As risadas doidas do gênio criança, frágil e despretensioso Syd Barret
por Douglas Dickel e Bondia

Se The Piper At The Gates Of Dawn, disco que Syd Barrett compôs com o Pink Floyd em 1967, é o principal do psicodelismo eletrificado, The Madcap Laughs é o marco do psicodelismo de violão e voz, gravado em 1969. 

Quando Barrett ficou afetado por causa do uso abusivo de ácido lisérgico, não deu mais para ficar na banda. Em entrevistas, ficava olhando fixo para o nada, andava sujo e nos shows ficava tocando a mesma nota.

Mas ele não perdeu o gênio criativo. Então os amigos Roger Waters e David Gilmour, baixista e novo guitarrista do Pink Floyd, ajudaram-no a gravar um disco solo que era para ser consolo, mas foi uma obra-prima. Syd tocou os violões e cantou, e os outros tocaram guitarra, baixo, teclado e bateria. O jeito de cantar é lisérgico por ser desafinado; Dark Globe e If It’s In You são lindos desafinos.

Syd está estranho, e Madcap assusta no começo. Não tem nada a ver com as viagens psicodélicas do Pink Floyd em The Piper At The Gates Of Dawn ou A Saucerful Of Secrets. Pelo contrário, são canções na maioria das vezes simples, desajeitadas e despretensiosas.

Também o toque do violão é lisérgico, pelos ritmos quebrados. A batida acelera e desacelera e é complexa. Dá para ouvir o som da palheta nas cordas. As melodias são bastante elaboradas, construídas com muitas notas. Alguma influência de Beach Boys e Beatles.

As conversas durante as músicas, a gravação meio caseira e muitos outros atos meio inocentes de Syd fazem de Madcap uma obra natural, sem aquela coisa artificial e megalomaníaca do Pink Floyd pós-Piper.

A lista de fãs de Syd Barrett é grande: Mutantes, Júpiter Maçã, Rodrigo César (Grenade), Beck, Carlo Pianta (Graforréia Xilarmônica); David Bowie gravou See Emily Play, Smashing Pumpkins gravaram Terrapin, Placebo e R.E.M. gravaram Dark Globe, The Jesus And Mary Chain gravou Upside Down e Vegetable Man, e Voivod e Soft Boys gravaram Astronomy Dominé.

The Madcap Laughs é, em resumo, um álbum sentimental, frágil e sem pretensão de uma figura que muito significou no cenário do rock. Além da versão simples o fã pode encontrar por o box set triplo Crazy Diamonds, que compila os dois álbuns oficiais (Madcap e Barret), mais a compilação de raridades Opel, lançada apenas em 1989, com mais seis bonús tracks, num total de 58 faixas e um livro d 24 páginas. Imperdível. 

Músicos 
Syd Barret — guitarra, violão
David Gilmour — guitara e violão
Roger Waters — baixo
Richard Wright — orgão
Mike Ratledge — orgão 
Hugh Hooper — baixo
Robert Wyatt — percussão
Jerry Shirley — percussão
Produção: Malcolm Jones, David Gilmour, Roger Waters, Syd Barret; maio 1968 


Douglas - (em preto)
Bondia - (em marron)
Terrapin

Meio blues, só o violão de Barrett com som forte de palheta e um dedilhado de Gilmour no fundo. 
Termina com a palheta tocando em cordas presas.

Uma música que anda em ritmo cansado, com uma guitarrinha de fundo fazendo uns sonzinhos meio psicodélicos, 
mas ainda assim uma música simples. Nota 7

No Good Trying

Baixo, bateria, solinho de  teclado e slide guitar.

O que Terrapin tinha de cansada, No Good Trying vem com energia. 
Syd puxa um pouco mais os vocais, as guitarras correndo em um solinho agudo e cheio de detalhes. 
A bateria dá um ritmo batido e forte. Nota 6

Love You

Alegrinha, com ritmo e cravo estilo Emerson, Lake & Palmer; tipo música de parque de diversões. 
A letra é brincadeira com a sonoridade das palavras: 
"Honey love you, honey little, honey funny sunny morning love you more funny love in the skyline baby".

Essa música lembra muito aquele estilo meio infantil de Syd junto ao Floyd em The Piper At The Gates Of Dawn. 
Os barulhinhos de fundo correndo em um ritmo alternativo, e só às vezes acompanhando o ritmo original da música, 
dão um charme. Uma das que mais gosto do álbum. Nota 8

No Man’s Land

Duas guitarras: uma com distorção bem anos 90 (!) tipo My Bloody Valentine, saturada porém não muito suja. 
Passa energia.

A voz de Syd fica um pouco acima dos outros instrumentos cantando em um tom meio sério. 
Durante os solos essa música lembra um pouco, mas bem pouco, as música mais "espaciais" do Pink Floyd. Nota 7

Dark Globe

Vocal desafinado e batida do violão variando o ritmo.

Uma das músicas mais bonitas do álbum. 
Syd canta com muita vontade, sem nem mesmo se importar com o limite em que sua voz agüenta se manter afinada. Musiquinha simples, sem efeitos ou solos. Nota 9

Here I Go

Letra ingênua. Melodia alegre.

Essa música também é bonita.
Não sei por que, mas escutar essa música me lembra um garoto camponês sentado em sua casa com sua mãe viúva :::) 
Here I Go é simples, sem muitos efeitos, o ritmo é meio dançante e Syd engrossa a voz para cantá-la. Nota 9

Octopus

Lembra “Sgt. Pepper”. A letra fala de dragões, cangurus e octopus.

Melhor música do álbum! Um ritmo puxado com uma batida forte. 
O refrão inesquecível "Please leave us here, close our eyes, to the octopus ride!". 
Essa música tinha tudo para ter sucesso. Nota 10

Golden Hair

A mais soturna. Adaptação de poema de James Joyce. Lindos riffs de violão.

Música quieta. Os instrumentos acompanhando exatamente o que está sendo cantado... é um poema cantado. Nota 8

Long Gone

Valsa que alterna vocais graves agudos. Muito psicodélica!

Outra música que inicia com os instrumentos acompanhando o que está sendo cantado. Durante o refrão, o volume vai aumentando e são adicionadas umas vozes cantando em outros tons... interessante mas não me emociona. Nota 6

She Took A Long Cold Look

Voz e violão. Barrett “erra” no meio.

Violão e voz num ritmo tranqüilo. Lembra uma cadeira de balanço e um cara sem ter o que fazer tocando violão. 
Apesar de bonita, é uma música fria. Nota 7

Feel

Voz, violão e ritmo errado. 

Outra das mais bonitas do álbum. Como Dark Globe, Feel é cantanda com muita sinceridade e sentimento.
Violão e voz sem frescuras. Linda. Nota 9,5

If It’s In You

Erro, desafino e bela melodia.

A música que Syd mais se complica para cantar. 
Ela exige muito do vocal, e Syd desafina em diversas partes da música. 
Os erros acabam dando charme à música e demonstram uma total apatia de Syd com a estética e os padrões. 
Digam o que quiserem, mas eu dou nota 10!

Late Night

Voz, duas slide guitars, bateria suave e sem baixo.

Essa música fecha o álbum original com chave de ouro. Uma música que, como Terrapin, é meio cansada, com as guitarrinhas psicodélicas no fundo e Syd cantando meio com sono. Nota 8,5

Uma versão japonesa do álbum traz as seguintes faixas como bonús tracks:

Octopus

Syd tenta começar a cantar, erra e começa de novo. Uma versão um pouquinho mais lenta que a original. 
Prefiro esta versão, principalmente quando Syd se empolga com os refrões. Nota 10

No Good Trying

Muito parecida com a original. Nota 6

Love You

Versão mais rápida e sem os barulhinhos de fundo. Prefiro a original. Nota 7

Love You

Versão mais lenta e sem os barulhinhos de fundo. Ainda a original é melhor. Nota 7

She Took A Long Cold Look

Syd zoa tudo no começo, e os vocais ficam meio trêmulos no refrão. Legal. Nota 7,5

Golden Hair

Versão mais viajada com uns back-vocais e uns "ventos" de fundo. Nota 8

Letras de Madcap Laughs

LINHA DO TEMPO

1946 Nasceu Roger Keith Barrett
1961 Ganhou a primeira guitarra
1965 Formou o Pink Floyd
1967 Primeiro disco da banda
1968 Ficou doido pelo LSD e foi substituído por Gilmour
1969 "The Madcap Laughs"
1970 Gravou "Barrett"
2000 Vive com a mãe em Cambridge, distraindo-se com televisão e jardinagem

Douglas Dickel é editor do MusicZine [ www.musiczine.cjb.net e musiczine@bol.com.br ]
Bondia é editor do Eu Me Odeio [ www.geocities.com/eu_me_odeio ]