Pela Estrada à Fora
por Alexis Peixoto
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Eram exatamente 15:00h quando saí de casa. Havia parado de chover, mas o sol ainda estava encoberto por algumas nuvens. O ônibus não demorou, felizmente. Eu já estava meia hora atrasado.

Dentro do ônibus havia poucas pessoas. Só uma senhora e um sujeito com jeito de policial. Sento-me atrás da senhora, mais ou menos na metade do ônibus.

E lá estava eu... Sentado, dentro de um ônibus, mochila nas costas, camiseta e calça jeans. No Walkman, Radiohead. Assim que eu entrei no ônibus a chuva recomeçou. Um verdadeiro toró, como diria minha avó. As pessoas na rua corriam para se proteger da tormenta, mas era impossível não se molhar. E eu lá dentro, sequinho. Talvez devido à trilha sonora que me embalava naquele momento tão cinzento, comecei a pensar em como vivem aqueles que tem menos que eu. 
Eu sou rico. Mas não porque tenho dinheiro, mas sim porque tenho bons amigos, uma família sem complicações, acesso a cultura que pouquíssimas pessoas tem... Financeiramente sou apenas mais um cidadão de classe média, mas tenho todos esses outros valores que me fazem sentir milionário. 

 Nessa hora sobe no ônibus um montão de gente, todos encharcados, menos um cara mais ou menos da minha idade, que está todo arrumadinho. Todo mundo molhado, como se tivessem dado um mergulho na Lagoa Azul, e o cara todo sequinho, ensacado. O cabelo parecia que tinha sido colado na cabeça, de tão lambido. Com ele sobe uma loira. Lindos olhos azuis, rostinho angelical... O tipo de garota que qualquer cara, comprometido ou não, daria um dedo só por alguns minutos de conversa. Ela também está seca e toda arrumada. O cara sorri sem parar, encarando todo mundo que está no ônibus. Ele parece dizer "Olhem para mim, vejam eu estou com uma garota". Ela não me parece muito feliz. Talvez saiba que ele a está exibindo como um troféu. De repente, o cara para e fica me olhando e sorrindo. Eu olho de volta com cara de quem não entendeu, e ele sorrindo feito um idiota. Aí quando ele chega perto é que eu percebo que a merda já está feita. Ele me aborda.
- Jonas? 

- Sim...  - já havia reconhecido a figura, mas me fiz de desentendido. 
- Samuel! Do Imaculada Conceição!?
Faço uma cara de quem está tentando se lembrar de alguma coisa
- Ah, mas claro! Como está rapaz? – respondo sem muito entusiasmo.
- Bem, bem... Muito bem, hehehe – disse isso fazendo um leve movimente de cabeça em direção a loira.
- Samuel... – Ela fala com a voz mais linda que já ouvi,
- Ah, essa é a Regina... Regina, Jonas, Jonas, Regina...

Rápida apresentação e eles vão se sentar no fundo do ônibus. 
Engraçado, eu não via esse cara desde a 5ª série... Como é que ele lembrou – se de mim? Estudávamos na mesma classe, é verdade... Mas eu devo ter falado com ele umas quatro ou cinco vezes durante todo o ano em que estudamos juntos. E o desgraçado ainda se lembrou de mim. Aposto que se ele estivesse sozinho, não teriam nem olhado pra mim, mas ele tinha que exibir sua loirinha. Não deveria ser assim. Tipos como esse me enojam, de verdade. Aumento o volume do Walkman e fico alheio a todos os ruídos externos. Fecho os olhos e relaxo.

Só me dou conta que algo está acontecendo quando a senhora na minha frente grita ´"Ai Meu Deus!"  num volume tão alto que sinto um arrepio na espinha. Abro os olhos e sou forçado a tirar o fone diante da cena.
Em pé, logo após a roleta está um homem. Ele deve ter uns 25, 26 anos, veste uma camisa de algum time de futebol que não sou capaz de identificar, bermuda jeans e chinelos. Os cabelos desgrenhados e castigados pelo sol, os dentes podres, a arma que ele segura na mão esquerda são como a visão de uma besta mitológica, saída de um grande livro de histórias. È muito chocante, não consigo crer no que meus olhos vêem. 

- Ó, se todo mundo ficar quietinho eu não uso isso aqui não, falou? 
Ele tira do bolso uma sacola e vai passando para que os passageiros coloquem seus pertences. A sacola passa por mim e eu coloco meu walkman e alguns trocados que eu tinha na carteira. Depois que ele passa por mim eu noto que na fileira de cadeiras oposta a minha, umas duas cadeiras à frente, o homem com jeito de policial se prepara para agir. Ele se mexe um pouco na cadeira e vejo uma arma em sua mão. Ele só pode ser da polícia, aposto que é cabo e se chama Torres... Ou Pereira, talvez. 

O assaltante está no fundo do ônibus, de costas para mim e para o possível policial, pronto para receber o relógio do meu "amigo" Samuel em sua sacola . Num movimento ágil, o homem com jeito de policial (Torres ou Pereira) salta nas costas do assaltante, que cai sem largar a sacola, com o herói em cima dele. Este aponta a arma para a cabeça do assaltante e atira sem piedade. O sangue espirra em Samuel, que não move um músculo. Em estado de choque, ele ainda segura o relógio de ouro, como se fosse deposita – lo na sacola. O idiota está coberto de sangue do assaltante e com a boca aberta e os olhos esbugalhados. A loira tapa a boca com as mãos sem acreditar. Toda a cena durou exatamente 5 segundos.
O autor do tiro se levanta e mostra para todos seu distintivo. Eu sabia que ele era policial. 

- Todo mundo calmo, a situação já foi devidamente controlada.

Ele mede a pulsação do assaltante caído no chão.Pura firula. Todo mundo sabe que o cara está mortinho da silva. Ele vai até a sacola e tira um celular. Disca um número e chama a perícia. 15 minutos depois, a chuva parou e não tem ninguém dentro do ônibus, todos os passageiros, inclusive eu, estão do lado de fora prestando depoimento. Feito isso, recuperei meu walkman e os trocados. Só me resta seguir o resto do caminho a pé, já que o ônibus teve seu percurso interrompido. Felizmente não estou tão longe do meu destino. Devo chegar lá em 10, 15 minutos no máximo. Recoloco o fone no ouvido e começo a caminhar. 

Antes de ir, olho para trás e vejo Samuel ainda coberto de sangue e de boca aberta, enrolado num cobertor da polícia. Um oficial o conduz para uma ambulância. Ele pergunta alguma coisa a loira, que fuma um cigarro com toda a elegância de quem não está nem aí para tudo isso. Ela responde que não com a cabeça e o policial coloca Samuel dentro da ambulância, que parte em alta velocidade.

Eu não consigo conter um sorrisinho irônico. Mas é melhor apressar o passo. Estou atrasado.

Alexis Peixoto, 30/03/01