Conto politicamente correto
de Maria Fernanda Baigur
mariafernanda59@hotmail.com

É foda. 

Essa e a definição perfeita: Foda. 

Depois de uma noite que começou com cerveja gelada, cigarrinho de bali e Moby, lá pelas tantas você esta bebendo um drink verde de sei lá o que, fumando mata rato e suando ao som de um funk rebolativo. Voltou no carro com mais quatro amigas bêbadas cantando um forro da Elba Ramalho. 

Não faz a menor idéia de como chegou até a cama sem pisar no cachorro. E acordou. Domingo no Rio, meio dia, sol bombando e você de ressaca... foooda. 

Saiu puta da vida, cheia de má vontade para passear com o cachorro. Depois de um quarteirão vê seu reflexo no vidro da loja fechada. Que merda. Aquela gente bronzeada, bem disposta, com cara de quem acabou de tomar um açaí com granola e você com essa cara de ontem, moletom, chinelo e um saco de super mercado na mão para pegar a merda do cachorro. 

Você pensa: que merda de vida essa que eu tô levando. O cachorro já mijou três vezes, nisso já se passaram trinta minutos e cagar que é bom, nada. Já que vai ter que andar mesmo, aproveita para se fazer um agrado, para na padaria e compra 200g de pão de queijo. Enquanto devora ferozmente aquele pão de queijo meia bomba se toca que o cachorro está te levando, todo serelepe, a caminho do Arpoador. Cachorro filho da puta. Adora cagar no mar.

Uma e meia da tarde, o Arpoador tá parecendo o rio Gandhi. E você com essa cara de night, depois de se esgueirar por famílias sem fim resolve finalmente soltar o cachorro pra cagar em paz na praia do Diabo.

Senta na beirada do calçadão, tira o moletom e resmunga por não estar de biquíni. Vai ficar com aquela marca ridícula dos óculos. Foda-se! 

Come o ultimo pão de queijo duro e acende um cigarrinho de bali. Olha lá embaixo e vê seu cachorro correndo como um louco atrás de um coco que está na boca de um pit-bull babão. Depois de varias tentativas frustradas ele finalmente pega o coco e vem balançando o rabo grande trazer para você.

Você dá um abraço nele e lamenta não ter guardado um pão de queijo. Quer saber, foda-se, tira o chinelo e vai brincar na beira da água com ele. De repente eram dez cachorros correndo atrás de você e do coco. Você esta suando, a areia esta colando e, porra, é domingo, ninguém vai ver que você está mergulhando de short jeans e camiseta. Uma, duas, três ondas e seu cachorro lá se matando com o coco na boca para te acompanhar. Dá um abraço nele e pega carona na espuma de uma onda para vocês dois voltarem a salvo para areia antes que algum surfista emaconhado os atropele.

Você senta na areia e sente o ombro arder. Penteia um pouco o cabelo cheio de areia com os dedos e naquele exato segundo se da conta de como é feliz, de como queria que aquele segundo durasse para sempre. Respira fundo tentando parar o tempo. Ah...

Quantas vezes você já não veio procurar respostas pra problemas, magoas e amores mal resolvidos nesse horizonte...

As memórias você deixa pra mais tarde porque o cachorro finalmente cagou... no mar. No mundo dos cachorros ele deve ser um labrador super higiênico. É como se depois de cagar ele se limpasse no bidê. Cachorro esperto esse meu. E quem é você para julgar a felicidade dos outros? A felicidade do seu cachorro é cagar no mar. Deixem ele!

Mas você sempre fica constrangida porque a merda se perde na espuma e não tem como catar. Você coloca o cachorro na coleira e vai voltando para casa com o cabelo molhado e o chinelo na mão. 

Para no sinal e vê no reflexo do vidro do carro que a felicidade está aonde menos se espera, e vai andando... Leve... Pensando que não esta afim de noite hoje...

- Como você não vai Nanda??? Vai ter bebida liberada e showzinho do Roge!!!!!!

Pensando bem...Acho que eu vou sim.