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Sobre Nick Horby e Alta Fidelidade

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Na onda dos relançamentos dos dois primeiros livros do escritor britânico Nick Hornby, “Febre de Bola” (1992) e “Alta Fidelidade” (1995), o amigo jornalista Thiago Pereira me enviou algumas perguntas para uma reportagem especial que foi publicada no caderno Magazine, do jornal mineiro O Tempo, no domingo passado (04/08), e o texto serviu para resgatar o carinho que tenho por estes livros em particular – e por quase toda obra de Hornby.

Thiago dividiu a reportagem – que conta com a opinião de Christian Schwartz, tradutor dos livros de Hornby, o doutor em história e teoria literária Marcio Serelle, e Leonardo Bertozzi, jornalista da ESPN Brasil, além de mim – em três partes: o texto principal, “Uma sensibilidade pop na literatura”, e dois apêndices, “O texto de Hornby e a questão dos gêneros literários” mais “O futebol no campo das letras”.

Já escrevi bastante sobre Nick Hornby no Scream & Yell, tanto que perdi a conta. Aliás, contei aqui dia desses como “Alta Fidelidade” chegou a mim. Gosto da teoria dos pesos-médios e, sobretudo, de “Um Grande Garoto” (”Como Ser Legal” também, mas um pouco menos). Gostei de “Juliet Naked” e a peça “A Vida é Cheia de Som e Fúria” foi uma experiência espetacular (entrevistei Guilherme Weber na época).

Possivelmente, se você vem com certa frequência a este espaço,  já deve ter lido tanto “Febre de Bola” (não vale a fraca adaptação hollywoodiana “Amor em Jogo” – a versão inglesa com Colin Firh é bem melhor) quanto “Alta Fidelidade” (a versão de Stephen Frears é boa, embora não definitiva), mas caso não tenha lido, fica a recomendação: vale a pena. Muito. Abaixo, as respostas que enviei ao Thiago Pereira.

Quando você conheceu Nick Hornby? O que te chamou a atenção?
Conheci com “Alta Fidelidade”, em 1998, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a união de duas coisas que admiro bastante: relacionamentos e cultura pop. A forma com que Nick Hornby chocava estes dois temas me interessou muito, porque também era uma crítica a um certo esnobismo cultural que circulava – e circula muito ainda hoje – na época. Afinal, como uma pessoal pode ser legal se não conhecer Beatles? (risos). O interessante de Nick Hornby é que ele questiona isso, mas também confere alma ao tal esnobe, permitindo que muita gente se identificasse (e até a pessoal que não conhece Beatles, entendesse esse ser-humano que surgiu junto com Elvis e com a Indústria Cultural).

O que você apontaria como os motivos maiores da obra dele ter chamado tanta a atenção do público- inclusive mobilizando versões para cinema, teatro, etc?
“Alta Fidelidade” é um romance geracional, daqueles que retratam um grupo de pessoas em uma determinada época, neste caso, o decantado fim das lojas de discos (que, no fim, não acabaram, e estão cada vez mais vivas), a valorização de certa honestidade em artistas, a elevação de listas top alguma coisa a categoria de arte e coisas assim. O que você consome diz muito sobre quem você é, e Nick Hornby percebeu isso naquele momento olhando homens que se recusam a envelhecer como manda o figurino. É um belo exemplo de adultescente, que já havia sido antecipado em “Febre de Bola”, e vai ser explorado de forma ainda mais genial em “Um Grande Garoto”.

A chave de entendimento para a obra de Hornby é a conexão com a cultura pop, ou acha ele um grande romancista, acima de tudo?
A conexão com a cultura pop é um dos grandes destaques de boa parte de sua obra, mas há, sim, um grande romancista. Ele usa ferramentas para atingir um grupo x de pessoas, mas são apenas ferramentas. O que move o leitor é sua prosa e história envolventes.

“Alta Fidelidade”, em especial, é um livro que marcou época para uma geração do final dos anos 90, ligada em música. Será que hoje, com a música tão descompartimentada, tão espalhada em diferentes suportes, ele tem o mesmo apelo?
Sim, sem dúvida. E a volta do vinil é um sintoma de que o apelo continua o mesmo, quiça aumentou. A discussão sobre MP3, CDs e vinis tomou outras proporções no novo século. Quando “Alta Fidelidade” foi escrito, as lojas de discos e a própria música pop de qualidade estava em franca decadência. Hoje o cenário está mais estável, e esta estabilidade é fruto de um novo grupo de pessoas que pensa e conversa coisas que poderiam ser dialogadas na loja de Rob Fleming.

Ainda sobre “Alta Fidelidade”: qual a importância do livro para você, pessoalmente? Você também é um pouco Rob Gordon?

Uma jornalista, certa vez, fez a mesma pergunta. Eu respondi: “Devo ter coisas mínimas de vários personagens, mas não acredito que tenha um em especial que me absorva por inteiro. Não sou tão confiante, mas ainda assim sou mais confiante que os personagens dele (risos). Ou ao menos acho…”. E mesmo assim, no abre do texto dela, ela dizia: “Gosto de imaginar o Marcelo como um Rob Gordon tupiniquim”. A questão que fica é: somos o que achamos, ou o que as pessoas acham de nós? (risos). E essa questão é totalmente nickhorbiana. Então eu devo ter um pouco de Nick Hornby sim, mais do que eu gostaria, talvez.

Uma mania em “Alta Fidelidade” são os Top 5. De alguma forma ele materializou uma mania de muitos não? Você usa até hoje né, assumidamente no teu site…Hornby, de alguma forma, é um jornalista de música?

Hornby é um apaixonado por música, e que tem o dom de escrever bem. Isso praticamente o torna um bom crítico, porque a música, pra ele, tem um valor especial, que permite um livro como “31 Canções”. Quantas pessoas no mundo conseguiriam escrever livros sobre canções hoje em dia? O fato de ser atento ao universo pop e apaixonado por música o torna um jornalista de música em potencial, afinal, ele faria mais perguntas pertinentes para Bob Dylan do que a grande maioria dos jornalistas que participou da coletiva em São Francisco, 1965.

Pra fechar: consegue eleger 5 personagens favoritos na obra de Hornby?
1) Will Freeman, de “Um Grande Garoto”
2) Rob Fleming, de “Alta Fidelidade”
3) Duncan, de “Juliete, Nua”
4) Katie Carr, de “Como Ser Legal”
5) Nick Hornby, de “Febre de Bola”

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Leia também:
– “Howdy!”, do Teenage Fanclub, por Nick Hornby (aqui)
– Doce Miséria – A suavização de Nick Cave, por Nick Hornby (aqui)

agosto 10, 2013   No Comments

Alta Fidelidade

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– Sebos e lojas bacanas de CDs e DVDs em SP (aqui)
– Onde comprar CDs e vinis em cidades da Europa (aqui)
– Comprando vinis com Robert Crumb (aqui)
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– Sete lojas de CDs e vinis na Europa (aqui)

maio 10, 2012   No Comments

11) “Um livro que você ganhou de presente”

Na primeira vez que percorri essa lista, no meio da pandemia, listei “Alta Fidelidade” como o principal, argumentando (em 140 toques):

“Sou (meio) anti hype: Se está todo mundo falando pra ir prum lado (e ouvir um disco, ler um livro), costumo ir pro outro. Todo mundo falava que eu devia ler ‘Alta Fidelidade’, mas foi a Flavia que me mandou com essa dedicatória…”

Como era de se esperar em 1998, fiquei perdidamente apaixonado por Nick Hornby após “Alta Fidelidade“, e fui atrás de “Febre de Bola” e de “Um Grande Garoto” – já falei deles na questão “Um livro melhor que o filme” – e de tudo que saia do autor até “Uma Longa Queda” (2005). Me decepcionei com “Slam” e peguei “Juliet, Naked” muito tempo depois de ter saído (e ele é ótimo). Quando saiu “Funny Girl“, a Companhia das Letras me convidou pruma mesa para discutir o livro e a obra de Hornby. E tudo começou com esse presente da Flávia <3

*

Dois: tempos depois, a Ana, que trabalhava em uma editora, me escreveu dizendo que eu precisava ler “A Visita Cruel do Tempo”, da Jennifer Egan, que era minha cara e tal. Acho que já escrevi nesses fios que a mudança pra São Paulo, em 2000, fez o tempo dedicado à leitura diminuir drasticamente na minha vida, ou seja, desde então tenho lido muito menos do que eu lia (esse fio, inclusive, é um desejo de reacender essa chama também). E lá fui eu meio cético ler a Jennifer e… me apaixonar. Bem, é um vencedor do Pulitzer, o que dizer mais? O fato é que, desde então, meio que paro tudo para ler Jennifer Egan quando um livro novo dela sai (há varios textos meus sobre livros dela no site da Intrinseca e também no Scream & Yell);

Obrigado demais, Ana!

*

E três: já contei também nesses fios que, via de regra, não sou eu quem vou atrás dos livros (e autores), mas eles me encontram. E até os 35 eu nunca tinha lido nada de Saramago, apesar de ter a desconfiança de que eu e ele nos dariamos bem. Sempre foi o caso do livro ou autor não encaixarem no momento, de eu estar lendo outras coisas ou, no caso de São Paulo, de estar vivenciando uma cidade que começou a preencher todo o meu tempo livre. Foi então que uma garota em um romance daqueles que nos atropela o colocou na minha vida. Ela se foi (e a canção d’Os Gianoukas Papoulas toca de fundo agora), ele ficou. Lógico que eu a agradeci pelo presente (triplo, segundo cartinha que acompanha o livro), mas acho que nunca a agradeci por ter colocado Saramago na minha vida. Então… obrigado! <3

#meus20livros

novembro 26, 2025   No Comments

05) “Um livro cujo filme é melhor”

Assim como fiz na primeira vez que maratonei essa lista anos atrás, recorro a Stanley Kubrick, ainda que suas adaptações extrapolem o livro, pois, a favor do Cinema, Kubrick não titubeava em alterar passagens, fazer mudanças ou mesmo excluir coisas da história original que pudessem diminuir o impacto de seu filme.

Dito isso, prefiro “O Iluminado” filme ao livro mesmo com o Stanley fazendo lá suas mudanças, o que deixou o Stephen King tenha puto.

No caso do “Laranja Mecânica” (que, você sabe, “é filosofia pura“) é quase empate, os dois são indispensáveis, mas tendo a optar pelo filme também – o amigo Leonardo Tissot acrescenta: “O filme do ‘Laranja Mecânica’ é melhor porque elimina o último capítulo do livro (que é totalmente dispensável e até estraga um pouco a história).

Já “Lolita”, talvez, eu fique com o livro. Mas vale a declaração de amor: Kubrick, eu te amo.

***

Inevitavelmente, sinto vontade de falar de “Alta Fidelidade”, a série, novamente – ainda que tristemente ela não tenha sido renovada para uma segunda temporada (a primeira, incrível, dá conta de metade do livro clássico de Nick Hornby). E falo de “Alta Fidelidade” porque a série melhora o livro! Ou como escrevi no Scream & Yell na época do lançamento:

“Essa reinvenção consegue uma delicada façanha: ir além do livro, fazendo com que “High Fidelity 20” soe um (divertidíssimo) spin-off da versão literária, e não apenas a versão literária adaptada para a TV. (Mas) O que faz de ‘High Fidelity 20’, a série, imperdível é uma sensação de maturidade, de crescimento, que o livro quase negava aos personagens, os obrigando a carregar sua masculinidade tóxica e seu mansplaining eternidade a dentro entre vinis empoeirados (leia tudo aqui)”

“High Fidelity – Temporada 1” está disponível no Prime Video e recomendo muito!

***

Por fim, já se encantou por “Cem Anos de Solidão”, no Netflix?

Por fim 2: Vale o reforço sobre “A Comédia da Vida Privada”. Assisti a alguns episódios no Youtube esses dias (o DVD traz apenas 4 dos 21) e permanece uma adaptação incrível!

Meus “20” livros

janeiro 31, 2025   No Comments

4/7 canções: There is No Time

Publicado no Facebook em 2015

Os amigos queridos Carlos Freitas e Adília Belotti me convidaram para participar de uma corrente publicando 7 músicas em 7 dias. Eis o quarto capítulo. Segundo as normas, eu teria que marcar uma pessoa por dia, mas vou quebrar a regra e marcar uma, duas ou três no post final. Aperte o play e Segue o jogo:

Minha “educação musical” (entre 1981 e 1989, ou seja, entre 11 e 19 anos, período que as coisas prometem grudar em você e te acompanhar para o resto da vida) foi assim: Beatles, Blitz, rock nacional (Paralamas, Barão, Legião, RPM), pós-punk (Echo, Cure, Joy Division), punk rock (Pistols e Clash), classic rock (Doors, Led Zeppelin, Pink Floyd) e metal (Iron Maiden, Mercyful Fate e Metallica). Beatles e Blitz foram as faíscas (falei do primeiro aqui: http://goo.gl/4og5Z3) e dai em diante tudo acontece praticamente ao mesmo tempo, principalmente de 1985 em diante (e a revista Bizz tem grande influência ao lado das festinhas em que eu já brincava de ser DJ aventureiro).

Nesse período lembro de porres adolescentes de licor de menta terem sido sonorizados por “The Top”, do Cure, nos dias viajantes, e “Closer”, do Joy, nos dias deprês. De descobrir “Stairway To Heaven” numa discotecagem na perifa de Taubaté (o cara com que dividi as pick-ups naquela noite tascou ela, e eu fiquei impressionado tanto pelo espaço que ela tomava nos sulcos do “Vol. IV” – “Cacete, o cara colocou uma música de 10 minutos” – tanto quanto pela grandiosidade da canção). Foi um baita choque, semelhante ao de alguns anos depois, quando, já apaixonado por Pistols, levei meu “Kiss This” prumas férias na roça e, após uma semana de sertanejos de raiz e bucolismos da natureza, coloquei o disco pra tocar e me assustei com a potência daquele som. Cresceu.

Na página 52 de “Alta Fidelidade” (o livro), Rob está reorganizando sua coleção de discos, buscando coloca-la na ordem que ele adquiriu durante a vida: “Gosto de ver como fui de Deep Purple a Howling Wolf em 25 movimentos”, descreve. Quando ganhei o livro e cheguei nessa parte, sabia que o livro era realmente para mim, como a dedicatória alardeava (https://goo.gl/foOEZv). Isso porque eu numerava os meus vinis e me surpreendia como eu havia saído de Titãs, Lobão e Legião (no meu primeiro salário, aos 15 anos, comprei seis discos) e chegado a “Led Zeppelin II” em 40 movimentos, e My Bloody Valentine em menos de 100 (“Isn’t Anything” era meu vinil 96).

Escrevi tudo isso para falar de… Lou Reed. O primeiro vinil que comprei de Lou era uma coleta organizada por Ezequiel Neves e lançada em 1980 (devo ter pegado o meu entre 1986/1987) com 10 clássicos. Abre com “Walk In The Wild Side” (grafada assim mesmo), segue com “Kill Your Sons” (inseri trechos dessa letra num projeto da faculdade que juntava eu declamando poemas meus junto a versos de William Blake, Michael Stipe, Ian Curtis, Aldous Huxley, Dante e Lou Reed sob uma base de drum-bass metal numa semana da comunicação ae) e segue com faixas do Velvet (“White Light/White Heat” e “I’m Waiting For The Man”) em versões ao vivo dos álbuns “Lou Reed Live” e “Rock’n Roll Animal”, ambos de 1974.

Eu gostava desse disco, mas Lou Reed bateu forte em mim quando coloquei o vinil fresquinho de “New York” para tocar. Foi paixão a primeira ouvida. Até hoje eu acho o lado A desse vinil uma coisa inacreditável. Ouvi tanto, mas tanto, mas tanto que quando pisei em Nova York pela primeira vez, mais de 20 anos depois (o disco saiu em 1989, conheci NY em 2011), eu cantava mentalmente “Romeo had Juliette” enquanto desbravava as ruas da cidade. “Halloween Parade” e “Dirty Boulevard” são outras duas canções que fazem deste disco um dos meus preferidos do Lou (mergulhei em “Berlin” quando vi o show de Lou em Málaga, e a coisa toda me sacudiu muito -> http://goo.gl/akTojk)

Porém, o motivo deste textão é a música número 4 de minha peregrinação de 7 músicas em 7 dias: “There Is No Time”, faixa cinco do álbum “New York”. E, bem, a letra (envolvida em bateria acelerada e guitarras microfonando) fala por si só <3

“Não é hora para celebração
Não é hora para apertos de mãos
Não é hora para tapinhas nas costas
Não é hora para Bandas de Fanfarra

Não é hora para otimismo
Não é hora para reflexões intermináveis
Não é hora para o meu país certo ou errado
Lembra a que isso levou

Não há tempo

Não é hora para congratulações
Não é hora para dar as costas
Não é hora para rodeios
Não é hora para frases feitas

Não é hora para mostrar gratidão
Não é hora para vantagens pessoais
É tempo de enfrentar ou se calar
Não vai haver outra oportunidade

Não há tempo

Não é hora para engolir a raiva
Não é hora para ignorar o ódio
Não é hora para bancar o frívolo
Pois está ficando tarde

Não é hora para vinganças pessoais
Não é hora para não saber quem você é
Autoconhecimento é uma coisa perigosa
A liberdade de saber quem você é

Não é hora para ignorar alertas
Não é hora para limpar o prato
Não vamos chorar sobre o leite derramado
E permitir que o passado se torne nosso destino

Não há tempo

Não é hora para virar as costas e ir beber
Ou fumar umas pedras de crack
É tempo de juntar forçar
E se preparar e atacar

Não é hora para celebrações
Não é hora para saudar bandeiras
Não é hora para buscas interiores
O futuro está à mão

Não é hora para falsa retórica
Não é hora para discurso político
É tempo de agir
Porque o futuro está logo ali

Esta é a hora
Porque não há tempo”

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dezembro 12, 2017   No Comments

Entrevista: Música, Mercado e Scream & Yell

Entrevista concedida a Rúvila Avelino, em fevereiro de 2017, para o site Like a Rock

Qual a sua primeira memória relacionada à música?
Festas em casa organizadas pelo meu pai, que tinha uma vasta coleção de MPB, coisa fina. Depois disso lembro-me da minha mãe chorando quando o Jornal Nacional anunciou a morte de John Lennon…

Como você descreveria sua relação com a música?
A música me deu tudo que tenho. Sou completamente dependente dela, mas é uma dependência boa, apaixonada e pacifica.

Você se considera um “nerd de música”? O que isso significa pra você?
Não me considero um nerd de música não. Eu acho que o nerdismo muitas vezes se torna um vício em que o objeto (no caso a música) fica em segundo plano e o vício em primeiro: a pessoa tem que ter todos os discos, saber todas as coisas ao máximo sobre cada disco, o nome do cachorro do roadie do baterista, essas bobagens. Prefiro me concentrar na música e nas peças que a constroem.

Você já passou por alguma situação estranha ou divertida por conta da paixão pela música?
Conviver com pessoas que amam a música propõe a você centenas de situações divertidas. Saca os personagens de Nick Hornby em “Alta Fidelidade”? Eles são reais! Ou ao menos têm dezenas de versões pelo mundo. Isso é hilário.

Como você consome música hoje em dia?
Cerca de 80% da música que ouço vem de CDs e vinis, mas uns 19% que recebo por streaming ou baixo. E dai tem menos de 1% que ouço em streaming. Prezo muito pelo formato físico.

Você é do tipo que coleciona discos?
Já comprei muito mais do que compro hoje em dia, afinal, a crise está tensa, mas não dá pra negar que ter uns 1000 vinis e uns 15 mil CDs me faça um colecionador.

Se pudesse resumir a sua coleção a cinco discos, quais seriam e por quê?
Eu teria duas formas de tentar fazer esse resumo: a primeira seria a de escolher os discos da minha vida, dai entrariam “London Calling”, do Clash, “Ocean Rain”, do Echo and The Bunnymen, “Songs and Storeis”, do Husker Du, “Closer”, do Joy Division, e “Doolittle”, do Pixies. A segunda maneira seria resumir a discos “novos” que amo muito, favoritos que retorno sempre que posso. Dai escolheria “The King is Dead”, do Decemberists; “Yankee Hotel Foxtrot”, do Wilco; “My Secret is My Silence”, do Roddy Woomble; “My Woman”, da Angel Olsen; e “Outras Histórias”, do Deolinda.

Você costuma ir em muitos shows? Por que?
Sim, vou a muitos shows. Porque a música acontece ao vivo. É ali, no palco, que o que está no disco se transforma em real – para o bem e para o mal.

O que essa experiência de show representa na sua vida?
Tudo. Minhas viagens são organizadas de acordo com os shows que quero ver. Houve um ano em que fiz uma viagem pra Europa que começou com o festival Primavera Sound, em Barcelona; depois vi Guns com um amigo em Paris; no outro dia estávamos vendo Lou Reed em Luxemburgo; dois dias depois era a vez de assistir a Tom Petty na Irlanda. De lá voltei pra Barcelona para assistir ao Stone Roses. Essa loucura de roteiro mostra como shows são importantes pra mim.

Você consegue listar alguns que marcaram sua vida?
Eu tenho uma lista com mais de 100 shows entre o meio dos anos 80 e hoje em dia. Atualmente, entre os inesquecíveis da minha vida, um Top 10 possível teria Arcade Fire no Coachella, em 2011; Radiohead em São Paulo, 2009; Bruce Springsteen em Trieste, 2012; Blur no Hyde Park, 2009; Leonard Cohen no Benicàssim, 2008; Lou Reed em Málaga, 2008; R.E.M. no Rock in Rio, 2001; Page e Plant no Hollywood Rock de 1995, Elvis Costello no Tom Brasil em 1995, e Portishead no Best Kept Secret, 2013.

O que mais te empolga na música produzida atualmente, tanto no Brasil quanto no mundo?
A ligação com suas raízes. Acredito que estamos vivendo um momento especial, em que muitos povos estão buscando valorizar sua cultura, mas sem ligar para fronteiras. Isso está fazendo com que muita música nova esteja surgindo desta aparente falta de fronteira musical que a internet nos permite aproveitar.

A forma de produzir e distribuir música mudou muito de alguns anos para cá, o que dá mais liberdade para os artistas alternativos que não querem ou não conseguem entrar nas grandes gravadoras. Como você enxerga esse movimento?
Acho sensacional. A liberdade criativa é algo muito importante. O que é preciso é buscar uma forma de que essa arte gere um mínimo de lucro para que o artista receba pela arte que produz.

O Scream and Yell já está no ar, acompanhando o mundo da música há 17 anos. O que é mais importante para você na história do site?
A valorização da cena independente nacional dando o mesmo espaço para um jovem artista que damos a um Caetano, a um Chico, a um Electric Six, a um Teenage Fanclub. E também a nossa tentativa de promover conexões musicais com Portugal e América Latina, um dos nossos maiores desafios atuais, mas que já vem rendendo frutos!

Você acredita que houve grandes mudanças na forma de consumir conteúdo sobre música nesse tempo? Quais foram as mudanças mais significativas que você poderia apontar para nós?
Mudou tudo. Quando o site surgiu, o CD ainda reinava e o MP3 era um vislumbre possível nos Estados Unidos e Europa. Dai veio o Napster e a coisa toda virou de cabeça pra baixo. Hoje temos o vinil novamente valorizado, temos artistas lançando trabalhos em fita cassete, temos uma vasta gama de possibilidades. As coisas estão mudando a toda hora, todos os dias. Difícil é acompanhar, mas a gente tenta 🙂

Veja outras entrevistas aqui

março 20, 2017   No Comments

Entrevista ao Verdades Particulares

Entrevista concedida a Bárbara Bom Angelo (setembro de 2011)

Texto curto, rápido e direto. De preferência com fotos mil. Esse é o padrão em que querem, há tempos, amarrar a internet. Só que tem vezes que você quer algo com mais sustância, sabe? Tipo comida de mãe? Você quer ler impressões mais profundas de um disco, um show, um filme ou um livro e para isso não ter que correr para um jornal ou revista. Afinal, você quer agora – é o mal dessa nossa geração instantânea.

Quando essa vontade bate, o lugar para onde vou de olhos fechados é o Scream & Yell, site de cultura pop que já está em seu décimo primeiro ano de vida. Antes de estabelecer casa no mundo digital, o S&Y era um fanzine de papel e tinta que rodava feliz pelas ruas de Taubaté, interior de São Paulo. Ele vinha cheio de textos sobre música, filmes e comportamento e se manteve assim até mesmo quando mudou de mídia definitivamente em 2000. O editor Marcelo Costa resolveu vir para a capital paulista de vez e não mais restringir todo aquele conteúdo bacana a uma só cidade.

Gosto de imaginar o Marcelo como um Rob Gordon tupiniquim. Rob, para quem não lembra, é o personagem principal de Alta Fidelidade, do Nick Hornby, que é viciado em música e em fazer listas de tudo o que for possível. Quem frequenta o blog pessoal do Marcelo sabe bem do apreço que ele tem pelo escritor britânico e também em bolar os seus próprios Top 5, que ficam sempre em destaque e acabam servindo para mim como uma espécie de guia. Mas atenção, ele garante ser bem mais confiante que Rob e outros tipos de Hornby.

Eu tendo a concordar com ele, ainda mais depois de gentilmente aceitar dar a entrevista que você confere abaixo ao Verdades para contar um pouco mais do S&Y e de si mesmo.

Essa é a vida que você sempre quis? Escrever sobre o que gosta, viajar bastante, ir a vários shows… Está faltando algo?
Eu tive um pouquinho de sorte no trajeto até agora (e vou precisar de mais um tantinho para prosseguir), mas quando olho para trás fico muito feliz com tudo o que aconteceu. Ainda assim tento não pensar tanto no que aconteceu e sim no que vai acontecer. É uma metáfora interessante: quando observo o tanto que caminhei, me sinto feliz e realizado; quando penso no tanto que ainda falta para caminhar, parece que não sai do lugar. A vida segue…

Como fazer para não perder o tesão editando há 11 anos o mesmo site?
E quem disse que eu não perco? Existem dias ruins, em que a vontade de abandonar tudo é enorme. Deletar e-mail, Facebook, Twitter, largar o site e… sair por aí sem rumo, lenço e documento. Felizmente existem dias bons, em que um bom texto me faz sentir que, sim, vale a pena continuar fazendo o que eu faço. Sigo balançando entre os dois extremos e… risos… parece outra metáfora da minha vida.

?O Scream & Yell vai na contramão do que muitos acreditam ser o que funciona na internet: textos curtos. Por lá, a gente encontra entrevistas, críticas e reportagens bem longas. E dá mais do que certo. Por quê?
Eu não tenho a resposta, mas acredito que existem pessoas interessadas em conteúdo, em algo mais elaborado, profundo, irônico. Quando começamos só queríamos provocar, sabe. Fugir do lugar comum. Fazer algo que a gente gostasse realmente sem precisar seguir algum hype. E conseguimos um espaço de que me orgulho. No entanto, um tempo depois apareceu gente escrevendo textos longos, então inverti a provocação tentando resenhar discos em 500 e 1000 toques. Provocar é essencial. Tirar o leitor (e você mesmo) da zona de conforto. Isso me interessa.

Como dar conta de tudo o que você precisa ouvir, ler e assistir? Como não deixar as coisas que você mais gosta virarem obrigação?
Algumas coisas acabam virando, inevitavelmente, mas o que me salva ainda é um bom disco, um bom filme, um bom livro, uma boa foto. Quando algo bom toma a alma da gente, a obrigação passa a ser falar disso, estender o entendimento, contaminar outras pessoas. Não é uma obrigação – no sentido negativo do termo – escrever 11 mil toques sobre o disco do Decemberists. Eu preciso escrever do disco porque quero que pessoas que não o conhecem, o descubram. Se vou dormir às 5 da manhã em uma viagem porque eu queria escrever sobre o que aconteceu naquele dia é porque quero que essa pessoa que lê participe da minha experiência e tenha, assim, vontade de ter a dela.

Qual banda anda consumindo seus ouvidos ultimamente? Está ansioso por algum show que vai rolar em breve?
Tenho tentado não ouvir Decemberists (risos), mas é tão difícil. Sobre shows, tenho pensado bastante no Pearl Jam. Acho que será especial. Mas se tivesse que escolher um seria o show gratuito que o Arcade Fire fará em Montreal, 22 de setembro, encerrando a turnê “The Suburbs” em casa. Tem tudo para ser histórico.

?O que você faz só para você?
Vejo filmes (muitos), ouço discos (muitos também), leio livros (poucos) e bebo cervejas (não muitas… risos). De vez em quando cozinho… bem de vez em quando.

Acompanho muito o desenvolvimento dos seus roteiros de viagem, especialmente porque eu adoro fazer o mesmo. Qual a próxima?
Não há nenhuma desenhada neste momento, mas pequenos prováveis roteiros. Por exemplo: estou pensando em ir ao cruzeiro do Weezer, em janeiro, e descer de lá para a casa de um amigo na República Dominicana passando pelo Haiti e por Cuba. Não deve acontecer, mas é uma ideia. Outra envolve a Escandinávia (incluindo San Petersburgo). Há ainda uma viagem de carro pela Itália, a necessidade de conhecer Portugal e a vontade de ir ao Fuji Rock Festival, no Japão. Ou seja: são vários roteiros que se adaptam a oportunidade do momento.

Quais são os lugares que você visitou que roubaram seu coração?
Veneza é a número 1, e acredito que o texto sobre a cidade assinado pela Cathy Newman, editora especial da National Geographic, pesa no olhar poético que tenho sobre a cidade. Mas só um pouco: bastou olhar as casinhas empilhadas sobre o mar da janela do avião para o coração derreter. Santorini também é algo inacreditável. Praga, Paris e Amsterdã são mais táteis, mas não menos apaixonantes. Por fim, Cork – pelo folk irlandês.

?Em que lugar de São Paulo você encontra um pouco de Taubaté, a cidade onde cresceu?
Eu nasci em uma maternidade no Belenzinho, pois, segundo minha mãe, não havia nenhuma na Mooca, onde morávamos na época. Fui para Taubaté com cinco anos e cresci olhando a vida com olhar de interior. Mas meu coração sempre bateu por São Paulo. Então, hoje em dia, só encontro Taubaté quando pego no telefone para falar com a minha mãe, a minha irmã e a minha sobrinha. Sempre fui São Paulo, mesmo quando não estava aqui.

?O que tem de paulistano em você?
O jeito meio workaholic de ser, talvez. Sinceramente, não sei. Paulistano é meio blasé porque se acostumou a ter acesso a tudo (e isso é um grande defeito), então não se importa em perder um show ou um filme hoje, “porque semana que vem tem outros shows e filmes”. O bom de viver em uma cidade de interior é aprender a valorizar a necessidade. Ir ao cinema e não ter filme nenhum para ver (mas não perder de maneira alguma quando aparecer algo interessante). Será que sou paulistano mesmo? Certa vez, em uma troca de cartas com uma amiga carioca, escrevi:

De resto, tudo bem. É impressionante como essa poluição toda me faz bem para alma.

E ela: Meu Deus, os paulistas realmente não são deste planeta. Isso é porque você não mora no Rio: eu vejo o mar e o sol e a lagoa e a montanha todos os dias… todos os dias Deus me lembra que estou viva.

Não sei se tenho algo de paulistano realmente, mas me emociono todas as vezes que o piloto do avião diz que o pouso na cidade está autorizado e as casas e prédios começam a crescer e se multiplicar pela janela do avião até o infinito. Sei que estou em casa.

Não podia deixar Nick Hornby de lado nesta entrevista. Tirando Alta Fidelidade, qual o seu livro preferido dele? Você se vê um pouco em Rob Gordon ou em algum outro personagem?
“Um Grande Garoto” ocupa a posição número 2, mas “Juliet Naked” mexeu bastante comigo também. Acho que, de tudo que ele escreveu, só não gosto mesmo da segunda metade de “Uma Longa Queda”. E eu devo ter coisas mínimas de vários personagens, mas não acredito que tenha um em especial que me absorva por inteiro. Não sou tão confiante, mas ainda assim sou mais confiante que os personagens dele (risos). Ou ao menos acho…

E falando em livros e Nick Hornby… Nos seus Top 5 do Calmantes com Champagne falta uma lista de livros. Qual o ranking do momento?
Não tenho lido tanto, sabe. Isso é algo que São Paulo tirou de mim: o prazer silencioso da leitura, algo que sobrava nos anos em Taubaté. Mas se eu tivesse que levar cinco livros para uma ilha deserta, eu iria roubar na contagem e incluir “O Tempo e o Vento”, do Érico Veríssimo (sim, os sete volumes, mas se você insistisse muito que eu não poderia levar tanto peso, eu deixaria os dois volumes relativos ao Arquipélago), “As Obras Completas”, do Oscar Wilde (parece muito, mas é só um volume gordinho em papel bíblia), “O Chão Que Ela Pisa, de Salman Rushdie”, “O Macaco e a Essência”, de Aldous Huxley e os dois volumes pequeninos de comédias, tragédias e sonetos, de Shakespeare (na edição marrom da editora Abril, de 1981). Esses cinco livros me fariam feliz até o fim dos tempos. Se você fosse boazinha eu pediria, ainda, “Crime e Castigo”, de Dostoievski, uma coletânea de poetas franceses do século XIX (organizada por José Lino Grünewald e lançada pela Editora Nova Fronteira em 1991) e a coleção “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust (que está completa aqui na minha estante, mas que ainda não li). Droga, não inclui a coletânea “Seleta”, da Lygia Fagundes Telles nem as três coletâneas de tirinhas sobre Deus, do Laerte, e nada do Manoel de Barros… Posso levar 10?

Veja outras entrevistas aqui

novembro 13, 2013   No Comments

Roteiros de uísque na GQ #6

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A nova edição da GQ já está nas bancas com Wagner Moura na capa e muita coisa interessante (como os bastidores do “Nevermind”, do Nirvana, trazendo depoimentos de todo mundo que importa – de Greil Marcus a Butch Vig e advogados, empresários e, claro, Chris, Dave e Jack Endino) além duas coisinhas minhas: indicações de lojas de discos legais pelo país e tours de uísque pelo mundo.

A primeira pauta é bem simples, mas muito útil: uma listinha com comentários rápidos de lojas “pontos de resistência” que insistem em vender CDs e vinis em nove capitais brasileiras (além de garantir bons papos no balcão – não à toa a pauta se chama… “Alta Fidelidade”). A volta do vinil, inclusive, tem abastecido várias destas lojas. Vale olhar a listinha (e ir às lojas).

A segunda tem base na viagem que fiz em julho para a Irlanda (e que contou com uma pequena esticada até Benicàssim). O mote era conhecer as destilarias de uísque (com jeitão de museus) da badalada Jameson em Dublin e Cork. O roteiro incluiu muita coisa legal (aprendi a fazer Irish Cofee – última foto -, bebi uísque retirado direto do barril e me apaixonei pelo folk irlandês – contei aqui).

Na revista falo deste tour pela Old Distillery Jameson, em Dublin, e sobre outros três tours bacanas e muito interessantes de uísque – na Escócia e nos Estados Unidos. Você sabia, por exemplo, que existem cidades nos Estados Unidos em que a Lei Seca ainda vigora? Está tudo na revista, já nas bancas.

Pra fechar, Martin Wain, do jornal argentino La Nacion, que também estava na Irlanda, conta um pouco sobre a história toda. “Verás que tiene algo de ficción”, ele avisa no email brincando enquanto o texto descreve: “No hay que creerle a un mexicano cuando dice ‘una más y nos vamos’. Tampoco a un chileno de ojos colorados ni a un paulista que a estas horas no entiende nada de español, aunque lo hable casi perfecto”. Leia aqui.

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Leia também:
– Muricy Ramalho na GQ #5, por Marcelo Costa (aqui)
– Uma noite inesquecível em Cork, na Irlanda (aqui)
– Tudo sobre a edição 2011 do Festival Benicàssim (aqui)

setembro 3, 2011   No Comments

Entrevista para o Verdades Particulares

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por Bárbara Bom Angelo

‘Texto curto, rápido e direto. De preferência com fotos mil. Esse é o padrão em que querem, há tempos, amarrar a internet. Só que tem vezes que você quer algo com mais sustância, sabe? Tipo comida de mãe? Você quer ler impressões mais profundas de um disco, um show, um filme ou um livro e para isso não ter que correr para um jornal ou revista. Afinal, você quer agora – é o mal dessa nossa geração instantânea.

Quando essa vontade bate, o lugar para onde vou de olhos fechados é o Scream & Yell, site de cultura pop que já está em seu décimo primeiro ano de vida. Antes de estabelecer casa no mundo digital, o S&Y era um fanzine de papel e tinta que rodava feliz pelas ruas de Taubaté, interior de São Paulo. Ele vinha cheio de textos sobre música, filmes e comportamento e se manteve assim até mesmo quando mudou de mídia definitivamente em 2000. O editor Marcelo Costa resolveu vir para a capital paulista de vez e não mais restringir todo aquele conteúdo bacana a uma só cidade.

Gosto de imaginar o Marcelo como um Rob Gordon tupiniquim. Rob, para quem não lembra, é o personagem principal de Alta Fidelidade, do Nick Hornby, que é viciado em música e em fazer listas de tudo o que for possível. Quem frequenta o blog pessoal do Marcelo sabe bem do apreço que ele tem pelo escritor britânico e também em bolar os seus próprios Top 5, que ficam sempre em destaque e acabam servindo para mim como uma espécie de guia. Mas atenção, ele garante ser bem mais confiante que Rob e outros tipos de Hornby.

Eu tendo a concordar com ele, ainda mais depois de gentilmente aceitar dar a entrevista que você confere abaixo ao Verdades para contar um pouco mais do S&Y e de si mesmo.”

Essa é a vida que você sempre quis? Escrever sobre o que gosta, viajar bastante, ir a vários shows… Está faltando algo?
Eu tive um pouquinho de sorte no trajeto até agora (e vou precisar de mais um tantinho para prosseguir), mas quando olho para trás fico muito feliz com tudo o que aconteceu. Ainda assim tento não pensar tanto no que aconteceu e sim no que vai acontecer. É uma metáfora interessante: quando observo o tanto que caminhei, me sinto feliz e realizado; quando penso no tanto que ainda falta para caminhar, parece que não sai do lugar. A vida segue…

Como fazer para não perder o tesão editando há 11 anos o mesmo site?
E quem disse que eu não perco? Existem dias ruins, em que a vontade de abandonar tudo é enorme. Deletar e-mail, Facebook, Twitter, largar o site e… sair por aí sem rumo, lenço e documento. Felizmente existem dias bons, em que um bom texto me faz sentir que, sim, vale a pena continuar fazendo o que eu faço. Sigo balançando entre os dois extremos e… risos… parece outra metáfora da minha vida.

O Scream & Yell vai na contramão do que muitos acreditam ser o que funciona na internet: textos curtos. Por lá, a gente encontra entrevistas, críticas e reportagens bem longas. E dá mais do que certo. Por quê?
Eu não tenho a resposta, mas acredito que existem pessoas interessadas em conteúdo, em algo mais elaborado, profundo, irônico. Quando começamos só queríamos provocar, sabe. Fugir do lugar comum. Fazer algo que a gente gostasse realmente sem precisar seguir algum hype. E conseguimos um espaço de que me orgulho. No entanto, um tempo depois apareceu gente escrevendo textos longos, então inverti a provocação tentando resenhar discos em 500 e 1000 toques. Provocar é essencial. Tirar o leitor (e você mesmo) da zona de conforto. Isso me interessa.

Como dar conta de tudo o que você precisa ouvir, ler e assistir? Como não deixar as coisas que você mais gosta virarem obrigação?
Algumas coisas acabam virando, inevitavelmente, mas o que me salva ainda é um bom disco, um bom filme, um bom livro, uma boa foto. Quando algo bom toma a alma da gente, a obrigação passa a ser falar disso, estender o entendimento, contaminar outras pessoas. Não é uma obrigação – no sentido negativo do termo – escrever 11 mil toques sobre o disco do Decemberists. Eu preciso escrever do disco porque quero que pessoas que não o conhecem, o descubram. Se vou dormir às 5 da manhã em uma viagem porque eu queria escrever sobre o que aconteceu naquele dia é porque quero que essa pessoa que lê participe da minha experiência e tenha, assim, vontade de ter a dela.

Qual banda anda consumindo seus ouvidos ultimamente? Está ansioso por algum show que vai rolar em breve?
Tenho tentado não ouvir Decemberists (risos), mas é tão difícil. Sobre shows, tenho pensado bastante no Pearl Jam. Acho que será especial. Mas se tivesse que escolher um seria o show gratuito que o Arcade Fire fará em Montreal, 22 de setembro, encerrando a turnê “The Suburbs” em casa. Tem tudo para ser histórico.

O que você faz só para você?
Vejo filmes (muitos), ouço discos (muitos também), leio livros (poucos) e bebo cervejas (não muitas… risos). De vez em quando cozinho… bem de vez em quando.

Acompanho muito o desenvolvimento dos seus roteiros de viagem, especialmente porque eu adoro fazer o mesmo. Qual a próxima?
Não há nenhuma desenhada neste momento, mas pequenos prováveis roteiros. Por exemplo: estou pensando em ir ao cruzeiro do Weezer, em janeiro, e descer de lá para a casa de um amigo na República Dominicana passando pelo Haiti e por Cuba. Não deve acontecer, mas é uma ideia. Outra envolve a Escandinávia (incluindo San Petersburgo). Há ainda uma viagem de carro pela Itália, a necessidade de conhecer Portugal e a vontade de ir ao Fuji Rock Festival, no Japão. Ou seja: são vários roteiros que se adaptam a oportunidade do momento.

Quais são os lugares que você visitou que roubaram seu coração?
Veneza é a número 1, e acredito que o texto sobre a cidade assinado pela Cathy Newman, editora especial da National Geographic, pesa no olhar poético que tenho sobre a cidade. Mas só um pouco: bastou olhar as casinhas empilhadas sobre o mar da janela do avião para o coração derreter. Santorini também é algo inacreditável. Praga, Paris e Amsterdã são mais táteis, mas não menos apaixonantes. Por fim, Cork – pelo folk irlandês.

Em que lugar de São Paulo você encontra um pouco de Taubaté, a cidade onde cresceu?
Eu nasci em uma maternidade no Belenzinho, pois, segundo minha mãe, não havia nenhuma na Mooca, onde morávamos na época. Fui para Taubaté com cinco anos e cresci olhando a vida com olhar de interior. Mas meu coração sempre bateu por São Paulo. Então, hoje em dia, só encontro Taubaté quando pego no telefone para falar com a minha mãe, a minha irmã e a minha sobrinha. Sempre fui São Paulo, mesmo quando não estava aqui.

O que tem de paulistano em você?
O jeito meio workaholic de ser, talvez. Sinceramente, não sei. Paulistano é meio blasé porque se acostumou a ter acesso a tudo (e isso é um grande defeito), então não se importa em perder um show ou um filme hoje, “porque semana que vem tem outros shows e filmes”. O bom de viver em uma cidade de interior é aprender a valorizar a necessidade. Ir ao cinema e não ter filme nenhum para ver (mas não perder de maneira alguma quando aparecer algo interessante). Será que sou paulistano mesmo? Certa vez, em uma troca de cartas com uma amiga carioca, escrevi:

De resto, tudo bem. É impressionante como essa poluição toda me faz bem para alma.

E ela: Meu Deus, os paulistas realmente não são deste planeta. Isso é porque você não mora no Rio: eu vejo o mar e o sol e a lagoa e a montanha todos os dias… todos os dias Deus me lembra que estou viva.

Não sei se tenho algo de paulistano realmente, mas me emociono todas as vezes que o piloto do avião diz que o pouso na cidade está autorizado e as casas e prédios começam a crescer e se multiplicar pela janela do avião até o infinito. Sei que estou em casa.

Não podia deixar Nick Hornby de lado nesta entrevista. Tirando Alta Fidelidade, qual o seu livro preferido dele? Você se vê um pouco em Rob Gordon ou em algum outro personagem?
“Um Grande Garoto” ocupa a posição número 2, mas “Juliet Naked” mexeu bastante comigo também. Acho que, de tudo que ele escreveu, só não gosto mesmo da segunda metade de “Uma Longa Queda”. E eu devo ter coisas mínimas de vários personagens, mas não acredito que tenha um em especial que me absorva por inteiro. Não sou tão confiante, mas ainda assim sou mais confiante que os personagens dele (risos). Ou ao menos acho…

E falando em livros e Nick Hornby… Nos seus Top 5 do Calmantes com Champagne falta uma lista de livros. Qual o ranking do momento?
Não tenho lido tanto, sabe. Isso é algo que São Paulo tirou de mim: o prazer silencioso da leitura, algo que sobrava nos anos em Taubaté. Mas se eu tivesse que levar cinco livros para uma ilha deserta, eu iria roubar na contagem e incluir “O Tempo e o Vento”, do Érico Veríssimo (sim, os sete volumes, mas se você insistisse muito que eu não poderia levar tanto peso, eu deixaria os dois volumes relativos ao Arquipélago), “As Obras Completas”, do Oscar Wilde (parece muito, mas é só um volume gordinho em papel bíblia), “O Chão Que Ela Pisa, de Salman Rushdie”, “O Macaco e a Essência”, de Aldous Huxley e os dois volumes pequeninos de comédias, tragédias e sonetos, de Shakespeare (na edição marrom da editora Abril, de 1981). Esses cinco livros me fariam feliz até o fim dos tempos. Se você fosse boazinha eu pediria, ainda, “Crime e Castigo”, de Dostoievski, uma coletânea de poetas franceses do século XIX (organizada por José Lino Grünewald e lançada pela Editora Nova Fronteira em 1991) e a coleção “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust (que está completa aqui na minha estante, mas que ainda não li). Droga, não inclui a coletânea “Seleta”, da Lygia Fagundes Telles nem as três coletâneas de tirinhas sobre Deus, do Laerte, e nada do Manoel de Barros… Posso levar 10?

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setembro 2, 2011   No Comments

Top 20 Filmes entre 2001 e 2010

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Me pediram uma lista dos 10 melhores filmes da década 2001/2010. Na correria, listei uns 40 e fui cortando, cortando, cortando até chegar a 20. Fiz correndo agora… será que tinha esquecido algo? Dai, nos comentários, vários amigos acrescentaram coisas. A minha lista final é a de cima. A debaixo é a lista com a “repescagem”…

01) Sangue Negro, Paul Thomas Anderson (2007) (texto)
02) Match Point, Woody Allen (2005) (texto)
03) Onde os Fracos Não Tem Vez, Irmãos Coen (2007) (texto)
04) Fale com Ela, Pedro Almodóvar (2002)
05) Katyn, Andrzej Wajda (2007) (texto)
06) Cidade de Deus, Fernando Meirelles (2002) (texto)
07) Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino (2009) (texto)
08) A Vida dos Outros, Florian H. von Donnersmarck (2006) (texto)
09) A Fita Branca, Michael Haneke (2009) (texto)
10) Dogville, Lars von Trier (2003)
11) Menina de Ouro, Clint Eastwood (2004)
12) Brilho Eterno, Michel Gondry (2004) (texto)
13) Os Excêntricos Tenenbaums, Wes Anderson (2001)
14) Closer, Mike Nichols (2004) (texto)
15) 2046, Wong Kar Wai (2004) (texto)
16) A Rede Social, David Fincher (2010)
17) Toy Story 3, Lee Unkrich (2010) (texto)
18) Antes do Pôr-do-Sol, Richard Linklater (2004) (texto)
19) Batman Begins, Christopher Nolan (2005) (texto)
20) Adaptação, Spike Jonze (2002) (texto)

Ps. Caiu “21 Gramas”, do Alejandro González Iñárritu, que estava em 20ª, para a entrada de “A Fita Branca”, do Haneke, em nono. Será que “O Segredo dos Seus Olhos” merecia uma posição? Dúvida…

Ps 2. Caiu “O Segredo de Brokeback Mountain”, Ang Lee (2005) (texto) da 17ª posição para a entrada de “Toy Story 3”, que tinha que entrar.

Agora, a lista com as cobranças feitas pelos amigos nos comentários:

01) Sangue Negro, Paul Thomas Anderson (2007) (texto)
02) Onde os Fracos Não Tem Vez, Irmãos Coen (2007) (texto)
03) Fale com Ela, Pedro Almodóvar (2002)
04) Katyn, Andrzej Wajda (2007) (texto)
05) Cidade de Deus, Fernando Meirelles (2002) (texto)
06) Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino (2009) (texto)
07) A Vida dos Outros, Florian H. von Donnersmarck (2006) (texto)
08) Cidade dos Sonhos, David Lynch (2001) (texto)
09) Os Excêntricos Tenenbaums, Wes Anderson (2001)
10) Caché, Michael Haneke (2005)
11) Dogville, Lars von Trier (2003)
12) Brilho Eterno, Michel Gondry (2004) (texto)
13) Closer, Mike Nichols (2004) (texto)
14) 2046, Wong Kar Wai (2004) (texto)
15) O Segredo dos Seus Olhos, Campanella  (2009) (texto)
16) Elephant, Gus Van Sant (2003)
17) The Dark Knight, Christopher Nolan (2008)
18) Old Boy, Chan-wook Park (2003)
19) Whatever Works, Woody Allen (2009) (texto)
20) O Lutador – Darren Aronofsky (2009) (texto)

Algumas mudanças pontuais da primeira lista pra segunda. Woody Allen trocado (embora eu não concorde – risos): sai “Match Point” e entra “Whatever Works”. Caíram “Menina de Ouro”, “A Rede Social”, “Toy Story 3”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Adaptação”. “Batman Begins” foi trocado por “The Dark Knight”. “A Fita Branca” deu lugar para “Caché”. E entraram “Cidade dos Sonhos”, “O Segredo dos Seus Olhos”, “Elephant”, “Old Boy” e “O Lutador”. Ainda foram citados todos estes filmes abaixo (alguns eu concordo que mereciam, outros não). E quando me pediram era só um Top 10. Estiquei para um Top 20 (e por pouco não fiz um Top 21 para encaixar o David Lynch, que entrou na segunda lista). Ainda fico com a primeira… e quem quiser arriscar, deixa o seu Top 20 nos comments. Pensa que é fácil? (risos)

Outros filmes citados
– Extermínio, Danny Boyle (2002)
– Encontros e Desencontros, Sofia Coppola (2003)
– O Labirinto do Fauno, Guillermo del Toro (2006)
– O Filho da Noiva, Juan José Campanella (2001)
– Gran Torino, Clint Eastwood (2008) (texto)
– Casa Vazia, do Kim Ki-Duk (2005)
– O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet (2001)
– Irreversível, Gaspar Noé (2002)
– Into The Wild, Sean Penn (2007) (texto)
– À Prova da Morte, Quentin Tarantino (2007) (texto)
– Zodiaco, David Fincher (2007)
– Vanilla Sky, Cameron Crowe (2001) (texto)
– Paranoid Park, Gus Van Sant (2007) (texto)
– Sinédoque Nova York, Charlie Kaufman (2008) (texto)

Antes de 2000
– Memento, Christopher Nolan (2000)
– Clube da Luta, David Fincher (1999)
– Alta Fidelidade, Stephen Frears (2000)

dezembro 20, 2010   No Comments