"Apartamento 23"
de Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br

Era uma noite de outubro fria e agradável a primeira vez que entrei no apartamento 23. Já a conhecia de uma instância anterior em um aprazível bar de Taubaté, havíamos trocado telefonemas durante a semana e, empolgados, combinamos de nos encontrar no apartamento 23.

Naquela noite, ao apertar o botão do interfone (quebrado), já sabia que estava iniciando algo que não poderia ser detido até que se consumisse. Era minha entrada ao mítico e maravilhoso mundo das repúblicas estudantis. Dele sempre ouvira falar, e de suas aventuras ora queria participar, ora fugir com ojeriza. O fim da família instituída e o começo da loucura universitária igualmente institucionalizada. O êxtase permanentemente renovável e intenso. As festas. As garotas. As bebedeiras. Até as drogas, as sombrias e nebulosas drogas, que me intrigavam, ex-seminarista de família respeitável, mas não me interessavam, tudo isso fazia e faz parte do imaginário coletivo das repúblicas. E lá estava eu adentrando a esse mundo por uma porta com dois números de metal afixados lado a lado nela: 23.

Saímos, eu e a garota, naquela mesma noite. E após um breve colóquio em um bar das proximidades, retornamos ao apartamento, situado em famigerado edifício de arruaças e farras estudantis memoráveis para os participantes e inacreditáveis para os que somente "ouviam falar". Ao aproximarmo-nos do prédio, crescia em mim a sensação orgiástica que, eu tinha certeza, tomaria conta da noite.

Passadas algumas horas, minhas expectativas estavam frustradas, mas eu não. Do sexo irrefreável que havia julgado que viveria, nada aconteceu. Educadamente, a garota estabeleceu seus limites mais restritamente do que qualquer um acreditaria. Principalmente porque os respeitei, os limites e a moça. Semanas mais tarde descobriria que o comportamento reservado era não só uma nuance de caráter, mas principalmente uma forma de "testar as intenções" do pretendente - eu. E que, após a aprovação no teste, ela me concederia prazer físico e emocional como jamais conheci, superior a qualquer disparate libidinoso que eu pré-concebera naquele onírico e impraticável mundo das repúblicas. Conheci esse mundo do meu imaginário depois e meu desejo por ele se consumiu antes mesmo que eu o adentrasse. Mas da entrada no apartamento 23 e do mundo que ele me abriu, para um prazer pessoal, único e reservado a nós dois, certamente nunca mais me esquecerei.

Leonardo Vinhas, 22, é autor do livro “As Pérolas que Enriquecem os Porcos”.