Café
Sangria
por
Marcelo Damaso
madamaso@terra.com.brr
Primeiro era a pressa, vontade de
sair correndo dali, passar por todas as avenidas com sinal vermelho, atropelar
gato, cachorro, pedestre e o que aparecesse pelo caminho. Foi quando consegui
sair da avenida e pegar uma transversal que me levou para a auto-estrada.
O porta-malas fazia muito barulho, estava carregando um corpo pesado. Ana
tinha mais de 100 quilos. Depois veio o desespero, a mão molhada
de sangue, frio, vidros embaçados e o grito da sirene, bem distante.
Parei o carro dentro de um estacionamento que dava visão para a
avenida. Passou um caminhão de bombeiros às pressas.
Neurose semelhante à síndrome do pânico, dessa vez
eu tinha do que fugir. Segui adiante, e adentrei auto-estrada. Onde somente
a lua iluminava, eu via árvores distantes da pista. Eram árvores
enormes, apenas as penumbras negras que remetia a mais desespero ainda.
Chorei, assassinos choram com a noite. O carro que eu dirigia era veloz
e não despertava muita desconfiança. O carro era a minha
cara. Pensei em como me desfazer do corpo, tirar as manchas de sangue e
dar rumo pra minha vida. Não a matei porque quis. Estava apenas
querendo fugir urgentemente daquela situação que o demônio
havia me metido. Medo. Senti medo de atirar nela. Foi difícil. Minha
primeira vez com arma de fogo. Primeira morte causada por mim. Eu nunca
quis o mesmo que Ana, e ela parecia se importar com finais românticos.
Eu a amava.
Eu já dirigia a auto-estrada
em direção ao Estado de Minas Gerais há 4 horas, iria
até a casa da Lurdes no interior do Tocantins, eram 3 estados para
atravessar pensando em Ana. Ela estava comigo, não da forma que
eu queria, mas estava lá. E eu concentrado na estrada, o frio ajudou
a manter seu corpo no meu porta-malas. Estava indo à casa de Lurdes,
pois ela seria única pessoa a me ajudar. A única que
poderia me tirar dessa obsessão. Ela foi quem falou que o demônio
entraria em nossas vidas. Ela era a única com explicações
para meu transtorno.
Ana e eu nos conhecemos na inauguração
do pátio central de prédio em que eu trabalhava. Ela foi
a arquiteta responsável pelo projeto. Era enorme de gorda, mas com
alguma beleza que não pude perceber de imediato, e nem agora consigo
explicar. Já era madrugada na estrada e eu dirigia sem parar. Tanque
cheio. Pararia em menos de 20 minutos. Ainda havia muito tempo para refletir
sobre aquilo. Lurdes era vidente, colocava cartas e fazia despachos. Me
disse para procura-la em Gurupi. Eu nunca havia ido ao Tocantins, mas sabia
como chegar lá. Coloquei a fita de John Lee Rooker no carro, ele
era a trilha sonora para casos de intervenções do demônio,
encontra-lo numa encruzilhada não seria nada autêntico. Ele
não iria aparecer mais, já tinha cumprido com seu papel.
Parei o carro no posto e pedi para
o frentista completar o tanque. Eu fiquei por perto, esperando que ele
não percebesse nada. Meu rosto demonstrava algum nervosismo, mas
o frentista em nenhum momento desconfiou de alguma coisa. Entrei na lanchonete
do posto, comprei mais cigarros e uma garrafa térmica, na qual enchi
de café. Voltei à estrada e comecei a pensar nos minutos
que antecederam os tiros que dei em Ana. Nós vínhamos brigando
há três meses, Ana andava nervosa demais comigo, devido seus
problemas do escritório e minhas consecutivas puladas de cerca.
Não sei porque ainda estava com ela. Eu tinha medo de a perder,
a amava muito, mas não conseguia mais estar ao seu lado. Seu corpo
nunca me atraiu, e eu saia com prostitutas de luxo. O dinheiro que eu ganhava
no escritório era empregado no aluguel de meu apartamento, nas prestações
do carro e nas trepadas com Scott Girls. E ainda assim sobrava dinheiro.
Ana não sabia de nada, se sentia infeliz por eu não fazer
mais amor com ela. No fatídico dia, estávamos jantando e
contei a ela que eu iria deixa-la. Ela se desesperou e me jogou o prato
no rosto. Eu perdi o controle e saquei a arma. Ela tentou me acovardar
com palavras de baixo calão, mas eu estava disposto a mata-la ali,
naquele momento. Nada na minha cabeça funcionava, apenas a ânsia
em apertar o gatilho. E o jeito com que ela me olhava fazia acelerar meu
impulso. Eu sempre fui um covarde, e ela sempre me colocou pra baixo ao
afirmar isso continuamente. Nesse dia eu atirei, apenas atirei em seu corpo
gordo. Seu rosto demonstrava surpresa ao ver as balas saindo. O chão
de sua cozinha ficava mais vermelho a medida em que eu descarregava minha
covardia em sua direção. Depois de ter parado de atirar.
Tomei, de uma talagada só, meu café que estava sob a mesa.
Me queimou a garganta. A taça de vinho com pedaços de laranja
que ela tomava (sangria), foi a única a me olhar e ficar intacta.
Sangria me flagrou, o café me queimou. Volto pra estrada e percebo
que o sono agora me acompanha. John Lee Rooker no toca-fitas. Mais um dia
e meio de estrada para decidir o que fazer com minha vida, e com o corpo
de Ana.
Uma tarde nublada na estrada é
um excelente elixir para pessoas em crises fortes. Eu ainda não
estava com crises fortes, sofro de síndrome do pânico, mas
agora estou calmo. Quando eu parava na pista pra mijar, a sensação
era incrivelmente boa. Tiveram momentos em que esquecia do mundo, mijando
ali, debaixo da árvore. Esquecia do meu emprego de merda, da minha
doença e do corpo morto e quase podre de Ana.
Não senti fome em nenhum momento,
por isso a viagem se tornou menor do que deveria ser. Não parei
pra almoçar e cheguei a casa de Lurdes ainda de dia. Gurupi é
uma cidade de beira de estrada. A casa de Dona Lurdes ficava bem afastada,
todos ali a conheciam, foi bem fácil.
- Oi dona Lurdes.
- Oi meu filho, você veio...
- A senhora deve imaginar o que estou
fazendo aqui.
- Imagino não, eu já
vi, você a matou.
- Sim, não era a minha intenção.-Pela
segunda vez eu chorei.
- Eu sei. Entra e coloca seu carro
lá atrás.
- O que nós vamos fazer?
- Primeiro vamos nos desfazer do
corpo da sua senhora.
- Ela não era minha senhora.
- Era sim.
Dona Lurdes nunca me intimidou, apesar
de toda minha covardia eu confiava naquela mulher satânica. Ana me
intimidava, sem nunca ter sido uma mulher ruim, ela me intimidava com seu
ar de mulher sofrida e mal amada. Dona Lurdes queimou o corpo de Ana. Pedi
para não ver. Ela contou com a ajuda de duas mulheres negras que
dividiam aquela chácara com ela. Elas queimaram o corpo, eu fiquei
na frente de sua casa fumando meus últimos cigarros. Gritos, cantorias
e fumaça vinham do terreiro em que elas estavam. O cheiro da fumaça
do corpo de Ana me tranqüilizou. Meu carro ainda fedia a sangue. Peguei
um balde com água e uma escova na casa de Dona Lurdes e fui lavar
o carro. Sem vestígios. Sem cheiro, sem corpo e sem o demônio.
Dona Lurdes colocou cartas pra mim
antes de eu ir embora. Paguei-a, me despedi e fui para um hotel na cidade.
No dia seguinte eu tratei de vender o carro e saquei todo meu dinheiro
no banco. Pedi para minha secretária enviar o passaporte e disse
que estava indo a França passar uns dias com Ana. Assim, uma viagem
repentina. Ela “nos” desejou boa viagem e se despediu. Fui até Brasília
e comprei uma passagem para Caracas, na Venezuela. Dois dias em Brasília
não me fizeram refletir nem me arrepender de nada que havia feito.
Estes dois dias me deixaram apto a exorcizar todos os meus medos e seguir
com minha vida.
Cheguei em Caracas e tomei um táxi
no aeroporto. Pedi para o motorista me levar a um hotel, mas antes o convidei
para tomar alguma coisa num bar comigo. Ele não aceitou.
Parei no bar e sentei no balcão.
Em vez de café pedi sangria. Uma chicana sentada ao meu lado perguntou
de onde eu era. Falei que era brasileiro e ela sentou mais perto. Uma venezuelana
linda demais. Sentiria prazer em dormir com ela, não me apaixonaria
em nenhuma ocasião. Paixões me trazem muitos problemas. O
barman me serviu a bebida e brindei com ela.
- Quiero hacer un brindis
a una persona que partiò.
- Quien?
- Ana.
- Sí.
- A Ana.
- A Ana.
FIM
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