Olhos
de
Glauco Delinski
nemai@convoy.com.br
Pessoas olham para baixo. Olhos escondidos,
lacrimejados. Apenas o padre fala, enaltece a garota. Mais lágrimas,
alguns sussurros. Cada um com seu pensamento e lembrança. Falar
parece proibido, respeito. Lentamente o caixão vem chegando. Silêncio.
Seis pessoas caminham com o peso da jovem nos ombros. Ninguém pode
vê-la, mas todos a imaginam fria, deitada, coberta de flores. Recordações,
invariavelmente, invadem cada um que está ali, suando sob sol de
inverno com roupas negras e pesadas. Cada qual recorda um aspecto da moça:
um sorriso, um abraço ou um beijo. Tentam lembrar de como era o
sabor de seus lábios, como era o seu abraço e seu cheiro.
Há os que preferem as palavras. Enlouquecem em poucos segundos,
em um mundo íntimo e silencioso, tentando refazer as últimas
palavras da falecida. Ninguém quer saber, ou faz questão
de remontar o trágico quebra-cabeça de seu adeus. O silêncio
parece ser uma forma de coibir os fatos. Não interessa quem estava
dirigindo ou se o semáforo estava verde ou vermelho. Foi um acidente
e morre aí, junto com ela. Uma garota preste a completar vinte e
cinco anos e que dizia estar no melhor de sua vida.
Ela chega, lacrada. O padre se cala,
faz um sinal com a cabeça, autoriza. Os seis homens colocam o ataúde
na gaveta. Cada parente, amigo ou desconhecido parece ter uma reza, uma
última prece. Murmuros se misturam com o barulho do coveiro que
remexe o cimento, empilha os tijolos e lacra de vez o corpo. Todos olham
com rostos pálidos e sem vida para o funcionário indiferente.
Aos poucos, a garota perde as companhias. Cada vez mais está decretado
que ela se foi e não faz mais parte daquele mundo. Cria-se, por
instinto, uma ordem de adeus: primeiro são os amigos, vizinhos e
ilustres desconhecidos, depois, ainda resistindo ao tempo e a dor, saem
os parentes. O coveiro faz o acabamento, ajeita as coroas e flores sob
um único olhar. Apenas um homem, depois de quase uma hora dela ser
enterrada, ainda sobrevive ao sol e a morbidez do local. Depois, o silêncio
evidencia a dupla: a falecida e o homem.
Não parece ser parente, tampouco
vizinho ou amigo. O rosto branco, ainda que escondido por uma boina, não
mostra sinais de nervosismo, lágrimas ou perplexidade. Talvez ele
entenda melhor que o padre que tudo faz parte da natureza humana. Ela morreu
e a vida continua, deve imaginar. Assim como nela, não há
sinal de vida no homem. Impassível, parece compreender o fato; um
enterro, uma morte. Nenhuma novidade.
Ele continua como companhia. Olha
cada detalhe da sepultura. Tira a luva da mão esquerda e percorrer
o dedo indicador pelos cantos no mármore frio do túmulo.
A leitura com o tato avança o cimento molhado, usa a força
e cavouca nos cantos da gaveta. Como uma criança desobediente e
mimada, o homem estraga o serviço do coveiro e deixa a sua marca.
Duas frestas, uma em cada canto, suficiente para entrar luz e ar para a
falecida. Ele limpa o dedo em um crisântemo, veste a luva e sai sem
se despedir. Não reza, muito menos faz o sinal da cruz. Sai em silêncio,
olhando para baixo como se temesse estar sendo vigiado.
Madrugada fria e nebulosa. O mesmo
homem obscuro passa pelo cemitério com passos lentos, firmes. Contorna
toda a quadra, volta. Seguro de si, não olha para os lados. No escuro,
a boina esconde ainda mais o rosto. O sobretudo esconde a ferramenta, enaltece
o mistério. Hora de agir. O cadeado não é problema.
Uma batida forte com o pé-de-cabra e o portão está
mais uma vez aberto. O terceiro arrombamento em duas semanas.
Ele segue, agora com rapidez, em ziguezague
por entre os túmulos. Conhece o caminho, não perde tempo,
chega.
As flores ainda não murcharam,
estão úmidas com o sereno. O homem percorre o dedo indicador
por toda gaveta, encontra os pequenos buracos nos cantos e dá início
a continuação. Com o pé-de-cabra estraga de vez todo
o serviço do coveiro. A gaveta está aberta, o caixão
aparece: novamente eles estão juntos e solitários. Rapidamente
a falecida é arrastada para a luz da lua cheia. Impassível,
o homem destrava o caixão, tira a tampa e observa: rosto bonito,
pálido, magro, lábios cerrados, nariz fino.
No bolso esquerdo do sobretudo, ele
tira uma pequena embalagem plástica e um punhal. Com habilidade
e frieza, o homem abre as pálpebras e corta na região ocular.
Depois, a lâmina é introduzida entre o globo ocular e o osso.
A alavanca é perfeita, os olhos azuis saltam, um de cada vez. Os
nervos são rompidos e os olhos colocados na embalagem. Em menos
de um minuto, mais como gesto educado, o homem devolve a paz à falecida.
Novamente ela está sozinha, no escuro, dentro de seu caixão
lacrado.
Em casa, a água está
fervendo em fogo baixo. O homem obscuro, ladrão de olhos, mexe os
legumes que bóiam e cozinham. Por último ele coloca os olhos,
lavados. Mais dois minutos e a refeição estará pronta
para ser servida. Ele coloca um único prato na mesa e vai ao quarto
buscar seu pai, um velho faminto e cego.
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