Contículos
por
Marcelo Damaso
madamaso@terra.com.br
Último
Affair
Sua atitude foi desafiadora, tirou
a calcinha e o chamou para ir ao banheiro daquele restaurante, de onde
acabará de vir. Flávio recusou. Era a sétima vez que
eles tentavam reatar o namoro que aquela década desgastara. Priscilla
olhava provocativa, insistindo para que Flávio aceitasse. Ela sempre
conseguia. Flávio tentou todas às vezes resistir, mas cedeu
e acabou dando o que Priscilla queria. Dessa vez não poderia ser
assim. Aquela mulher, pensava ele, não pode ser humana. Mas
ela era, estava tentando remediar suas noites solitárias em que
ficava na frente da TV deitada fumando cigarros quando recusava todas as
ofertas de encontros que recebia no dia a dia. Flávio procurava
manter-se ocupado, trabalhando de dia e de noite, apesar de bastante cansado,
ainda se dedicava a reprodução de vídeos clássicos.
Dormia em cena. Priscilla não, trabalhava apenas de manhã,
fazia ginástica a tarde e, depois do café de início
de noite na casa da mãe, apenas recorria ao lamento e melancolia
de sua solidão. Priscilla era sexual, mas só. Flávio
ocupado, mas tenso. Foi assim durante idas e vindas e um namoro que eles
sempre concluíam que não ia progredir. Mas sempre se reencontravam,
telefonemas que buscam apenas "saber como você está". Era
conflituoso, esperançoso e feliz, mas era ilusório.
Um gole no uísque, uma colherada no pudim, se olhavam. Ela sorrindo
maliciosamente. Ele travado e racional.
Não foi.
Pagaram a conta e se despediram.
Ela foi para casa e decidiu nunca,
mas nunca mais voltar a sair com ele.
Ele deitou-se em sua cama, olhou
para o teto e bateu uma punheta. No final chorou.
Aquela foi a última vez que
se viram.
Daniela,
aquela...
- Porque você
não fuma mais maconha?
- Me deixa
mal, não gosto do jeito que fico.
- Nem pra trepar?
- Só
se estiver relaxado.
- Quantas vezes
você já trepou chapado?
- Duas, com
a mesma pessoa.
- Quem era?
- Daniela,
aquela...
- Ah sim, aquela....
- Tínhamos
intimidade, era diferente de você e eu.
- Mas a gente
ainda nem fodeu.
- Sei, mas
daqui há pouco vamos, né?
- Sim.
- Eu só
não quero fumar maconha.
- Tudo bem,
eu fumo só.
Dei aquele intervalo
de silêncio para que ela sossegasse em seu baseado. E eu voltasse
a pensar na Daniela, aquela... O que estava prestes a fazer, sexo, já
não me despertava tanta euforia e ansiedade. Era prático,
saciado e triste. No momento eu estava apenas assim, triste. Depois de
tudo era só a lembrança de anos atrás. Sempre conseguia
visualizar seu rosto vermelho, branco e lindo. Os olhos azuis, peitos pequenos
e barriga lisa. Ela por cima de mim, gemendo, beijando, se esticando. Sempre
lembro do tapa que dei, foi forte, lhe marcou a cara. Ela me deu também,
sorrimos. Tabus rompidos, gozo, sorriso e intimidade em seu ápice.
Feliz. Daniela era...aquela. Depois de tudo que nos afastou, me apeguei
apenas a essas lembranças. Se pudesse, ao menos por mais uma vez
dizer-lhe algo, diria: "Daniela, você fode bem pra caralho!".
Cecília
depois de mim
"O amor é
cego, mas consigo vê-lo perfeitamente entre suas pernas". Depois
d’um gole seco no uísque eu consegui dizer. Ela sorriu. "Depois
de trinta anos de casado ainda acharemos graça dessas piadas?".
Achei que era o momento de dizer que eu estava com câncer. Resolvi
esperar um pouco mais. Haveria outras oportunidades de dizer aquilo, mas
não naquele momento sublime em que o sexo oral se tornava mais importante
do que as palavras. Era pra haver peso nas palavras, sendo que não
nos víamos há oito meses. Os últimos oito meses que
passei viajando o sul do Brasil procurando escrever meu último romance.
"Cecília, isso está me dando sede", por isso os goles secos.
Era comum sentir sede. Ela pediu pr’eu parar um pouco então. Descansei
meu copo sobre a barriga, tremi um pouquinho com o fundo gelado. "Quando
você vai largar esse vício de escrever livros?". Expliquei
pra ela que não penso em escrever livros, escrevo, apenas, pra sustentar
o vício. "E porque você bebe então?": Outro vício.
Era difícil para Cecília entender, apesar de nos conhecermos
a longos anos e apesar de nunca podermos ficar um longo período
convivendo firmemente. Ela dizia que não gostava das coisas que
eu escrevia e não entendia como eu ganhava dinheiro com aquilo.
Mas ela gostava muito de minhas frases colocadas no meio do sexo, como
a que abre este parágrafo.
"No meio do
caminho, sinto vontade de recomeçar, não por não estar
bom, apenas pra que não acabe logo". Essa foi dita com meu corpo
em cima do dela. Cecília, a bela senhora de anos e anos de latrocínio
emocional aos meus momentos de paz. "Isso é coisa de escritor mesmo".
Era entre esse tipo de análise rasa que ela fazia sobre mim, e minha
instabilidade criativa, que me fazia querer estar com ela. O câncer
já está me destruindo. "Cecília, você é
meu câncer, você está comigo, tirando cada vez mais
alguma coisa". Era bom porque seu senso de maldade a fazia rir, e isso
me confortava na piedade que não fazia de mim. Levantei pra cobrir
seus pés com o cobertor e fui à cozinha pegar mais bebida
e, dessa vez, um charuto também. Ela sempre tinha ótimos
cubanos em seu armário da sala. "Posso?", uma vírgula, era
assim, uma pontuação contínua me fazia deliciar o
fumo ao charuto, as goladas no uísque e a volúpia dela sob
o lençol. O bom era que dava pra ver suas costas nuas. Fantasio,
e chego ao paradeiro que iniciou esse período de minha vida. Um
tropeço para a cova, bem lento e de milésimos repensados
na queda. Nunca fiz mal a ninguém, agora meu uísque está
acabando. "Adoro quando a mesma língua que te dá tanto prazer,
de outra forma entra em você, pela orelha, uma lambida". Essa ela
achou bem grotesca, mas cedeu às carícias. Minha língua
estava gelada da pedra de gelo que havia mantido em minha boca até
segundos antes. "Você não gosta de minhas palavras, mas gosta
de minha língua", ela sorriu, de um jeito sincero e bonito, onde
era óbvio que se entregava cada vez mais a mim por eu ter algum
domínio sob as coisas que dizia. Quando ela falou em casamento,
lá em cima, só queria me amedrontar. Era sempre engraçado
me ver nervoso. O problema é que esses anos todos me fez conhecê-la
bem mais do que ela gostaria. Dormimos, muito bem, eu morrendo, a cada
segundo de sono. Às vezes me forçava a coisas bem duais:
queria ficar acordado para aproveitar mais a vida, e a madrugada, que sempre
me acalentou tanto, e queria morrer logo de uma vez para virar alma penada
e observadora, algo que sempre fui.
Escolhemos
um sofá novo para sua sala. "Você vai ficar até quando
dessa vez?". Talvez o natal, ano novo... porque não passar minhas
ultimas festas de fim de ano ao lado da única mulher que me suportou
a vida inteira? Mas depois iria embora. Sempre vou embora. Nunca me cansei
de ser o filho-irmão-amigo-namorado que chega e vai. Ela, sim, ela,
Cecília, somente ela saberia de minha doença. Não
a escolhi por ser amor, nem por compaixão. Não a escolhi
por aconchego, nem por razão nenhuma. Apenas seria a única
a me ver partindo. Sempre quis assim. Lembro do dia em que nos conhecemos.
Eu, viajando o sertão cearense, e ela saindo de sua cidade para
tentar a vida na cidade grande. Sem nada na cabeça, apenas um dedo
divino que a apontava como um dos expoentes de perdedores que querem sair
do fracasso. Cecília venceu. Emprestando seu sexo, engolindo seco
(sem uísque) e afobando o momento certo de dar um passo a frente.
"Com pressa se consegue". Era um dom apenas dela, eu tentava explicar.
Ela relutava e argumentava me chamando de imbecil. Eu sorria, já
estava morrendo mesmo.
Houve o natal
sim, e comemos peru. Não festejei a entrada do ano novo, mas pedi
por ela. Ela merecia o mundo. Eu acreditava bastante em pessoas vazias,
ela mostrava pra mim que não existe conteúdo quando se trata
de vencer. Fiquei no lado errado do time vencedor. Mas era tarde demais
para esvaziar a consciência de meus desatinos. Esperava pouco de
todos... e muito de mim. Cheguei aqui, sempre fugi e andarei apenas mais
uns metros, enquanto Cecília andará milhas. Não quero
nada de ninguém, tampouco morte. Não é amor, mas apenas
a suave alegria de que não seja Cecília, depois de mim.
Acho que meu
novo livro já tem um nome...
Estes três
contículos fazem parte do livro de contos, "Sexo Grátis,
Amor a Combinar", de Marcelo Damaso |