Tragic Love Song
por Marcelo Damaso
madamaso@terra.com.br

"Obsessivo, louco, não consegue dormir. Obsessivo, louco, não consegue dormir. Obsessivo, louco, não consegue dormir...” Na frente do espelho do elevador, 6:30 da manhã, meus olhos alertas e paranóicos encaram minha boca a repetir... Pensei em voltar a morar com meus pais, pensei em deixar de fumar, pensei na possibilidade de um emprego no exterior e não parei, em nenhum momento, de pensar nela. Senti saudades do meu quarto na casa da minha mãe. Frio, aconchegante, luz baixa, minha TV, vídeo e discos pra me acompanharem em minhas longas jornadas noite adentro. Longe de ser algo tão atormentador quanto Eugene O’Neil, eu criava uma espécie de vínculo com coisas que me tirassem da realidade. Como deixar de fumar e trabalhar de garçom em Nova York. A insônia se acomodava na minha rotina. Em meu quarto as coisas não eram tão ruins, o que era bom estava por perto, eu podia deixar a tv ligada à noite toda, o calor nunca me incomodou. O que me incomodava ainda era incógnito, caótico e desordenado.

Tem coisas em minha rotina que adoraria que ela visse. Minha relação com crianças, meu jeito de ler livros na sala em frente à tv... ela nem sequer conhece meu “alô” no telefone. Não gosto do fato de acordar e ter que falar com alguém em voz de sono. Não gosto do fato de não dormir por não ter falado com alguém. Quando eu a conheci, já sabia que tudo poderia vir a ser saudável. Nossos diálogos abertos já apontavam nessa direção. Finquei meu corpo no sofá, abri a janela e pensei no meu ódio por poesia e Djavan. Algumas vezes eu me perdia dentro de minhas teorias e pegava no sono. Dessa vez não foi diferente, o chato foi ter de me levantar para ir ao quarto e lembrar que naquele ínterim eu sonhei com ela. Em vez de dormir, pensei em escapar logo de toda aquela tormenta (ainda longe demais de Eugene O’Neil) . Tentei de uma vez por todas mudar o rumo de minha obsessão, pensei em vender alguns de meus discos e comprar um microondas. Há uma coisa que merece ser dita sobre obsessão: Eu respeito você e espero o tempo que for para comprar sapatos novos e calcinhas no shopping, mas por favor, não chega perto dos meus discos, deixa eles arrumados na ordem em que estão!!!! Microondas ou não, os discos são meus e faço o que quiser com eles!!!! Estou precisando muito de um microondas. Estou precisando de um abraço. Estou precisando de paz, amor e compreensão. Que se dane o Costello.

Agora estou na portaria do prédio de minha amiga pedindo para o porteiro imprimir um trabalho de Instituições Políticas, enquanto meu pai me liga e diz que existe uma lojinha ao lado que vende televisão, e que lá estão precisando de jornalista e...opa! Ai que bom, já estou dormindo, e isso é um sonho. Acordo com o beijo das crianças se despedindo de mim para ir à escola. Banho gelado, almoço atrasado e cigarro mofado. Sou louco, obsessivo e só consigo dormir depois de anarquizar meu espírito. 

Em pé na frente do som. Musica. Penso alto devido ao volume. Lá vem ela de novo. Agora gravo uma fita inspirada na noite passada. There she goes again! Um beijo e um soluço de coca-cola mal dormida. Danço feito um louco no meio da sala. Danço mesmo, ninguém me olha e faço passos que poderia ter feito no dia, se tivesse mais espaço. Dancei sozinho, depois de dançar com ela. Depois de um longo beijo que foi interrompido por pensamentos, ela me trouxe um par de meias brancas. Frio no pé. 

Depois de escrever uma página sobre minha sobrevivência longe dela, perco a ordem das coisas. Já nem lembro mais porque sentei aqui na frente do computador e desliguei todas as luzes. Já não sei se três horas da manhã continua sendo o momento ideal para se prender ao passado. Já não sei se me amo mais, nem se quero paz. Antes que isso vire uma poesia eu paro. Paro porque além de ódio por mim, posso odiar o que tento fazer por mim.  
 

FIM