Olhos
de Glauco Delinski
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Pessoas olham para baixo. Olhos escondidos, lacrimejados. Apenas o padre fala, enaltece a garota. Mais lágrimas, alguns sussurros. Cada um com seu pensamento e lembrança. Falar parece proibido, respeito. Lentamente o caixão vem chegando. Silêncio. Seis pessoas caminham com o peso da jovem nos ombros. Ninguém pode vê-la, mas todos a imaginam fria, deitada, coberta de flores. Recordações, invariavelmente, invadem cada um que está ali, suando sob sol de inverno com roupas negras e pesadas. Cada qual recorda um aspecto da moça: um sorriso, um abraço ou um beijo. Tentam lembrar de como era o sabor de seus lábios, como era o seu abraço e seu cheiro. Há os que preferem as palavras. Enlouquecem em poucos segundos, em um mundo íntimo e silencioso, tentando refazer as últimas palavras da falecida. Ninguém quer saber, ou faz questão de remontar o trágico quebra-cabeça de seu adeus. O silêncio parece ser uma forma de coibir os fatos. Não interessa quem estava dirigindo ou se o semáforo estava verde ou vermelho. Foi um acidente e morre aí, junto com ela. Uma garota preste a completar vinte e cinco anos e que dizia estar no melhor de sua vida. 

Ela chega, lacrada. O padre se cala, faz um sinal com a cabeça, autoriza. Os seis homens colocam o ataúde na gaveta. Cada parente, amigo ou desconhecido parece ter uma reza, uma última prece. Murmuros se misturam com o barulho do coveiro que remexe o cimento, empilha os tijolos e lacra de vez o corpo. Todos olham com rostos pálidos e sem vida para o funcionário indiferente. Aos poucos, a garota perde as companhias. Cada vez mais está decretado que ela se foi e não faz mais parte daquele mundo. Cria-se, por instinto, uma ordem de adeus: primeiro são os amigos, vizinhos e ilustres desconhecidos, depois, ainda resistindo ao tempo e a dor, saem os parentes. O coveiro faz o acabamento, ajeita as coroas e flores sob um único olhar. Apenas um homem, depois de quase uma hora dela ser enterrada, ainda sobrevive ao sol e a morbidez do local. Depois, o silêncio evidencia a dupla: a falecida e o homem.

Não parece ser parente, tampouco vizinho ou amigo. O rosto branco, ainda que escondido por uma boina, não mostra sinais de nervosismo, lágrimas ou perplexidade. Talvez ele entenda melhor que o padre que tudo faz parte da natureza humana. Ela morreu e a vida continua, deve imaginar. Assim como nela, não há sinal de vida no homem. Impassível, parece compreender o fato; um enterro, uma morte. Nenhuma novidade.

Ele continua como companhia. Olha cada detalhe da sepultura. Tira a luva da mão esquerda e percorrer o dedo indicador pelos cantos no mármore frio do túmulo. A leitura com o tato avança o cimento molhado, usa a força e cavouca nos cantos da gaveta. Como uma criança desobediente e mimada, o homem estraga o serviço do coveiro e deixa a sua marca. Duas frestas, uma em cada canto, suficiente para entrar luz e ar para a falecida. Ele limpa o dedo em um crisântemo, veste a luva e sai sem se despedir. Não reza, muito menos faz o sinal da cruz. Sai em silêncio, olhando para baixo como se temesse estar sendo vigiado. 

Madrugada fria e nebulosa. O mesmo homem obscuro passa pelo cemitério com passos lentos, firmes. Contorna toda a quadra, volta. Seguro de si, não olha para os lados. No escuro, a boina esconde ainda mais o rosto. O sobretudo esconde a ferramenta, enaltece o mistério. Hora de agir. O cadeado não é problema. Uma batida forte com o pé-de-cabra e o portão está mais uma vez aberto. O terceiro arrombamento em duas semanas.

Ele segue, agora com rapidez, em ziguezague por entre os túmulos. Conhece o caminho, não perde tempo, chega.
As flores ainda não murcharam, estão úmidas com o sereno. O homem percorre o dedo indicador por toda gaveta, encontra os pequenos buracos nos cantos e dá início a continuação. Com o pé-de-cabra estraga de vez todo o serviço do coveiro. A gaveta está aberta, o caixão aparece: novamente eles estão juntos e solitários. Rapidamente a falecida é arrastada para a luz da lua cheia. Impassível, o homem destrava o caixão, tira a tampa e observa: rosto bonito, pálido, magro, lábios cerrados, nariz fino. 

No bolso esquerdo do sobretudo, ele tira uma pequena embalagem plástica e um punhal. Com habilidade e frieza, o homem abre as pálpebras e corta na região ocular. Depois, a lâmina é introduzida entre o globo ocular e o osso. A alavanca é perfeita, os olhos azuis saltam, um de cada vez. Os nervos são rompidos e os olhos colocados na embalagem. Em menos de um minuto, mais como gesto educado, o homem devolve a paz à falecida. Novamente ela está sozinha, no escuro, dentro de seu caixão lacrado. 

Em casa, a água está fervendo em fogo baixo. O homem obscuro, ladrão de olhos, mexe os legumes que bóiam e cozinham. Por último ele coloca os olhos, lavados. Mais dois minutos e a refeição estará pronta para ser servida. Ele coloca um único prato na mesa e vai ao quarto buscar seu pai, um velho faminto e cego.