A prisão do tempo.
Rui Werneck de Capistrano

Prenderam o tempo. Também conhecido como raio, tempestade, vento, zás-trás, saudade.
Acusação: passar muito depressa.
E a turba exaltada gritava "cruel! Sem coração! Insensível!"
Atrás das grades de ouro, sob a cúpula de cristal, o tempo estável aguardou o julgamento. Paradoxalmente, parecia não ter pressa. Não disse palavra que pudesse voltar contra.
Formaram o júri: os doze meses.
O advogado de defesa tentou impedir setembro, sob alegação de prenúncio de felicidade primaveril. A promotoria juntou provas e testemunhas.
Tudo caminhava, fluia.
O grande júri tomou conta de todas as conversas: choverá? Esfriará? Teremos enchentes? E o outono derrubará folhas moribundas? O jogo de ontem teve prorrogação? Que calor, heim?
O dia do julgamento começou instável, com nevoeiro, visibilidade moderada.
Os lugares do tribunal foram tomados num átimo.
O abafado ambiente murchava relógios.
E começou a sessão, em cima do horário marcado. O tempo tomou seu lugar.
As palavras do advogado e do promotor mostraram, respectivamente, evidências de defesa fácil e morte por asfixia.
A sucessão de testemunhas de acusação parecia um imenso cortejo subindo a estrada que serpenteia uma íngreme montanha.
Chamaram primeiro as quatro estações. A primavera denunciou a impossibilidade de mostrar, em menos de quatro meses, toda sua exuberância nas flores. O verão viu, ainda  com olhos quentes, a praia ficar vazia e as crianças tristes na escola. O outono se queixou de estar espremido e indefinido entre duas poderosas forças: o verão e o inverno. O inverno, por fim, queria mais consistência no clima, temperaturas mais baixas e a chance de alegre neve em todo o planeta.
Vieram os relógios e os cronômetros. E veio a ampulheta. Os relógios estavam apreensivos com a infelicidade do homem na escolha das centenas de modelos. Qual o mais preciso? Digital ou analógico? De grife? Importado ou nacional? Grande, pequeno ou médio? Verde ou roxo? Os cronômetros queriam registrar milhonésimos de segundos. A tecnologia cada vez mais rápida, exigente e inócua. A ampulheta salientou que podia sair das casas de antiguidades e das mesas de empresários saudosistas. Ela achou que era mais interativa, palavra da moda.
Chamaram o Sol e a Lua. A pergunta dos dois: por que não podiam reinar no céu ao mesmo tempo? Desejo poético sem função.
Um a um, os dias prestaram depoimento. Só 24 horas, oras? As semanas queriam aboliar a segunda-feira, aumentando os dias restantes para 48 horas. Os minutos reclamaram da sua exígua presença na lembrança. Coisa que os segundos acharam demais. Eles tinham que completar só sessenta para que o minutos existisse. Por que não 120?
O mais concorrido dia foi aquele em que chamaram o presente, o passado e o futuro. Quem deporia primeiro? O juiz pediu recesso. Impôs respeito. O tempo voltou pra cadeia. Dez dias de pausa. Os jornais do dia queriam ver sangue. A tevê dava boletins de hora em hora. As rádios tocavam músicas no intervalo das notícias sobre o tempo.
Por antiguidade, o passado depôs primeiro. Não sem a interferência do futuro, que se achava com muito mais potencial. O passado foi saudosista, apelativo, piegas, dramático e até esquecido. Lembrou, relembrou e recordou. A platéia cochilou em alguns momentos mais pesados. Enfim, o passado queria estender mais os seus domínios no quintal do presente, com um olho no celeiro do futuro. O presente levantou exaltado. Mas, quando terminava uma frase, o passado gritava: “Isso já é passado!” E dava com a encarquilhada mão no ar. A interferência do futuro não levou a lugar algum. Ele tentou alardear a presença da esperança na platéia. O passado ria, zombando, e contabilizava tudo.
Foi preciso que o juiz pedisse a anulação desses testemunhos sob pena de pôr fim ao julgamento.
O tempo, do seu lugar, olhava tudo impassível. E passava.
Foi chamada a testemunha-chave, a sala se agitou e o martelo tudo silenciou. O homem entrou, jurou dizer a verdade, sentou-se. Ele não pôde falar muito. Esperava já há 80 anos para depor. Olhou a sala com olhos úmidos, levou a mão à plumagem rala e branca da cabeça, suspirou.
"De que me valeu todo esse julgamento? O único interessado nele era eu. Relógios, primavera, passado, sol e esperança de nada adiantam sem mim. E só agora é que fui chamado. Não quero mais muita coisa. Enxergo pouco, como pouco, ando menos ainda. Já sei de tudo do passado e ele morreu pra mim. O presente me foge a cada minuto. E o tempo está soberano, mesmo preso. Ele passa, evapora, venta, chove e não me traz alívio nem um vislumbre do que poderia ser. Soltem o tempo. Retiro meu testemunho de acusação. Quem puder acompanhá-lo de perto, que o faça, e bem. Que veja a primavera no que ela apresentar de cores e perfumes, que respire o verão em todo céu azul e agarre o minuto a que os segundos dão vida como se fosse sua prória vida."
O homem morreu ali. O julgamento foi suspenso. O tempo libertado levou tudo, arrastou tudo e a lembrança amarga desse dia. Até que a imensa boca sem saliva de um buraco negro absorveu ainda mais: o tempo, o espaço, a lembrança perdida e a sobrevida do esquecimento.