Efedrina na Ilha dos Pecadores
de Maria Fernanda Baigur
mariafernanda59@hotmail.com

Esse modelinho de beleza atual é uma merda absoluta. 

Não faço uma puta dieta. Não tenho um puta silicone. Mesmo assim, naquele domingo, tomei aquele remedinho e fui correr na praia. Final de tarde, o Manu Chao estava cantando uma música de protesto zapatista, só para você, no seu ouvidinho.

Ipanema já ficou para trás e você sente que desse jeito poderia ir ate a Barra. Não viaja, são quase sete e hoje a noite tem "Ilha dos Pescadores".

Que merda não trouxe um real para água, que sede, que calor. 

Final do Leblon, excelente esse remedinho, vai voltando para Ipanema no mesmo ritmo, só para atravessar a rua e vai pensando que não toma uma cerveja há uma semana... E hoje é o dia: "ILHA DOS PECADORES".

Veste-se sem muita vaidade e, já que o diabo mora nos detalhes, capricha no Caroline Herrera e no São Jorge de ouro no pescoço. Rabo de cavalo porque está um calor do caralho.

Acende um cigarrinho de Bali e vai dirigindo. Que merda, as meninas devem estar putas. Estou atrasadérrima e até meia noite a entrada e "de grátis".

As meninas já estão no carro e junto com elas chegaram varias cervejas e uma batidinha de sei lá o que com maracujá. Pelo gosto era cachaça. Quinze para meia noite, viro a quinta cerveja, pronta para entrar, e no caminho um camelô que estava indo embora me oferece um copo cheio de melzinho por um real. Caralho, um real, você não pode perder essa. Vai entrando feliz com sua economia e nem liga para multidão suada que vai te levando. Se você tirar o pé do chão, ainda assim, vai continuar andando.

Gente de todos os lados, o mundo todo está aqui. Você odeia social. Aquele papo sem graça, sem porque. Sem você notar já está com outra cerveja na mão. Kaiser clube do Botafogo. Totalmente contra seus princípios flamenguistas que toma Skol, mas a esta altura, qualquer álcool e bem vindo.

Bonde do tigrão, tchutchucas, quebra-barraco... E você lá, no meio daquela massa pegajosa e brilhante, rindo da tentativa de suas amigas em acompanhar os passos do funk carioca. 

Que vontade de mijar. 

Foda. 

Alguém quer ir? 

Tudo bem, vai sozinha. Respira fundo, abaixa a cabeça para não ter que fazer social e vai, vai com tudo.  E da de cara com ele. Gatissimo, sem camisa, marquinha da sunga para fora da calca, capoeirista de nascença, morador do posto seis, já cruzou com ele em algumas rodas, mas nunca se falaram. E agora, puta que pariu, você esta totalmente bêbada.

 - Capoeirista fumando cigarro?

O papo começou assim como toda social escrota. Terminou com ele segurando sua testa e descrevendo nos mínimos detalhes o que você tinha almoçado.

Ele deixou a moto com os amigos e veio dirigindo seu carro. Você abre a janela e enquanto o vento traz vida pro seu corpo, você escuta Jim Morisson cantar bem baixinho alguma coisa. Ele olha para você, com um sorriso confidente, passa a mão na sua cabeça e bagunça de leve seu cabelo. Não pode ser verdade, você não merece. Ele tem algum defeito, mau hálito, chulé, esposa, filhos, sei lá, alguma podre com certeza.

 - Promete que não toma mais esse remédio??

E foi assim, de porre, numa noite de domingo que eu conheci o Hugo. O homem que me ensinou que não se mistura efedrina com álcool. Nem acidinho com uma  garrafa inteira de Tequila. Mas essa história e longa, deixa para outra vez.