwight Pinkney na guitarra, entre outros) e convidou um time de estrelas para recriar o repertório de Bob.

Lançado em 2004, “Is It Rolling Bob? A Reggae Tribute To Bob Dylan” traz a capa de “Bringing Back All Home” numa divertida versão Jamaica, com Bob bolando um baseado, uma dreadlocker ao fundo, capa de discos de reggae no chão, um foto de Bob Marley sobre a lareira e até uma cerveja Red Stripe. Gravando em Kingston no padrão Jamaica (um CD reggae, o outro dub), o primeiro disco traz 13 versões e um excelente remix de “I and I” (uma das grandes faixas de “Infidels”) enquanto o segundo toasteia oito versões (“I and I” inclusa). Destacam-se Toots Hibbert (líder da mítica Toots & the Maytals) numa versão poderosa que transforma “Maggie’s Farm” em um grito de guerra escravo; Gregory Isaacs brilha numa pungente “Mr. Tambourine Man”; Nasio Fontaine surge acompanhado por Drummie Zeb & The Razor Posse na religiosa e ótima “Gotta Serve Somedbody” enquanto Sizzla banca o MC agitando “Subterranean Homesick Blues” e Michael Rose (do Black Uhuru) em “The Lonesome Death of Hattie Carroll” (“Uma canção particularmente forte para a história de escravidão na Jamaica, esmagada entre pobreza e violência”, observou a resenha do Guardian) num disco curioso, divertido, reflexivo e descompromissado, como um bom baseado.
abril 18, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 25: Infidels

Bob Dylan com café, dia 25: A turnê de “Shot of Love” terminou em novembro de 1981 e Bob tirou 1982 para descansar (re)interessado em suas raízes judaicas. A melhor definição: “Ele é um judeu confuso”, disse um rabino. O bar mitzvah de seu filho Jesse aconteceu em Israel e a ex-Sara bateu lá a foto que estampa a capa (na parte interna original, Dylan visita o Monte das Oliveiras). Para o disco, buscando uma mudança radical, Bob tentou Frank Zappa para produtor e, diante da recusa, sondou David Bowie e Elvis Costello antes de efetivar Mark Knopfler na função ao lado dele e na banda que tinha “apenas” Sly Dunbar (bateria) e Robbie Shakespeare (baixo) na cozinha, e o ex-Stones Mick Taylor voando nos riffs.

O resultado é “Infidels” (lançado em novembro de 1983), um dos dois discos definitivos de Dylan nos anos 80 (o outro será lançado em 1989). Uma polêmica cerca a versão final do álbum: Bob gravou tudo com Mark Knopfler, que fez uma pré-mixagem e precisou sair em tour com o Dire Straits, prometendo voltar para encerrar o trabalho. Bob não só não o esperou como regravou alguns vocais e mudou o tracking list final, deixando de fora canções que, a posteriori, se transformariam em ícones de bootlegs (o duplo “Outfidel Intakes (Power and Greed and Corruptable Seed” é o mais famoso – e facinho de achar). Com o mea-culpa, Bob Dylan: “Muitas das canções de ‘Infidels’ eram melhores antes de serem mexidas, e, é claro, foi eu quem mexeu nelas”.
Prejudicou o disco? Um pouco, mas nem taaaanto assim, ainda que seja um imenso pecado “Foot of Pride” (que Lou Reed recuperou no “The 30th Anniversary Concert Celebration Bob Dylan”) e “Blind Willie McTell” terem ficado de fora de um álbum que versa sobre um mundo à beira de uma catástrofe e como cada pessoa lidaria com o final dos tempos. O messias charlatão “Jokerman”, a obra-prima do disco, abre o álbum versando sobre como tolos (e o próprio Dylan) podem ser manipulados pela religião e por políticos populistas (no clipe repleto de referências, o então presidente Ronald Reagan encarna o personagem calhorda). “Neighborhood Bully” soa Velvet Underground enquanto a acusatória “License To Kill” questiona a arrogância dos homens através do imperialismo e sua predileção pela violência.
Certo dia, Bob encontrou Leonard Cohen para um café. “Quanto tempo você demorou para fazer ‘Hallelujah’?”, perguntou. “Alguns anos”, respondeu Cohen, que emendou: “E você fez ‘I and I’ em quanto?”. Dylan respondeu: “15 minutos”. E que baita canção. Mick Taylor sola lindamente em “Sweetheart Like You”, segundo clipe do disco, outro grande momento ao lado de “Don’t Fall Apart On Me Tonight”, ou o amor em tempos de cólera. Saca a cena de “Casablanca” em que Ilsa abandona Rick devido ao avanço do exército nazista e eles prometem “nós sempre teremos Paris”? É esse momento transformado numa balada com a gaita de Dylan fatiando o coração em pedacinhos bem pequenos e, na dúvida, deixando o bottleneck de Knopher refazer o mesmo serviço só para garantir. “Ontem é apenas uma lembrança. Amanhã nunca é o que deveria ser”, encerra Dylan.
março 17, 2018 No Comments
News: MGMT, UMO e The Fratellis
“Little Dark Age”, o quarto álbum do MGMT, chegou nesta sexta às plataformas de streaming e download. Para marcar a data, a banda lançou o vídeo do single “Me and Michael”, dirigido por Joey Frank e Randy Lee Maitland, e que retrata o MGMT encontrando um sucesso sem precedente após roubar uma música escrita pela banda filipina True Faith.
Quem também está com vídeo novo na área é o Unknown Mortal Orchestra! “American Guilt” é o primeiro single do álbum “Sex and Food”, que chega ao mercado no dia 06 de abril. “American Guilt” é uma tentativa de capturar alguns dos sentimentos que flutuam hoje em dia. De forma perversa, eu queria abraçar esse gênero abandonado do rock que eu continuo lendo sobre estar “morto” e convido as pessoas a ouvir o que esse gênero morto-vivo soa no universo da UMO. Foi gravado em Hanói, no Vietnã, durante a temporada de monções em um estúdio construído para a música tradicional vietnamita. A gravação adicional foi feita na Cidade do México, mas nossas sessões foram interrompidas por um dos devastadores terremotos ocorridos no ano passado. Enquanto dormíamos no Parque do México, incapaz de voltarmos para o nosso Airbnb, ouvimos um homem gritar “viva la Mexico!” E coloco isso na música por respeito”, avisa Ruban Nielson.
Outra novidade é a volta do Fratellis! “In Your Own Sweet Time”, seu quinto álbum, será lançado no dia 16 de março pela Cooking Vinil. O primeiro single (acima) se chama “Starcrossed Losers” e transporta a história de Romeu e Julieta de Verona para a periferia da Escócia, onde o romance adolescente de um casal pobre transforma o melodrama e a tragédia do texto original de Shakespeare em uma forma muito britânica de auto-depreciação. “É uma canção levemente mais grudenta do que o resto do álbum. Mas às vezes você tem que servir a música, e é isso que a música precisava”, contou o vocalista e guitarrista Jon Fratelli.
fevereiro 9, 2018 No Comments
Eu e Lygia

Uma das melhores cervejas que bebi em 2017 (Dádiva Quatro Graus Entomology, medalha de ouro dos últimos 30 dias) acompanhada de um dos dois livros que me viciou na leitura (o outro, na verdade, foram os primeiros volumes de uma série: “Para Gostar de Ler“): “Seleta”, uma coletânea de contos da Lygia Fagundes Telles (editada em 1971) que eu li a primeira vez quando tinha 10 anos, e fiquei chapado, pois trata-se de uma edição comentada em que a professora Nelly Novaes Coelho aprofunda o olhar do leitor ao final de cada conto. Como diria Erasmo, eu era criança, não entendia nada das entrelinhas dos contos, e os comentários da Nelly me abriram esse universo inexplorado pelo qual me apaixonei (e que amplifiquei na coleção de Shakespeare, que comentei aqui). Sonhei acho que um mês inteiro com o desenrolar de “Venha Ver o Pôr do Sol”, sempre com foco nas crianças brincando enquanto o final trágico era construido. Dai em diante, devorei praticamente tudo da Lygia, adaptei e encenei “Lua Crescente em Amsterdã” (que não está presente nessa coleta) pruma aula de teatro da faculdade e uma amiga a pediu em casamento… por mim. “Ele tem dinheiro?”, ela perguntou, rindo. Tadica :~ E todo esse amor pelos textos de Lygia Fagundes Telles começou com esse livrinho (que não custa nem R$ 10 no Estante Virtual). Venha ver o pôr do sol. Ele é trágico.
janeiro 26, 2018 No Comments
King Lear na versão de Jean-Luc Godard

Titulo: King Lear (1987)
Para encerrar sua trilogia de personagens míticos – após “Carmen” (de 1983, que abordava o terrorismo inspirado em Bizet) e “Je Vous Salue Marie” (de 1985, que questionava a fé cristã com foco na Bíblia), Jean-Luc Godard escolheu Shakespeare. Iniciada em 1985, a produção se arrastou até o fim de 1987. Não à toa, os primeiros diálogos da obra são do produtor cobrando o diretor: “As pessoas não acreditam que o filme jamais será feito”. No corte surge Norman Mailer, que deveria assinar o roteiro e participar da trama, mas desistiu quando Godard insinuou que seu personagem iria praticar incesto com a própria filha (Kate Mailer). O filme dentro do filme dentro do filme segue com William Shakespeare Jr. V (Peter Sellars), que explica: após o desastre nuclear de Chernobyl, todo tipo de arte existente foi destruído e sua função é recriar as obras do ente famoso. William então se envolve com os personagens da peça que está reescrevendo, Cordelia (Molly Ringwald logo após “Clube dos Cinco” e “A Garota de Rosa Shocking”) e seu pai, o mafioso Don Learo (Burgess Meredith). Ainda vão surgir em cena Julie Delpy (com meros 16 anos) e o próprio Godard como o Professor Pluggy (um “gênio” maluco) numa trama que questiona a arte de forma niilista sem muita fé no subproduto (feito nas costas) que irá resultar “do filme”. Quem deverá juntar as peças insanas desta loucura pós-apocalíptica na sala de edição e salvar o cinema? Sim, ele mesmo, Mr. Alien (Woody) – citando “Meetin’ WA” ao inverso. Há consenso que “King Lear” é um dos filmes mais fracos de Godard (o texto de Robert Koehler no Los Angeles Times, em 1988, é ótimo), mas há críticos, como Richard Brody, da New Yorker (autor do livro “Everything is Cinema: The Working Life of Jean-Luc Godard”, 2008), que o acham “o melhor filme de todos os tempos” (ele colocou “King Lear” no número 1 em sua votação na Sight & Sound, 2012). Na dúvida, assista (e tente imaginar se estilhaços desta experiência irão afetar os próximos filmes de Woody).
maio 7, 2015 No Comments
Uma entrevista que não terminou
Entrevista concedida a Lafaiete Júnior entre janeiro e junho de 2011 (acho)…
Qual sua primeira lembrança musical?
Jorge Ben. E Vinicius. Meu pai tinha uma coleção extensa de MPB, e rolavam várias festas em casa. Uma lembrança marcante: dia do assassinato de John Lennon. Minha mãe, na sala, chorou muito. E eu não entendia o motivo… hoje até eu choraria.
Como foi sua adolescência? Passou, literalmente, entre discos e livros?
Sim. Fiz carteirinha de todas as bibliotecas de Taubaté, então não passava uma semana sequer com o mesmo livro. Devorava. Quando não tinha nada interessante para ler, relia. Nessas fiquei meses com o “Obras Completas”, do Oscar Wilde, em casa. E fiquei fã de uma coleção completa de obras do Shakespeare, uma edição antiga repleta de apêndices. Procuro ela até hoje para comprar. Já os vinis começaram aos 12, 13 anos. Eu e outro amigo discotecávamos nas festinhas da rua. Paralelamente, o rock nacional estava surgindo, e muita coisa boa acontecendo. Logo depois veio a Bizz. Um mundo novo se abriu. Com 16 anos minha casa já era o ponto de encontro da turma, o local em que todo mundo ia beber e fumar ouvindo boa música.
Isso foi em que ano? E você lembra quais foram teus primeiros vinis nessa época? E as capas da Bizz?
1982/1983 mais ou menos. Primeiros vinis… “Radioatividade”, da Blitz (também meu primeiro “grande” show – risos); “Ballads”, uma coletânea com 20 baladas dos Beatles e um disco da Rita Lee com o Erasmo. Já na época da Bizz, 1985/1986, começaram as compras desenfreadas, coisa de entrar na loja e sair de uma só vez com o “Dois”, da Legião, o “Selvagem”, dos Paralamas, o “Rock Errou”, do Lobão, o “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, do Ultraje e o “Vivendo e Não Aprendendo”, do Ira!. Capas da Bizz… Bruce estampou a capa da edição número 1 da revista. Tenho a coleção completa, e essa particularmente está detonadaça de tanto que li. Ainda hoje, se alguma referência me vem a cabeça quando estou escrevendo, vou direto na revista conferir. É mais rápido do que colocar o CD-Rom no computador (risos).
Massa! Sua personalidade e repertório musical são bem pautados pela Bizz então. Qual a importância da revista para sua formação profissional e até mesmo pessoal?
Acho que é impossível de mensurar a importância da revista na minha formação e na minha vida pessoal. O fato de ser jornalista tem a ver com a revista também, muito embora meu pai tenha sido a grande inspiração para a profissão, mas a revista… putz, ela tornou viável a ideia que eu tinha do que eu queria ser. Foi fundamental no meu crescimento como profissional. Quando você passa sua adolescência lendo Ana Maria Bahiana, Alex Antunes e André Forastieri, sua vida só pode melhorar (risos).
Eu “descobri” o André Forastieri em um post no teu blog. Pirei. E já comprei revista só porque tinha o nome dele (risos). Virou uma referência. E você acha que as revistas que tratam de música hoje no Brasil têm esse “poder” de influência sobre os jovens? Pra formar uma possível nova geração de profissionais… Como a Billboard e a Rolling Stone, por exemplo.
Não, não tem. Infelizmente. Falta jornalismo opinativo no Brasil. Uma revista já chega às bancas atrasada em relação a internet, pela velocidade da informação. Ter textos opinativos, coisas mais pessoais, poderiam dar uma personalidade para a publicação e seduzir o leitor. É preciso seduzir o leitor. Por outro lado, existem vários profissionais na internet fazendo isso. Já recebi diversos e-mails de gente contando que decidiu fazer jornalismo devido ao Scream & Yell.
E desses profissionais da internet que você fala, consegue citar alguns que você gosta?
Tem muita gente nova bacana nas esquinas da internet. O pessoal do Urbanaque, do Move That Jukebox, por exemplo, são bons pacas no que se propõe. Não é a toa que nos juntamos sob o guarda-chuva Confraria Pop. Eu acredito neles, acredito no potencial. Da mesma forma que acredito e admiro o Coquetel Molotov, o La Cumbuca, o Alto Falante, o El Cabong e muitos outros. Mas se for para citar vou ficar com um monte de gente que migrou do papel para a web, nomes como o próprio Forastieri, o Alexandre Matias e o Lúcio Ribeiro, caras que continuam em contato com o papel, mas cuja vida já fica difícil de ser dissociada da internet
Agora sobre o Scream & Yell. Com surgiu a ideia dele? O que você pretendia?
Surgiu da maneira mais prosaica possível. Um amigo apareceu em casa num 25 de dezembro me propondo fazer um fanzine. Não lembro se chegamos a discutir isso antes, de onde ele tirou a ideia de fazer um fanzine. Dois grandes amigos da minha turma já tinham feito um fanzine, o Gambiarra, e talvez eu até tenha comentado sobre com o João Marcelo, o cara que batizou o Scream & Yell, mas realmente não lembro de onde ele tirou a ideia. Só lembro que ali na mesma hora desenhamos como seria o número 1 do Scream & Yell em papel. O foco naquele momento era falar da cena musical de Taubaté, nada mais do que isso. Tanto que no número 1 temos entrevistas com bandas de lá…
E sobre esse contexto do início do Scream & Yell… Consegue fazer um paralelo da cena musical que você tinha contato na época com a cena atual? O que mais mudou, o que não mudou… Como você percebe esses dois momentos…
Puxa, difícil. Eu morava em Taubaté, uma ilha entre São Paulo e Rio de Janeiro que não absorvia nada de bom e parecia longe demais das capitais. Taubaté era uma cidade metal. Até brinquei de roadie de banda trash lá. A cena era muito distante, e chegava a mim pela Ilustrada e pela Bizz. Naquela época – 1995/1996 – era difícil copiar CDs, os MP3 ainda não eram febre e o correio ainda era uma fonte inesgotável de troca de informações musicais (via fanzines). Hoje vivemos no período da múltipla informação. Temos acesso a mais discos que conseguimos ouvir, a mais textos que conseguimos ler. Conseguir a atenção do leitor é uma vitória hoje em dia. 15 anos atrás era mais fácil.
O Scream & Yell durou quanto tempo no papel? Tem vontade de voltar para o papel?
Pra você ver como o tempo passa, tive que ir atrás dos originais para confirmar as datas, todas perdidas na memória. O #1, com Kiss na capa, era para ter saído em janeiro de 1997. Fizemos nos últimos dias de 1996, editamos, mas na hora de imprimir não conseguimos patrocínio. Então o João, que fazia o fanzine comigo, se acidentou e morreu. Aposentei a ideia. Só voltei a ela no final de 1998, quando um cara, que tinha visto uma versão pirata do número 1 do Scream & Yell (risos) me pilhou para voltar com o zine (que na verdade nem tinha ido – risos). A edição número 2 saiu em janeiro de 1999 com Chris Isaak na capa. Ficamos super orgulhosos de colocá-lo em destaque. Aproveitei o embalo e finalizei a primeira edição, e lancei. Comecei a distribuir ela com o #3, que tinha o Echo and The Bunnymen na capa. O #4 saiu em junho, e foi uma edição especial de dia dos namorados (com poesia, indicação do “Baladas Sangrentas”, do Wander Wildner, para ouvir e um texto belíssimo que o Thales de Menezes, na época na Folha de São Paulo, liberou para nós: “Romance com alma Rock and Roll). O #5 tinha o cineasta Kevin Smith na capa e saiu em agosto de 1999. O #6 e último saiu apenas em março de 2000 com Jerry Lee Lewis na capa e uma tiragem de 1000 exemplares. Sempre tive vontade de fazer uma edição em papel novamente. Adoro os textos impressos. Qualquer hora me aventuro novamente. É uma porta aberta.
O Scream & Yell é um site de cultura pop… O que é cultura pop pra você?
O site começou com um foco em cultura pop, pegando o lado popular das artes. Então na literatura, no começo, falávamos de Nick Hornby. Em cinema, de Quentin Tarantino. Ou seja, buscávamos elementos populares que aproximassem essas artes da música pop. Com o tempo, porém, fomos ampliando o leque, tentando mostrar para o leitor que não há diferença para nós entre Gustav Mahler, Christopher Nolan, Wado e Bohumil Hrabal. Eles são todos objetos transformadores da cultura, agentes que podem ampliar a sua visão sobre o mundo. O cerne da criação do Scream & Yell, instintivamente, foi esse: falar de cultura de uma maneira que essa cultura amplie o universo do leitor – como as revistas e jornais e livros que li fizeram comigo. Então, voltando ao inicio da sua pergunta, cultura pop para nós hoje em dia é tudo. Exatamente tudo. Pra que limitar se o mundo, de alguma forma, se ampliou com a internet, mas tudo está muito mais próximo, né.
Já aconteceu alguma coisa engraçada ou diferente relacionada com algum texto que você escreveu? Alguém que não gostou e tal…
Dezenas de vezes, dezenas. Para o bem e para o mal (risos). Para o bem existe um monte de gente que diz que conheceu tal banda, tal filme ou descobriu tal coisa através do site. É daquelas coisas que dão orgulho. Já o contrário também ocorre. Muita gente discorda de um texto e leva para um lado pessoal do tipo: “Você está com inveja do Dinho Ouro Preto”. Ou: “Chris Martin é famoso e quem é você? Ninguém”. Fazer o que nessa hora? Rir. (risos)
Aquela pergunta chata: Marcelo Costa por Marcelo Costa. Rola alguma definição?
Haha, pergunta suspeita (risos). Acho que vale mais perguntar para algumas pessoas que me conhecem, jornalistas amigos, sabe. Acredito mais neles do que em mim (risos). Mas, vou tentar me resumir numa linha: um cara que alcançou o seu sonho, mas ainda não quer dormir. Diz muito… ![]()
Nesse caso (de história engraçada sobre algum texto), não aconteceu de alguém querer tirar satisfação com você pessoalmente não, né? (risos)
Não, mas estamos ai (risos). Uma vez escrevi um texto que apontava algumas coisas que considerava defeitos em um disco, e encontrei um dos caras da banda uns tempos depois: “A gente curtiu o que você falou porque você foi e ouviu o disco. Tem gente na banda que concordou, outro discordou, mas respeitamos a sua opinião”. Acho que é por esse lado. Não teria a manha de fazer algo para sacanear uma banda.
É possível notar nos seus textos uma paixão por aquilo que você faz. O que esse tal ato de escrever significa pra você?
É como se fosse respirar, não consigo pensar em outra coisa. Se tenho muitas ideias, e não escrevo, durmo mal (mesmo dormindo às 23h, por exemplo). Se fico acordado até às 3 da manhã e escrevo um texto que me satisfaça, durmo feliz (mesmo dormindo menos).
Qual banda ou artista te acompanha pela vida? Por quê?
Estava vendo a minha Last.Fm dia desses e fiquei surpreso: mais de 129 mil músicas ouvidas, mas os artistas que mais ouvi tem tudo 1800 músicas, e são poucos: Wilco, Costello, Dylan, R.E.M. e Radiohead. Mas então lhe digo que a banda que me acompanha é o Echo and The Bunnymen, que está lá embaixo na tabela, em 18 lugar. Mas são os discos deles que vou buscar quando quero ouvir alguma coisa especial. Como escrevi certeza vez, em uma coluna para a revista Noize, o Echo me explica. Isso é muito especial para quem ama a música.
De que você tem medo?
De milhões de coisas, o que não quer dizer que não eu não vá enfrentar estes medos. Medo obriga você a lutar. E eu sou leonino. Adoro uma briga. risos
Em quais momentos você ouve música? Você consegue parar pra fazer apenas isso? Como é essa relação mais “intima” que você tem com a música?
Putz, passo o dia inteiro com um fone de ouvido com algo rolando, mas não é a mesma coisa que ouvir em casa, prestando atenção, sabe. Ouvir música no trabalho é mais para ter um primeiro contato mesmo. Meu momento com a música é em casa, no meu som. Sou daqueles que só sabe se gostou mesmo de um disco se ouviu ele no seu próprio som, pois ele é a minha referência para música (risos). Mas isso de parar para ouvir é bem raro hoje em dia. Ouço mais para escrever. Costumo dizer que se estou ouvindo muito um disco, preciso escrever logo sobre ele para esgotá-lo e colocá-lo na estante. É tipo uma terapia. Muita gente quer escrever sobre música, e o que ninguém conta para elas é que elas vão precisar ver shows de bandas que não gostam e receber discos de artistas ruins. E o ato de ouvir música pode se transformar numa obrigação. Inevitavelmente acaba se transformando, mas ainda consigo me emocionar ouvindo um disco e vendo um show. Acho que meu coração ainda não caiu nas garras da arteriosclerose do “classic rock”, como definiu certa vez Ana Maria Bahiana (risos).
Você agora comanda o podcast Scream & Yell on The Radio junto com o Tiago Agostini, na Rádio Levis. Como tem sido essa nova empreitada? Fale um pouco sobre isso, de quem foi a ideia etc.
Na verdade agora somos quatro. Além de mim e do Agostini contamos com a presença do Marco Tomazzoni (jornalista cultural do iG e colaborador do Scream) e do Tiago Trigo (também colaborador do Scream). Nós formamos uma “família” Seinfeld e andamos juntos já faz um bom tempo, o que faz com que muitas ideias apareçam e desapareçam. Uma delas foi a de fazer um podcast. Chegamos a marcar data para gravar, ou ao menos estruturar a parada, mas não rolou. Uns seis meses depois recebi o convite da Rádio Levis para fazer um programa lá, gravado no estúdio deles para ser exibido na programação e disponibilizado para download. A ideia inicial era começar em quarteto, mas fui testando, observando o terreno. Começamos eu e Agostini, mas agora já estamos os quatro juntos, o que dá uma dinâmica interessante ao programa. E é um programa para falar sobre música. Foi mais ou menos isso que o Edu Parez, da Levis, nos pediu. Um olhar aprofundado, crítico e informativo sobre o que anda rolando. Além disso decidimos montar alguns programas especiais, e são eles que estão se destacando mais. A edição 6, inspirada no documentário “Uma Noite em 67” ficou excelente. No geral, ainda temos que melhorar muito. Rádio é uma mídia totalmente particular, mas a possibilidade do download do programa é simplesmente maravilhosa. Muita gente já nos escreveu dizendo que nos ouve no celular indo para o trabalho. Um amigo carioca disse que se divertiu muito com um programa (exatamente o 6) ouvindo numa caminhada no calçadão do Rio. Chegou em casa e foi atrás de algumas raridades que tocamos. Bacana isso.
E qual sua relação com as rádios? Você ainda acredita nas FMs?
Não só acredito como aposto todas as minhas fichas de que as coisas só podem mudar no País quando essa nova geração tomar as rádios. As grandes indústrias brasileiras cavaram sua própria sepultura apostando pesadamente no jabá. O que acontece é que há pouco espaço (quase nenhum, na verdade) para o novo, pois as rádios dependem do jabá e não vão abrir um espaço para algo novo, pois como ela vai oferecer de graça algo que tem gente que ainda paga para ocupar. Assim, o espaço livre é ocupado por classic rock. Os Estados Unidos conseguiram sobreviver, de certa forma, porque o circuito de college radios firmou-se como definidor de tendências para a juventude buscando sempre o novo. Abriu espaço para que muita gente legal surgisse. Não temos esse canal no Brasil, que permite ao novo artista ser conhecido pela massa, que ainda consome o rádio. A Rádio Oi tem um desenho ótimo, mas é preciso conquistar as demais emissoras. Como escreveu Wado, é preciso fazer funcionar a reforma agrária do ar.
Qual o texto de outra pessoa você gostaria de ter escrito? Algum motivo específico? E em relação aos textos que você escreveu existe um que você gosta mais que outros? Por quê?
Nossa, eu gostaria de ter escrito centenas de textos. Coisas do André Forastieri, do Tony Parsons, do Simon Reynolds e da Ana Maria Bahiana, várias. Não é a toa que criei uma seção no site chamada “Matérias Antológicas“. Tenho vários textos meus queridos… alguns por motivos pessoais, outros que acho que consegui me expressar bem, e ainda alguns problemáticos na construção, mas que mesmo assim se tornaram queridos. Alguns, de cabeça. “Tudo simplesmente acontece” (resenha sobre o filme “Magnólia”) e “O gosto amargo nos lábios de nossa alma” (texto sobre o filme “Sangue Negro“), “Noé” (resenha sobre “Hail To The Thief“, do Radiohead), “Bob Dylan, um retrato borrado da era de ouro do rock ‘n roll” (sobre o show dele em São Paulo) e as entrevistas com Ian McCulloch, André Takeda e Fernanda Young.
Você se sente realizado com o Scream & Yell? Ou falta alguma coisa?
Realizadissimo. O Scream & Yell chegou a lugares que nunca imaginei que ele iria chegar. Ele entrou na vida de milhares de pessoas como a música entrou na minha vida. E mais do que isso, ele se transformou em um veículo com uma cara de honestidade que me traz um orgulho imenso. Nesse quesito não falta nada, mas a gente sempre quer mais, quer que o site cresça, quer sobreviver do site (até para se dedicar mais a ele), quer amplificar as discussões ali, quer o mundo, mas estamos contentes com o pedaço de terra que conquistamos até hoje. Ou seja, ainda falta dinheiro. O que não me impede de me sentir realizado.
Aproveitando isso… como você percebe e encara a importância que o Scream & Yell tem para essas pessoas a que você se refere? Rola uma cobrança maior da sua parte em decorrência dessa importância?
Sinceramente, não costumo pensar muito nisso. Busco manter um padrão, e mantendo esse padrão estaremos satisfazendo a nós e a todos aqueles que encaram o site como algo especial. Mas encaro como um imenso reconhecimento, sem dúvida. A cobrança naturalmente é maior, mas fazemos as coisas da forma mais natural possível. Continuo escrevendo para mim mesmo, sendo o meu primeiro leitor.
Como você imagina que será teu futuro e o do Scream & Yell?
Jim Morrison escreveu certa vez: o futuro é incerto e o fim está sempre próximo. E é exatamente assim que me sinto. Tem semanas que dá uma vontade imensa de jogar tudo pro alto. Fico planejando a melhor maneira de dar cabo ao site sem me sentir culpado, essas coisas. O Scream & Yell é um filho e como tal exige muita atenção. Às vezes a estafa bate e fica difícil manter o bom humor. Por outro lado, 2010 foi o melhor ano do site. Disparado. Não só o melhor ano editorial (acho até que editorialmente tivemos anos tão bons quanto este), mas 2010 foi o ano em que surgiram mais oportunidades de negócio com o site. Parcerias, publi-editoriais, anúncios. Dá para dizer que 2010 será o primeiro ano que o Scream & Yell fechará no azul. E isso cria ótimas perspectivas para o futuro. As portas estão sendo abertas para o site, e não tem como pular fora do trem agora. Mas não posso bater o martelo e dizer que quero passar os próximos dois anos fazendo isso. Ou melhor, se fosse só fazer isso, tudo bem, mas o Scream & Yell é o que faço na hora de folga (ou seja, na hora de folga eu “trabalho” no Scream & Yell). E o futuro do site influencia o meu futuro. As melhores coisas que aconteceram na minha vida profissional foram conquistadas através do site. O plano no momento é seguir em frente e aproveitar esse momento de crescimento (do site e do mercado) e ver aonde vamos todos parar. E, sinceramente, eu não tenho a mínima ideia de onde tudo isso vai parar…
O Scream & Yell já acabou e voltou duas vezes, né? Decidiu parar nas duas ocasiões por esses motivos que falou? E por que decidiu voltar?
A primeira foi no susto. Estava acabando o contrato de um emprego, e eu acreditava que muita coisa iria mudar, e que entre elas eu não teria mais tempo para tocar o site. E pra deixar o site às moscas, melhor terminar. Porém, assim que anunciei o fim, uma centena de emails começou a lotar a minha caixa com mensagens de carinho, agradecimentos e pedidos para continuar. Não teve como. O site acabou por uma semana, sem sair do ar. Em 2003, o site não chegou a acabar, mas deu uma parada tão grande que desisti da capa tradicional e coloquei o blog como principal. Entre outubro de 2003 e maio de 2004 só tivemos um blog na capa. Fui retomando as atualizações conforme as coisas foram entrando nos eixos. Por que voltar? Porque é uma coisa muito legal de fazer, e eu queria provar que era possível continuar, que bastava ter força de vontade. Não queria desistir. Queria manter esse canal de conversa/contato com o mundo. E desde junho de 2004 o site vem se mantendo firme com uma atualização constante. A conversa está durando…
Na história do Scream & Yell você consegue citar dois momentos opostos: um que te deu muito orgulho e outro que nem tanto?
Momentos de orgulho são muitos. De verdade. Na primeira vez em que decidi acabar com o site (2003) recebi uma quantidade tão grande de e-mails e telefonemas que me senti obrigado a, de alguma forma, continuar. Foi tipo uma realização: “as pessoas se importam com esse site”. Foi um momento de muito orgulho. Também foi sensacional participar do Seminário Internacional de Jornalismo do Itaú Cultural ao lado do Jan Feld, do UOL, e do Alex Needham, do Guardian: um site independente ao lado de um dos maiores portais do País e de um dos maiores jornais do mundo. Quanto a momentos ruins… não saberia listar um momento específico. Acho que a falta de tempo faz com que muitas vezes um texto entre no site sem ter sido burilado, pensado, trabalhado adequadamente. Isso muitas vezes me frustra. Por outro lado, quando publico um texto bacana, isso me dá um sopro de energia, uma vontade de continuar fazendo isso por muito tempo.
novembro 14, 2013 No Comments

