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New Orleans: Jazz Fest e Black Francis

O domingo na cidade mais populosa da Louisiana (que, por jogos políticos, não é a capital, cedendo a posição para a vizinha Baton Rouge) amanheceu ensolarado, mas com um vento cortante sabe se lá de onde veio. E o vento fez questão de acompanhar todo o último de dia de shows do New Orleans Jazz & Heritage Festival, sétimo na contagem da edição 2013. Um bom público voltou a se dirigir para o Fair Grounds Race Course, mas o jóquei não chegou ao nível de lotação extrema da véspera. Ainda bem. Mesmo assim, muita, mas muita gente.

Para baixar as cortinas da edição 2013, a organização escalou a banda mais quente dos últimos dois ou três anos, Black Keys, para o palco principal, e novamente (pela terceira vez na minha contagem pessoal), o duo de Ohio não correspondeu. O número de canções para deixar o público sem ar de tanto pular e gritar é imenso, mas o som baixo, e prejudicado pelo forte vento, colocou a apresentação da dupla no limbo. Já passou da hora da dupla contratar um técnico de som de verdade. Alguém, por favor, passa o telefone do cara do QOTSA?

Dois dias de festival me fizeram acreditar que este não é um lugar para você ir atrás dos grandes shows. Primeiro porque as áreas ficam superlotadas; segundo porque o barro é intenso, e é preciso sujar a camisa para ficar próximo do seu ídolo; e terceiro, e mais importante, porque os palcos Blues, Jazz e Gospel promovem apresentações catárticas e inesquecíveis, e vale muito valoriza-los. Não é que você não deva ir no festival, muito pelo contrário: você TEM que ir para New Orleans, e, se possível, aproveitar o festival, mas fuja dos grandes nomes.

Desta forma, esqueça o Black Keys, porque 50% do que passou pela tenda gospel foi muito, mas muito melhor do que a show de Dan Auerbach e Patrick Carney (estou falando pelos shows que eu vi, mas coloco meu terço no fogo e acredito que 100% das pessoas que passaram pela tenda honraram mais a camisa). E se eu morasse em New Orleans (ou se eu vier a morar), anotem: frequentarei mais a igreja. Um show atrás do outro de fazer Jesus abrir o sorriso e o corpo sacolejar com batidas fortes de funk, soul e blues em alta voltagem.

No palco Jazz, o patriarca Ellis Marsalis (pai de Branford e Wynton), do alto de seus 78 anos, mostrou elegância e competência ao comandar, no piano, um trio refinadíssimo. O som beliscava a bunda da garota de Ipanema da Bossa Nova, e partia num crescendo instigante. A banda formada por Jason Marsalis, na bateria, pelo baixista Jason Stewart e pelo saxofonista Derek Douget, atendeu as provocações do mestre construindo com leveza e descontruindo canções como “Love For Sale” e “Invitation”, dois números de Thelonius Monk.

Quem também colocou o jazz no pedestal mais alto dos shows do domingo foi o estiloso quarteto de Wayne Shorter, com uma apresentação que valorizou a improvisação numa pegada meditativa, daquelas que o silêncio reverente dos presentes só fez aumentar a emoção do show. Do lados dos pastores, destaque para Cyntia Girtley e a impressionante apresentação de Val & Love Alive Mass Choir, com vocalistas deixando o coral para colocar todos na tenda (que começou a encher conforme a pregação aumentava) de pé e batendo palmas. Bonito.

Momentos bonitos também foram vistos no show da New Orleans Classic R&B, que levou veteranos da cena local para o palco, e também para o som irlandês da Savoy Family Cajun Band, que fez uma porção de velhinhos arrastarem os sapatos na frente do palco. No quesito comida, não consegui encarar o sanduíche de carne de jacaré, mas me alimentei pelo dia todo com um prato de arroz, feijão e calabresa à Louisiana (só depois de muito tempo encontrei a tenda de tomates verdes fritos, e quem gosta de ostras tem que vir ao festival!).

Aproveitei o último dia do New Orleans Jazz & Heritage Festival para conhecer a estrutura do festival, e caminhar por tendas que vendiam livros (sobre música, culinária, fotografia e mais, alguns com tarde de autógrafos), CDs (de todas as bandas que se apresentam no festival) e até pela agência do correio montada no Jóquei, caso alguém queira despachar ali mesmo alguém presente adquirido nas dezenas de barracas do festival. A sensação é de que, em termos de eventos de música, o Brasil está a 10 mil anos luz de distância. Uma pena.

O saldo final foi bastate positivo, mas mais interessante que o Jazz Fest é a própria New Orleans, uma daquelas cidades que dá vontade de cutucar os amigos e encher o saco dizendo “conheça, conheça, conheça”. Tanto que o melhor show do fim de semana não aconteceu no Jóquei da cidade, mas sim em uma salinha com ingressos sold out totalizando 100 felizardos que tiveram a oportunidade de conferir Reid Paley contar piadas e ótimas canções enquanto Frank Black, apenas de voz, guitarra e camiseta sem mangas, mostrava canções do Pixies.

Black Francis começou só com “Wave of Mutilation”. Só. Do Pixies vieram ainda “Mr. Grieves”, “Gouge Away”, “Velouria”, “Monkey Gone To Heaven” e “Where Is My Mind?” enquanto a carreira solo trouxe pérolas de várias épocas como “I Heard Ramona Sing” (1993), “Abstract Plain” (1994), “Six-Sixty-Six” (1998), “Bullet” (2001), “California Bound” e “The Black Rider” (2002), “Another Velvet Nightmare” e “Sing for Joy” (2005), “Tight Black Rubber” (2007) além de três em dueto voz e guitarras com Ride Paley, como a ótima “Ugly Life” (2010). Finito o show, hora de partir sorrindo para o hotel e já com saudade de New Orleans…

Leia mais: Diário de Viagem Estados Unidos 2013 (aqui)
maio 7, 2013 No Comments
O penúltimo dia do New Orleans Jazz Fest

A primeira edição do New Orleans Jazz & Heritage Festival aconteceu em 1970, e nestes mais de 40 anos de história, o evento se fixou no calendário oficial da cidade como uma datal para comemorar a chegada da primavera. Assim como o Rock in Rio, o Jazz Fest acontece em dois fins de semana, mas a semelhança com o festival carioca de line-up óbvio para por ai, já que a escalação do Jazz Fest privilegia artistas desconhecidos das regiões da Louisiana e Mississipi (e de outros Estados em menor escala) numa escalação de mais de 60 atrações diárias sempre encabeçada por artistas de renome distribuídos por 12 palcos.

Em 2012, Beach Boys, Neil Young & Crazy Horse, Bruce Springsteen, Tom Petty & The Heartbreakers, Bon Iver, Foo Fighters, Florence e muitos outros se dividiram nos sete dias do festival. Em 2013, a escalação reunia Fleetwood Mac, Phoenix, Frank Ocean, Patti Smith, Billy Joel, Black Keys, Los Lobos, Stanley Clarke, B.B. King e muito mais numa maratona que começa todos os dias às 11 da manhã e se encerra pontualmente às 19h visando não prejudicar a centena de casas noturnas espalhadas pela cidade – e que continua a programação do festival até altas horas da madrugada, dependendo da disposição do freguês.

Desde 1972 que o Jazz Fest acontece no Fair Grounds Race Course, terceiro Jóquei Clube mais antigo da América. Os últimos dias do outono trouxeram chuvas, e a decantada reclamação de uma parte do público brasileiro sobre a lama no Lollapalooza Brasil 2013 seria motivo de chacota aqui, já que o barreiro se forma em boa parte dos palcos, assim como o cheiro de estrume de cavalo se espalha pelo ambiente competindo com os aromas deliciosos das mais de 50 barraquinhas de comida cajun e creole espalhadas pelo espaço, mas a grande maioria parece não se importar. Aqui, ao menos, os cavalos não reclamaram do cheiro dos hispsters.

É óbvio que não há como comparar uma cidade apaixonadamente musical, deliciosamente caipira, extremamente arborizada e de população que não passa dos 400 mil habitantes atualmente (embora estivesse com quase 550 mil antes do Furacão Katrina – a migração foi enorme) como New Orleans com uma megalópole de pedra como São Paulo, onde sujar os pés no barro e sentir a presença de animais (fora gatos e cachorros mais bem tratados – muitos deles vestidos – que muita criança) não faz parte da rotina diária. A questão é enfrentar as intempéries da melhor maneira possível, e receber a primavera de braços abertos. Não é agradável, mas também não é o fim do mundo (ainda mais se você está preparado).

Desta forma, os locais se armam de cadeirinhas (vendidas a 13 dólares no centro), galochas e muito bom humor e partem para o Fair Grounds Race Course logo que os portões abrem. A vizinhança recebe os visitantes de forma alegre e cordial com dezenas de casas ostentando mensagens de boas vindas. Em certo momento, um senhor abre a porta de sua casa, chega ao jardim e, diante da multidão, brinca: “Até que enfim vocês chegaram”. Os ingressos, que custavam 50 dólares por dia, estão saindo por 65 dólares na porta, mas as filas são comportadas e rápidas. A segurança olha rapidamente as bolsas e quando menos se percebe você já está dentro ao lado da Tenda Gospel.

Mahalia Jackson, criadora do festival em 1970, era uma grande cantora gospel, e a tenda recebe músicos, pastores e ministros da fé numa vibe “God is Good”. O coral gospel da Arquidiocese de New Orleans emocionou os presentes, mas quem botou pra quebrar foi o Ministro Jai Reed, com cinco backings vocals, uma voz intensa e uma performance que exibe estudos do trabalho de gente como Otis Redding e James Brown (só faltou o homem ajoelhar) arrasando em um som que pescava influências de soul, funk, jazz e blues. Na primeira fila, sentada, uma freira já senhora parecia aprovar a apresentação.

Junto a Tenda Gospel ainda há a Tenda Blues e a Tenda Jazz, as três com cerca de 1500 cadeiras mais arquibancadas e as laterais tomadas nos shows mais concorridos, como a excelente apresentação da Fleur Debris Superband e a desconstrução sonora de Terence Blanchard, que trouxe seu filho, recém-formado numa escola de canto, para um dueto emocionante. “Vou contar um segredo para vocês: essa foi a primeira vez que fizemos isso ao vivo na frente de um público”, disse depois. O repertório de apenas cinco canções em 1h15 de show trouxe muitos improvisos valorizando a qualidade impecável do quinteto. Aguarde vídeo.

De hora em hora, enquanto os shows ocorrem, paradas saem arrastando uma multidão festival adentro. Quem abriu a programação foi a Cherokee Hunters & Wild Red Flame Mardi Grass Indians seguida pela Kinkfolk Brass Band with Nine Times Ladies e, depois, pelo grupo Malê Debalê, da Bahia. Há música em quase todo o espaço do Jóquei, que é absolutamente tomado por caminhões de cerveja (em New Orleans, ao contrário da maioria das capitais norte-americanas, é autorizado consumir álcool na rua e em eventos públicos), da produção dos shows e pelas cadeiras trazidas por cerca de 70% dos mais de 70 mil presentes.

Para organizar a coisa toda, a produção cria pequenas vilas com palcos, alimentação e dezenas de lojinhas de badulaques. No quesito comida a coisa toda é imbatível. O forte aqui são os frutos do mar (camarão, peixes, mariscos e até mesmo carne de jacaré nas mais diversas formas), mas há também sanduiches com carne de porco, linguiças e frango deliciosamente fritos além de tomates verdes fritos, batata doce e o melhor da culinária cajun e creole. Opto por um Jambalaya, que em Minas Gerais é conhecido como Galinhada, mas aqui recebe pimenta Cayenne e fica uma delícia. Lili encarou um Schrimp & Duck Cajun Pasta, algo como macarrão cajun com camarão e pato.

Os shows seguem nos diversos palcos: The New Orleans Bingo Show faz uma apresentação performática no Gentilly Stage (que mais tarde irá receber Phoenix) enquanto a Congo Square está cheia para ver Davell Crawford (logo mais este palco terá Frank Ocean) e dezenas de velhinhos dançam animadamente com a Lars Edegran’s New Orleans Ragtime Orchestra no Hall Tent. A hora, no entanto, se aproxima, e quase todo o público do festival parte para o Acura Stage, local em que o Fleetwood Mac se apresentará para um público aparentemente tão grande quanto, ou senão maior, que os de Foo Fighters e Pearl Jam no Lolla Brasil.

A região próxima ao palco está absolutamente enlameada, e como não viemos a rigor (com galocha) decidimos ir para o fundo, que está completamente tomado por um público majoritariamente mais velho, mas que canta “Second Hand News” a plenos pulmões e reconhece “The Chain” nos primeiros segundos da marcação de bateria. O set list é idêntico ao dos shows recentes da banda, e seguem-se “Dreams”, a nova “Sad Angel” e “Rhiannon” em grandes versões, mas Stevie Nicks improvisa um trecho de uma canção chamada “New Orleans”, que ela escreveu após o Katrina, em 2005: “Eu quero alugar um quarto em New Orleans / Quero cantar nas ruas do French Quarter”, diz a letra, que conquista ainda mais o público – como se isso fosse possível.

Cerca de sete músicas depois já estamos nos deslocando para os outros palcos, afinal, com o intuito de dividir a enorme audiência, o Jazz Fest escala suas principais atrações praticamente ao mesmo tempo. O Fleetwood Mac começou às 16h40, Frank Ocean às 17h25, Phoenix as 17h30 e Los Lobos às 17h40. Não conseguimos chegar no Frank Ocean (o palco estava do outro lado do jóquei), mas conseguimos confirmar que o Phoenix continua fazendo aquele show coxinha que vimos no Planeta Terra anos atrás. Eles abre com o novo single, “Entertainment”, gastam “Lisztomania” nos primeiros 15 minutos de set, e então Thomas Mars vai tirar sua tradicional soneca nas caixas de som enquanto a banda dispersa o bom público.

Por sua vez, em uma Tenda Blues absolutamente lotada, a audiência urra enquanto no palco, abastecido de três guitarras, o Los Lobos distribui riffs e mais riffs de rock and roll cru e festeiro. O repertório, comandado por David Hidalgo – que selecionava boa parte das canções na hora e depois trocaria a guitarra pela sanfona, trouxe “The Neighborhood” em versão sujoma, mais a deliciosa “Rosa Lee”, o agito rockabilly de “I Got to Let You Know”, a chicana “Volver, Volver” e covers sensacionais de “Dear Mr. Fantasy” (Traffic) e “Papa Was a Rolling Stone”, dos Temptations. No bis, uma versão de “Not Fade Away”, de Buddy Holly, e “Bertha” encerraram um dos grandes shows do antepenúltimo dia do festival.

Acabou? Não. Já fora do festival, bandas se apresentavam nos quintais das casas estendendo a experiência do festival adiante, mas a noitada ainda teria diversos shows pelas casas noturnas da cidade. Terence Blanchard, por exemplo, se apresentaria no Snug Harbor, a casa dos Marsallis na cidade, e o Mahalia Jackson Center receberia Black Crowes. Mas após oito horas de festival, nada melhor que ir para o hotel descansar. A saída, um pouco confusa, foi rápida, com filas para taxi e ônibus se dispersando rapidamente, e em 40 minutos já estávamos na Canal Street, rua central de New Orleans, em direção ao descanso. Domingo tem mais.

Leia mais: Diário de Viagem Estados Unidos 2013 (aqui)
maio 5, 2013 No Comments
EUA 2013: New Orleans e o Katrina

Deve ser problema comigo, mas me apaixono por cidades condenadas (o que talvez explique eu morar em São Paulo). Um dos meus maiores sonhos é me mudar para Veneza, uma cidade que a qualquer momento pode desaparecer inteira (Santorini é outro sonho). New Orleans, minha nova paixão, corre sérios riscos, e não sei se me mudaria para cá, mas nem sai daqui e já estou planejando uma volta. Porém, a cidade que foi devastada pelo furação Katrina em 2005 (veja uma imagem para ter uma ideia da área alagada) é séria concorrente a desaparecer com o aquecimento global ou mesmo com futuros furacões.
Claro, não é tão simples e radical assim, mas New Orleans já sofreu com mais tempestades e furacões do que nós, brasileiros, podemos supor. Ao menos foi isso que tirei do Tour Katrina, passeio educativo que fiz hoje pelas áreas que foram tomadas pela água naquele verão de 2005 (”O dia do furacão estava lindo”, conta em certo momento a nossa guia”). Não sou a favor de esmiuçar tragédias, ainda mais turisticamente (nunca farei as por campos de concentração, nunca), mas, principalmente nesta cidade apaixonante, achei interessante conhecer esse outro lado de New Orleans até para entender este momento atual da cidade.

Carol, a guia da agência Gray Line, uma senhora de cabelos grisalhos que não poupa críticas ao governo, aos políticos e aos turistas que acreditam que New Orleans é só jazz, dá uma aula no passeio que dura cerca de três horas, e passa por diversas regiões que foram afetadas pelo furacão, a maioria reconstruída, mas com histórias interessantes sobre a tragédia. “A região do Cassino ficou ilesa”, ela conta em certo momento. “A polícia se transferiu pra lá. Consta que não houve trapaças durante esse tempo”, sarreia.
80% da cidade de New Orleans ficou submersa. “Eu e minha família fomos para Jackson, no Mississippi, e mesmo lá sentimos os efeitos do furacão”, conta Carol. “Quando voltei, 21 dias depois, a única coisa que se ouvia era silêncio. Não havia pássaros nem bichos. Só silêncio”. Carol foi uma das centenas de milhares de pessoas que atendeu o chamado de evacuação proposto pelo governo federal, que avisou: “Quem ficar será por sua própria conta e risco”.

São quase oito anos desde o furacão, e o tour, que já foi citado pelo New York Times, é interessante para observar a maneira com a cidade se reconstruiu. “A Prefeitura ofereceu 150 mil dólares para cada morador que quisesse reconstruir sua casa”, ela explica. “Quem quisesse se mudar poderia doar o terreno para uma instituição”. Nas áreas mais afetadas é possível ver dezenas de novas casas assim como dezenas de lotes vazios aguardando novos compradores. Muitos moradores, como o da foto acima, decidiram elevar suas antigas casas a uma altura inalcançável por uma futura tempestade.
Ao passar por uma região de classe média alta, Carol explica: “Gosto de passar por aqui porque muita gente acredita que só as áreas pobres foram afetadas, mas não, para o furacão todos são iguais”, completa com ar de sarcasmo. As histórias se multiplicam conforme o ônibus segue: “O que vocês fariam com essa casa?”, ela pergunta ao mostrar um imóvel condenado. “Aqui moravam um casal de velhinhos. Eles conseguiram o dinheiro para reconstruir a casa e contrataram uma pessoa para fazer isso, mas essa pessoa fugiu com a grana”, conta, completando que o marido morreu logo depois, mas a senhora ainda vive ali. “Eles não foram os únicos a serem enganados”, ela conta.

Em certo momento, o tour passa pela casa de Fats Domino. “Ele se recusou a deixar a casa”, ela conta. “E a água levou tudo: discos de ouro, memorabilia, seu piano. Ele se mudou depois, mas fez questão de reformar a casa e mantê-la aqui”. Entre os destaques da região estão as novas casas feitas com a ajuda de gente com o pianista Ellis Marsallis Jr. (pai dos também jazzistas Brandford e Wynton), o dono das Barnes & Nobles e Brad Pitt, cujo projeto Make it Right permitiu a construção e doação de 90 casas futuristas (desenhadas por Frank Gehry) na região.
Ainda assim, com ajuda da prefeitura e de pessoas famosas, uma questão vem à cabeça: como as pessoas continuam morando aqui? O que faz alguém continuar vivendo em uma área de risco? Freud deve explicar, mas acredito que temos ligação com algumas cidades que coisa nenhuma consegue desafiar. Me lembro menino, numa cidade do interior, sonhando em voltar a morar em São Paulo (também uma cidade de risco por vários outros motivos), e hoje, cidade paulistano, me pego emocionado toda vez que o avião sobrevoa a cidade e aqueles milhões de luzes infinitas mostram que estou em casa.

Talvez seja essa força que mantenha as pessoas aqui, e é impossível não pensar no quanto o mundo iria perder sem New Orleans. Ou, como diz a camiseta do atendente de um bar: “Os EUA tem apenas três cidades: Nova York, São Francisco e Nova Orléans. Todas as demais são Cleveland”. Fato é que, pela primeira vez na vida, me arrependi dos meus 40 e tantos anos. Eu queria ter 20 anos, virar madrugadas aqui todos os dias e passar um tempo ouvindo música boa e vivendo enquanto fosse possível viver.
Se você ama música (tocando ou ouvindo) recomendo de peito aberto uma visita a New Orleans. Desde um passeio básico na turística Bourbon Street (estique até a Skully’z Recordz, lojinha bacana de vinis e CDs no número 907) até uma ou várias noitadas na Frenchmen Street, onde os melhores bares de jazz da região estão instalados: The Maple Leaf, Snug Harbor, DBA e outros. Ainda há chance de beber uma cerveja no Royal Street Inn, bar de Greg Dulli, do Afghan Whigs (do ladinho da Frenchmen Street) – se quiser dormir por lá, tem umas suítes.

Quem acompanhou o meu tour anterior pelos Estados Unidos, em 2011, deve se lembrar de que fui (e sou) bastante critico ao “american way of life” (principalmente em comparação com a Europa), mas New Orleans tem pouca coisa a ver com aqueles Estados Unidos. Isso talvez se deva um pouco a colonização francesa (1718 a 1762) e espanhola (1762 a 1803), e outro tanto pela proximidade do Golfo do México e dos países da América Central, o que influenciou não só a culinária (creole e cajun) e a bebida, mas como também a música. Como não se cansa de repetir Lili, essa cidade é um “caldeirão de influências”.
Antes do furacão, que matou mais de 1500 pessoas em toda a Louisiana, New Orleans tinha mais de 500 mil habitantes. O censo seguinte ao Katrina contabilizou 223 mil pessoas na cidade. Atualmente, a população da cidade voltou a crescer e já passa das 350 mil pessoas. Se eu tivesse grana, quem sabe, afinal, uma casa pré-fabricada custa cerca de 75 mil dólares, mas ainda preciso me preocupar com a fatura do cartão de crédito e com a conta bancaria no vermelho. Ainda assim, uma coisa é certa: tenho mais dois dias em New Orleans, mas espero voltar pra cá o mais rápido possível assim que sair daqui.

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maio 3, 2013 No Comments
EUA 2013: A encantadora New Orleans

Dia absurdamente cansativo. Acordamos às 5h45 em Memphis para fechar as malas, fazer check-out e partir de carro para New Orleans, mais de 600 e tantos quilômetros (pra você ter uma ideia, nas seis horas e meia de viagem atravessamos o Estado do Mississipi inteiro) de reta e mais reta. Ao menos agora já posso falar da experiência de viajar de carro por três Estados norte-americanos: é chato. A estrada não muda e a paisagem, bonita pela presença de muito verde, acaba tornando-se excessivamente bucólica. Sorte que tivemos quase 50 minutos de uma ponte semelhante a Rio/Niterói, mas sobre o mangue que separa(va) New Orleans da civilização.

O cansaço tomou conta de tal forma que decidimos abrir mão do primeiro dia da segunda semana do No Jazz, em que o destaque principal seria Patti Smith. Optamos por um descanso rápido, e depois uma esticada na Bourbon Street, a Rua Augusta deles, mas com muito jazz (enquanto nós temos indies e emos) e suingue, partimos para a Frenchmen Street, ruas com dezenas de pubs com uma programação de jazz para deixar maluco quem ama o estilo. Optamos por jantar no Snug Harbor, da família Marsalis, um pub que em sua parte de cima promove shows intimistas (hoje era show do Dr. Lonnie Smith, amanhã tem Ellis Marsalis Quartet, depois Allen Tousaint e Terence Blanchard). Simplesmente foda.

Nesta sexta também deixaremos o No Jazz passar por nós, mas a ideia é dormir bem, recuperar as forças da viagem (e do cansaço de andar tanto pra lá e pra cá) e encarar uma noitada de jazz. O passeio deste primeiro dia na cidade foi encantador a ponto de New Orleans tomar o posto de Chicago como cidade preferida número 1 dos Estados Unidos. Um trio de jazz com uma senhora soltando a voz no meio da rua quase colocou as emoções para fora na forma de lágrimas, e a comida, ótima, só faz aumentar a empatia por essa cidade, que é um choque imenso de culturas (musicais, gastronômicas e o que você mais quiser). New Orleans tem apenas 350 mil habitantes, e ainda assim é a cidade mais populosa do Louisiana. E uma das cidades mais interessantes dos Estados Unidos.

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maio 3, 2013 No Comments
EUA 2013: Frank Black em New Orleans

Mais um show acrescido ao roteiro de viagem: Frank Black acústico no Music At The Mint, essa salinha na foto acima. Neste show, Black Francis dividirá o palco com Reid Paley, com quem gravou um bom álbum em 2010. O show será no último dia do New Orleans Jazz Festival, que acontece das 11h até às 19h, exatamente para não prejudicar a rotina das casas de shows da cidade. Ou seja: após um dia inteiro de shows, bora ver Frank Black.
Em Nova York, o show do Breeders tocando o “Last Splash” no Webster Hall já está sold out. Fora isso, estou tentado a ver Ronnie Spector ou James Blake no dia 07, e Mudhoney no dia 11. Há mais coisas, mas a ideia é não superlotar a agenda de shows. Os detalhes técnicos da viagem já estão todos resolvidos: hotéis reservados e passagens internas compradas. Agora é torcer para que tudo se ajeite por lá. Força, Obama! Estamos chegando.
25/04 – São Paulo
26/04 – Nashville (Cory Chisel And The Wandering Sons)
27/04 – Nashville
28/04 – Nashville (Band of Horses)
29/04 – Memphis
30/04 – Memphis
01/05 – Memphis
02/05 – New Orleans (Patti Smith, Roy Ayers e…)
03/05 – New Orleans (Willie Nelson, Jimmy Cliff e…)
04/05 – New Orleans (Fleetwood Mac, Phoenix, Frank Ocean e…)
05/05 – New Orleans (Black Keys e…) + Frank Black
06/05 – Nova York
07/05 – Nova York
08/05 – Nova York
09/05 – Nova York (Palma Violets)
10/05 – Nova York
11/05 – Nova York
12/05 – Nova York
13/05 – São Paulo
abril 18, 2013 No Comments
Sobre Veneza, Santorini e Martín

Na segunda, eu estava na cozinha, preparando o jantar, e o Martín sempre fica ali, sentado num cadeirão próximo da pia e do fogão, me ajudando. Depois que fizemos todo o processo do arroz e o deixamos pra cozinhar, ele me pediu para levanta-lo para olhar os imãs de geladeira que temos de viagens, e ficou encantado com a máscara de carnaval que trouxemos de Veneza.
Corta para quarta, de manhã. Estou levando ele a pé pra escolinha, que fica a três quadras de casa, e lá pelas tantas ele manda:
– “Papai, você e a mamãe exploraram muito o mundo, né. Quando eu ficar maior, vocês me levam pra Veneza?”
Eu, deslumbrado, afinal Veneza é uma das cidades Top 5 da minha vida (tenho uma queda por cidades “condenadas” a desaparecer, tipo New Orleans, Amsterdã e Estocolmo – ok, essas duas últimas, ainda que circundadas por água, menos), prometi que o levaria. Ele então continuou com a quinta cidade que fecha a minha listinha:
– “Eu também quero andar de burrico como a mamãe andou!”
Essa é uma história que adoro contar, e ele já ouviu muitas vezes: quando vivemos o sonho de visitar Santa Irene, ou Santorini, a cidade nascida em uma ilha sob os vestígios de uma caldeira vulcânica na Grécia, no final de um dos passeios que fizemos de návio (exatamente para visitar a área central do vulcão), descemos no sopé de um enorme morro, e @lili_callegari, já cansada, surpreendentemente aceitou a oferta de um guia e decidiu montar em um burrico para subir os sei lá quantos degraus morro acima (nessa parte da ilha, até hoje os burricos são usados para fazer o transporte de mantimentos e utensílios para a parte alta da vila). Eu, instintivamente, subi em outro no melhor estilo hollywoodiano: “Siga aquele burrico”.
Acontece que o trajeto é uma escada de, sei lá, um metro e meio de largura (se muito) e uns 500 degraus daqueles espaçosos, com uma muretinha baixinha separando a montanha (e os burricos) do azulzissimo e deslumbrante Mar Egeu lá embaixo. Numa situção normal, Lili nunca se aventuraria, e nem eu. Mas cá estamos com um imã de burrico em nossa geladeira, e um filho querendo viver a mesma aventura. Dessa vez, subirei a pé…

Mais? bit.ly/SantoriniBlues
agosto 7, 2025 No Comments
Top 10 Novembro 2020 no Scream & Yell

TOP 10 TEXTOS MAIS LIDOS – NOVEMBRO DE 2020
01) Faro: Outubro na Música e Cultura Ibero-americana (aqui)
02) Entrevista: Leandro Souto Maior e o livro “Jimmy Page no Brasil”, por JP Barreto (aqui)
03) Seleção de Vídeos 297: Tumulto, Barulho e Confusão (aqui)
04) Selo Scream & Yell: Canções de Inverno – Um songbook de Ivan Santos & Martinuci (aqui)
05) Literatura: “Na Contramão da Liberdade”, “O Reformatório Nickel”, “Os Testamentos”, por Adriano Costa (aqui)
06) Cinema: “Vento Seco”, de Daniel Nolasco, por Renan Guerra (aqui)
07) Entrevista: Wagner Moura fala de “Marighella”, por JP Barreto (aqui)
08) Netflix: “O Que Ficou pra Trás”, por Eduardo Juliano (aqui)
09) Discografia comentada: Gal Costa, por Renan Guerra (aqui)
10) Selo Scream & Yell: “SIEMENSDREAM”, Borealis (aqui)
DOWNLOAD
01) Selo Scream & Yell: “Dois Lados”, tributo ao Skank -> 55º link (aqui)
02) Selo Scream & Yell: Tributo a Milton Nascimento -> 65º link (aqui)
03) Selo Scream & Yell: Tributo a Belchior -> 87º link (aqui)
VIA GOOGLE
01) Três perguntas: Bárbara Eugenia, por Bruno Capelas (aqui)
02) Discografia comentada: Bob Dylan, por Gabriel I. (aqui)
03) “Treme”, uma série sobre New Orleans, por Adriano Costa (aqui)
O EDITOR RECOMENDA
01) Entrevista: Selma Uamusse , por Pedro Salgado (aqui)
02) Entrevista: Vanessa Krongold, por Bruno Lisboa (aqui)
03) Entrevista: Brian Baker (Bad Religion), por Homero Pivotto Jr. (aqui)
TOP 10 – Textos de 2020 – (11 meses)
01) Especial: Os 100 melhores discos dos anos 10 (aqui)
02) Especial: Os Melhores de 2019 Scream & Yell (aqui)
03) Faro: Outubro na Música e Cultura Ibero-americana (aqui)
04) Anos 10: Os melhores filmes da década (aqui)
05) Discografia comentada: Gal Costa, por Renan Guerra (aqui)
06) Download: “¡Estamos! – Canções da Quarentena” (aqui)
07) Entrevista: Iggor Cavalera, por Homero Pivotto Jr. (aqui)
08) Anos 10: Os melhores shows da década (aqui)
09) Série: “Quase Feliz”, por Manoel Magalhães (aqui)
10) Entrevista: Andreas Kisser, por Paulo Pontes (aqui)
TOP 10 – Geral – (GERAL)
01) Especial: Os 100 melhores discos dos anos 10 (aqui)
02) Especial: Os Melhores de 2019 Scream & Yell (aqui)
03) Discografia comentada: Bob Dylan, por Gabriel I. (aqui)
04) Faro: Outubro na Música e Cultura Ibero-americana (aqui)
05) Anos 10: Os melhores filmes da década (aqui)
06) Discografia comentada: Gal Costa, por Renan Guerra (aqui)
07) Download: “¡Estamos! – Canções da Quarentena” (aqui)
08) Matérias Antológicas: The Clash por Lester Bangs (aqui)
09) Entrevista: Iggor Cavalera, por Homero Pivotto Jr. (aqui)
10) Anos 10: Os melhores shows da década (aqui)

Confira os textos mais lidos no Scream & Yell nos meses anteriores
dezembro 2, 2020 No Comments
Dylan com café, dia 41: “Love and Theft”

Bob Dylan com café, dia 41: Nem a enorme quantidade de críticas elogiosas, nem os três Grammy’s e muito menos o número 10 na Billboard (o primeiro Top 10 de Dylan desde “Slow Train Coming”, de 1979) conquistado por “Time Out of Mind” (1997) satisfizeram Bob em relação à produção de Daniel Lanois, que ele resume no livro “Crônicas” como “turbulenta”. Ele também havia ganhado um Oscar em 2000 pela canção “Things Have Changed”, do filme “Garotos Incríveis”, e mesmo chegando aos 60 anos (em 24 de maio de 2001), não estava pensando em desacelerar. Muito pelo contrário: em seu novo disco, Dylan assumiria os riscos da produção (assinada com o codinome Jack Frost), que contaria com sua banda da Never Ending Tour e a busca sonora por algo mais leve e animado, mas como com Dylan nada é tão simples, “Love and Theft” foi lançado no fatídico 11 de setembro de 2001.
O crítico da Village Voice foi certeiro: “Se ‘Time Out of Mind’ era seu álbum sobre morte – não era, mas você sabe como as pessoas dizem que é – este é sobre imortalidade”. Fazia muito, muito tempo, que Dylan não soava tão à vontade em um disco cantando novas canções com ecos de jazz, blues, rockabilly e New Orleans, como na acelerada faixa de abertura, que desloca os personagens “Tweedle Dee & Tweedle Dum” de “Alice Através do Espelho”, de Lewis Carrol, para uma festa de Mardi Gras: “Eles estão pegando um bonde numa rua chamada desejo”, sarreia na ideia “Amor e Roubo” do disco (utilizada em diversas faixas). O clima muda totalmente na segunda canção (algo que se seguirá metodicamente até o fim do disco), “Mississipi”, uma suave recriação de uma sobra de “Time Out of Mind” que Dylan dizia que Lanois insistia em lotear de percussão, mas Bob a queria mais simples (antes de chegar aqui, inclusive, ela foi lançada num disco de Sheryl Crow). Já o rockabilly “Summer Days” provoca: “Não se pode repetir o passado… é claro que se pode!”. O clima volta a arrefecer elegantemente em “Bye and Bye”, se torna grandioso no blues de Chicago “Lonesome Day Blues”, baixa a guarda novamente no swingzinho de “Floater” até abrir as portas para uma das grandes canções do disco, a caipiríssima “High Water (For Charley Patton)”. Dylan segue batendo suavemente (“Honest With Me”, “Cry A While”) e assoprando (“Moonlight”, “Po’ Boy”, “Sugar Baby) num álbum elegante, primeiro volume de uma trilogia que se seguirá com “Modern Times” (2006) e “Together Through Life” (2009), mas isso já é assunto para outros cafés.
Ps 1: uma versão deluxe do álbum ganhou um segundo CD com duas então raridades: “I Was Young When I Left Home”, gravada em Minneapolis em dezembro de 1961, surgia pela primeira vez, mas será oficializada também no volume 7 das Bootleg Series. Já o take alternativo de “The Times They Are a-Changin'”, datado de 23 de outubro de 1963, nunca havia sido editado, e só consta deste lançamento. É uma versão mais lenta, menos militante e mais introspectiva do hino que deu nome ao terceiro álbum de Bob.
Ps. 2: O box triplo “The Bootleg Series Vol. 8 – Tell Tale Signs” exibe três versões diferentes de “Mississipi”, todas das sessões “Time Out of Mind”. Adoro a versão 3, para mim, a com melhor vocal de Dylan, mas a 2 também é bem interessante, e as três soam bem diferentes do floreio que Bob acrescentou à versão final presente em “Love and Theft”. Esse box ainda traz versões ao vivo de “High Water (For Charley Patton)” (bem guitarreira e muito próxima da versão mostrada no Brasil em 2008) e “Lonesome Day Blues”.
Ps. 3: “Love and Theft” foi ainda mais longe do que “Time Out of Mind” nas paradas batendo na 5ª posição do ranking da Billboard. O álbum também ganhou um Grammy na categoria de Melhor Álbum Folk de 2001.

abril 10, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 32: Oh Mercy

Bob Dylan com café, dia 32: Os anos 80 foram cruéis com muita gente, e Dylan deve estar numa posição de destaque na fila de desastres. A década estava enfim acabando, era 1989, e seu último disco digno havia saído seis anos antes, em 1983 (“Infidels”). Sua carreira tinha seguido até então no piloto automático, sem grandes novidades, mas muitos senões. “Eu estivera numa turnê de 18 meses com Tom Petty e os Heartbreakers. Tom estava no auge do lance dele, e eu no fundo do meu”, escreveu Bob no livro “Crônicas” sobre a virada de 1986 para 1987. Ele sabia que algo estava errado. Seu resumo do período é crítico: “Sempre prolifica, mas nunca exata, minha trilha musical se transformara numa selva de trepadeiras por causa do excesso de distrações. (…) Eu me sentia acabado, um traste vazio completamente consumido. Onde quer que eu vá, sou um trovador dos anos 60, uma relíquia do folk rock, um artesão da palavra de tempos passados, um chefe de Estado fictício de um lugar que ninguém conhece. Estou no inferno do esquecimento cultural”. Era isso e algo precisava ser feito. Mas o que?

Bem, a inspiração. A narrativa de como “Oh Mercy”, o grande disco que Bob lançaria em setembro de 1989, surgiu é extremamente lírica, e merece a leitura completa do capítulo 4 do livro “Crônicas”. Resumindo, Bob rasgou a mão até os ossos num acidente, e precisou ficar de molho. Seu plano inicial era… aposentadoria, mas os anjos malditos da inspiração começaram a fazer brotar canções, que ele escrevia e jogava numa gaveta. Certo dia, Bono (U2) apareceu para jantar com uma caixa de Guinness. O papo se estendeu madrugada adentro e Bono perguntou a Bob se ele não tinha nada novo, inédito, alguma canção que estivesse trabalhando. Bob mostrou o material que estava na gaveta e Bono ligou para Daniel Lanois dali mesmo, e colocou os dois em contato. “Ele falou que discos de sucesso não lhe interessavam”, lembra Bob. “Miles Davis nunca fez nenhum”, justificou Lanois. “Para mim estava ótimo”, concordou Dylan.
A gravação posterior em New Orleans (“Existem muitos lugares de que gosto, mas New Orleans é o que mais gosto. É uma cidade que mantém a magia”, descreveria Bob) passou por momentos tensos até Lanois e Dylan se conectarem, mas o resultado foi grandioso: a distópica “Political World” (“um rockabilly do inferno”, descreve Brian Hinton), “Everything Is Broken” (que ganhou clipe dirigido por Jesse Dylan), “Most of the Time” (que Lanois definiu como “o som dos pântanos da Louisiana”), a transcendental “Shooting Star” e o relato da tentação em “Man In The Long Black Coat” estão, facilmente, entre as melhores coisas que ele gravou nesta década. E as outras não ficam atrás (Deus, até as canções dispensadas – que apareceriam em The Bootleg Series Vol. 8 – são de alto nível, como é o caso de “Dignity” – piratas variados como “Mercy on Us“, “Oh, Merci, I’m Lucky” e “Ring Them Bells” trazem as sessões completas de New Orleans) .

Apesar de Dylan dizer que o disco recebeu boas críticas, mas “críticas não vendem discos”, “Oh Mercy” (cuja arte da capa é uma foto de um grafite localizado na 53rd com a 9ª avenida, em Hell’s Kitchen, Nova York) bateu no número 30 da Billboard ficando atrás apenas de “Infidels” (que alcançou a 20ª posição) e “Saved” (que chegou ao número 24). Ainda assim, a importância maior de “Oh Mercy” é reconectar Dylan com sua arte no momento em que ele duvidava do futuro. Foi um passo decisivo para coloca-lo no mapa novamente, e permiti-lo seguir em frente para encontrar o sucesso nos anos 2000 (futuramente, dois discos de Dylan irão chegar ao topo das paradas, outro baterá na 3ª posição, um quarto álbum chegará ao 5º lugar e outro alcançara o Top 10. Mas tudo isso é assunto para outros cafés)…
março 27, 2018 No Comments
Dylan com café, dia 28: Biograph

Bob Dylan com café, dia 28: “Ele está tentando soar contemporâneo”, provocou um crítico sobre “Empire Burlesque” (o café de ontem), e Bob respondeu: “Não conheço nada de música nova. Ainda continuo ouvindo Charlie Patton”. Porém, quem sentia saudades do trovador “das antigas” teve uma grande surpresa no final de 1985: apenas quatro meses após “Empire Burlesque” chegar às lojas, um box quíntuplo em vinil surgia para saciar os baby boomers. Com 53 faixas, 21 delas raras (entre singles, b-sides, sobras de estúdio e takes inéditos), livreto de 42 páginas com texto de Cameron Crowe, fotos e comentários de Bob sobre cada canção, “Biograph” bateu no número 33 da Billboard, um sucesso que pode ter motivado tanto a criação das “Bootleg Series” (em 1991) quanto o lançamento (também via Columbia) do box quíntuplo “Live 1975–85”, de Bruce Springsteen, em 1986.
Pirateado toda vida, Dylan abre o baú, mas faz pouco caso: “A maioria dessas canções já saiu em discos piratas. Não há nada que não se conheça. É só uma nova embalagem que irá custar caro”. Bobagem, “Biograph” é um tesouro, mas é necessário se transportar a 1985 para entender o valor desta caixinha (editada também em três CDs), já que lançamentos posteriores (como a série de shows de 1966) ampliaram o alcance do material raro encontrado primeiramente aqui. Na temporada em que serviu de babá para o filho de Nico (do Velvet Underground) com Alain Delon, Dylan terminou “I’ll Keep It with Mine”, que ele havia escrito na Grécia para ela, e a versão definitiva está no clássico (dela) “Chelsea Girl” (1967), mas essa versão encontrada aqui, ao piano, soa delicada (uma segunda versão sairá em “Bootleg Series 1-3”, outra no “9” e diversas no “12”).
“Mixed-Up Confusion” foi a primeira tentativa de Dylan eletrificar seu folk, em 1962 – a versão acústica que saiu em single está em “Side Tracks” (2013) – e soa curiosa. O nível aqui é tão alto que se você juntar 10 sobras presentes em “Biograph” num vinil você terá um forte concorrente a disco do ano (de qualquer ano). Façamos o teste: a arrebatadora “Percy’s Song” e “Lay Down Your Weary Tune” (ambas de sessões em 1963) mais “Quinn The Eskimo” (das sessões de “Basement Tapes”, de 67) “Up To Me” (sobra de “Blood on The Tracks” gravada em 73), “Abandoned Love” (uma pérola das sessões de “Desire”, em 75), “Caribbean Wind” (grande faixa das sessões de “Shot of Love”, de 81), a demo acústica de “Forever Young” (74), uma ainda mais cigana versão alternativa e endemoniada de “Romance in Durango” (75), uma religiosa e linda “Heart of Mine” (1981) ao vivo em New Orleans e a versão acústica ao vivo de “Visions of Johana” registrada no Royal Albert Hall, Londres (66). Uou!
março 21, 2018 No Comments

