O lado engraçado da dor
por Marcelo Damaso
madamaso@terra.com.br

Domingo cheio de mofo dentro das habilidades em se fazer coisas. Eu tenho hora pra morrer. Não sei se hoje daria pra pensar nisso, talvez eu até sinta um pouco de raiva de mim. Talvez eu até resolva morder a bunda de alguém no mês que vem. Mas quanto à agora, tenho esperança de que os sonhos signifiquem alguma coisa. É tudo muito errôneo tratando-se de adaptações. “O homem tem a incrível capacidade de se adaptar às coisas, meu filho...” 

Queria trocar o “incrível” por “terrível”. A capacidade existe de fato, mas não é incrível, é dolorosa. A tela da TV e do computador tem me feito optar pela janela, onde observo pacificamente vizinhos em suas rotinas. Isso era pra ser comum, mas ficou esquisito. 

Na noite, estávamos na décima garrafa de cerveja e os assunto pulavam de um em um sem tornar nada constrangedor para todos nós. Falamos de música, interesses políticos e financeiros, sobre sexo e cinema. Ela declarou ser lésbica nessa hora. Confiança numa mesa em que as pessoas mal se conheciam. “Você não vai ficar esperando um momento oportuno pra declarar isso pra ele né?”. Noites góticas em dias de outono. O frio desse ano chegou arrebentando. O clima me faz falar de amor? Naaah..não hoje. Hoje eu quero a sensação de prazeres mundanos e de romance árduo na cidade, quero a dor urbana. Em tudo que sentir. 

Me dei conta de que não queria mais amar quando estava caminhando entre os corredores do supermercado com um baguete de gergelim. O baguete quebrou no meio e eu nem vi onde caiu o outro pedaço. Deixei minha cesta na fila e voltei à padaria para pegar um outro. No caminho ainda sabia que não era pra amar, tanto que joguei a metade do baguete no carrinho de uma velha que comprava cenouras. Foi quando resolvi temer o amor, com a metade de um baguete na mão dentro de um supermercado. Depois eu reclamo das mulheres, com  seus horários inoportunos deixando de nos amar também. Independe de sexo, aposto que ela também refletia sobre isso em seu mundo gay. Ela não era a mesma pessoa. Nem eu queria que fosse. Mas o mundo lésbico é atraente.  Comparo os mundos e sopro no cangote. Êta corpinho bom!! 
O lado engraçado da dor. Pensei que fosse mole, mas era mais duro que pau de noivo. Mas não doeu nada, o legal é sair rindo disso tudo. Alto astral, me conformo. Melhor seria se eu não estivesse escrevendo isso aqui. Melhor seria ter nascido rico, seguir carreira ganhando dinheiro e não ter nada na cabeça. Ligo a tv e tá passando futebol. Eu gosto, mas hoje não, hoje é dia de ficar em casa me paparicando por ser tão metido. Hoje é dia, e ela talvez saiba disso lá do outro lado. Menti para minha sorte e disse a ela que eu estava bem. Mas é melhor caminhar com a cabeça vazia. Mas sempre tem o inconsciente e toda aquele papo trincado de Freud. Sonho com corpo, um belo corpo nu com ancas largas. Sonho com o amor, numa garota que eu sei que pode ser, mas que, na verdade, nunca se sabe se será ao certo o seio que vai me alimentar diferente do seio que me alimentou e se aproxima de tudo que eu almejo. Loiras...uh....adoro as loiras, se elas me adorassem também....ruivas.....uh......que se fodam as ruivas, elas são sexy demais!!! Morenas....uh.....lésbicas, uh uh uh!

Quero o azar de um relacionamento turbulento que me faça jogar suas coisas pela janela. Isso tudo é ferino. E é isso que fica. Os bons momentos são marcados por cartas que a gente insiste em guardar. É lado bonito da vida, não saber se aturar, nem aturar ninguém. Tão menos idolatrar. Marca o meu nome na agenda. Ou então decora ele na lista de presença. Faz qualquer coisa para que você nunca esqueça, pois sei que um dia vai ter que lembrar. Pouquíssimas palavras nós nos dirigimos. E foi quase mutuamente. Ela mal sabe... que coisa, a única bela. Se ela sabe.....uh, é loira! Se for lésbica não vai ser tão legal, mas ela tem jeito sim. Aí eu posso deixar que tudo vire um mar azul, com golfinhos pulando e baleias nadando. Lindas, num horizonte infinito. ......... apago isso???? Naaah, deixa ai! 

Perdi o telefone, eu sempre perco. Perdi o horário, sempre me atraso. Perdi o ônibus, esse é concreto. E agora? espero o outro, já estou aqui. Amanhã acordo com a mesma sensação de que sou bom, vitorioso, amigo e incisivo. Quanta ignorância. Escrevi isso pra ti. Nem tenho modos mesmo. Mas algum dia quem sabe o teu sonho maluco não enxergue? Quem sabe......apago isso??? 

FIM