Me engana que eu gosto 
de Maria Fernanda Baigur
mariafernanda59@hotmail.com

Todo mundo que bebe, depois de um belo porre, já jurou que nunca mais ia beber. 

É clássico.

Doi a cabeça, doi o pescoço, doi tudo. O corpo parece anestesiado como se você pudesse sentir o alcool passeando pelas suas veias. Não adianta comer doce ou salgado, aquele enjôo não passa com nada. Nem com banho. Nem com cama e luz apagada. E em uma tentativa de se desculpar pela promessa que sabe que não poderá cumprir, chega a conclusão que foi a mistura que te fez mal. Então, muda o juramento. Da próxima vez vai beber só cerveja. 

Que piada. Meu amigo, quem bebe, jura e quem jura mente. Não perca seu tempo e banque sua ressaca.

E aquela estava difícil de aturar. Me deu até fotofobia. Coisa de veado. Mas eu sou mulher, então fica bem dizer que eu tenho fo-to-fo-bia. Me dá um charme vampiresco. Não deixa de ser coisa de veado, concordo.

A festa era no Hotel Intercontinental. Até ai, grandes merda. Seriam as mesmas pessoas de sempre, a música de sempre, só que em um hotel cinco estrelas. O que me agradou bastante foi o patrocinio do "Black and White". Cinquenta reais com whisky e cerveja a noite toda. A facada parecia valer a pena. E cabia a mim aproveitar cada centavo de cada dose.

As onze em ponto eu já estava plantada no bar da festa. Uns trinta "Oi-tudo–bem-tudo-bom" fizeram com que a primeira dose durasse mais que o esperado. E eu não podia perder tempo. Tempo e whisky. Não, não, Whisky e dinheiro!! 

E eu paguei caro, então enche o meu copo. Já estava cheia de intimidade com o garçom. Em apenas duas horas, ele, de moço passou a amigo e no final já era o Rob Lowe, porque o nome dele era Roberto e eu adoro fazer essa brincadeira idiota com os nomes.

Para ser bem sincera, depois que eu fui pro Paraguai, nenhuma garrafa de bebida enche meus olhos. As aparências enganam e aquele whisky que já vinha servido no copo não estava me enganando. Já era o quinto copo e a festa, para mim , continuava chaaata. 

Mal sinal. 

Mal whisky. 

Vou beber cerveja. Para a alegria das minhas amigas que não aguentavam mais a minha cara de bunda. 

Fiquei quase simpatica, quase. Porque a Heloisa, que estava bebendo whisky misturado com cerveja, me pediu para acompanhá-la até o banheiro. Ou melhor, até a fila do banheiro porque ela não precisou estar lá dentro para vomitar no meu pé. 

Eu disse que esse whisky era estranho. 

Estava revoltada. 

Fui ate o bar e disse pro Rob lowe que eu queria ver a garrafa. Eu só queria comprovar minha tese... mas acho que ele queria ser mais que meu garçom-amigo e deu a garrafa inteira.

No caminho até a mesa me senti no Oscar... andando por um tapete vermelho, as pessoas me olhando, e eu com um troféu na mão.

A Heloisa já estava tão bem que já tinha começado a beber de novo. E eu não parava de fazer as contas. Ainda não tinha bebido cinquenta reais. E para beber só em cerveja eu precisava de mais tempo.

Foda-se. 

Me engana que eu gosto. 

Voltei pro whisky. E aplicando a matemática a minha noite, bebi quarenta reias de whisky mais trinta de cerveja. Isto é, já podia ir embora me sentindo no lucro.

Alguém teve a brilhante ideia de parar para comer. Minha compulsividade me fez comer dois sanduiches de queijo minas e e um suco de melancia sem açucar. 

Light. 

Que hipócrisia. 

Depois de trocentas mil calorías de alcool, botar adocante no suco. Cheguei em casa verde de enjôo. Sonhei que estava no Paraguai tomando whisky com adocante e melancia com queijo.

Acordei e nao jurei nada....

Já tinha me enganado bastante.
 

FIM