Parklife (Novela diária on-line)
www.parklife.cjb.net
São dois os personagens: Isabela Goulart e Mirela Fiorenzatti.
Duas amigas que usam blusinhas listradas multicores e acreditam em propaganda de cigarro. Que vivem no mundo pop da popslândia e se embriagam de vinho tinto chinelo, tomando chuva. Os episódios são diários just like life should go on. Must go.
And so it happens. Em português, claro.
Mirela Fiorenzatti
Episódio 51 - 01 de fevereiro de 2001
"Feniletilamina" *
Pela primeira vez em muito tempo não liguei o computador assim que terminei de escovar os dentes. Peguei meu Alain de Botton e voltei pra cama. Eram quatro e meia da manhã. Botton contava que o filósofo Cioran escreveu uma vez sobre a impossibilidade de uma pessoa estar verdadeiramente interessada em outra por mais de um quarto de hora. E que até mesmo Freud disse a um entrevistador no fim de sua vida que ele não tinha nada do que se queixar: - Vivi mais de setenta anos. Tive o suficiente para comer. Tive prazer em muitas coisas. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso pedir? Uma ou duas vezes, escreveu Botton, que soma solitária. Liguei o computador pensando na possibilidade de uma pessoa estar verdadeiramente interessada em outra por mais de um quarto de hora, mas a resposta me diz que eu sou doente porque leio o início e o final de um livro antes de comprá-lo e porque gosto de saber e contar o final dos filmes para as pessoas. Nunca alguém me chamou de doente da forma como o Milan me chamou. Diz ele que é a forma meiga de chamar "louco", mas o doente ficou ecoando. Acho que muito mais porque me fez rir do que pela intensidade e grau da palavra. Há possibilidades de uma pessoa estar verdadeiramente interessada por outra mais de um quarto de hora. Eu comprovo. Choveu novamente de manhã. A Luna até me envia um e-mail simpático pra dizer que hoje era a quinta mais sexta do mundo. E eu queria ter pra quem agradecer os dias que nascem assim. Mas o fato é que eu apenas fecho a janela do quarto e vou me encontrar com o Gomes. Estranho,... deveria ter acreditado na Mariana quando ela dizia que já sabia que o Gomes iria gostar da página. Que era simplesmente impossível pensar que eu fizesse alguma coisa que não estivesse no mínimo - pop. Deveria mesmo... porque ver o Gomes quietinho namorando o meu trabalho fez eu crer novamente num futuro "promissor". Mas futuro promissor mesmo é o do Eduardo que me liga no meio da reunião com o Gomes pra contar que realmente está indo embora de Porto Alegre. Engoli feio a saliva e olhei pro céu pra evitar que já começasse a chorar. Tudo bem,... sem egoísmos.... a mudança vai ser ótima pra ele, e continuaremos os mesmos amigos de sempre. Tenho que acreditar.... já estou. (ao menos agora o Eduardo vai poder fazer companhia para o Lucas). A Liz estava saindo de férias hoje então eu fui com ela ao shopping maleta para namorar livros novamente. Esqueci de Botton, porque Botton não escreve sobre derradeiras histórias de amor e universos paralelos. E sim,... há sempre uma estante que acolhe Salman Rushdie numa livraria... apesar de nem sempre manterem os livros bem limpos. E eu não estou gostando muito dessa idéia de me encontrar com muita freqüência em shoppings, mesmo assim encaro aquele que mais detesto, subo escadas rolantes que sempre me deixam tonta e encontro o Milan sentado num banquinho. Mais tarde, já em casa, a Isabela me culpa de revelações bombásticas mais uma vez. Não tenho culpa... preciso sair absolvida dessa. Não tenho culpa,... ele chora quando ri, ele cheira bem, ele detesta calor, ele gosta de crianças quietinhas no cinema, ele guarda ticket de cinema, ele gostaria de ter um relógio com compartimento para chiclete, ele imita final de galinha feliz, ele gosta de gemada, ele lembra de leite gelado, ele reclama grande parte do tempo, finge ser preguiçoso e estranha tudo como eu, porque ambos estávamos constrangidos. Falar com a Bel me fez esquecer minhas vistas embaçadas desde a saída do cinema. A Fuga das Galinhas meio que interagiu com a fuga da minha visão e como eu não encontro meus óculos há dias, não há muito o que se fazer. Tento dormir às nove da noite mais meu pai é um senhor meigo que recorda o quanto a filha gosta de vinho. Me traz minha caneca básica e preta com vinho tinto - gelado, e eu não me arrependo de tê-lo seguido de volta até a sala de televisão. Penúltimo capítulo de novela sempre foi o melhor, dona Maria de Lourdes sempre disse isso. Só não sei quantos capítulos a minha novela imortal vai durar. Tenho medo da imortalidade embora ela tenha o sorriso mais lindo do mundo e acredite que o problema é que não se apaixonará por uma garota legal. E quanto aos beijos selvagens eu não sei... ele gosta de pele virgem, talvez até de uma menina morena porque o bronzeado é natural... e eu não sou nem virgem, nem morena, nem legal, nem mau... sou uma menina chata. Tenho que ficar descrente pra ver se não me machuco mais tarde,... mas eu gostaria de assistir Múmia II com ele, mesmo que tivesse pesadelos à noite ...
 
* A perturbação emocional (distúrbios de concentração, relações invasoras, hipersensibilidade, exaltação, estados de ansiedade) começa numa pequena molécula chamada feniletilamina (FEA), localizada nas terminações de algumas células nervosas e que ajuda nas transmissões de um neurônio para outro. É uma anfetamina que se acumula no sistema límbico, o centro emocional do cérebro. O sentimento de amor pode ser resultado da produção excessiva de FEA e de outros estimulantes naturais que saturam o cérebro, transformando e alterando a realidade.

Episódio 49 – 28 de janeiro de 2001
"I heard it trough the grapevine"