Sopa
de Tartaruga
de
Bruno Honda
natio@rappcollins.com.br
Era um condomínio engraçado.
Desde a curva entre a Praia Grande e a Toninhas já era possível
ver o Varandas de Ubatuba, em sua imponência estática, incrustado
em uma montanha, morro na verdade, mas que para Bruno, com nove anos de
idade, era um verdadeiro Everest litorâneo. O Varandas parecia uma
escada gigantesca, com onze blocos espalhados uniformemente na encosta
da montanha que encerrava a praia das Toninhas. Era todo branco, com toldos
coloridos colocados pelas varandas do Varanda. Desde que possuía
algum entendimento sobre o mundo, Bruno se lembra de passar os finais de
semana na casa de obaa-chan. E também tinha certeza de que obaa-chan
era sua avó desde que nascera.
Nascido em Taubaté, no ano
de 1979, sempre gosta de lembrar que foi neste ano que o E.C. Taubaté
subiu para a primeira divisão do futebol paulista. Torcedor fanático
do burro da central, sofreu e se preocupou tanto quanto pode sofrer e se
preocupar uma criança de nove anos. E, é claro, divertiu-se
à beça em freqüentes incursões ao estádio
do Taubaté, o Joaquim de Morais Filho, ou simplesmente Joaquinzão.
Sempre a tiracolo de seu pai ou com seu pai a tiracolo ia a jogos importantes,
jogos que nada valiam, bingos beneficentes, shows, mas nunca assistia a
nada. Gostava mesmo é de ficar com a meninada jogando bola atrás
das arquibancadas, em maracanãs improvisados, morumbis imaginários,
parques antártica meticulosamente arquitetados em meio à
grama malcortada, solavancos, buracos e gols de chinelos havaianas. Muitos
ídolos povoavam seus sonhos, todos craques, pobres e desafamados:
Miguelzinho, ponta-direita impressionante, negrinho desnutrido, camisa
sete da seleção de Bruno; Careca, centroavante franzino,
subia feito foguete; Marcelo, o melhor goleiro que tinha visto jogar, que
acabou ainda passando por clubes grandes, como o Bragantino campeão
paulista e até pelo Santos; Bocó, zagueiro eficiente, meio
lento e chutador; Alencar, volante de dois metros de altura, tição
firme e brigador, dominava como ninguém a intermediária taubateana;
e tantos outros, que passaram pelo Taubaté e que Bruno tinha para
si como os melhores jogadores do país. Claro que o E.C. Taubaté
nunca foi realmente um dos grandes times do futebol brasileiro, mas sempre
foi cumpridor, o que estava de bom tamanho para a cidade e seus torcedores.
Bruno não nasceu gostando de
futebol. Em verdade, aprendeu desde cedo o prazer de ser um sofredor com
seu pai, Ariovaldo, ou seu Ari: contato publicitário de grande fama
na média Taubaté, dividia seu tempo entre clientes chatos
e jogadores não muito espertos. Era também repórter
esportivo e fazia a cobertura do dia-a-dia do glorioso E.C. Taubaté.
Não vivia apenas de jogos do Taubaté, conheceu o Brasil
se não por inteiro, uma parte bem grande através dos microfones,
transmitindo jogos por aí. E quantas vezes não ia junto com
seu pai Bruno, japonês por parte de mãe, esquálido
e nanico. Criança morena de Sol, mais parecia um mexicano, com orelhas
enormes e cabelos negros e grossos. Constante alvo de chacotas, nunca teve
complexo. Afinal, que criança é bonita entre os seis e quatorze
anos? A beleza do ser humano varia como um gráfico em onda. Existem
fases em que a beleza atinge o ápice e fases em que praticamente
desaparece. Nascemos feios, todos parecidíssimos: pelados, carecas,
gordos e com nossos rostos extremamente parecidos com nossos traseiros.
A diferença é a quantidade de orifícios. Depois de
alguns meses, menos vermelhos e mais humanos, ficamos lindos. Todos mesmo,
todos os bebês com quatro ou cinco meses são lindos. Aí
vem uma longa e ótima fase, até perto dos cinco, seis anos.
Depois disso, passamos de bebês gordinhos a crianças magrelas
e chatas. E sem dentes. E orelhudas.
E Bruno não foi diferente,
não senhor. Suas orelhas pareciam ser capazes de cobrir seus olhos,
e a falta de dentes era tanta que Bruno havia dado nomes a cada um de seus
dentes restantes. Seus quatro dentes restantes. Talvez por sentir ciúmes
de sua irmã não contei ainda? Bruno tinha uma irmã
mais nova, chamada Ives, com seus seis anos de idade que ainda parecia
um bebê, com dobrinhas e todos os dentes, ou talvez por puro fogo
infantil, vivia sempre a puxar um cabelo aqui, a beliscar uma perna ali.
Bruno e Ives ou estavam brigando, ou estavam dormindo. Como de costume,
Bruno também tinha uma mãe. Dra. Edina, pediatra, pequena
pediatra, japonesa invocada, dócil, prática e, para os dois,
a melhor mãe do mundo.
Entrava semana, saía semana,
seu Ari e dra. Edina colocavam as malas no carro, as crianças no
banco de trás e lá iam subir e descer a serra a caminho de
Ubatuba. Como a viagem rotineira costumava acontecer às sextas à
noite, memoráveis eram também as brigas entre os irmãos
na épica disputa por espaço para dormir esticado no banco
da belina verde da família. Cada palmo do banco traseiro era disputado
a tapa e o que acabava por sobrar para os traseiros das crianças
eram algumas poucas e bem dadas palmadas, umas pela gritaria, outras pela
falta de senso de solidariedade e partilha. Não há como se
culpar Bruno e Ives: quem já teve que viajar em um banco de cerca
de um metro e dez de largura, acompanhado e morrendo de sono sabe que não
é exatamente uma tarefa das mais fáceis no seio familiar.
A viagem vai correndo, o suor escorrendo e cada posição culmina
em uma cãibra diferente a cada quarto de hora.
Se faltava paciência, sobrava
senso prático. Depois de algumas conturbadas viagens regadas a suor
e lágrimas, a doutora finalmente solucionou o problema. Longe de
deixar um filho trancado e levar o outro, optou por descobrir um novo assento:
aproveitando o espaçoso porta-malas da belina, passou a colocar
todas as malas em uma metade do espaço, enquanto forrava a outra
metade com cobertas e edredons, transformando a borracha áspera
e o carpete encardido em uma confortável cama para as crianças.
Bem, não era tão confortável assim e cabia apenas
uma das crianças, mas resolveu de imediato a choradeira durante
a viagem. Em verdade, a choradeira agora era em casa, antes da partida.
Nas primeira semanas, enquanto viajar no porta-malas era novo e divertido,
brigava-se para decidir quem iria usar a nova cama; e depois, para ver
quem iria ficar com o banco, este sim, confortável realmente. Viajar
apertado com as malas não era tão ruim assim, mas havia sempre
uma sensação claustrofóbica de calor intermitente
e um aroma arredio de freios que custava a desaparecer no frescor da neblina.
Obviamente havia o incoveniente das malas soltas, que em curvas fechadas
insistiam em vir fazer companhia na porção-leito do porta-malas.
No fim, sempre o irmão mais
velho acabava por ceder mais por cansaço que por bondade , mas
também não reclamava muito. Afinal, acabara de conquistar
hora e meia só para ele, longe dos choramingos manhosos e da impaciência
da irmã. Abraçado à bagagem, respirando o pó
e acompanhado do estepe, quantas vezes não contou cada estrela do
céu, quantas vezes não sonhou, solitário e resignado?
A cada viagem, divertia-se com gols que fazia, carros que dirigia, praguejava
contra a extensão e demora, quantas maneiras diferentes não
imaginou para ir de uma cidade à outra sem precisar viajar? Teletransporte,
aviões ultrasônicos, um túnel a vácuo, enormes
escorregadores, trens elétricos supercondutores que viajavam a trinta
centímetros do solo. Com os pés colados ao vidro traseiro,
dormitava imerso em um planeta construído exclusivamente para ele.
Por ele.
A viagem nunca era longa, na verdade.
Ubatuba ficava a cerca de 120 quilômetros de Taubaté e, quando
a estrada estava vazia, o percurso era facilmente vencido em uma hora e
meia. A estrada era pouco iluminada, de modo que só o que se via
era um eventual farol de um e outro carro que passava pela belina. Em noites
límpidas, Bruno sempre notava a companhia quieta e constante da
Lua. Bruno nunca entendia por que a Lua sempre seguia o seu carro, como
ela faz isso? Se a Lua estava indo para Ubatuba com eles como ficaria Taubaté?
Condenado à escuridão da Lua nova até a sua volta?
Bruno achava que talvez fosse especial. Uma criança diferente, protegida
da Lua. Nunca estaria sozinho, sempre teria a dócil e silenciosa
companhia lunar, com seu brilho encantador e dualidade lunática,
senhora das marés e rainha do céu serrano. À medida
que os anos foram passando, entendera que a Lua não seguia apenas
o seu carro, os seus passos; a Lua pairava estática nos céus
de metade do planeta, iluminava dois bilhões de pessoas simultaneamente.
Com o esclarecimento, Bruno padeceu de uma tristeza solene: não
era mais especial, a Lua era de todos. Fim da cumplicidade. Mas logo compreendera
a Lua não deixara de ser dele nem ele da Lua. Sentia que cada
raio que cortava algumas nuvens e iluminava as paredes de seu quarto, ou
o estepe da belina, era seu. Um pedacinho daquele enorme satélite
irregular e esburacado permanecia sob sua custódia. Não poderia
tê-la só para ele: mas quem queria deixar de compartilhar
tal perfeição e beleza?
Eventualmente a trupe familiar fazia
uma ou outra parada pela estrada; ora por causa de Ives, que freqüentemente
se sentia enjoada devido à direção de certa forma
arrojada demais de seu pai, ora por causa da doutora, que era viciada em
Coca-Cola. A estrada não era tão ruim, mas era de mão
dupla, e cada ultrapassagem tinha que ser cuidadosamente planejada: não
foram poucos os conhecidos da família que acabaram por se acidentar
por aquelas paragens. Teve o filho do seu Elias, da loja de móveis,
que perdera a direção e a vida em uma daquelas curvas sem
acostamento; o vizinho, Rodrigo, também ganhara arranhões
e o direito de viver de novo depois de uma capotagem múltipla, muita
sorte e pouco freio. Apesar de, às vezes, poder quase sentir a respiração
de um acidente em seus calcanhares, Bruno mais gostava que desgostava das
viagens: o caminho recheado de mato, o frescor do orvalho se formando por
sobre a vegetação, o aroma ligeiramente serrano que aos poucos
substituía os cheiros característicos do vale inundavam corpo
e córtex da criança. Sensações entorpecentes,
torpor sensitivo Bruno oscilava entre o sono profundo e a semiconsciência,
delirando ora por entre sonhos novinhos em folha, ora por entre sonhos
recorrentes e familiares.
Quando as curvas mais abruptas acabavam,
e o ar tornava-se úmido e sólido, era esse o sinal de que
a viagem acabara. Ubatuba estava ali, baforejando seu calor molhado a quem
quisesse respirar. Geralmente era quando as crianças acordavam,
e mal se via consciente, Bruno se entregava a seu passatempo favorito:
perturbar a irmã. Tinha vários esquemas cuidadosamente planejados,
e um em especial vinha agradando ao menino ultimamente: empenhava-se em
descobrir novos e estranhos insultos que não fossem palavrão,
estes eram rigorosamente proibidos pela doutora e usava-os para xingar
a irmã, que chorava antes e perguntava depois.
Lorpa. Sua lorpa! gritara Bruno
assim que passaram pelo trevo de acesso ao centro de Ubatuba Lorpa, lorpa,
lorpa!
Mãe! Manhê, olha o
Bruno aqui! Ele fica me xingando de... xingando de... de alguma coisa feia
rosnou a pequena Aposto que é palavrão.
Mentiramãelorpanãoépalavrão,
elaquenãosabeoquesignifica atropelou Bruno E se ela não
sabe o que é lorpa, ela é uma lorpa mesmo.
A Dra. Edina seguiu o procedimento
padrão. Primeiro, resmungou complacente um pára, Bruno;
em seguida, tentou ignorar por um tempo a gritaria; finalmente, como os
dois não paravam de berrar, aquele burburinho seco e confuso se
espalhando pelo carro, soltou um sonoro e vigoroso fiquem quietos!,
que no alto de suas dezenas de decibéis transformou toda barulheira
insuportável de lorpas e choramingos no mais cristalino silêncio.
Com a recente paz reinante dentro do Ford exceto por eventuais beliscos,
que se não eram inocentes, pelo menos eram silenciosos o pai das
crianças podia finalmente guiá-los pelo trecho urbano da
Rio-Santos em direção ao condomínio.
A entrada do Varandas ficava exatamente
no meio de uma curva, que separava as praias Toninhas e Enseada. Para entrar,
era preciso fazer o retorno em um esburacado e escuro contorno. É
incrível como a consciência do ser humano é capaz de
guardar alguns retalhos de lembranças sem importância. De
todos os detalhes do condomínio, o que atormentava a memória
de Bruno era o cartão de identificação dos carros.
Era um cartonete de papel, de um amarelo alaranjado, meio desbotado, meio
encardido: era plastificado e, por entre o plástico arranhado, enxergava-se
o letreiro, impresso em fotocopiadoras de má qualidade, descrevendo
o número do apartamento e a condição do carro que
adentrava o condomínio. O número era o 77, setenta e sete
ou simplesmente sete-sete. E a condição da belina verde dos
Honda Leite, e era esse o detalhe incômodo, era a de visitante. Mesmo
indo à casa de seus avós praticamente todos os finais de
semana, a belina era sempre visitante, eterna inquilina da hospitalidade
de outros. Vendo o cartonete pendurado no retrovisor, balançando
nas curvas pavimentadas do Varandas, Bruno sonhava com cartões multicoloridos,
em especial com o mais cobiçado de todos eles: o cartão azul
petróleo, onde, em letras pretas e maiúsculas, repousava
a mais imponente e respeitosa inscrição, a palavra PROPRIETÁRIO.
Não que quisesse status ou ostentação, simplesmente
queria sentir que aquela casa, que todos os finais de semana lhes cedia
seu conforto, era também seu lar.
A pavimentação era de
piche e cimento, um mosaico cinzento e regular composto de blocos hexagonais
de concreto queimado. Nos dias de verão, as ruas do condomínio
pareciam estar vivas, movimentando-se vagarosamente ao sabor do piche semi-derretido.
Com um particular sadismo infantil, Bruno e Ives passavam horas distraídos,
olhos fixados estaticamente no piche por entre os ladrilhos, observando
atentamente a luta de formigas desavisadas que insistiam em tentar atravessar
o riacho negro e pegajoso. Lutavam por minutos a fio, até serem
vencidas pelo cansaço ou calor, tragédia milimétrica,
deitando por fim suas seis patas desengonçadas sobre o visco aquecido.
Bruno gostava de observar, com curiosidade quase científica, cada
movimento agonizante, cada impulso desesperado da moribunda tanajura. E
para cada formiga que jazia inerte no atoleiro, escrevia um epitáfio,
ali mesmo, o bloco hexagonal de lápide, um graveto de pena e o próprio
piche assassino de tinta. Imaginava familiares chorosos, formigões
pretendentes choramingando pelos cantos, Meu Deus, ela era tão nova,
trabalhadeira... pena que nunca teve juízo; e as colegas de trabalho,
inconsoláveis, Eu disse para ela não ir até lá,
o calor, o cheiro, Jesus, não quero lembrar mais. Emocionava-se
com depoimentos imaginários, chorava com o fim abreviado da existência
do pequeno inseto, das coisas que a formiga nunca fizera e nunca faria.
O piche também grudava nos
pneus dos carros, e invariavelmente a belina estacionava em frente ao 77
com os quatro pirelli embebidos. A chegada era sempre igual. Quando o carro
entrava no condomínio, uma trepidação surda acordava
de vez as semidespertas crianças. Resmungos e espreguiçadas
sonoras demarcavam o ritmo lento da subida pelo condomínio. Como
ficava recostado no dorso de uma montanha, o Varandas de Ubatuba não
era nem vertical, nem horizontal: era uma edificação diagonal.
E para se ter acesso aos apartamentos mais altos, utilizava-se a escada,
em caracol, ou as ruas, que em verdade eram uma serpente de cimento que
se enrolava por entre os blocos de apartamento. Da guarita na entrada o
porteiro já avisava de antemão a chegada da família,
e quando passavam pela quinta e última curva antes do 77, já
viam a porta aberta, as luzes acesas do apartamento, a silhueta de obaa-chan
à espera da filha, genro e netos. Obaa-chan era a avó de
Bruno, obaa-san risonha, cabelos curtos e negros, óculos que mais
pareciam duas telas de televisão.
O apartamento era amplo, uma sala
imensa, que seria ainda maior se não tivesse tantas samambaias espalhadas
pelas mesas, suportes, banquetas, estantes e armários. O ladrilho
vermelho, de cerâmica fosca, era o mesmo na casa toda, exceto pelos
banheiros, azulejados. Era um apartamento térreo particularmente
bem-iluminado: logo na entrada, depois de um pequeno corredor, existia
uma fileira de grandes janelas, três no total, que permitiam e permeavam
a entrada do ar e luz. No outro extremo, uma enorme porta de dobradiças
duplas limitava a fronteira entre a sala e a varanda, que confeccionada
em madeira e vidro mais parecia uma janela de proporções
mais generosas. O apartamento tinha três bons quartos, que eram divididos
entre os Hondas; uma cozinha miúda que terminava na área
de serviço, com seu pequenino banheiro e quarto de empregada. Em
verdade, era vergonhoso chamar aquele último cômodo de dependência
de empregados. Não devia ter mais que um metro quadrado, e se preciso,
uma cama não caberia ali. Era, então, usado como depósito
de tranqueiras de odii-chan, avô japonês de Bruno, velho amigo
silencioso, sem dentes e que nunca aprendeu a falar o português.
Apesar da reluzente careca por toda a cabeça, odii-chan era muito
forte. Com seus setenta e poucos anos, nunca perdia uma pescaria nas recortadas
encostas das praias de Ubatuba. Com vigor juvenil, contorcia-se e torcia-se
entre as pedras à beira-mar em busca de um lugar bom para pesca.
Mal entraram na sala, afastando samambaia
atrás de samambaia, Bruno e Ives, já despertos totalmente,
puseram-se a correr por toda a extensão da casa. Depois de hora
e meia trancados no carro, precisavam esticar as pequeninas pernas de qualquer
maneira. Gostavam de entrar e sair dos quartos pelas portas que davam para
a varanda, grande, espaçosa e única para a sala e dois quartos.
Nessa varanda postava-se um enorme toldo de lona, que era pintado freqüentemente
pelos administradores do condomínio, e era o cômodo preferido
de Bruno: lá, passava horas lendo livros infantis na maioria das
vezes lendo e relendo Monteiro Lobato e brincando com os calços
das portas do apartamento. Os calços eram, na verdade, triângulos
de madeira maciça, que se encaixavam na fresta das portas e evitavam
que batessem com a brisa litorânea; ou, na imaginação
de Bruno, carros possantes, disputando corridas infinitas, voando, trombando,
vencendo, perdendo.
O apartamento, diariamente silencioso,
encheu-se de som vibrante, bater de pés ininterrupto, risadinhas
abafadas Odii-chan já dormiu, gente e berros contidos. Luzes
se acenderam por toda a casa, a conversa cortando a quietude da noite,
uma vez mais o apartamento do Varandas, preguiçoso de segunda a
sexta, acordou para dar boas-vindas para os visitantes. Da cozinha vinham
rodadas de chá e bolinhos viracambota frios, mas ainda deliciosos
e a noite escorregava pelas janelas e portas abertas. Muitas vezes, ao
chegarem, seu Ari e a doutora jogavam uma partida de buraco com odii-chan
e obaa-chan. Uma partida virava duas, que se transformavam em três,
e o relógio que nunca pára não parava, e era comum
ver as cartas recolhidas apenas no início da madrugada. As crianças
já dormindo estiradas no sofá, depois de pedirem água,
cafuné, alguma coisa para comer, uma história, um pouco de
atenção e a cama de Taubaté. Da sala eram levadas
para o quarto da família, da Nê, como era chamada Dra. Edina.
Bruno nunca entendia muito bem o porquê do apelido Nê. Abreviatura
de Edina é que não era. E muito menos de Midori, segundo
nome de sua mãe. Era tradicional na família colocar um segundo
nome japonês, preservando-se raízes japonesas e adaptando-as
à realidade brasileira. Bruno era Bruno Shigueru; sua irmã,
Ives Akemy; tinha Edina Midori, Elizabete Satiko, Mirtes Harumi, Rubens
Minoru, os quatro filhos de D. Helena Hamako e seu Francisco Tosio Honda,
obaa-chan e odii-chan, respectivamente. Cada nome tinha um significado,
mas Bruno nunca lembrava o que era.
O quarto era grande, pelo menos aos
olhos pueris de Bruno, e tinha apenas uma cama. Os armários eram
embutidos, e os quatro dormiam amontoados no quarto, distribuídos
entre a cama e colchões. Às vezes, Bruno dormia na sala,
ficava vendo tv até mais tarde e olhando a escuridão vazia
pela porta transparente. Dormia aos poucos, perpetrando vagarosamente em
cada estágio do sono. Mantinha a consciência até onde
conseguia, seus pensamentos nadando em um oceano anestesiante, imagens
de praias, da família, de amigos fundiam-se e confundiam-se; seus
sentidos gradativamente o levavam do sólido e concreto, dos lençóis
quentes e edredons macios para sonhos sem cheiro, som ou calor, mas repletos
de cores. Sempre, antes de ressonar de verdade, pensava no que iria sonhar;
pensava, às vezes, que poderia sonhar que estava voando; em outras,
que poderia ser um jogador de futebol; mas sempre desejava sonhar com seu
irmão, o pequeno Rui, criança sorridente e franzina, olhos
fechadinhos em risos constantes, mas que, por obra do destino, morrera
antes mesmo de completar seis meses de vida. Rui nascera no ano de 1985,
terceiro filho da Dra. Edina e seu Ari. Nascera leve, um tanto esquálido,
e com uma deficiência cardíaca grave, que não o impediu
de ser a criança mais alegre e risonha que Bruno já vira.
Não que se lembre muito. Em verdade, não se lembra em quantidade,
mas o calor da breve passagem de Rui na vida de Bruno marcara para sempre
seu coração. Alguns flashes sempre passam pela sua cabeça
e ali, deitado no ladrilho vermelho, desejava sonhar um pouquinho com aquela
sensação eufórica, de finalmente ter um aliado, um
irmão menino, com quem pudesse jogar futebol e bolas de gude, brincar
de carrinhos por horas a fio, a quem pudesse ceder suas figurinhas dos
ThunderCats. Não que não gostasse de sua irmã, a amava
sinceramente: mas nunca pôde compreender de fato a razão de
as meninas só gostarem de brincadeiras chatas. Rui nascera no mês
de setembro e trouxera consigo o início do calor característico
do fim de ano. Amado incondicionalmente afinal, que amor materno não
é incondicional? pela doutora, mais lutou que viveu. Freqüentes
insuficiências respiratórias marcaram os cinco meses de sua
breve existência, e não fora uma única vez socorrido
às pressas pela mãe-doutora. Daqueles cinco meses, Bruno
se lembrava de fragmentos apenas, passagens desbotadas, imagens sem sons.
Lembrava-se de um único som, as risadas de seu irmão caçula,
um som baixo, irregular, que ecoava dentro de suas lembranças sempre
que pensava em Rui.
Lembrava-se de manhãs de Sol,
manhãs claras e mornas, seus seis anos somando-se aos meses do irmão,
em que passeava em torno da praça onde morara desde que nascera.
Lembrava-se primeiro do carrinho de passeio, azul, detalhes em vermelho
e rodas espanadas. Depois, da cabeça redonda e risonha de Rui, ora
embrulhado em macacões felpudos, ora solto em camisetas de algodão
brancas. E lembrava-se da dificuldade de empurrar o carrinho com seus braços
finos; do irmão deitado na cama dos pais, pelado e branquelo; das
brincadeiras do caçula com o urso de pelúcia da mãe,
o Babolino; as imagens orbitavam ao redor de seus olhos úmidos,
sensação de choro contido, quentura vermelha sobre as pupilas
marrons. E quantas vezes não chorou baixinho, perguntando-se por
que o direito de crescer, estudar, namorar e casar, sofrer e torcer, amar
e construir podia ser tolhido de maneira tão brusca de um ser humano
que mal teve tempo de respirar? Bruno nunca entendia realmente. Mas entendia
que, mesmo que lacônica, a passagem de Rui por aquela casa na Praça
Santa Rita trouxe, junto com o verão, um riso eterno e alegria sempre
matutina dentro de cada um dos quatro restantes na família.
E à medida que o calor irritado
de seus olhos tornava cada vez mais difícil mantê-los abertos,
Bruno deixava-se levar pelo torpor sonolento, desejando sonhar com o que
acabou, fazendo do finito eterno, ao menos até o amanhecer.
Aos sábados, o apartamento
parecia ainda mais preguiçoso. A casa ia acordando vagarosamente,
em cada quarto escutava-se bocejos lamurientos, às vezes seguidos
de saudações matinais, às vezes seguidos por novas
rodadas de roncos e respiração profunda. Nem mesmo o Sol
penetrando gradativamente por entre as frestas das portas era suficiente
para vencer o estado geral de entorpecimento assonorentado. As crianças,
sempre as primeiras a acordar, levantavam da cama depois das dez horas
da manhã e saíam do quarto reclamando da falta de atenção.
Depois de três ou quatro minutos, a impaciência reinando, entravam
e saíam do quarto em busca de brinquedos, roupas, livros: em verdade,
seu real escopo era tentar despertar seus pais. Passadas vigorosas, sussurros
extremamente audíveis, despretensiosos esbarrões eram armas
utilizadas por Bruno e Ives, e não costumavam falhar. Todos de pé,
lá vinha obaa-chan, acordada desde as seis, olhem o Sol, gente,
o dia está lindo. Sempre agitada, obaa-chan, a essa hora, já
tinha regado centenas de samambaias, tinha feito chá, conversado
com uma ou duas amigas e já estava pronta para sair e pescar. Obaa-chan,
oddi-chan e o pai de Bruno eram aficionados em pescaria: pescavam apenas
nas costeiras e praias, e já tinham certamente coberto boa parte
das noventa praias ubatubanas. Bruno, meio preguiçoso para pescarias,
e não muito afeiçoado ao cheiro incômodo dos peixes,
acompanhava às vezes avós e pai, mas ficava mais que ia.
E naquele sábado, em especial, lá foi o diminuto japonês
se enrolar com anzóis, linhas de pesca e camarões.
O local escolhido foi a praia de Picinguaba,
a cerca de trinta minutos do centro de Ubatuba e derradeira praia da cidade.
Vila de pescadores, Picinguaba está fora do circuito das praias
badaladas e famosas de Ubatuba, mas tem água cristalina, areia grossa,
um ótimo peixe assado preparado pelos caiçaras e uma particular
boa sorte para pescadores amadores. Depois do almoço, barriga cheia
e ânimo renovado, a trupe pegou a belina verde e tomou o caminho
rumo à Picinguaba. O dia estava amornado, o ar úmido e espesso
prenunciava um pé dágua repentino, daqueles característicos
nas tardes quentes ubatubanas. Dentro do carro, um vento quase sólido
tentava, sem sucesso, refrescar o suor molhado nos rostos e costas à
medida que os trinta minutos do percurso iam sendo vencidos. Apesar da
pouca afinidade com peixes, Bruno gostava muito de ir pescar com o pai.
Aos nove anos de idade, supria toda e qualquer carência de exemplos
e heróis através de seu pai, amoroso, dedicado e divertido.
Gostava também de colocar o pé descalço na areia,
sentir a água gelada nas canelas, se divertia correndo para cima
e para baixo entre as pedras centenárias da costa litorânea.
Sua curiosidade se aguçava assim que sentia a brisa úmida
em seu rosto: ali, naquele ambiente natural, sentia-se um verdadeiro explorador,
arqueólogo de fósseis marinhos, biólogo destemido
em busca de espécimes estranhos, formações estapafúrdias.
Da pesca mesmo, pouco participava. Que criança tem paciência
de ficar horas a fio estática, olho fixo em uma linha translúcida,
à espera do que pode não aparecer? Depois de três ou
quatro tentativas, quando muito, desistia da vara de pesca e saía
em busca de algo mais interessante, um ouriço incrustado ou caranguejos
camuflados.
Naquele sábado, estava há
algum tempo observando um pequeno cardume de sinhás-rosa, pequenos
peixes coloridos, encurralado em uma piscina natural de água salgada
pela repentina maré baixa. Perplexo e hipnotizado, tentava pela
sexta vez contar quantos peixes estavam ali, mas a evolução
desordenada e movimentação brusca dos animais o impediam
de chegar duas vezes a um mesmo resultado. Foi quando escutou gritos animados
vindos dos lados onde estavam seu pai, odii-chan e obaa-chan: odii-chan
estava vermelho, rosto contraído em um esforço aparentemente
sobre-humano na peleja contra o peixe na ponta de sua linha. Tomado pelo
entusiasmo crescente e curiosidade correu pelas rochas escorregadias
até se ver a dois passos de seu avô, que agora arfava radiante.
A agitação à flor dágua não permitia
ver o que estava preso no anzol, mas de uma coisa Bruno tinha certeza:
aquilo não era um peixe. Parecia uma calota esverdeada, um disco
coberto de limo, agitando-se nervosamente em busca da liberdade. O pai
de Bruno saltou para perto de odii-chan e, com um último e vigoroso
puxão, tiraram a criatura de seu habitat molhado.
Era uma tartaruga.
Verde, brilhando ao Sol, ela estava
ali, suspensa pela linha enroscada em seu casco limoso. De todos os animais
que já vira em sua breve vida, aquela tartaruga certamente era o
mais bonito, vistoso e imponente. Rapidamente seu Ari puxou-a para sobre
a superfície áspera da pedra em que os quatro se encontravam.
De perto, a criatura era ainda mais impressionante. Em primeiro lugar,
era enorme. Para Bruno, parecia do tamanho de uma mesa de cozinha, redonda
e regular. Parecia também extremamente forte, a cada estocada odii-chan
fazia um esforço excelso para manter-se equilibrado ao seu lado.
Com muito custo, conseguiram retirar o anzol encravado no casco duro e
desvencilhar o fio de náilon que percorria toda a extensão
de sua carapaça. Fora dágua, o réptil quelônio
movimentava-se freneticamente, a boca se abrindo e se fechando ininterruptamente.
Precipitavam-se para fora do encouraçado a cabeça, junto
ao longo pescoço, duas enormes nadadeiras parecem duas raquetes
de frescobol, né, obaa-chan as patas traseiras e um ínfimo
rabinho, que se agitava, este vagaroso, de um lado para o outro. Seus olhos
pareciam tristes e perdidos, escondidos atrás da pele umedecida
e enrugada. Bruno notara de imediato a consternação transparente
em seus olhos, mas a excitação da descoberta era maior. Muito
maior. Quem imaginaria que um dia teria uma tartaruga só para si?
Enquanto os adultos providenciavam
uma lona para forrar o porta-malas da belina, Bruno delirava com as possibilidades:
um aquário gigantesco, decorado com pedras azuis e verdes, ele alimentaria
a tartaruga todos os dias, seria o máximo. Pensava em nomes, dúzias
deles, mas decidiu que só resolveria de fato a alcunha do réptil
com sua irmã. O que será que come uma tartaruga? Teria que
descobrir, afinal, um tratador tem que saber desses detalhes. O final da
pescaria foi antecipado, como era de se esperar, e uma vez acomodada a
tartaruga, pegaram uma vez mais a Rio-Santos a caminho do Varandas. Para
Bruno, parecia que estavam voltando de outro país, tanto demorava
a viagem de volta. De quatro em quatro segundos conferia a tartaruga, não
queria que sua nova mascote morresse a caminho de casa. Quando finalmente
passaram pela guarita do condomínio, já não cabia
dentro de si: sua excitação se extravasava pelos gritos animados,
pelo suor insistente no nariz, pelos movimentos intermitentes de suas mãos.
Não se sabe o que aconteceu
primeiro, se o carro parou antes ou se Bruno desceu com o carro em movimento.
Mas a verdade é que antes mesmo de a mãe de Bruno aparecer
na porta, o menino já estava correndo pelo corredor berrando as
novidades:
É uma tartaruga! Odii-chan
pescou uma tartaruga! Elaétãolinda, deixaeuficarcomela, eucuido,
prometo! Ele pescou e a gente trouxe ela para casa, ela está no
porta-malas!
Ainda gritando, disparou para o interior
do apartamento em busca da irmã. Com muito cuidado, removeram a
tartaruga e colocaram-na em uma caixa com água do mar na varanda,
onde Bruno montou guarda durante o resto do dia. Todos estavam animados
com a novidade e já pensavam no que fariam com o réptil.
Era óbvio que não compartilhavam das intenções
de Bruno: ao invés de um aquário com pedras coloridas, o
destino da tartaruga provavelmente seria um caldeirão.
Enquanto obaa-chan enumerava receitas,
Bruno, alheio às conversas culinárias, notava e anotava cada
detalhe de sua recém-adquirida amiga. Dentro do aquário improvisado,
a tartaruga permanecia tranqüila. Passado o seqüestro-relâmpago
a que fora submetida brutalmente, havia se acalmado no sossego da varanda
do apartamento. A caixa era retangular, pouco espaço sobejava ao
réptil, que também pouco agitava suas nadadeiras em frustradas
tentativas de nadar pelo diminuto espaço. O Sol estava forte naquele
entardecer: o calor castigava o animal e Bruno tentava conter o ressecamento
do casco que sobrava por sobre a superfície dágua jogando
água fresca em intervalos curtos, alternando-se com sua irmã.
Enquanto um deles cuidava da tartaruga, o outro buscava a água na
cozinha, evitando o aquecimento sob a força do Sol. Na terceira
vez em que entrou com os pés molhados pela sala rumo à cozinha,
deixou-se distrair pela movimentação das mãos nodosas
de sua avó: veementemente, explicava para seu Ari o modo de abate
e preparo da carne de tartaruga, enfatizando essa ou aquela técnica,
exaltando a rapidez de uma, eficiência de outra.
Sopa de tartaruga. De súbito,
todo o arrebatamento e a exaltação que lhe foram companheiros
nas últimas horas escorreram pelo seu rosto vermelho de Sol e
de raiva, ódio pela atitude antropofágica de seus parentes,
imagine, fazer um banquete de minha amiga! liberando uma avalancha lacrimejante
e salgada. Soluços apertavam-lhe a garganta, mãos invisíveis
puxavam e repuxavam seu esôfago, sentia que seu coração
iria explodir em um grito único, sem eco, inaudível. Sopa
de tartaruga! Tartaruga assada! Picadinho de tartaruga! Buchada de tartaruga!
Tartaruga flambada, gelatina de tartaruga, tartaruga com nozes, pudim de
tartaruga, suflê de tartaruga, tartaruga ao forno com grãos-de-bico,
torta de tartaruga, quantas mortes deliciosas e cruéis não
delirou Bruno para sua amiga? O ódio incontrolável surtou
afinal através de um choro gritado, birrento, que ecoou infinitamente
pelos corredores da casa. Tomou de assalto obaa-chan, seu pai, a doutora,
Ives, a tartaruga e até seu avô, surdo por definição.
Jorrava pela boca miúda do menino uma confusão de frases
pouco claras, corrente abundante de coordenadas, subordinadas, sindéticas
ou assindéticas, orações que descreviam a crueldade
do homem, a perspectiva de extinção da tartaruga marinha
e desrespeito à vida. O discurso foi ininterrupto por cerca de seis
ou sete minutos, substituído posteriormente por um choro mais contido,
tristeza real.
E foram tão sinceros, tão
sentidos os pedidos das crianças que odii-chan foi categórico
em sua resolução: a tartaruga seria poupada. A despeito da
irritação e reclamações constantes de obaa-chan,
o avô de Bruno não arredou o pé da decisão.
Combinaram, então, que a tartaruga teria que voltar para o mar,
seu lar e morada. Bruno sentia-se radiante, vencera e salvara a amiga cascuda:
mas, por outro lado, não mais seria o orgulhoso dono daquela criatura
magnífica. Isso não o entristecia, o que doía um pouco
lá dentro não era a perda, mas as saudades daqueles olhos
tristes e soturnos. A euforia deu lugar a uma resignação
muda e serena, as lágrimas cessaram e o rosto outrora contraído
permanecia sorumbático, mas todos sabiam o quão contente
estava Bruno. Colocaram cuidadosamente a tartaruga de volta ao carro, e
a família rumou à praia mais próxima, a praia das
Toninhas.
O entardecer estava mais colorido
do que o usual. Cada tom alaranjado do céu parecia mais vivo, e
a água mais verde que nunca. Parecia que o oceano clamava seu direito
de ter aquele pedaço esverdeado e cascudo de volta, bradava silenciosamente
pela tartaruga que lhe fora furtada. Um a um, desceram do carro, sentindo
a areia mole abraçar seus pés. Foi tudo muito rápido:
a caixa sendo retirada com algum esforço, a tartaruga agitada e
Bruno acompanhando tudo com olhos muito interessados. Assim que sentiu
suas nadadeiras livres, em dois movimentos coordenados, a tartaruga sumiu
por entre a água rasa, transformando-se em um vulto redondo como
na primeira vez em que Bruno a viu. Ele acompanhou, desta vez com os olhos
secos, a trajetória imaginária da criatura, sonhando em um
dia vê-la novamente, mas foi interrompido por sua avó, que
reclamava do desperdício de tal iguaria.
À noite, na penumbra da sala,
não chorou, nem pensou em nada. Sabia que, ao dormir, sonharia com
a sensação indescritível de flutuar entre as ondas,
livre para ir onde quer que suas nadadeiras o levassem.
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