Flyng
V : Innerspace
de
Cristiano Bastos
ineverdrinkwine@yahoo.com.br
"Drink, Fight and Fuck!"
G.G.Allin
...1980. Enoc, juvenil e
pobretão guitarrista, some da face da terra. A história a
seguir, são relatos deste jovem, vindos do além, e foram
transmitidos por ele mesmo, oralmente, por meio do avançado sistema
Spitz Uranium, um redutor sônico que converte freqüências
anos-luz em mensagens taquigrafadas.
À semelhança do pai,
Enoc era alto, lacônico, invertebrado e quase anoréxico. A
exemplo da mãe, um proscrito. A mais estimada companhia que arrumou
em sua bólida passagem pela terra, foi um negro e reluzente topete,
que lhe dava simetria à cabeça. Para compensar a falta de
talento legada pela mãe, bêbada e azarada, uma pin-up que
terminou a vida se virando na Venezuela, a sua madrasta, a natureza, lhe
muniu de uma fabulosa capacidade de adaptação a estranhas
e máximas realidades. O pai, errático ator de filmes pornôs
sórdidos no auge da guerra fria, aficionado a personagens do Velho
Testamento e a Deuses Astronautas, ejaculara Enoc acidentalmente, durante
tomadas para uma produção cinematográfica de sexo
gang-bang, rodadas em um estúdio portátil.
Em mil novecentos e oitenta os dias
iam e vinham, insensatos, em ziguezague, boogie woogie. Certa feita, amanheceu.
E espertamente veio a tarde, dando no pé com a rapidez de uma amante
noturna que vai embora de manhãzinha e te surrupia todos os tostões.
Quando chegou a noite, Enoc olhou-se no espelho, colocou a franja para
esquerda e cerrou o pulso sinal de que estava pronto para perambular
nas entranhas do perímetro urbano. Antes de sair, esgueirou o olho
esquerdo no retrato de Joan Jett dependurado na parede do muquifo em que
habitava seminua, sexy, fácil , e amou-a. No caminho, entre casas
de alvenaria inacabadas e latidos de cães, não soube explicar,
objetos anexos no céu, as estrelas, lhe lembraram uma canção,
que para ele era a mais emblemática dentre todas: "Baby I fell good,
from the moment i rise! Fell Good from morning, till the end of the day!".
Naquela noite o firmamento estava especialmente crepuscular, travestindo
astros em notas musicais, suspensas em partituras de constelações.
No quadrante esquerdo da Via Láctea, um agrupamento estelar formava
uma progressão de acordes: dó, lá menor, fá
e sol. "Fuckingreat!", maravilhou-se, "o universo é do-it-yourself!"
A cosmonáutica moderna e os
propulsores a jato completaram a cena punk celeste. Um objeto voador, em
forma de bastonete, semelhante ao bacilo de Kock, apareceu cumprindo uma
trajetória espiral. Milionésimos depois estava flutuando
há poucas polegadas do chão, silenciosamente. O ovni abriu
então uma escotilha, e dela saíram feixes infravermelhos
que acertaram Enoc em cheio, sugando sua esquálida estrutura para
uma infalível e magnética sedução luzidia.
Velozmente, todas as suas moléculas se desintegraram como ladrilhos
despedaçando-se e, velozmente, a matéria estava sendo refeita
novamente, pululando na atmosfera como elétrons de raios catódicos
emitidos do tubo de um televisor. Em pleno trânsito molecular, Enoc
ainda sentiu a felicidade de se despedir do gênero humano, que julgava
imprestável e incompatível para ele. Enfim, algo sobrenatural
acontecia, e ele sorriu ao espaço sideral pela primeira honraria
que estava recebendo nos milhares de dias em que caminhava por este planeta
calçando sapatos de terceiros.
Deslizando em círculos vertiginosamente
através de vastas dimensões coloridas, Enoc foi levado a
uma espécie de limbo neutro no espaço, onde permaneceu até
que fluísse novamente para outro plano. Da fluorescência foi
arremessado direto ao interior de uma ampla sala, onde tudo era branco,
sintético, impecavelmente limpo e economicamente decorado. A propagação
de um som, próximo ao displicente rock progressivo da década
anterior (que ele detestava), para piorar híbrido de cold age e
plastic soul, enchia o ambiente de climas com intenções sofisticadas.
Mas ele, no entanto, nada tinha a fazer. Então ficou ali, aguardando,
até o momento em que uma trombeta sintetizada, de péssimo
timbre, soprou, anunciando a chegada de alguém, ou talvez máquinas
inteligentes e malvadas querendo subjugá-lo. Jamais pôde esquecer
o que viu, e que por momentos fez sua euforia parecer uma piada interplanetária.
Um ser mezzo alienígena, mezzo humano , cabelos lambidos, exalando
lavanda e vestido numa roupa de banho estampada com alegres ideogramas
japoneses, materializa-se em frente a Enoc num teletransporte típico
de Irvin Allen. O sujeito calçava chinelas e pitava cigarrilhas.
Sem titubear, ele abriu a boca e disse:
- Caro senhor Enoc, me chamo Telecaster,
e como você já deve imaginar, algo que não é
terrestre está lhe acontecendo. Você já deve ter ouvido
falar de abdução, de pessoas que são submetidas a
experiências com seres extraterrenos malévolos e sem escrúpulos,
não é mesmo? - disse isso enquanto ajeitava sua cigarrilha.
- Ouvi falar... - balbuciou Enoc laconicamente,
mais curioso, na verdade, em saber por que diabos, afinal, ele tinha nome
de guitarras fabricadas na terra.
- Na verdade, não fazemos parte
da desalmada facção de planetas que deseja tirar proveito
dos humanos... - sibilou o ser, largando uma baforada de essências
desconhecidas. Ao contrário, nosso objetivo é causar prazer
à sua raça não dor. Queremos é um tipo de
amizade, uma amizade muito íntima, será que compreende?
- Mas e todos aqueles casos descritos
nas revistas Ellery Queen, de cilindros inseridos nos orifícios
das pessoas e partes do corpo extirpadas como dentes cariados? - questionou
o outsider.
- Ora - disse Telecaster, enquanto
servia um drink de coloração violeta e oferecia a Enoc. -
Isso faz parte de uma opção sexual particular. Nós,
nômades, renegados das mais longínquas plêiades do universo,
obtemos sensações pan-sexuais buscando espécimes diversas
na fauna planetária. Você, meu amigo, é um sortudo,
foi eleito pela minha companheira ¾ gesticulou com o ar blasé
de quem aprecia "observar". - Garanto melhor , dou minha palavra,
que terá a mais significativa experiência da sua vida. Eu,
já não passo de um indivíduo sem forças, estou
liquidado. Minha mulher, pelo contrário, está sempre querendo
mais e mais e mais e mais... Mas ela tem um único problema, no entanto.
Seu maior defeito é a predileção por rock barulhento.
Minha esposa gosta das guitarras apitando o tempo, de sujeitos que quebram
guitarras, de coisas desagradáveis como a versão de "Born
to be Wild" do Slade naquele disco vermelho saca? E eu, entretanto, sou
apenas um pós-pós-moderninho, desses adeptos da new romantic
e da eurobeat. Oh!, este paradoxo está arruinando nosso matrimônio
- lamentou-se, choramingando quase às lagrimas.
- Por favor! - pediu indiferente o
terráqueo, experimentando uma embriaguez sobrenatural em apenas
um gole. - Pode me servir mais dessa bebida azulada? - disse, enquanto
via mini-estrelas supernovas fazerem divertidas picardias ao redor de seu
topete, sem dar a mínima para a miséria de Telecaster.
- Com certeza, meu jovem. De agora
em diante, este será um templo de luxurias cósmicas só
para você. É só pedir, e terá. Mandarei vir
minha esposa - e assim Telecaster retirou-se da mesma maneira como havia
surgido.
Enoc, meditando, concluiu que aqueles
seres eram uma espécie de milionários do espaço. Magnatas
extravagantes que bebem champanhe no café da manhã. Uma sub-raça
de alienígenas libertinos em busca de contatos imediatamente promíscuos.
Estava aí a grande chance de sua vida. Tinha que dar o golpe. A
especialidade dos pais corria nas suas veias, e não podia escapulir
disso.
- Abdução. Este é
o estilo de vida definitivo. Dessa vez, quem vai enfiar algo neles sou
eu. Ser abduzido pode até ser legal, mas abduzir é melhor
ainda! ¾ maquinou.
Enquanto esperava a chegada
da vassala sexual intergaláctica prometida por Telecaster, do vácuo
um horripilante estrondo penetrou como uma agulha nos seus tímpanos.
O corpo sonoro vibrou e reverberou muito alto. Em seguida, amplificou-se
docemente na silhueta de uma entidade quase poética, vaporosa, envolta
em sedas transparentes, remetendo Enoc à sensação
de leveza e melancolia causada pelo outono nos dias refestelantes que antecedem
o inverno. A moça tinha feições assustadoramente humanas,
com a exceção dos peitos e do traseiro. Ao invés de
seios, dois cones pontiagudos sustentavam-se horizontalmente na altura
do tórax, dando a ela classe e um rígido designe extraterrestre.
Nas parte superior das nádegas, alinhadamente robustas e carnudas,
esculpia-se um pequeno e sensual rabo. Ela levava consigo uma guitarra
modelo Flyng V, prateada como Marc Bolan naquele Velho vídeo de
"Children of the Revolution". Um misto de ereção e repulsa
apoderaram-se do astronauta Enoc. A garota, finalmente refeita, apresentou-se,
gracejando em boas-vindas:
- Sou Loraine. Quiche Loraine, e
sou ligada em aventuras anos-luz e rocknroll. "Não me importa
quanto combustível possa gastar para encontrar novos amantes, desde
que os encontre" este é o meu lema. Seu planeta, porém,
ainda é muito mesquinho para o clamor e a plenitude do sexo - condenou.
- Ainda assim, sinto-me atraída por alguns de vocês, especialmente
pelas qualidades naturais que têm, como desempenho e exotismo. Ilustres
terráqueos, até hoje julgados desaparecidos, na verdade vivem
conosco, e se sentem mais felizes aqui. E-n-o-c... - pronunciou sensualmente
-, justamente por isso você foi capturado. É um cara de sorte,
pois não será apenas um títere ao meu governo. Estou
à procura de amor, mas só o rock o rock, captou? é
sobre amor. Faça parte da banda que estou montando, The Pretty Cosmic
Things of Love. Um grupo para levar ao universo a catarse das guitarras
com potência sônica jamais sonhada: Punch! Abduções
da platéia! Riffs cáusticos! sodomia! Amor! ¾ exaltou-se,
por pouco não desfalecendo num terno gozo.
Eis que nesse exato momento, ressurge
Telecaster. Num átimo imperceptível, sumariamente, Loraine
empoe a Flyng V e a pluga em um robusto amplificador valvulado, ajustando-o
na regulagem máxima. Em um ato de insânia e sanguinolência
desmedida, a garota do espaço desfere uma implacável pancada
com o instrumento na cabeça do pobre alienígena.
Telecaster, por tratar-se de um sujeito
anódino ao rock e as atitudes dele depreendidas, terminou sacrificado
em virtude dessa música violenta praticada com ardor pelos humanos.
Da cabeça rachada do alienígena, estirado e sem vida, afloraram
miolos verdes, semelhantes a fitoplânctons, que jorraram como lavas
e quebraram a harmonia asséptica do ambiente. Da guitarra despedaçada
zuniram ruídos viscerais e mortais, como petardos, ecoando muito
alto e excruciando os ouvidos de Enoc. Ironicamente, Telecaster acabara
morto e imolado por uma Flyng V.
- Pronto. Já podemos começar
nosso ensaios - conclamou Loraine, com um meio sorriso de satisfação.
- Sim belezoca, mas quem cantaria
na Pretty Cosmic? - quis saber Enoc.
- Elvis Presley, respondeu a algoz.
- Elvis não morreu, foi abduzido.
- Sempre pensei que Elvis tinha morrido
por causa de barbitúricos - disse confuso o terráqueo.
- Abduzimos ele quando isso estava
bem pertinho de ocorrer - foi o que teve como resposta.
Subitamente, outro teletransporte
começou a se incorporar na nave. Primeiro, micropontos de matéria
começaram a fervilhar na atmosfera. Logo, veio uma cabeleira negra,
seguida de um rosto escondido em óculos escuros com aros ao
estilo de Buddy Holly. Um terno vermelho bem cortado e uma camisa tecida
em fina malha, trouxeram juntos a metade superior de um corpo. As calças
eram pretas, e de pregas. A seguir, sapatos bicolores, preto e branco
brancos em cima e pretos nos lados , sapatos de rocknroll, completaram
a configuração. O cara tinha elegância. Era ninguém
menos do que o Elvis Presley. A abdução devia ter feito bem
a ele, a julgar pela boa forma, como nos tempos de "Blue Sued Shoes" e
"Hound Dog", quando ainda não estava metido com bolinhas. Elvis
ficou ali, calado e cordial, querendo permanecer cool e guardar sua garganta
para o momento exato.
- Quem vai tocar bateria? ¾
foi a dúvida de Enoc.
- Já vai saber.
Nova materialização.
Desta vez, um indivíduo de meia estatura e atarracado apareceu.
Era menor, portanto sua materialização foi mais rápida.
Quando viu de quem se tratava, Enoc foi às lágrimas. Mais
um milagre se descortinava, e ele entendeu que milagres, no fim das contas,
são apenas a interferência de mundos na realidade de outros
mundos. Nesse caso, a abdução era o milagre. Enoc iria
tocar com seu maior herói: Keith Moon. O baterista veio sorrindo,
com as baquetas em punho, e logo perguntou:
- E aí, velhinho, como vai
Pete, Ray, Ringo Starr e toda moçada?
- Infelizmente, estão todos
demodés - sentenciou Enoc. A onda agora é tecnopop.
Cristiano Bastos
é um dos autores do livro "Gauleses
Irredutíveis" |