Mi Casa,
Su Casa
de
Maria Fernanda Baigur
mariafernanda59@hotmail.com

De tempos em tempos um ciclo se fecha
na minha vida. Geralmente é no verão que isso acontece: tudo
começa ou termina.
Deve ser o sol, o sal , sei lá,
tem uma mágica no ar...
E já era dezembro, aquele cheiro
de férias, manhãs com desenho animado e sem compromisso.
Sessão da tarde com todynho e bono de chocolate na cama da minha
mãe... adoro essas tardes de volta a infãncia....
Mas olha a preocupação
serrisima que estava estragando a mágia daqueles dias: O reveillon
estava chegando, as meninas tinham alugado um casão em Arraial D'Ajuda
e eu estava de saco cheio do Hugo.
O ciclo tinha se fechado. Eu só
nào tinha comunicado a ele.
Durante todo esse ano eu tinha sido
a namoradinha do Brasil, uma flor de menina. Tudo bem, eu admito, o Hugo
também se esforçou bastante.... arrumou trabalho em uma loja,
voltou para a Puc e alugou um apartamento maior...
O que eu sempre estranhava eram os
constantes ataques de consumismo que ele tinha... vários deles vinham
parar no meu armário, quando não no meu pescoco...
Mas ele ja estava abusando, porque
não me contava logo que tinha voltado a fazer seus " negocios ilícitos".
Eu comecei a namorar com ele sabendo de tudo , porque me enganar há
essa altura do championchip??
As vezes eu me assusto com minha enorme
capacidade de ser escrota.
Muito escrota.
Se eu já nào estava
mais apaixonada por ele porque aquele escândalo??
Sabe porque??
Eu precisava arrumar um jeito para
terminar tudo, sendo ele o filho da puta da história. Eu ia acreditar
tanto nisso que não ia nem me sentir culpada....
Eu nao disse que eu era escrota!!
Pera ai! Não me julgue!!!
Eu nào tenho nenhuma pretensào
de ser agradável. Só estou sendo sincera.
O natal já tinha passado e
eu, comendo os dedos de ansiedade.
Em uma crise de coragem fui ate a
rodoviaria. A passagem era pras onze da noite. Foda-se tudo, comprei assim
mesmo.
No caminho de volta, decidi passar
no trabalho do Hugo armada de toda a sinceridade que existe nesse mundo.
Tinha pensado que era melhor dizer logo que eu era uma escrota e que ele,
por mais filho da puta que fosse, merecia alguém menos atentada,
mais apaixonada e por ai, compreensiva.
Mas ele não estava no trábalho,
nem na capoeira, nem na praia. Ele tinha simplesmente sumido...
Bati várias vezes no apartamento
e nada. Celular? Nada.
Voltei para casa com tudo aquilo
me sufocando. Peguei a correspondência e subi separando os envelopes
no elevador....
Não..não...não
tinha nenhuma carta do Hugo. Ele não seria tão previsivel
assim. Isso foi só para dar um suspense na história ahahahahah!!!!!
A verdade é que ele havia sumido...
e ponto.
Nem carta, nem recado.
E eu... estava fazendo minha mala
cantando "Amor I love you"....
Como você pode perceber, essa
é uma das carateristicas das pessoas escrotas: peso na consciência:
ZERO
Tomei um lexotan inteiro na rodoviaria
e acordei em Porto Seguro. Adoro esses milagres que a medicina proporciona
...
Você toma aquela pilula micro,
dorme pesadíssimo no Rio e acorda na Bahia. Se tomar uma cerveja
logo depois então... você pode ir até para lua se quiser....
com uma só cerveja. Vai ser o porre mais barato de sua vida. Só
não é lá muito recomendavel a pessoas sensiveis a
alucinações.
Onde eu estava mesmo? Ah! Rodoviaria
de Porto Seguro.
Um lixo.
Um nojo.
Peguei um taxi até a balça
que me levou para Arraial D'Ajuda em interminaveis trinta minutos.
Porque eu estava sozinha, num barco,
com uma cerveja na mão. Tive, sim ou sim, durante essa meia hora,
que ficar sozinha comigo mesma, com meus pensamentos. E eu estava fugindo
da realidade, tratando de não pensar no Hugo, nem aonde ele estava
ou com-quem-e-fazendo-oque.
Eu detesto ficar sozinha porque eu
não posso ser escrota comigo mesma. O Hugo não podia ter
sumido e eu não podia ter viajado desse jeito.
No fundo estava me sentindo péssima.
Eu não presto. Vou me jogar desse barco. Vou tomar a caixa de Lexotan
inteira. Uma arma, por favor. Matem essa escrota antes que ela consiga
sacanear o mundo todo. Atira logo , vai!
Joguei a cerveja fora porque eu ja
estava a ponto de pular mesmo.
Peguei uma kombi desconfortável
que me deixou no endereço que as meninas tinham me dado.
Pelos carros na porta, elas estavam
em casa. Alias, estavam na piscina, na sauna, na cozinha, era gente por
todos os lados... e um cartaz enorme na porta explicava o clima: MI CASA
, SU CASA.
Foi o reveillon mais cheio de adjetivos
da minha vida. Que merece uma história só para ele...
FIM
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