Sacarina & Cutelo
por Marcelo Damaso
madamaso@terra.com.br



- Eu fiz um poema pra você, sabia?
- Um poema? Sei...
- Juro, está lá em casa, chama-se “Sacarina & Amor”.
- Que nome...
- É seu.
- Ta bom, obrigada.
- Você não gostaria de saber como é?
- Não, e sabe por que?
- Porquê?
- Em toda a história da humanidade vários homens já se beneficiaram dessa, humn...digamos, lábia para conquistar mulheres e as levarem para cama.
- Que absurdo, porque você diz isso?
- É verdade! Oito em cada dez homens já comeram as mulheres que queriam só com essa conversa. Mas sabe de uma coisa? Admiro sua coragem, no final é a única coisa que merece respeito.
- Mas estou bêbado.
- Isso eu notei.
- Assim você está dificultando mais as coisas pra você. Assim eu posso demorar mais ainda pra largar do teu pé. Eu me apaixono por garotas assim.
- Se alguém está dificultando alguma coisa pra alguém, é você! Não adianta correr atrás de algo que não te pertencerá nunca.
- Você?
- Sim, eu.
- Esse seu “nunca” não foi suficientemente convincente. 
- Quer apostar?
- Quero!
- Aposta o que?
- O teu amor.
- Ai menino, vai, deixa de ser babaca, aposta alguma coisa concreta.
- ...
- ... o que foi?
- Nada é que...
- Ih, pronto! Além de previsível é sensívelzinho.
- É que eu... quer dizer, você... não. Ah, eu queria te matar sabia?
- É? Você me faria um favor.
- Você só pode ser um anjo.
- Pronto, agora me vem com essa frescura de simbolismo...
- Anjos que provocam tanto amor a ponto de querer exterminar a fé.
- Iiiih....
- Puta!
- ...
- Fala alguma coisa, sua puta!
- O que você quer heim? Quer que eu chame um segurança?
- Eu realmente fiz um poema pra você, Débora!!!
- Sabe meu nome?
- É claro, sua puta!
- ...
- Ah, agora está perplexa? Querendo saber como isso pode acontecer?
- Não, mas é que...
- Você acha que sempre pode sair por cima tentando afastar os caras com esse jeitinho não-me-toque, com esse ar de superior. Só puta é assim, Débora. Só puta!
- Vai parar de me xingar?
- Paro sim, se você quiser o poema que fiz pra você.
- Não quero nada! Não me enche o saco.
- É poesia, porra! Poesia ainda dá tempero à vida. Ainda tinge teu mundo preto e branco com alguma cor.
- Já é?
- O que?
- A tua poesia?
- Não. Eu sou um poeta mesmo! Há poesia em tudo.
- Vamos fazer assim: eu vou lá para o estacionamento. Você pega um punhal que tenho guardado em meu carro e me mata, ok? Eu sei que você pode fazer isso. Só um cara que acredita em poesia e anjos teria culhão de me enfiar uma lâmina no bucho. E não diga que você não mataria nem um passarinho, pois eu sei que mataria. Poetas que acreditam em anjo não sobrevivem ao vôo de um passarinho. E pra você saber meu nome, é porque me conhece. Agora, por favor, faz o que estou te pedindo. Se confiei esse pedido a você, acredite, você merece. Você vai ter o que ninguém poderia ter agora de mim. Você poderia ter muito mais que meu amor. Estou te dando a minha vida...
- ...
- ...
- Ta, em três minutos apareço lá no estacionamento.
- Tudo bem, estou indo.



3º minuto:

- Táqui ó. Segura esse punhal. Depois que você acabar, por favor, leve-o com você. 
- Tudo bem, eu levo comigo.
- Eu quero três apunhaladas certeiras em meu apêndice. Por favor, seja vitorioso ao menos uma vez na sua vida.
- Sua putaaaaaaaaaa!!!



3ª apunhalada:

 - Puta! Débora, sua puta! Esse punhal era meu...
 
 

FIM