Idaho
de Natalia Maria

the consort, por Rufus Wainwright 
 

Prepare your things dissolve your mind 
De novo pensando em você. Isso sempre acontece mas não, não tenho esperança alguma de a gente ficar junto outra vez. Também não quero. Também não poderia. Agora, o sol está alto, e eu dirijo no verão de Idaho. Você sabe onde é Idaho? Não, acho que não sabe. E pra variar não se importa. 
‘Cause I’m your consort 
Era verão também quando a gente se conheceu, você era tão viva, eu me impressionei, fiquei atraído. Você também ficou atraída por mim, não pela minha vivacidade mas pela minha fraqueza. Você sempre gostou de desafios, e essa foi uma das coisas boas que eu absorvi de você. Tanto que eu vim pra cá. 
Beautiful queen of seventeen 
Foi aquela história de viver a coisa certa na hora errada. Eu gostava do que fazia. Era com certeza uma opção influenciada pelos meus pais, mas eu gostava. Quando você me achou eu não estava bem. E você, com essa prepotência e a minha paixão, quase me fez largar tudo. Eu sempre gostei de escrever, então vou tentar fazer isso, pensei, e você ficou radiante quando eu saí de casa para morar com você, e única e exclusivamente escrever. A gente escrevia, eu e você e você sozinha. Era bem injusto mas eu não ligava. Eu sempre aceitei quando você falava, você era Rimbaud e eu era Verlaine. Eu não ligava. Achava até justo. Eu sabia. 
A blood red has spared our bed 
Quando você começou a me exibir para os seus amigos, só aí eu comecei a perceber que tinha alguma coisa errada. Você me mostrava, olhe como eu mudei esse cara, ele era um burguês e agora ele é bom, como eu quero que ele seja. E eu era o seu cachorro que se fingia de morto. E era só isso para que eu servia, você era muito fria, criticava tudo o que eu escrevia só porque isso você nunca pôde controlar. Você realmente queria que eu fosse Verlaine! Eu sempre fui mais chegado no Tom Verlaine mas você não entendia isso, você só entendia de exibir o teu francês medíocre recitando poesias que não entendia. Aliás, isso eu só percebi quando, por tua influência, aprendi a falar francês. Você também desaprovou essa idéia porque sabia que eu ia acabar descobrindo o teu falso conhecimento. Mas eu fui assim mesmo. 
Beautiful queen prepare to reign no more 
Eu fugi do seu controle. Eu era melhor e mais interessante que você. Passei a escrever e a falar melhor que você. Você ficou com inveja de mim. Inveja! Tenho um certo prazer em falar isso, mas teus cortes doíam muito mais... Você já era fria; como se não bastasse se tornou competitiva. Eu percebi o que tinha feito e me arrependi, era melhor ter continuado na ignorância. Let streamers fly and cannons roar on your arrival! Eu só queria fazer você entender que, acima de tudo, eu estava do seu lado, you’re not alone, e então eu tentei voltar a ser o que era antes, fazer como era antes, mas não deu e eu sempre me destacava mais e mais e mais à sua frente, o conhecimento é mais doce que o amor, você não sabia? E você não conseguia pensar dessa forma even thought my throne is slightly smaller than yours. E foi o nosso fim. 
Together we’ll wreak havoc you and me, together we’ll wreak... 
Foi melhor para o seu ego e para a minha dignidade. Acabamos com todas essas experiências, essa beleza escondida atrás da hipocrisia. Eu te larguei e vim pra cá. Não, você me largou e eu fugi até aqui. Assim estamos bem, você uma poetisa em São Paulo – ou poeta, como você prefere -, e eu, um engenheiro em Idaho. Muito obrigado. Muito mesmo. 

Prepare your things dissolve your mind ‘cause I’m your consort beautiful queen of seventeen...