O Monstro
do Armario
de
Paulo Marinho
p_marinho@uol.com.br
João Paulo acabou o dever de
casa. Já estava com sono. Estava dormindo muito mal nas últimas
noites. Desde que viu um capítulo de um desenho d'Os Caça
Fantasmas, onde apareceu um monstro que vivia dentro do armário.
O monstro vivia em outra dimensão e tinha vários braços,
dentes afiados e uma aparência terrível. Ele queria ser igual
ao Peter Venkman quando crescesse. Ele era engraçado, legal, e tinha
um jeito com as garotas. E o melhor de tudo, ele sempre pegava os fantasmas
e salvava seus amigos quando eles estavam em apuros.
Mas ele não precisava ser o
Peter para ficar livre dos fantasmas. Ele tinha seu cobertor mágico.
Seu pai deu-lhe no dia em que estava com medo do tiroteio da favela ao
lado da casa. Ele achou que eram meteoros caindo , igual ao filme que seu
irmão o fez ver. Seu pai falou que ele nãoprecisava ter medo
de mais nada, pois aquele cobertor era mágico. Ele era igual o do
garoto de um desenho que o pai dele via, Snoopy. Disse que, assim como
ele dava sorte ao garoto no desenho, ele ia protegê-lo de qualquer
coisa.
Cobriu-se e foi dormir. Começou
a sonhar com o jogo de futebol do dia seguinte. Ele estava jogando muito,
tinha feito um gol de bicicleta, mais bonito que qualquer um que já
viu. Olhou para o lado do campo e lá estava a garotinha ruiva, Aline,
que ele gostava. Ela sorriu para ele e mandou um beijo. Os amigos foram
abraça-lo comemorar um gol. Escutou um grito. Era a garota sendo
pega pelo bicho papão. Ele colocou-a dentro de um saco. João
berrou. O bicho olhou sorridente para ele, apontando-o com um de seus vários
dedos em uma de suas várias mãos. "Você é o
próximo" – sentiu em sua cabeça. Escutou também o
berro de sua mãe vindo de algum lugar.
Sentou-se repentinamente na cama.
Continuou a escutar sua mãe berrando. Pensou em berrar, mas apavorou-se.
Seu pai também berrava. "Somos só nós, nosso filho
está viajando!", escutou. Seu boneco de astronauta de um filme parecia
estar com um laser apontado para ele, com um sorriso maroto na cara.
Novamente, cobriu-se e tentou ignorar
o som. O cobertor mágico ia salvá-lo. O bicho papão
pegou seus pais, mas não ia pegá-lo. Tentou, tentou e não
conseguiu. Olhava por um espaço entre o cobertor e a cama sua porta
encostada. Uma sombra foi se aproximando. "Não, ele não!",
berrava sua mãe, bem abafado. A sombra parecia enorme, magra e alta.
Escutava sua nova empregada falar algo bem longe. O bicho papão
já devia tê-la pego.
Conseguiu ver o rosto do monstro.
Ele não era como no desenho. Mais parecia um adulto. Mas ele era
um monstro: não tinha olhos nem cabelos, tinha uma pele escura e
como que listrada, semelhante a um tecido. Um nó no topo da cabeça,
como se tivessem-na arrancado. Mas a boca o amedrontou. A boca parecia
estar por detrás desta pele. "Tem alguém aqui?", falou a
boca ao entrar. Conseguiu ver que , ao contrário do desenho, este
monstro não tinha vários dentes, nem os da frente.
Cobriu-se de novo e tentou pensar
em seu aniversário de 10 anos que seria na semana que vem. Ia ganhar
um álbum novo do É o Tchan. Sentiu uma mão procurando-o
na cama. A mão pegou sua perna pelo cobertor. Desejou ao máximo
que o cobertor o protegesse. A mão soltou-o logo e escutou: Fique
quieto e nada te acontecerá. Tentou controlar sua respiração
e se acalmar. "Você é um bom moleque, vai ficar quieto.",
disse a voz gutural.
Sim! O bicho papão só
pegava meninos maus. Ficou ali, quieto, estudando os sons. Barulhos de
coisas caindo e alguma se quebrando. Deviam ser seus brinquedos. "Isto
meu garoto deve gostar", falou a voz. Escutou os passos se distanciarem.
Olhou por um novo espaço e viu que o bicho não tinha mãos,
mas um metal reluzente. Que bicho papão moderno, pensou. E ainda
tem um filho!
"Fique na paz aí, durma,que
tudo vai ficar beleza, bro.", falou a voz. Não entendeu muito, mas
preferiu ficar quieto até a sombra sumir. Os passos iam sumindo.
Escutou uma porta batendo e uma correria. Dois barulhos altos, como os
meteoros que jurava ter escutado há tempos. "Meu filho!", berrou
sua mãe. Lembrou-se de Peter. O que Peter faria?
Cobriu-se com o cobertor como uma
capa, levantou-se e pegou seu cavalo de madeira. Há quanto tempo
não o usava para algo. Segurou-o como uma espada, como viu em alguns
filmes e desenhos, e saiu do quarto. A urina começou a descer por
suas pernas trêmulas. "Meu filho!Onde você está?", berrava
sua mãe do quarto de vestir. Andou para lá vagarosamente.
"Mãe?", perguntava baixo. Entrou no quarto e viu várias roupas
no chão. O terno de seu pai, o vestido de casamento de sua mãe.
Um pacote, rasgado, do tamanho de um cd com um cartão colado dizendo
: "Com amor, de seus pais". "Mãe?", perguntou. Ela berrou. O som
vinha de dentro do armário. Ele devia estar prendendo-os lá!
Enfrentou seu medo e abriu o armário.
Lá estavam seus pais. Sua mãe com as mãos e pés
amarradas com uma saia e um vestido. Seu pai dormindo, com sangue escorrendo
da testa. "Meu filho", disse a mãe, pulando para perto dele. O garoto
pegou o cavalo e bateu no fundo do armário. Nenhuma passagem secreta
para a casa do bicho papão. Agora ele já fora. Já
levara a menina malvada da casa, a nova empregada.
Enquanto desamarrava sua mãe,
seu pai acordou. "Aquela filha da puta, quem era aquele cara que veio falar
com ela?", resmungou ao acordar. Seu filho pos a mão em sua boca.
Seus pais vieram abraça-lo. Ele cobriu a todos com o cobertor. "Tudo
ficará bem, gente. O bicho papão já se foi.", disse,
caindo no colo da mãe. |