Libertines
por
Rodrigo Lobo
02/09/2003
Qualquer pessoa com alguns neurônios
e o mínimo de experiência nesse chamado mundo pop nota a bobagem
que é falar do The Libertines como uma resposta inglesa aos Strokes.
Curioso é que, definitivamente, nem todo mundo parece ter essas
credenciais e, por isso, muita gente 'vai na onda'. Porém, não
vá aderir ao anti-hype (tão radical e bobo quanto o próprio
hype) negando-se a dançar ao som desses rapazes.
O lançamento de "Up The Bracket",
primeiro disco dos londrinos, recebeu alguma atenção no início,
mas ela foi diminuindo gradativamente até que não restassem
mais esperanças do grupo alcançar o mainstream com ajuda
da imprensa. Tudo bem, o underground, algumas vezes, não é
um mau lugar. Principalmente para uma banda como o Libertines.
"Up The Bracket" foi produzido por
Mick Jones, o que rendeu a banda comparações e comenatários
como "o novo The Clash", detalhe que pode ser encontrado em algumas poucas
melodias, mas que as letras afastam na primeira orelhada. No single de
estréia, o duplo lado A "What A Waster/ I Get Along", o ex-Suede
Bernard Butler assinou a produção. A primeira faixa, porém,
foi banida das rádios inglesas e excluída da versão
européia do disco. Via de regra, a edição nacional
vai na cola da edição norte-americana, mas neste caso, "Up
The Bracket" chega ao Brasil via Trama semelhante ao inglês, ou seja,
com uma música a menos.
Nada de novo. Nem música, nem
discurso, nem atitude. Apenas algumas guitarras, poucos acordes, uma bateria
acelerada na maioria das vezes, mas também lenta, quando necessário.
Muitas linhas melódicas irresistíveis, o sotaque inglês,
dois vocalistas fáceis de serem confundidos e, finalizando, o belo
clichê: muita diversão.
As fontes são, claramente,
o rock feito lá pela Inglaterra mesmo: de invasão britânica
(é só escutar "The Boy Looked At Johnny") a Smiths (ouça
e leia "Time For Heroes") passando pelo obrigatório punk rock ("I
Get Along", "Horror Show").
O grito que abre a faixa título
já foi dado por muita gente em festas, no meio de uma bebedeira.
Ou nas ruas, indo ou voltando das festas. Ou nas brigas, também
nessas festas. Ou no início ou no meio ou no fim de uma canção,
tocando para alguns amigos, em... festas. O espírito é exatamente
este. O que se segue ao berro é uma parede de guitarras e o que
a banda tem de melhor: vocais melódicos, embriagados, carregados
de sotaque e contando histórias comuns de noites e de relacionamentos
confusos.
Como a maioria das antigas bandas
mod, os dois líderes e compositores da banda (Carl Barat e Pete
Doherty) parecem ter como principal intenção entoar hinos,
canções que sirvam como trilha sonora para a vida dos jovens
que pertencem a alguma turma. E isso é louvável, pois ninguém
vive só de solidão, de sentimentos confusos surgidos devido
às pressões deste mundo, de tristeza por perdas amorosas
e de noites chuvosas passadas em casa. As horas de farra, de esculhambação,
de bebedeira e de euforia são necessárias. Se forem em maior
número, melhor. Se tudo isso (a música, a farra) for feito
com estilo e noção, melhor ainda.
Difícil dizer qual dos dois
vocalistas se destaca mais, mas é verdade que o afastamento repentino
(e muito mal explicado) de Pete deixa dúvidas quanto ao futuro da
banda. Ter que se virar sem o principal compositor pode ser difícil.
Verdade que muitas bandas conseguiram passar por isso de forma louvável
(conhece Suede, né?), e o novo single da banda chamado "Don't Look
Back Into The Sun" surge para provar que o Libertines também é
capaz disso. Produzido novamente por Bernard Butler (casualmente, ex-Suede),
"Don't Look Back Into The Sun" abre caminho para o vindouro segundo álbum.
Porém, a história aqui
é anterior. Em "Up The Bracket", todas as músicas chamam
atenção por alguns momentos: refrão pegajoso ("Boys
In The Band"), vocal sem sentido ("The Boy Looked At Johnny"), letra interessante
("Death On The Stairs"), peso ("Up The Bracket"), melodia envolvente ("Tell
The King"), convinte a uma dança frenética ("I Get Along",
"Vertigo").
No fim é apenas isso. Um disco
que não vai fazer você chorar, emocionado. Que não
vai marcar um período difícil de sua vida. Um disco que só
poderá ser acompanhado de lembranças de uma época
em que as coisas estavam acontecendo, apesar do ceticismo da maioria, e
na qual você viveu e aproveitou. Mas antes das memórias, está
o presente, afinal, como disseram lá no início e iremos repetir
por agora, "He says he got the blues but he has a lot of fun/ (...) We're
having some fun tonight".
Faixa a Faixa - "Up the Bracket"
por
Rodrigo Lobo
02/09/2003
Vertigo
O disco abre com uma guitarra rápida,
palmas acompanhando a bateria e um vocal suave.
A faixa muda de andamento, com uma
quebra irresistível (o disco traz muitas outras).
"Just walking on the ladders as the
people round you hear you cry in peace"
Death On The Stairs
Bem diferente da primeira faixa, essa
vem com uma letra extensa com referências
explícitas aos punks (sim,
o "please kill me"). É cantada pelos dois vocalistas.
Está entre as melhores. Aproveita
e repara na guitarra.
Horrorshow
É a mais punk do álbum.
Rápida, extremamente suja, curta.
"It's a horror show, you should come
on round".
Time For Herores
Foi o segundo single do disco. Letra
também extensa como a de "Death On The Stairs", mas a música
é melhor.
Lembra Smiths, mais precisamente
Morrissey. "Tell me what can you want now you've got it all".
Enfim, linda.
Boys In The Band
Essa, se virasse single, seria hit
instantâneo em qualquer lugar. Até por aqui.
Dançante, boa letra, refrão
dos bons. Rock pra levantar arena.
"You walk in like you never seen
the light/ You walk in like it every night/
But I've never seen you dance and
I never heard you sing/ So how can it mean a single thing?".
Radio America
Eles deviam estar bêbados quando
gravaram esta faixa.
É uma balada sem guitarra,
cantada calmamente e que,
não fosse a disparidade entre
as outras faixas, passaria despercebida.
Up The Bracket
Tem o grito, tem o peso, tem os vocais,
a velocidade (que diminui na hora exata).
Enfim, tem tudo aquilo que vicia
qualquer um.
Tell The King
Outra balada, mas bem melhor do que
"Radio America".
Cheia de detalhes que vão
te viciando sejam eles da guitarra, do vocal
(ouça o momento em que é
cantado "There's nothing to break your fall" e note seus pêlos se
arrepiando),
da bateria, da letra...
The Boy Looked At Johnny
Faixa bem inglesa. Do sotaque ao que
é cantado no refrão passando pelas bandas que ela nos faz
lembrar.
"New York city's very pretty in the
night time/ But don't you miss Soho".
Begging
Pesada e bem melódica.
The Good Old Days
Essa é irmã da faixa
anterior, porém, aditivada com uma letra maravilhosa.
"If you've lost your faith in love
and music/ Oh the end won't be long/ (...)
Because there were no good old days/
These are the good old days".
I Get Along
Pra encerrar o álbum mais um
punk rock rápido.
Tão punk que tem até
"People tell me I'm wrong../ Fuck 'em!".
Forma perfeita pra fechar o disco
e deixar a curiosidade pro próximo.

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