Coisas de Criança
de Glauco Delinski
nemai@convoy.com.br

Morte. Duas mortes. Muito sangue e ossos quebrados. Não os meus. Sorte? A moça ao meu lado diz que tive muita sorte. Não acredito nela. Seus olhos desolados nem reparam a minha frieza. Ela chora por mim e diz que tudo ficará bem. Eu pergunto como, se meus pais foram moídos por um caminhão. Ela não responde, deve achar que estou aterrorizado. Mas eu penso na casa da minha tia, me imagino vestindo aquele terno preto ridículo e indo ao enterro dos meus pais. Por um bom tempo não poderei festejar com os meus amigos. Talvez eu devesse morrer junto. Não sei. Creio que terei de mudar a rotina da minha vida. Estou pensando em me tornar vegetariano ou só usar roupas pretas e velhas. Dará uma impressão de revoltado. Sempre gostei disto. Enganar as pessoas pelo visual.

Minha tia chegou. Ela pergunta se estou bem e eu lhe dou a velha resposta. Não teve velório. Falaram que poderia abalar ainda mais o menino. O menino sou eu. 

No enterro todos choram, menos eu. Os caixões estão totalmente fechados. Em outros enterros eu via o rosto atrás do vidro. Ouvi dizer que os corpos estavam muito disformes. Não sei o que é isto. Acho que quer dizer que estavam feios. Por isso não podemos ver.

Mês que vem é o meu aniversário. No mesmo dia em que meus pais morreram. Acho melhor não comemorar meus sete anos. As pessoas podem estranhar e falarem mal da minha tia. Ela é boa pessoa. Idosa e tranqüila. Mas faz três dias que ela não dorme. Nervosismo. É passageiro, amanhã estará melhor.

O enterro foi rápido, bem como eu queria. Em casa, minha tia me abraça e pergunta como eu estou. Respondo com a mesma resposta de sempre. Ela chora e corre para seu quarto. Vou atrás e peço desculpas. Ela chora mais ainda e diz que a minha mãe estava grávida. Então foram três mortes. Por isso tinha tanto sangue.

Ando pela rua e percebo que as pessoas me olham assustadas. Devem achar que eu sou culpado. Mas eu só estava no banco de trás pensando na minha vizinha. Será que eles podem ler pensamentos? Minha vizinha é casada e vive apanhando do seu marido. Mas eu sou inocente, apenas achava engraçado os gritos de desespero da minha vizinha. Ela não foi no enterro. Deveria estar machucada. Mas eu sou inocente. Não tenho culpa se banco traseiro é mais confortável. E mais seguro também.

Chega um homem na casa da minha tia. Ele usa uma gravata esquisita. Eles conversam por mais de uma hora. O homem entrega um cheque e vai embora. Minha tia sorri depois de quatro dias e diz que meu futuro está garantido. Graças a morte de meus pais o meu futuro é garantido. Não entendo isso. Todos choram e eu ainda recebo uma grana. Será que estão pagando pela minha vida? Talvez tenha ficado provado que eu sou inocente.

Perguntei a minha tia quando eu iria para casa. Ela fingiu que não ouviu. Eu queria pegar umas roupas pretas velhas e comer os chocolates que eu escondi. Mas eu não posso falar isto a ela. Vai pensar que eu  os roubei, mas eu apenas os escondi de meu pai. Ele está muito gordo, quer dizer, estava. 

Minha vizinha veio me visitar. Não a que apanha do marido. Uma outra, que tem a minha idade. Ela disse que veio me visitar porque sua mãe a obrigou. Ela pergunta como estou, e eu lhe dou a velha resposta de sempre. Depois ela quer saber como é ficar sem os pais. Eu digo que me sinto como se tivessem arrancado meu cérebro. Ela fica quieta por um bom tempo e depois vai embora. A vantagem de se morar com a tia é que eu posso assistir televisão até tarde. Eu aprendo frases novas. Esta do cérebro eu aprendi ontem, funcionou direitinho. 

Vou à igreja. Não que seja necessário, mas minha tia acha que tenho que conversar com o padre. O lugar é espremido e escuro, sinto-me mal por não poder enxergá-lo. Por isso demoro a falar, depois eu não paro um segundo sequer. Conto tudo o que aconteceu na última semana, sem esquecer detalhe algum. Tenho a impressão que o padre dormiu, porque ele não diz nada. Quando eu digo que vou embora, ele fala para confiar em Deus.

Chego em casa e tem um garoto esquisito me esperando. Ele quer ser meu amigo. Aceito sua proposta e decido sair brincar com ele. Minha tia fica contente, deve ter gostado dele, apesar de ser estranho. Então eu penso comigo mesmo: vou me divertir e esquecer todas essas coisas de adulto.