Meu
primeiro Gradiente
de
Paulo Marinho
Saiu correndo na hora do almoço.
Não podia perder aquele emprego. Jamais. Não pelo dinheiro,
mas pelo bairro. Adorava. Perto de tudo. Do metrô, de Ipanema, do
Flamengo. Principalmente da casa de Hélio.
Cumprimentou o porteiro do prédio.
Antes ficava nervosa com isso , mas agora já se acostumara a freqüentar
o prédio. Abriu e fechou a porta pantográfica com pressa.
Só tinha uma hora e meia de almoço. Sorte que seu trabalho
era a duas quadras dali.
Terceiro. Desceu. Também adorava
aquele elevador. Quantas lembranças dele... Andou pelo corredor
varrendo sua bolsa atrás da chave. Lá no fundo, ao lado de
fotos rasgadas. Tocou a campainha só para prevenir. Ninguém
respondeu, então entrou. O cachorro dele veio pular em cima dela.
Brincou um pouco com o pequeno beagle e foi para o estúdio de seu
ex-namorado.
A parede toda era decorada de cds,
lps e até instrumentos. No meio, uma bateria e os amplificadores.
Na mesa de som, um sistema de áudio de fazer qualquer festa. Prestou
atenção em como estava (dês)arrumado o lugar e pegou
um dos lps pendurados. Este era especial mesmo. O vinil do último
do Nirvana, In Útero. Colocou no toca discos, que imitava um gramofone,
e foi direto para a faixa Heart Shaped Box.
Deitou-se no chão sujo de gimbas
de cigarro, com o ouvido esquerdo bem próximo da caixa sonora. Fechou
bem os olhos e ficou lembrando de quando se conheceram, no Hollywood Rock,
na fila da cerveja, enquanto tocava esta música. Se ela tivesse
que escolher uma trilha sonora para um momento como aquele , seria esta,
sem dúvida. Alisou o carpete como alisou as costas dele naquela
noite. Revoltou-se ao lembrar que toca discos não tem função
de repetir a faixa. Lembrou de onde estava e resolveu colocar outro disco.
Pegou o último do Radiohead,
e foi para You and Whose Army?. A música era bem triste, ajudava-a
a voltar a realidade. O cachorro chegara perto dela e sentara-se perto
da vitrola, também apreciando a música. Era impossível
não ter aprendido isso, após dias e dias escutando seu dono
tocar ou ouvir músicas. Desde bebê, ele fora educado assim.
O Coelho bebê... ela lembrava....
Pegou o vinil dos Saltimbancos Trapalhões,
que ela dera a ele em seu aniversário de trinta anos. Começou
a pular e correr de um lado para outro, sendo seguida pelo cachorro. Uma
pirueta, duas piruetas. Correu pela casa, chorando de tanto rir do cachorro.
Foi pela cozinha, pela sala, e o cachorro vibrando por brincar com sua
"mãe"...
Pelo quarto. Havia uma foto do Hélio
com outra na mesa de cabeceira. Já faziam.... cinco meses? Ele a
trocara por ela, filho da puta. Pegou sua bolsa e ia bater na foto até
que se lembrou... sua coleção de músicas. Não,
isso ela não podia perder. Ele, tudo bem, mas os álbuns...
os instrumentos. Jurava que mais um mês de almoços por ali
e já saberia tocar todo o OK Computer. Nada que um pouco de inteligência
e um livro de tablaturas não fizesse.
Colocou tudo de volta no lugar, exceto
o Radiohead. Sentou-se no chão, tirou a guitarra de sua maleta e
ficou ali, tentando tocar. As letras podiam até não falar
nada, mas para ela falava. Ficou uma meia hora ali, até aprender
a tocar mais uma música.
Arrumou tudo exatamente como estava
antes de chegar. Agachou-se, brincou com seu bebê um pouco e foi
para o elevador. Enquanto esperava o elevador, pensou se devolvia a chave.
Olhou a foto rasgada que ainda não tirara da bolsa. Ela era tão
cinematográfica que fizera um corte exato entre eles. Lembrou de
toda a coleção, de tantos compositores esperando para serem
devorados, e entrou no elevador, jogando a foto pelo espaço entre
o elevador e o fosso. “Quando saísse daquele emprego e o bebê
crescesse, eu devolvo”, pensou. Como todo dia. |