Uma outra versão para o "nunca te vi, sempre te amei"
de Juliano Costa

Tinha horror ao telefone. Ao primeiro “Tring” do aparelho, queria se jogar em baixo da mesa, atrás do sofá, se enfiar em algum buraco, sei lá. Uma chamada era como uma sinfonia do capeta, e ter que atendê-la assemelhava-se a bater um papinho com o próprio.

_ Porra de telefone do caralho _ dizia, sem pudor e ranzinza, a quem quisesse ouvir no escritório onde trabalhava. Na verdade, não era bem “a quem quisesse ouvir”, e sim a quem estivesse a um raio de 5 metros dele, como se todos fossem culpados diretos por cada toque do aparelho.

Apesar do nojo pelo “bicho”, era obrigado a conviver com essa maravilha de Graham Bell. Trabalhava como representante comercial numa empresa que fabricava interfones e walk-talkies (quanta ironia!) e suas tarefas consistiam basicamente em manter contato com clientes e fornecedores...pelo telefone. Além disso, havia deixado a cidade natal, onde ainda residiam os pais e os amigos, e a única (e infeliz) forma de se comunicar com eles era através do telefone – ainda não existia e-mails naquela época e escrever uma carta requeria tempo, um fator escasso na rotina daquele “homem atarefado”, além de implicar numa visita ao correio (filas!).

Sua aversão ao aparelho era anedótica: os colegas de trabalho o chamavam de Alô, e o cumprimentavam, seja no começo, no meio ou no final do expediente com um não menos irônico “Oi, Alô. Telefone pra você”. Estressava-se com as brincadeiras:
_ Telefone a PQP, ouviram? A PQP!!!

Mal-humorado de carteirinha, daquele tipo que responde com um “por que?” a um “bom dia”, era um sozinho. Não tinha amigos na capital. Garotas, só as dos filmes pornôs, que alugava na locadora da esquina de casa com uma tamanha assiduidade que seria capaz de identificar uma fita fora da ordem exata na estante e reclamar com o balconista. Assemelhava-se bastante com o personagem de Jack Nicholson, em “Melhor é Impossível” (N. do Escritor: o filme não existia na época. Eu que me lembrei da semelhança e a usei para caracterizar melhor o nosso “herói”), mas sem um cachorrinho de nome Verdell para acompanhá-lo.

Nunca havia parado pra pensar se era feliz ou não. Isso simplesmente porque desconsiderava a hipótese de que alguém, em sã consciência, pudesse perder tempo e se questionar quanto a esse tipo de frivolidade. Além disso, ele não via necessidade em fazer esse tipo de auto-questionamento pelo fato de que ninguém jamais lhe perguntaria esse tipo de coisa, já que o mais profundo que chegava numa conversa com alguém em seu dia-a-dia era quando ia reclamar com o síndico do prédio sobre o vizinho barulhento do apartamento de baixo.

E, ah, ele tinha telefone em casa, sim. Apesar do asco pelo aparelho, não era nenhum ignorante e sabia que seria necessário em alguma emergência. Porém, é claro, não divulgava seu número de jeito nenhum: ao preencher questionários, pulava o item “telefone”, além de não ter seu número constando na lista.

Mas como se sabe que tudo pode acontecer na vida de um homem, até na de um cuja vida se resume à rotina casa-trabalho-casa (e locadora, com filminho de sacanagem), um dia o telefone tocou. Dito assim, parece que este nunca havia tocado e que seu “despertar” pudesse estar associado a algum tipo de hecatombe nuclear. Bem, digamos que, durante uma “sessão” de As Aventuras de Buttman em Casablanca, a metáfora seja feliz – guardada as devidíssimas proporções.
Não havia motivos nenhum para aquele telefone tocar, a menos que: A) Fosse algum parente, de sua cidade natal, com más notícias (estas sempre chegam rápido, como você já deve estar cansado de saber), ou B) Fosse engano. E, sem dúvida, a alternativa “B” lhe deixaria mais desgostoso.

_ Oi, a Marisa está? _ disse uma voz feminina, macia e aveludada, e até onde os clichês me sustentem nesta narração.
_ Foi engano. Não tem ninguém com esse nome aqui _ respondeu ele, com um misto de raiva e frustração na entonação da voz.

Mas, sabe-se lá Deus por que, ele não desligou o telefone imediatamente como geralmente fazia nessas situações. Não que a voz do outro lado da linha tenha, de alguma forma, lhe chamado a atenção, ou que ele ainda esperasse por mais uma frase antes, aí sim, de desligar o telefone. Não. O que aconteceu foi um daqueles baques (involuntários, claro) que dá na cabeça da gente quando se levanta rápido após estar parado por muito tempo em uma posição (ele estava “meio sentado, meio deitado” na poltrona) e que parece nos “desligar” por alguns microsegundos.

E esse curtíssimo espaço de tempo foi suficiente para que, sabe-se lá Deus por que novamente, a voz do outro lado da linha tomasse fôlego e mandasse a bomba:
_ Você é o Saulo, né? _ perguntou ela e, no silêncio dele, prosseguiu _ eu te vejo todo dia no prédio onde você trabalha. Eu também trabalho lá, sabia?
“Me vê?!?! ‘sabia’??”, confundia-se ele, sem articular ou balbuciar qualquer tipo de frase, ou ao menos uma palavra sequer.
_ Calma _ disse ela, em meio a risinhos _ eu apenas te acho...sexy, e mexi meus pauzinhos pra pegar seu telefone _ explicou, com um tom amigável na voz que intrigava a ele como uma mensagem de horóscopo de revista feminina mensal. Continuou _ Não tive coragem de te procurar para uma conversa cara-a-cara e, por isso, resolvi ligar.

O espanto dele renderia maravilhosas pinturas impressionistas e, ao mesmo tempo, non-sense. Se uma daquelas atrizes dos filmes a que assistia literalmente “a exaustão” saísse da tela da Tv e começasse a lhe fazer um boquete, não se espantaria tanto quanto ao ouvir aquelas palavras, vindas de uma voz desconhecida, mas que, inexplicavelmente, se portava de forma quase íntima. 

Entretanto, apesar do tom amistoso, ainda se sentia receoso quanto àquela voz, é claro. Poderia ser um trote, uma brincadeira dos colegas de trabalho, quem sabe. Mas não sabia se queria ou não desligar. Não pensava nisso. Aliás, não pensava nada – estava intrigado demais pra isso. Apenas ouvia:
_ Sabe, nesses cinco anos em que você trabalha lá _ disse ela, dando uma pausa na fala que nós, homens, sabemos que é proposital, ainda mais ao telefone _ nesses cinco anos, entrando e saindo nos mesmos horários, parando o carro na mesma vaga no estacionamento (N. do E.: a mais próxima da saída) e usando ternos de corte conservador, eu perguntava a mim mesmo: “que homem é esse?”. Não sei explicar, Saulo, mas existe algo em você, algo que, não sei, algo que, como posso dizer, algo que...

À essa altura, ele, em seu apartamento muitíssimo bem-arejado, suava. Segurava o telefone incrédulo no que ouvia e, ansioso, esperava pela conclusão da frase que não terminava e que, segundo a misteriosa admiradora, podia estar prestes a ser dita há anos.
_ Você tem algo de instigante, de desafiador, de sublime até, por que não?, que me cativa, entende? _ concluiu ela, tentando ser elucidativa, mas, aparentemente, sem sucesso, já que o silêncio do outro lado da linha permanecia. _ Seu olhar, sua boca, a maneira como você anda, seu sapato sempre bem engraxado, enfim, tudo, tudo, tudo isso faz com que eu me sinta bem, apenas por olhar, entende? _ completou ela, num tom que, até antes de atender essa chamada, causaria nele uma repulsa inenarrável, mas que agora, sabe-se lá Deus por que (de novo), fez com que ele se sentisse “estranho”, de um jeito que jamais havia se sentido anteriormente.

Ele permaneceu sem dizer uma palavra. Transpirando muito e sem pensar “coisa com coisa”, começou a ver milhões de flashbacks em sua frente. Mas estes não se encaixavam como num filme ou documentário, e contribuíam ainda mais para lhe embaralhar as idéias.

Segundos se passavam como horas e o silêncio permanecia. Depois de mais ou menos dez horas, digo, dez segundos, a voz feminina voltou a se manifestar, mas dessa vez já com um (quase) discurso completamente diferente.
_ Ah, Saulo. Quer saber? Vai te fuder! _ bradou ela, desligando o maldito telefone em seguida.
Ainda caricaturamente (sic) atônito, ficou segurando o gancho do telefone por mais alguns instantes. Então fechou a boca, tornou a piscar os olhos normalmente, enxugou o suor e voltou a ver o vídeo que estava assistindo. O filme já havia acabado e o fundo azul dominado a imagem da televisão, mas ele a mirava com a atenção de um cachorro lunático. Babava, inclusive, como tal.

No dia seguinte, foi trabalhar (os sapatos não estavam engraxados). Tirou o paletó, colocou-o atrás de sua cadeira e sentou. Olhou para o telefone. Fitou-o por alguns instantes, como um bobo. “Concentrado” nisso, se assustou quando o boy entrou na sala gritando:
_ Vocês já estão sabendo? Uma secretária que trabalhava no quinto andar se matou ontem à noite. Eu ouvi no rádio que ela se enforcou com o fio do telefone.