Importava
por
Priscilla Fogiato
Não, não me pergunte.
Tenho o corpo dolorido de tensão. Eu não sei como demos as
mãos. Não sei como foi que nossos dedos se entrelaçaram.
Estávamos apenas conversando sobre nossas vidas, fatos em comum.
Posições parecidas, situações que estamos vivendo.
Situações pelas quais já passei e nunca imaginei vê-lo
passar.
Não foi o vinho. Não
foi o filme, não foi a comida. Não foi a música. Não
dissemos nada demais. Ele contou que amava outra pessoa. Eu amava outra
pessoa. Estávamos vidas distantes um do outro. Pensávamos
em coisas diferentes enquanto fechávamos nossos olhos.
Foi aquilo que eu sempre soube, que
eu sempre disse: o natural é quando estamos juntos. O normal é
quando nos tocamos. Quando estamos de mãos dadas. É a nossa
forma de encarar a vida com mais força. Por isso nos unimos. Será
isso?
Ele falou demais. Eu sempre falo demais.
Sou franca demais ao amar as pessoas. É sempre para sempre o que
passou. Talvez por isso, quando ouvi ele dizer que sentia todas as coisas
que já senti, que passava por tudo o que já passei e ele
não sabia, não consegui controlar as lágrimas. Da
mesma forma que não consigo controlar a pieguice desse texto.
Chorei, pois ele finalmente compreendia,
ainda nessa vida, tudo o que passei. As histórias se repetem no
mundo todo. Só as personagens mudam. Ele compreendia. Ele se sentia
como eu, e eu chorava.
- De quem você está falando?
- ele perguntou.
- Não importa. It doesn't
matter.
Importava. |