Nagaiki
de Bruno Honda
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O sol estava alto. O ar, úmido e pesado, doía em cada uma das narinas. Inspiração, respiração. O vento, pela janela aberta, penetrava pelo carro como um pálido sopro, mau hálito infernal e molhado da cidade. 

Ubatuba. Não mais que cinqüenta mil caiçaras, 90 praias, falta de água nos feriados e nenhum semáforo. Uma das cidades mais bonitas do litoral paulista, pequeno aglomerado de pessoas de março a setembro, insuportável concentração de paulistanos e taubateanos entre outubro e fevereiro. De um lado, o Atlântico: litoral recortado como poucas cidades, areia da grossa, areia da fina, praias com ondas, praias sem nenhuma, pesca, mergulho, água verde, água azul, baías, mar aberto, lanchas, veleiros, caiaques e pesqueiros; gente, muita gente, pouca gente, gente rica, gente pobre, derriéres perfeitos, barrigas redondas, celulites, silicone, isopores ou quiosques, cerpa, miller, coca, cocaína, maconha e tubaína. Do outro, 23 minutos de ouvidos tapados. Serra íngreme, alta e branca, em um nevoeiro que não escolhe dia, não respeita sol nem verão. Por entre as samambaias, sinuosa e sistemática, uma estrada. Estrada estreita, cada curva um pequeno desafio para carros populares. Kas, Corsas, Unos, Palios, Gols, Fiestas em primeira/segunda/primeira. De Escort para cima, segunda/terceira/segunda. Sempre no mesmo monótono ritmo regido pela potência de cada motor. Apesar de uma centena de anos com o mesmo traçado, em sua periculosidade de mão dupla, ainda persiste como o melhor caminho: para ir para Ubatuba, pegue a serrinha. Ignore as histórias. Que taubateano não tem um amigo, irmão, conhecido que nunca perdeu os freios na descida, o radiador na subida ou a vida em uma curva? 

No litoral norte de São Paulo, melhor cidade não há. Terceiro maior índice pluviométrico do país e palco de infinitos finais de semana, réveillons, carnavais e verões, Ubatuba, Ubachuva de pancadas ocasionais, de garoa fina e persistente, cidade com gosto de sal marinho e infância. Pelo menos para Bruno, 22, sansei, ou nissei, nanico, naturalmente neurótico e, acima de tudo, normal. Afinal, Ubatuba sempre foi o lar de seus avós.

Depois de hora e meia de estrada, o jeans bolinando seu joelho suado, e o rosto feito chão do Pantanal, aquele restaurante na Sumaré, que faz uma picanha soberba, mas que tem o piso engordurado, a serra finalmente acabava. O frescor ficava para trás com o mau cheiro de borracha queimada de freio, substituído de súbito pela solidez do calor litorâneo. Dessa vez, viera sozinho. Enquanto apertava os olhos para enxergar os obstáculos sem sinalização, maldito sol, Vivaldi falava, com algo de divino, algo de malicioso, sobre a primavera, revezando-se ora com Beatles, ora com Duke Ellington. A ciclovia fervilhava nativos, uma brasília azul batera em um portão, mas Bruno não prestava atenção: não estava ali, estava três quilômetros à frente, sobrevoando e sendo sobrevoado por lembranças antigas, passagens quase esquecidas de sua memória, outros tempos, mas sempre um mesmo rosto. Odii-chan.

A casa era grande. Cinco quartos, varandas, duas salas, gramado no quintal. Piso frio, "É o melhor piso para o litoral, fácil de limpar e gelado", janelas grandes na sala, cozinha ampla, e um pé-direito daqueles antigos, onde sua alma podia respirar sossegada. O apartamento de São Paulo, espaçoso por definição, era claustrofóbico perto do sobrado da rua Coronel Domiciano. Não era de frente para praia, tampouco ficava em um rico condomínio: era no centro, rua de paralelepípedo, tinha duas palmeiras em frente, que ornavam perfeitamente com a calçada esburacada. Na garagem, cabiam três carros, espaço sobrava para o Fiesta, único automóvel da casa. A um quarteirão, ficava o mercado de peixe, onde os pescadores vendiam, ora a preço de ouro, ora a preço de banana, sua mercadoria molhada, fruto suado do mar e presente de Iemanjá. À noite, toda a turistada farfalhando pela avenida, uns bebendo, outros falando, o mesmo farol pigmeu que iluminava a pescaria proibida dos forasteiros também guiava os pesqueiros que vinham da noite e do mar de volta ao cais. Vinham primeiro pela praia do Cruzeiro ­ praia de tombo, areia empedrada e, de acordo com a placa, não aconselhável para banhistas ­ passavam por debaixo da ponte do Perequê até repousarem, cansados, atrás do mercado. Certamente, não era o lugar mais badalado de Ubatuba, mas a rua Coronel Domiciano era perfeita para a família Honda. Para um casal idoso, nada melhor que supermercado, farmácia, hospital e banco próximos de casa.

Tosio, D. Helena, Harumi e Marcos. Todos Honda. Para Bruno, avô, avó, tia e primo, respectivamente, o pessoal de Ubatuba. Odii-chan e obaa-chan foram os primeiros. Moram na cidade já tem vinte anos, primeiro no Varandas de Ubatuba, ótimo apartamento, bela piscina, vista maravilhosa, longe de tudo. Depois, o sobrado. Obaa-chan, ou D. Helena, faladeira, reclamona e, para Bruno, sinônimo de amor, mimos e mimos, e de um bolinho viracambota como nenhum outro. Obaa-chan é engraçada: simplesmente não envelhece. Desde que Bruno se lembra, tem a mesma cara. Na verdade, depois de uma certa idade, o ser humano não muda muito mais. Assim como sua avó, parece que pessoas idosas só envelhecem até certa idade: os cabelos caem ou embranquecem subitamente, as rugas no rosto aparecem. O corpo se curva para frente, e pequenos como no começo, ficamos no final. O que muda, de pessoa para pessoa é a idade em que o envelhecimento acontece. Para obaa-chan, foi aos sessenta. E com setenta e seis anos, continua com os mesmos cabelos negros e os mesmos sulcos de dezessete anos atrás, suadas marcas pelo rosto cansado e sereno. "Não é que eu seja chata. Só quero as coisas sempre do meu jeito. Lugar de lavar pano de prato é na pia. Enxugue o pé no box do banho antes de pisar na toalhinha, senão encharca tudo.". Era essa a D. Helena, avó japonesa e caiçara, excelente mão para cozinha e costura, sorriso fácil no rosto e pescadora rabuda, como dizia sempre o pai de Bruno, seu Ari. Já sua tia, Harumi, mora em Ubatuba há nove anos. Mudou-se de São Paulo quando se descobriu grávida de Marcos, seu primeiro e único filho. Divorciada, e mãe solteira por ocasião, voltou para a casa dos pais para tentar vida nova. Professora de Química e Física, é a caçula dos filhos de Tosio e Helena; passou em um concurso estadual e hoje divide-se entre fórmulas, tabela periódica e processos no Fórum ubatubano. Marcos, ou simplesmente Maru, pequeno caiçara e tesouro maior dos Honda, cresce sem um pai de sangue, inteligente e preguiçoso, mimado e obediente. O pai que nunca lhe apareceu, falta não faz: tem em seu tio Minoru o pai privado pela distância e circunstância. Minoru mora em Salvador, mas as visitas trimestrais acumulam tanto paterno e sincero amor que algumas centenas de quilômetros em nada interferem. 

Tosio, ou odii-chan, avô materno e único avô de Bruno, é japonês autêntico: viera do Japão nos anos vinte, com dezessete anos de idade. Família numerosa, vida dura e nenhuma perspectiva: condição imutável que empurrou odii-chan e milhares de outros jovens imigrantes para a metade ocidental do globo. Não que à esquerda de Greenwich fosse fácil. Lavoura, calor intenso e exploração, dinheiro difícil, língua difícil, vida difícil. Odii-chan só não voltara para sua terra além-mar por não conseguir juntar nem o dinheiro da passagem, aérea e dispendiosa. Foi ficando, trabalhando, calejando, vivendo. Casando-se, tendo filhos, sustentando, sorrindo às vezes, outras chorando, construindo. Quatro filhos, algumas mágoas, dinheiro contado, o tempo que passa, passou e odii-chan nunca aprendeu a falar português.

Por quê, se perguntava Bruno, praguejando contra o balanço da rua de paralelepípedos,  odii-chan nunca aprendeu português? Se seu avô tivesse um dia aprendido, o aperto que sentia, a sensação de estrangulamento intenso, de asma, a bronquite cardíaca certamente seria menor. Não deixaria de existir e apertar, isso não, mas seria bem menor. Ao menos, poderia falar com seu avô, lembrá-lo do quanto foi importante outrora, suas visitas semanais, o respeito distante e o amor calado. Do quanto ainda é importante. Odii-chan tivera um derrame. Um princípio, apenas, uma AVC menor, uma certa falta de oxigenação em algumas partes do cérebro. Nada fatal. Ainda. Mas suficiente para alertar. Alertar Bruno de que não existem constantes. Que logo, descer a serra não mais significará encontrar odii-chan sentado em sua cadeira furada, de olhos fechados, rindo de um mundo passado. Ou melhor, alertar que existem, sim, duas constantes: o tempo, implacável, tiquetaqueando seus segundos, sessenta por minuto, três mil e seiscentos por hora, oitenta e seis mil e quatrocentos por dia; e a morte, irmã e amante do tempo, contando cada um dos segundos, espreitando sempre. Morte, morrer, perecer, falecer. Nascer, crescer, reproduzir, morrer.

Duas buzinadas, movimento contumaz ao se chegar no sobrado. O sol, maldito sol, esquentava a lataria vermelha que refratava todo o calor para o interior do carro, os assentos molhados de suor intermitente. Como sempre, portão trancado e porta aberta, ninguém vai abrir para mim?, esperava Bruno impaciente. Mais duas buzinadas. Ninguém. Em geral, obaa-chan ficava na cozinha, Marcos no Nintendo e tia Harumi no quarto. Nunca ninguém escutava as buzinadas. A campainha, a campainha era alta e ensurdecedora, até odii-chan, que há tempos sofria de surdez parcial ­ que mais parecia audição seletiva ­ ouvia. Dito e feito. Pela porta verde, de fechadura de ponta-cabeça, aparecia o rosto redondo e risonho de D. Helena, desculpe, não escutei a buzina, estava na cozinha. As mãos, enrugadas, abriram com destreza o cadeado do portão, e Bruno precipitou-se para a garagem, por entre as plantas de obaa-chan. A essa altura, Marcos já chegava correndo para dar um oi, rindo e fazendo traquinagens em torno dos dois.

- E odii-chan? ­ perguntou Bruno, ansioso ­ Como ele está? Melhor?

A resposta Bruno já sabia, era a resposta de sempre. Está bem, melhorou, piorou um pouco ontem, ou anteontem, mas está melhor, é a idade. Respostas prontas, que refletiam a preocupação crescente e a tentativa de minimizar o que estava iminente. Odii-chan estava bem velho, e frágil. E não sentia mais vontade de viver, dizia. "Sonhos não são nada. Mas são tudo para quem está vivendo. Sem sonhos, sem sonhar e almejar, os dias ficam muito longos". Desde o dia do derrame, entrara em uma depressão profunda, infeliz e inevitável reflexo da proximidade do fim da vida. Tosio Honda dormia o dia inteiro, mas já não sonhava mais.

Dias longos, vida curta. Quem nunca escutou uma música, jingle, viu uma propaganda aclamando a brevidade da vida? Comerciais de cigarro às dezenas, bebidas alcoólicas às centenas, refrigerantes, calças jeans, até chocolates. Toda a cultura ocidental aprendeu a querer fazer tudo rapidamente, acreditando ser a vida um flash. A vida não é curta.

A vida é longa demais. 

À medida que o tempo escorre, vagaroso, insinuando-se amargo por entre nossos orifícios, tentamo-nos convencer de que sua velocidade é alta; desesperados, queremos crer, e cremos, idiotas e humanos, que o tempo é realmente um raio, trem-bala impiedoso, atirando dias, anos, vidas pelos trilhos, a paisagem borrada pelas janelas trêmulas e transparentes. Quando, em verdade, a vida descarrila em nossas próprias mãos, incapazes de conduzi-la em baixa velocidade, e a paisagem borrada é causa direta e inconseqüente de nossa própria miopia, estrabismo sem cura e rotineiro, cegueira do dia-a-dia, catarata intermitente de conceitos pré-concebidos que lançam ladeira abaixo o estranhamento, a capacidade de descobrir e deslumbrar-nos. Com o tempo o impressionante se transforma no banal, e o costume e a rotina minam pouco a pouco a surpresa e a beleza do não-usual. O raciocínio é simples, talvez simplista: o uso contínuo customiza os atos, e acostumados, perdemos o interesse. Quando o automático entra em cena, o humano se esconde.

Se nunca tivéssemos visto o brilho do sol, nunca tivéssemos sentido seu calor morno, seu toque suave e grosseiro, um amanhecer seria provavelmente um orgasmo. Primeiro, um prazer surdo e crescente, visão do céu clareando, o medo inicial, de quem nunca viu nada senão a escuridão noturna e o brilho tímido da lua. Deslumbrados, ficaríamos mudos diante da imensidão do alvorecer diante de nossos olhos. A silhueta das pessoas aparecendo, a claridade invadindo gradativa e agradável, e então o sol. De olhos semicerrados, o desespero misturar-se-ia com a euforia, euforia desesperada de aproveitar o calor bom, rezando em nosso íntimo para que aquela enorme fogueira celeste durasse para sempre. O êxtase tomaria nosso corpo e só pensaríamos na beleza daquela estrela, sonhos povoariam nossas mentes: abraçar-nos-íamos às pessoas certas, lembrando durante semanas o dia em que vimos o sol pela primeira vez. 

Primeira vez. Todos nos lembramos das primeiras vezes. Primeiro beijo, primeiro dia de trabalho na primeira empresa. Quem não se lembra dos cuidados exacerbados com o primeiro carro? E o primeiro filho, quantas fotos, brinquedos, sensações novas? O ser humano tende a se acostumar gradativamente com fenômenos repetidos. No decorrer da vida, dos nossos sessenta e cinco anos em média, a rotina devora de modo firme e constante nossa curiosidade. Por que o sentido da vida se dilui à medida que o tempo passa? Por que não sentimos o amanhecer orgástico? Porque, simplesmente, o amanhecer é comum. Na velocidade da constante busca por experiências novas, o homem se acostuma a viver. Diferentemente de quando somos crianças, acostumamo-nos com o mundo a nossa volta. De um mundo colorido, vibrante, pulsante, paradoxal, passamos para a banalidade do lugar-comum. Da pessoa-comum. Da vida-comum.

O interior da casa estava agradável, o frescor das samambaias e rendas-portuguesas propagava-se pela sala, contornando o sofá e vencendo a umidade quente da rua. Odii-chan estava na cozinha, sentado. Olhos fixos no copo de chá, a mão levemente trêmula, rosto abatido pelo desânimos das últimas semanas. Ao olhar Bruno, que entrava estabanado, tropeçando nos bancos, sorriu, reconhecendo seu neto mais velho. Um aperto de mão, abraço e beijo. Ali, mudo em frente a tantos anos de silêncio, Bruno entendeu: Odii-chan não queria morrer. Lutava desesperadamente para manter a sanidade, a lembrança do homem que ergueu sua família em uma falsa terra prometida. Mas estava tranqüilo, a expressão serena em seu rosto era clara: não tinha medo de morrer. A vida que se aproximava do fim deixaria saudades, obviamente, mas fizera um bom trabalho. O homem que um dia se acostumara com a vida agora tinha que se acostumar com a morte. E Bruno, vertente jovem da família, também. Não com a sua própria ainda, mas com a saudade que ainda iria doer muito, o arrependimento por nunca ter aprendido falar japonês, a cadeira vazia em Ubatuba. 

Bruno sabia que um dia odii-chan flutuaria por sobre seu corpo e deixaria todos para trás. Não desejava que esse dia chegasse logo, mas que diabos, olhando nos olhos de seu avô descobrira que se um dia viver como ele viveu, enfrentaria o morrer com a mesma dignidade.