Bad Trip com Happy End
de Maria Fernanda Baigur
mariafernanda59@hotmail.com

Meu rolo com o Hugo tava indo de mal a pior. Ele estava a cada dia mais ocupado com seus compromissos de usuario-vendedor de tudo. 

Não era só droga.

Fazia negocio com tudo mesmo, desde ingresso de festa até motos e carros. Eu disse, sabia que tinha alguma podre. E para falar a verdade era bem pior do que mau-halito, esposa ou filhos.

Então... naquele feriado arrumei a mala e fui me encontrar com as meninas que já estavam em Búzios há dois dias. Não liguei, não deixei recado, nada. Fui sem o menor peso na consciência, cheia de razão.

Mas, porra, o Rio de Janeiro parece cidade do interior, todo mundo sabe aonde você esta e o que você está fazendo. Não demorou muito pro Hugo também ficar sabendo. Na verdade não demorou nada porque naquele mesmo dia ele já estava em Búzios.

Dez mulheres, dois quartos e um banheiro micro. Do jeito que a cidade estava e com toda aquela cerveja no freezer, isso não era problema nenhum.

A praia de Geriba estava especial naquele dia... 

Braços e abdomens esculturais desfilavam seus donos sob aquele sol digno de verão. Tudo de bom.

A primeira cerveja foi na praia. As seguintes na varanda da casa. Resolvi botar minha experiência de barmaid em prática. O curso foi uma merda, mas os drinks estavam um espetáculo! Até a vodka acabar. Nesse momento veio a apelação: Ypioca com guaraná, com coca, com suco e eis que surge uma garrafa de Tequila na mesa. Foi ai que tudo começou...

Ah... como fica tudo mais lindo depois da tequila! Parece tudo magicamente amarelado, azulado, esverdeadeado... uma explosão de cores mil... que não me impediu de ver, lá fora, no meio do jardim, o Hugo me olhando de braços cruzados. 

Qualquer tentativa de dialogo seria inútil. Eu estava bêbada e ele estava puto. Antes de fazer sua típica saída Bad-boy-motorizado, disse que tinha comprado um São Jorge igual ao meu e que hoje ia finalmente me pedir em namoro. Meu mundo caiu.

Como todas as boas amigas, elas trataram de me alegrar com mais tequila e musica baiana. Sóbria não há maneira de me fazer dançar aquilo, mas no estado que eu estava substituiria a Carla Perez no trio elétrico.

Depois do banho a loucura já não era tanta, mas achei melhor não dirigir e fomos para estrada pedir carona. Eu disse, o Rio é foda, todo mundo se conhece. O dono da S-10 era meu vizinho e, pior, ex ex ex namorado. Um garoto de família, bom coração, mas não estuda, não trabalha e faz tráfico por hobby. Eu tenho um imã para esses caras. Impressionante.

Aquele papo social sonolento, as meninas gritando na caçamba e eu rezando para nenhum amigo do Hugo, ou o próprio, passar.

- Nanda, estou com uma cartela inteira de acidinho. Do bom, da Holanda. Vou vender tudo hoje, mas você merece ganhar o primeiro. Não e para tomar inteiro hein!! Divide com essas suas amigas malucas.

Acido... sei lá, nunca tinha tomado, já tinha ouvido falar que e uma onda boa, que você não sente, não faz mal. E quer saber? Vamos dividir e tomar logo essa merda antes que eu desista.

Agora eu entendo os Beatles...Strawberry fields forever.....

Nunca tinha reparado nas cabeças de boi empalhadas na parede da boate. Pareciam me olhar o tempo todo. Seguiam-me. Dancei como nunca tinha dançado. Minhas pernas se mexiam sozinhas e aquele arrepio nas costas me dizia que tinha alguma coisa de errado comigo. Fui no banheiro. Lavei o rosto e fiquei me olhando no espelho. Minha cara estava irreconhecível, disforme, não conseguia parar de rir...

Até uma patricinha vaidosa do caralho me encher e dizer pra eu sair de frente do espelho dela. Normalmente eu diria uma meia dúzia de palavrões e sairia do banheiro. Mas o sangue ferveu e eu honrei todos os treinos intermináveis de defesa pessoal de capoeira naquela figurinha de meio metro. Que não era tão pequena assim, as marcas não me deixam mentir. 

Ela ficou lá sendo amparada pela moça do banheiro e eu sai me esgueirando pela boate, rindo com as cabeças de boi do que tinha acabado de acontecer. Encontrei as meninas no balcão do bar, virando tequila. Virei também, lógico. E outra vez, estava tudo colorido, engraçado e dançante... Até um boi me avisar que os seguranças estavam atrás de mim. Com a mais grossa delicadeza, pediram que eu me retirasse.

E eu me retirei. Mas, sem antes, me despedir de meus amigos bois.

Já eram onze da manhã e eu não conseguia pregar o olho. A Heloisa varria a casa sem parar, dizendo: 

- Que merda, está tudo um lixo... 

E variia... Varria... Na maior viagem.

O que está acontecendo? A onda já tinha que ter passado e eu não conseguia parar de rir. Até começar a chorar... Chorava e ria, ria e chorava...E a Heloisa varrendo a casa...

Vou dar um mergulho, se cura ressaca deve curar essa merda.... 

Consegui convencer a Heloisa que a casa já estava limpa e que ela fosse comigo até a praia. Coisa que não chegou a acontecer, porque quando cheguei no portão dei de cara com o Hugo, dormindo, todo mulambo, do lado da moto.

Eu deveria ter ficado feliz, mas não... comecei a viajar...  que merda de vida, que futuro eu vou ter com esse traste, que bêbada que eu sou... chorei chorei e ele chorou comigo.

Levou-me de moto até a praia e no meio de uma onda me mostrou seu cordão novo de São Jorge. Tomamos água de coco, açaí, sorvete... E finalmente eu estava no meu juízo perfeito.

E namorando

Hahahahahahah

A primeira viagem tinha terminado... E muito bem.