Quentin Tarantino Não Faria Melhor
por hugo 

Como se não bastasse estar vivendo uma vida de merda em que nada dá certo, você ainda tem que ralar em dois empregos para conseguir sobreviver. E os dois pagam tão mal, que só juntando os dois salários para ser possível conseguir viver dignamente.
Ou quase.
São dois serviços idiotas que só servem para te irritar e humilhar. Você queria poder mandar tudo à merda, mas não pode ... E ainda mais essa: você está atrasado. E, claro, quando se está atrasado, todos os ônibus passam adiantado. Mas só o que você pegaria. Depois dele passar, e de você perdê-lo, eles voltam a sumir. Putz, e não dá para chegar atrasado de novo. Ter que ouvir toda aquela merda que você sempre ouve do seu chefe, e o pior: sabendo que ele está certo. E, claro, isso só piora as coisas.
E era um absurdo pensar em pegar um táxi nessas condições. Seria quase como pagar para trabalhar ... Opa!, aquele que vem lá, serve. Seriam três, em vez de dois, mas tudo bem.
Só depois, muito depois, quando ele entra na Brasil, que você percebe a merda que fez. Esse serviria sim, mas só se você estivesse indo para o outro emprego. Para esse não serve.
Você desce no primeiro ponto, e só para que não pense que as coisas não podem piorar, começa a chover. Voltar para a Rebouças, agora, não vai adiantar nada.
Merda!, é melhor pegar um táxi.
Se você tiver sorte. Apesar de você estar quase nos Jardins, estar em um lugar desconhecido àquela hora da noite, e ainda mais chovendo, não é nada agradável.
Até que enfim, lá. Por sorte, viu o seu sinal. Está fazendo a volta.
E antes de entrar, você pára e, sem saber por quê, dá uma olhada para o motorista. Olha e, por um segundo, fica meio que paralizado. O motorista é um negão enorme, usando um chapéu preto de feltro, calças também pretas, óculos escuros enormes, bigode, camisa social branca com bordados no peito, várias e várias correntes, pulseiras e braceletes dourados imitando ouro e até o relógio, também dourado. A decoração do carro vai no mesmo estilo: cheio de penduricalhos por todos lados, no espelho retrovisor e por todos os lados. E ele está te olhando, sorrindo meio de lado, segurando um palito no outro canto da boca, com o braço direito por cima do banco e segurando o volante com a outra mão. Tudo isso, toda essa cena, embalada pelo som do rádio, uma música que você conhece e até gosta, mas não sabe dizer de quem é ... talvez Barry White ou Issac Hayes, mas seguramente black music dos anos 70 ou 80, por aí.
A única luz é daquelas que todo carro tem no interior, mas é estranhamente forte, principalmente em contraste com a escuridão do lado de fora. Pela janela atrás dele, simplesmente não se pode ver nada. Se fosse um filme, você diria que erraram na composição da cena, que exageraram na dramaticidade.
Estranho ... por falar nisso, de filme, cena ... tudo isso te lembra alguma coisa, mas ... bom, dêxapralá.
Você finalmente entra e senta, mas (não consegue evitar), sente uma estranha sensação, uma necessidade de imitar o Vicent Vega, mover-se como ele. Sem pensar, ajeita a gola do casaco como ele faria. Por um momento você lamenta não fumar, pois a próxima ação seria acender um cigarro, mas, pensando bem, é melhor assim. Quer dizer, como acender um fósforo como se fosse um isqueiro? E teria que ser um fósforo mesmo, porque você teria que agitá-lo para apagar.
Já antecipando que você vai estragar tudo, você dá uma olhada para o lado, e vê que o motorista o observa, como teria que ser, em expecativa. Você entorta a boca, num sorriso meio cínico, sem saber por quê, mas sabendo que é o que deve fazer.
"Perdizes", você diz calmamente, já olhando para frente e sabendo que ele ainda lhe observa, esperando que você especifique o destino, quando ele moverá a cabeça em sinal de aprovação, talvez com um sorriso, e dará a partida no táxi. 
E, sempre, esse tempo todo, a música.
Você prolonga aquele momento mágico o máximo possível, desejando poder dizer algo como 5th com a Madison, mas sabendo que vai estragar tudo, quando finalmente disser:
- Rua Cotoxó ... por favor.

hugo ( hugolt@hotmail.com ), colabora com este zine e o seu roteiro ele mesmo faz.


Dead Ringer
por hugo
"É só um momento, disse Tyler, você dá um duro danado, mas um momento de perfeição vele qualquer esforço. Um momento, é o máximo que se  pode esperar da perfeição."
Tyler Durden, em O Clube da Luta

Você não se lembra de mim, claro (eu mesmo tenho dificuldade em visualizá-la, agora, depois de tanto tempo), e nem poderia, pois nunca tomou conhecimento da minha existência. Mas isso não me aborrece. Não, nem um pouco, pelo contrário: me consola, e até me alegra, talvez.
Consola, por não saber as conseqüências que isso teria, ter sido notado por você naquele momento, e ... mas, meu Deus!, você nem sabe do que eu estou falando, não é mesmo? Deixe-me ser mais claro: estou falando do momento exato em que você alcançou a perfeição. O momento exato em que a sua existência foi justificada, o momento exato em que você foi a mulher mais linda que eu já vi (a mais linda que já houve), o momento exato em que tudo, por uma fração de segundo fez sentido.
Sim, eu sei, você deve estar se perguntando como eu posso saber disso tudo, se eu nunca havia lhe visto até então. É simples: essa fração de segundo foi aproveitada por mim, em sua plenitude. Naquele momento, você não percebeu, o mundo não notou, não saiu nos jornais, não deu na TV, mas o tempo parou (e eu às vezes me pergunto se o tempo não continua congelado ainda, e se todos nós não estamos presos naquele momento). E eu a vi um segundo antes disso, quando você era uma mulher bonita, mas comum, e a vi um segundo depois, quando tudo no universo voltou ao normal (ou é no que eu quero crer). 
E eu sei que este momento é único, não se repete. Aliás, não são todos que têm direito a um momento desses. 
Mas você tem razão ... Eu nunca lhe conheci, é verdade, nem sei o seu nome, não sei nada sobre você, mas sei que toda a sua vida lhe levou até aquele momento. E que, provavelmente, enquanto você caminhava para ele, a vida dos que a rodeavam, era justificada por ele. Os seus pais, por exemplo, certamente só viveram para ter a chance de gerá-la. 
Entende agora, por que eu disse que me alegrava pensar que eu fui a única testemunha (e secreta) deste momento? É porque, assim, eu penso que o meu papel foi esse, que eu nasci para testemunhar isso, este momento. Que eu também, paralelamente a você, caminhei para isso.
Mas, diga-me: como foi depois? Quero dizer, você percebeu, não é? Percebeu que antes disso, claramente, a sua vida tinha um propósito, apesar de você não saber exatamente do que se tratava. E que depois ... depois tudo ficou diferente, não foi? Nada mais foi como antes, não é? Tudo mudou, sim eu sei. Talvez, talvez até, tudo tenha perdido o sentido, tudo tenha se tornado vão, fútil e inútil para você, não é? Sim, eu sei, eu entendo.
Entendo, porque eu sinto o mesmo. Depois que eu lhe vi, senti que nada havia mais para ser visto por mim (nada que valesse a pena). Tudo, todas as sensações, tudo que eu fizesse, visse ou dissesse seria só um pálido reflexo daquele momento. 
Sim, eu imagino que você passou por tudo isso, e que, com certeza, chegou à mesma conclusão a que eu cheguei. Pelo menos, é o que eu espero. Eu tenho essa esperança, sabe, encontrá-la logo (lá, qualquer que seja o lugar para onde vamos depois de viver). E se a consciência de tudo lhe alcançou antes do que a mim, só peço que tenha paciência e me espere mais um pouco (se o contrário ocorrer, não se preocupe, eu lhe esperarei). Só um momento, por favor, será rápido agora. Só um momento de dor (com sorte, nem isso), e tudo estará acabado.
Agora.

hugo ( hugolt@hotmail.com ), colabora com este zine e não tem nada a dizer, exceto que Dead Ringer é o nome de uma música dos Stranglers.