Sacanagem
por
Juliano Costa
Tom Hanks já quis ser grande
e se arrependeu. Acho que eu também me arrependeria. Gosto de ter
15 anos. Tá certo que eu não tenho permissão pra dirigir,
não tenho cartão de crédito “sem limites”, e, tecnicamente,
não posso nem comprar uma cerveja ou ver um filminho de sacanagem.
Mas tenho um amigo mais velho que já tem carro, ganho uma mesada
razoável, “encho a lata” regularmente e (que legal!) acho que vou
fazer minha primeira sacanagem hoje à noite. (além disso,
eu ainda ganho presente das minhas tias no Natal. Quase nunca é
exatamente o que eu quero, mas às vezes elas me dão coisas
legais, como no ano passado, quando a tia Antonieta me deu um aparelho
de telefone em forma de bola de futebol. Da hora!).
Bom, onde eu tava mesmo? Ah, é!
O lance da sacanagem. Resumindo, a história é a seguinte:
os pais do Alan, um amigo meu, vão viajar e ele vai ficar sozinho
em casa. A namorada dele, a Marina, é uma piranha e (que legal!)
tem uma prima (supostamente tão piranha quanto ela). O Alan convidou
as duas pra “assistir um vídeo e tal” e (que legal!) também
me chamou (pra completar o 2 a 2, claro!). Ele disse que falou de mim pra
elas e que a tal prima piranha, que também se chama Marina, tá
bem “animadinha”. E agora eu tô aqui, esperando os pais do Alan saírem
logo (da minha janela, vejo a garagem deles) para eu poder ir pra lá.
Minhas unhas já foram roídas.
Já tomei uns 3 banhos pra “me esfriar”. Bati umas 7 ou 8 punhetas
pra relaxar e “dar sorte”, mas, sei lá. Ainda suo e tenho calafrios.
E olha que estou assim há apenas uns 40 minutos, que foi quando
o Alan me ligou e contou a história toda. Será que isso é
normal? Será que todos os caras se sentem assim antes do primeiro
encontro “mais quente”? Será que eu não vou parar de socar
o palhacinho assistindo S.O.S. Malibu?
Com tantas perguntas, natural que
meu cérebro se canse. Durmo umas 2 horas. Acordo e olho pela janela
– os pais do Alan já foram. Tomo mais um banho. Dessa vez, sem punheta,
só “masturbação mental” mesmo. Gosto de ficar imaginando
diálogos. Reproduzo-os na minha cabeça com a mesma facilidade
que os vejo indo por água abaixo quando tento usá-los nas
situações que havia imaginado para eles. É imbecil,
mas eu gosto.
Engraçado como me preocupo
com a roupa que vou vestir. Nunca vi a mina, mas sei que só na vou
beijá-la (e “algo mais”) se eu for muito trouxa ou se ela for muito
feia (mas muito feia mesmo, dessas que a gente só vê em histórias
em quadrinhos ou filmes de terror trash). Encano com o que “vou parecer”
pra ela. Mas acho que com isso todo mundo encana, né? Uma bermuda
me deixa “muito garotão”. Uma calça me deixa “muito sério”.
Visto então uma calça bem larga e me animo, como se eu tivesse
encontrado uma terceira opção em algo que só permitia
previamente duas alternativas. E é com esse “espírito vencedor”
que coloco uma camiseta bacana, jogo um perfuminho maneiro e saio pra casa
do Alan. “Sou um cara legal que finalmente vai perder o cabaço”,
me vanglorio.
No caminho, retomo as falas do diálogo
que havia imaginado no chuveiro:
Eu: _ Hey, beibe!
Ela: _ Oi, tigrão!
Eu: _ Vamos fazer meia-nove em pé?
Ela: _ Só se for agora!
Oops! Na verdade não era bem
esse o diálogo que eu tinha imaginado no chuveiro. Aliás,
era sim, mas não o que eu queria retratar para vocês (esse
de cima eu imaginei no banho anterior, sabe?). O diálogo que eu
quero passar pra vocês é esse:
Eu (com a cara do Mel Gibson xavecando):
_ Oi. Tudo bom?
Ela: _ Tudo. E você?
Eu: _ Melhor agora.
Ela: _ Ah, que gracinha...
Eu: _ Imagina! São seus olhos...
Ela: _ ...Que fizeram com que eu
me apaixonasse por você assim que eu os pus sobre seu rosto e seu
corpo.
Eu: _ Meus pais foram legais comigo.
Ela: _ Tô vendo. (nesse momento,
a gente se beija e é feliz pro resto da eternidade, digo, até
às 2 horas, que é quando eu tenho que estar de volta ao Q.G.
e fazer a reapresentação ao Sargento Meu Pai).
Diálogo repassado, chego confiante
na casa do Alan. Elas já estão lá – dá pra
ouvir. O Alan abre a porta com um sorriso e um aviso encorajador: “Meu,
elas tão sem calcinha, eu sei, eu sei!”. “Puts! Então é
melhor eu ir embora. Tô com medo! Manhêêê!!!”,
penso, mas não digo, claro.
Elas estão no banheiro (elas
sempre vão juntas, né? Sempre! Sempre!!!). O vídeo
escolhido foi O Sexto Sentido. “As minas vão sentir medinho e pular
nos nossos braços”, prevê o Alan. Mas ele não parece
estar com pressa pra começar a passar o vídeo. Aliás,
nem eu. Pra falar a verdade, eu sei lá o que eu quero nesse momento.
Não me sinto à vontade. Acho que quero ir pra casa, assistir
ao Sexytime e dormir. Ou não. Sei lá.
Finalmente elas saem do banheiro.
A Marina, do Alan, é bonita e tem cara realmente de quem não
curte muito usar calcinha. A Marina, a “minha”, é mais bonita ainda,
pois se parece com a Marina, a do Alan, mas sem o ar de lambisgóia,
perversa e rasgadeira da prima. Para o curioso leitor, eu “as” descrevo:
1,65m, cabelos castanhos na altura do queixo, olhos verdes e sardas, muitas
sardas. Se elas não tivessem o mesmo nome e o Alan já não
tivesse me dito que são primas, juraria que eram irmãs quase,
quase, quase gêmeas.
Elas nos vêem, nós as
vemos. Elas sorriem, nós sorrimos. Elas andam em nossa direção,
nós as esperamos, parados, como estátuas – minto: eu tava
tremendo, e estátuas, a não ser em terremotos, não
tremem (acho que o Alan não tava tremendo não. Ele não
é virgem. Pelo menos foi o que ele me disse). A Marina, do Alan,
vai até ele e o puxa pelo braço. Vão pra cozinha.
Já a Marina, a minha, vem até mim. Ela olha nos meus olhos
e eu, obviamente, desvio o olhar. Tenho medo, tento disfarçá-lo,
mas sei que não estou conseguindo. “Vou usar o diálogo. Tem
que dar certo!”, quase raciocino.
Aí vem ela:
Ela: _ Oi. Tudo bom?
Eu (com a cara do Chevy Chase se
atrapalhando): _ Dãh...dá...dã....Tu-tudo. E vo-você?
Ela: _ Ih, pior agora.
Eu: _ Ah, que cha-chato...
Ela: _ Imagina! Chato é...
Eu: _ ...eu, que tô ga-ga-gaguejando
e te irritando, né?
Ela: _ Seus pais foram cruéis
com você.
Eu: _ Tô vendo. (nesse momento,
ela se afasta, senta no sofá, acende um cigarro e pensa alto: “Cada
um que me aparece...tsc! tsc!”).
E eu? Bem, não sei. Corro
pra casa, pego uma coca na geladeira e passo a noite jogando Fifa 2000
no Nintendo. Na verdade, quando é uma meia-noite mais ou menos,
eu desligo o videogame. Vai passar o Sexytime. Mas depois eu volto a jogar. |