Provocações
de
Bruna Abreu
— Você sentiu minha falta?
— Desculpe.. não.
Sempre odiei ser desprezada. E ele
sabia fazer isso como ninguém. Não adiantava ser sexy, bonita,
inteligente. Talvez fosse a idade... Eu era dois anos mais velha. Lá
se vai outro maço de cigarro. Esse sim, nunca me abandona. Marco
era muito feio. Tão feio que parecia mais velho. Só a voz
indicava sua idade. No começo achei que ele fosse bicha. Era muito
delicado e fumava Malboro Light. Só bicha fuma Malboro Light. Mas
resisti a tentação e fugi dos estereótipo.
— Estou apaixonado. Uma garota que
fiquei no Freejazz.
Fiquei puta. Ciúmes, vaidade.
Não dou a mínima para ele. Não passa de um imbecil
prepotente que acha que sabe escrever. Na verdade sabe, melhor do que eu.
Mas com menos intensidade. É um baita covarde. Sabe que esses dias
se recusou a me ensinar a usar cocaína. Deu uma de bom moço:
— Não. Depois você fica
viciada e eu vou me sentir culpado. Arranja outro professor.
Filho da puta! Pura covardia. Tem
medo de chegar perto de mim. Acha que sou fácil, talvez pense que
sou sapatão. Pouco importa.
Puxa, como é bom fumar. O Rubem
Braga dizia que não dá prazer, só faz falta. Para
mim é tão bom quanto cagar. Me acalma, me sinto mais leve.
E também um gosto horrível de tabaco na boca. É a
única merda em fumar.
Bem, pelo menos eu não fumo
Malboro Light. É covardia, Malboro Light... De verdade gosto um
bocado do Marco. Tem jeito de amigo, aqueles caras que podem ser companheiros
o resto da vida. Do tipo que você pode dividir uma dor de barriga.
Ouso crer que eu roeria minhas unhas do pé em sua frente sem o menor
constrangimento. Ninguém gosta de me ver roendo as unhas do pé.
Dizem que é falta de higiene, mas sempre fiz isso. O pé é
meu mesmo. Acho que ele não acharia estranho.
Sempre que converso com ele, sou
taxada de compulsiva, obcecada ou coisa do tipo. Ele vive me dizendo que
tem medo de mim, porque sou descontrolada. O mais engraçado é
que fiz tipo para ele. Queria que ele achasse que sou como os personagens
de seus contos. Daí inventei um bocado de histórias. Tipo:
sou viciada, já me prostituí, adoro sexo, bebo e fumo de
montão.
Pura porcaria, invenção.
O máximo que faço é fumar nas horas em que estou nervosa.
Se vivo, não passo de 10 quilometros por hora. Sou uma baita medrosa,
cagona mesmo. Mas acho que não vai adiantar tenta-lo convencer a
essa altura. Num dia desses, ele pegou o elevador comigo. O cara ficou
com tanto medo que quando o elevador encheu ficou na outra extremidade.
Acho que nunca menti tão bem. Ou ele é um boboca pouco observador.
Sempre o provoco perguntando se ele
sente minha falta ou se toparia ser meu amigo para resto da vida. As vezes
ele fica um bocado bravo. Diz para eu parar com essas histórias,
que eu tenho namorado e tal. Ele pensa que eu estou a fim dele. Que nada!
Ele é meu amigo e só.
Um dia ele assumiu que se sente atraído
por mim. Foi bem engraçado. Ele disse que tinha bebido absinto,
uma tal bebida com uma porcentagem muito grande de álcool. Quando
ele começou a falar de sexo, estranhei. Nunca vi alguém se
recusar a falar de sexo como ele. É um verdadeiro tabu. De repente
ele falou que gostaria de por as mãos em mim. Foi muito engraçado.
Dias depois ele tratou o assunto como um puta segredo. Besteira.
Bruna Abreu
é jornalista desempregada, fã de Gay Talese e Truman Capote
e quer muito ser uma escritora
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